quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Evangelho: Marcos 3,20-21 - 24.01.2026

 Liturgia Diária


24 – SÁBADO 

SÃO FRANCISCO DE SALES


BISPO E DOUTOR DA IGREJA


(branco, pref. dos doutores – ofício da memória)


“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Escolhido para a plenitude do sacerdócio, ele recebeu não posses, mas um eixo interior. Sua vida revela que o sentido não nasce do acúmulo, mas da abertura ao que excede o tempo sucessivo. Ao ensinar a santidade como via possível a todos, mostrou que o espírito amadurece quando age por adesão íntima, não por coerção externa. Sua palavra escrita tocou consciências porque brotava de uma escuta profunda do eterno no instante. Assim, o agir humano se torna responsável, criador e fiel ao bem quando se orienta pelo amor que precede toda escolha, silenciosamente ordenando pensamento, vontade, tempo e presença interior.



Evangelium secundum Marcum 3,20-21

  1. Et venit ad domum et convenit iterum turba ita ut non possent neque panem manducare.
    E ele retorna ao espaço do cotidiano, onde a multiplicidade se comprime, e até o necessário parece suspenso, pois quando a presença é inteira, o instante absorve toda a atenção do ser.

  2. Et cum audissent sui, exierunt tenere eum dicebant enim quoniam in furorem versus est.
    Os que o cercavam segundo a carne julgam a partir da superfície, pois quem age desde um eixo invisível parece desajustado aos olhos presos à sucessão.

Verbum Domini

Reflexão:
A cena revela o conflito entre o ritmo interior e a pressa exterior.
Quando a ação nasce do centro, ela não negocia com a aparência.
O juízo apressado confunde inteireza com excesso.
A serenidade não depende de aprovação, mas de coerência interna.
Há um tempo que não corre, sustenta.
Nele, o agir é simples e pleno.
Quem permanece nesse eixo não se dispersa.
Mesmo incompreendido, permanece inteiro.


Versículo mais importante:

Et cum audissent sui, exierunt tenere eum dicebant enim quoniam in furorem versus est. (Mc 3,21)

E quando os que lhe eram próximos ouviram, saíram para detê-lo, pois julgavam que ele havia perdido o juízo; assim acontece quando a ação nasce do eixo eterno e rompe a lógica do tempo sucessivo, parecendo desordem aos que percebem apenas a superfície dos instantes. (Mc 3,21)


HOMILIA

Inteireza no Silêncio do Chamado

Quando o centro governa o agir, o mundo exterior perde o poder de definir o sentido.

O Evangelho nos conduz a uma cena de aparente desordem. A casa se enche, o alimento falta, e a presença de Cristo desloca os critérios comuns de equilíbrio. Quando a consciência se ancora no essencial, o fluxo ordinário das horas deixa de governar o agir. Surge então um modo de estar que não responde à pressão exterior, mas a uma medida mais alta, silenciosa e anterior a qualquer cálculo.

Os que observam de fora interpretam essa inteireza como excesso. O olhar preso à sucessão não reconhece o centro a partir do qual tudo se organiza. No entanto, é desse centro que nasce a verdadeira maturação interior. A pessoa cresce quando aprende a permanecer fiel ao que é verdadeiro, mesmo quando isso contraria expectativas próximas e afetos legítimos.

A família aparece aqui como o primeiro espaço de prova e de cuidado. Ela é chamada a proteger a origem sem aprisionar o chamado. Quando compreende que cada pessoa é portadora de uma vocação que a ultrapassa, a casa deixa de ser limite e torna-se berço. Assim, o vínculo se purifica e a dignidade floresce sem ruptura.

Nesse caminho, o agir humano se liberta da reação automática e assume forma consciente. O espírito não se dispersa no ruído, nem se endurece no julgamento. Ele aprende a habitar o instante como expressão do eterno, permitindo que o amor ordene o pensamento, o gesto e a permanência do ser.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

Apresentação do versículo
E quando os que lhe eram próximos ouviram, saíram para detê-lo, pois julgavam que ele havia perdido o juízo; assim acontece quando a ação nasce do eixo eterno e rompe a lógica do tempo sucessivo, parecendo desordem aos que percebem apenas a superfície dos instantes. Mc 3,21

O escândalo da inteireza
O juízo lançado sobre Cristo nasce do desencontro entre dois modos de perceber a realidade. Seus próximos observam a partir da continuidade exterior dos fatos, enquanto Ele age a partir de uma fonte anterior ao encadeamento das horas. Quando a pessoa se ancora nesse princípio mais alto, sua conduta não se submete à ansiedade da repetição nem à aprovação imediata, e por isso parece excessiva aos que medem tudo pela regularidade visível.

O eixo que sustenta o agir
A ação de Cristo não é fruto de impulso nem ruptura interior. Ela procede de uma escuta constante do que sustenta o ser. Esse alinhamento confere unidade ao pensamento e ao gesto, mesmo quando o corpo experimenta cansaço e pressão. O que parece perda de juízo é, na verdade, fidelidade plena a uma ordem que não nasce do mundo, mas o atravessa e o orienta silenciosamente.

A prova dos vínculos próximos
O Evangelho mostra que a primeira incompreensão surge entre os mais próximos. Isso revela que o amadurecimento espiritual não elimina os vínculos, mas os purifica. A família é chamada a reconhecer que o amor verdadeiro não consiste em conter o chamado, mas em respeitar sua origem. Quando isso ocorre, o cuidado deixa de ser controle e se torna participação reverente no desígnio que excede a vontade humana.

O juízo e a sabedoria interior
Julgar a partir da aparência é natural à mente não exercitada no silêncio. A sabedoria cresce quando o ser aprende a não reagir imediatamente ao que foge do esperado. Nesse espaço interior, o homem se torna senhor de si, não por domínio, mas por concordância com o bem. Assim, a vida assume forma estável, coerente e digna, mesmo em meio à incompreensão, porque permanece enraizada naquilo que não passa.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

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