Liturgia Diária
14 – QUARTA-FEIRA
1ª SEMANA DO TEMPO COMUM
(verde – ofício do dia)
“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais filosoficamente profundas para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Biblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam”
Vi o Ser entronizado além das alturas, onde a eternidade não sucede, mas permanece. Diante dele, inteligências luminosas reconhecem a Fonte e harmonizam suas vozes no mesmo sentido do existir. Aquele Enviado assume integralmente o desígnio recebido, não por imposição, mas por adesão do ser ao Bem. Seu agir atravessa a história sem se submeter a ela, curando, revelando, despertando. Cada gesto torna visível o invisível, convocando a consciência humana a alinhar vontade e amor ao Princípio. Assim, o agir divino não passa: funda presença, orienta escolhas e abre o horizonte do sentido, origem silenciosa de tudo que é real.
Evangelium secundum Marcum 1,29-39
Et statim egressi de synagoga, venerunt in domum Simonis et Andreae cum Iacobo et Ioanne.
E ao sair do espaço sagrado, o movimento conduz à intimidade, onde a presença se revela no cotidiano e no agora permanente.Decumbebat autem socrus Simonis febricitans, et statim dicunt ei de illa.
A fragilidade humana se apresenta sem mediações, como um chamado silencioso que atravessa o instante.Et accedens elevavit eam, apprehensa manu eius et continuo dimisit eam febris, et ministrabat eis.
O toque que ergue não pertence ao tempo sucessivo, mas ao ponto onde o ser é restaurado e reencontra sentido.Vespere autem facto cum occidisset sol, afferebant ad eum omnes male habentes et daemoniacos.
Quando a luz externa se recolhe, as sombras interiores se aproximam daquele que permanece.Et erat omnis civitas congregata ad ianuam.
A consciência coletiva se detém no limiar entre o conhecido e o mistério.Et curavit multos qui vexabantur variis languoribus, et daemonia multa eiciebat, et non sinebat loqui daemonia, quoniam sciebant eum.
O agir verdadeiro ordena o caos e silencia aquilo que pretende nomear o que não compreende.Et diluculo valde surgens egressus est et abiit in desertum locum, ibique orabat.
No recolhimento, o ser reencontra a Fonte onde o tempo não dispersa, mas concentra.Et persecutus est eum Simon et qui cum illo erant.
A busca humana segue aquilo que intui como essencial.Et cum invenissent eum, dixerunt ei Quia omnes quaerunt te.
A multiplicidade anseia por aquilo que sustenta o real.Et ait illis Eamus in proximos vicos et civitates ut et ibi praedicem ad hoc enim veni.
O movimento não nasce da pressão externa, mas da fidelidade ao princípio interior.Et erat praedicans in synagogis eorum et in omni Galilaea et daemonia eiciens.
A palavra atravessa espaços e dissolve o que aprisiona o espírito.
Verbum Domini
Reflexão:
O agir pleno nasce do alinhamento interior
O instante contém mais profundidade que a duração
Quem governa a si não é arrastado pelos ruídos
A escolha reta brota do reconhecimento do bem
O silêncio fortalece mais que a reação imediata
A ordem interior antecede qualquer movimento externo
O domínio verdadeiro não oprime nem se impõe
Assim o caminho se cumpre com firmeza e serenidade
Versículo mais importante:
Et diluculo valde surgens egressus est et abiit in desertum locum, ibique orabat.
No recolhimento, o ser reencontra a Fonte onde o tempo não dispersa, mas concentra. (Mc 1,35)
HOMILIA
O Silêncio que Sustenta o Agir
A ação que nasce do centro silencioso não se fragmenta ao tocar o mundo.
O Evangelho revela um movimento que nasce do centro e se expande sem se dispersar. Ao entrar na casa, o Cristo não apenas cruza um espaço físico, mas toca o núcleo onde a vida cotidiana se organiza. A casa é o lugar do vínculo primeiro, onde a pessoa é acolhida antes de ser nomeada, onde a família se constitui como matriz viva da existência. Ali, a cura acontece como restauração da ordem interior, não como espetáculo, mas como retorno ao eixo do ser.
O gesto de levantar pela mão não obedece à sucessão comum dos instantes. Ele manifesta uma presença que age desde um plano mais profundo, onde o agora não se esgota no que passa. A febre cede porque aquilo que fragmenta o humano não resiste quando o princípio que sustenta a vida se faz próximo. Curada, a mulher serve, não por imposição, mas porque o ser reintegrado naturalmente se orienta para o cuidado e a doação.
Ao cair da tarde, muitos se aproximam. As sombras não são apenas externas. São também os estados confusos da alma que buscam ordem. O Cristo acolhe, cura, silencia o que distorce a verdade. O que conhece apenas pela superfície não recebe voz, pois o essencial não se submete ao ruído. Há um discernimento que separa o que esclarece do que aprisiona.
Antes do amanhecer, o retiro. O deserto não é fuga, mas retorno. Ali, o agir encontra sua fonte. Quem não se recolhe perde o sentido do caminho. Quem se recolhe reencontra a medida justa entre ação e interioridade. Desse ponto silencioso nasce a decisão de seguir adiante, não por pressão da multidão, mas por fidelidade ao chamado que estrutura a própria existência.
A dignidade da pessoa se manifesta nessa coerência interior. Não é concedida de fora, nem depende do reconhecimento alheio. Ela se afirma quando o ser humano se mantém alinhado ao bem que o constitui. A família, como célula mater da vida, participa desse mistério, pois é no espaço doméstico que se aprende a presença, o cuidado e a continuidade do sentido.
O Cristo percorre aldeias, ensina, restaura, liberta do que oprime interiormente. Seu caminho mostra que o verdadeiro domínio não se impõe, mas ordena. Não rompe, mas integra. Não dispersa, mas conduz ao essencial. Assim, cada pessoa é chamada a viver a partir desse centro silencioso, onde o agir brota da fidelidade ao que é eterno e o tempo deixa de ser prisão para tornar-se plenitude habitada.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Apresentação inspirada em Mc 1,35
No recolhimento, o ser reencontra a Fonte onde o tempo não dispersa, mas concentra. (Mc 1,35)
O recolhimento como retorno à Origem
O gesto de retirar-se antes do amanhecer revela mais que disciplina espiritual. Ele manifesta uma orientação do ser em direção àquilo que o funda. O recolhimento não é ausência do mundo, mas reencontro do ponto a partir do qual o mundo pode ser habitado com verdade. Nesse movimento, a existência deixa de ser arrastada pela sucessão dos acontecimentos e passa a ser sustentada por um eixo interior estável.
O tempo reunido no agora pleno
Quando o Cristo se afasta para orar, não busca um intervalo entre tarefas, mas um lugar onde tudo se reúne. O tempo deixa de fragmentar a consciência, pois passado e futuro cessam de disputar atenção. O agora torna-se denso, pleno, capaz de conter sentido. É nesse ponto que a ação futura já nasce ordenada, não como reação, mas como desdobramento fiel.
A Fonte como princípio do agir
A oração no lugar ermo revela que o agir verdadeiro não começa na demanda externa, mas na escuta interior. A Fonte não é construída, é acolhida. Quem nela permanece não se perde na multiplicidade, pois cada decisão brota de uma unidade anterior. Assim, a missão se cumpre sem desgaste interior, porque não se afasta de sua origem.
Pessoa e dignidade enraizadas no silêncio
Esse recolhimento ilumina também a dignidade da pessoa. Ela não depende de reconhecimento nem de utilidade, mas da permanência no bem que a sustenta. A família, como espaço primeiro de acolhimento e formação, participa dessa mesma lógica, pois é no silêncio do cuidado cotidiano que o ser aprende a permanecer inteiro diante do mundo.
Continuidade entre oração e caminho
Ao deixar o lugar ermo, o Cristo não abandona o que encontrou. Ele leva consigo essa concentração interior para cada encontro e cada palavra. O caminho torna-se extensão do recolhimento. Assim, a existência humana é chamada a viver sem ruptura entre interioridade e ação, permitindo que o tempo, longe de aprisionar, seja habitado como expressão fiel do eterno.
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