Liturgia Diária
9 – SEXTA-FEIRA
SEMANA DA EPIFANIA
(branco, pref. da Epifania ou do Natal – ofício do dia)
“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais filosoficamente profundas para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Biblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam”
Salmo 111(112),4 — Biblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam
Exortum est in tenebris lumen rectis:
misericors, et misericors, et iustus Dominus.
No seio da obscuridade,
Salmo 111(112),4
irrompe a Luz para aqueles cuja interioridade foi endireitada na verdade.
Essa Luz não é criada pelo mundo,
mas emana do próprio Senhor,
cuja essência é compaixão que sustenta,
misericórdia que restaura
e justiça que harmoniza o ser com a Ordem eterna.
Os gestos salvíficos de Jesus permanecem atuantes como princípio ontológico, atravessando o tempo e reconfigurando a interioridade humana. Nos sacramentos, essa ação não recorda apenas um passado, mas atualiza o sentido do ser diante do Mistério. A Eucaristia manifesta a adesão consciente ao Logos encarnado, onde a vontade se orienta pela verdade e o espírito assume responsabilidade diante do bem. Celebrar é consentir com uma forma elevada de existência, na qual a fidelidade aos ensinamentos de Cristo ordena escolhas, purifica intenções e conduz a pessoa à plenitude do seu próprio destino último que integra consciência, transcendência, unidade, sentido, verdade plena.
Evangelium secundum Lucam 5,12-16
12 Et factum est cum esset in una civitatum et ecce vir plenus lepra et videns Iesum procidit in faciem et rogavit eum dicens Domine si vis potes me mundare
Quando a plenitude da ruptura humana encontra a Presença, o ser reconhece sua própria insuficiência e se inclina diante da vontade que pode restaurar a integridade interior.
13 Et extendens Iesus manum tetigit illum dicens Volo mundare et confestim lepra discessit ab illo
A decisão que brota do centro do Logos toca o que estava separado e reintegra o homem à unidade do existir.
14 Et ipse praecepit illi ut nemini diceret sed vade ostende te sacerdoti et offer pro emundatione tua sicut praecepit Moyses in testimonium illis
O restabelecimento verdadeiro não busca exibição, mas confirmação silenciosa na ordem que sustenta o real.
15 Perambulabat autem magis sermo de illo et conveniebant turbae multae ut audirent et curarentur ab infirmitatibus suis
A força do ato autêntico irradia sem intenção e desperta no outro o desejo de recomposição interior.
16 Ipse autem secedebat in desertum et orabat
Aquele que age a partir do centro retorna ao silêncio para permanecer alinhado à fonte.
Verbum Domini
Reflexão:
O encontro com o princípio que cura exige reconhecimento da própria condição.
A retidão interior nasce quando a vontade se ajusta ao que é verdadeiro.
A ação justa não se dispersa na aparência, conserva-se no essencial.
O recolhimento preserva a clareza das decisões.
O silêncio sustenta a coerência do agir.
A escolha reta não depende da aprovação externa.
A ordem interior precede qualquer movimento visível.
Assim o ser permanece inteiro diante do tempo e do destino.
Versículo maiss importante:
Et extendens Iesus manum tetigit illum dicens Volo mundare et confestim lepra discessit ab illo
A decisão que brota do centro do Logos toca o que estava separado e reintegra o homem à unidade do existir. (Lc 5,13)
HOMILIA
Título
A Vontade que Restaura o Ser
A dignidade amadurece onde a vida é acolhida, cuidada e orientada desde sua fonte primeira.
O Evangelho apresenta um homem marcado pela ruptura interior e exterior. A lepra revela mais que uma condição do corpo, manifesta a experiência do afastamento do centro do próprio ser. Ao aproximar-se de Cristo, esse homem não reivindica, não exige, apenas se abre à possibilidade de ser reordenado pela Vontade maior. Nesse gesto de inclinação, a pessoa reconhece que a plenitude não nasce da força própria, mas do consentimento interior à Verdade.
Cristo toca. O toque não é apenas físico, é ontológico. Ele atravessa o limite imposto pelo medo e restabelece a unidade perdida. A cura acontece porque a vontade humana se encontra com a Vontade que conhece a origem e o fim de todas as coisas. Assim se inicia a verdadeira evolução interior, quando o ser deixa de resistir e passa a cooperar com aquilo que o transcende.
O silêncio pedido após a cura revela que a transformação autêntica não busca exibição. O caminho do amadurecimento espiritual preserva a interioridade e respeita a ordem que sustenta a vida. A pessoa restaurada aprende a agir com medida, responsabilidade e consciência.
A família surge nesse horizonte como célula mater do ser, espaço onde a dignidade é aprendida, cuidada e transmitida. É ali que a pessoa aprende a orientar a vontade, a reconhecer limites e a crescer em retidão. Quando o coração é ordenado, as relações também o são.
Cristo retira-se para o deserto. Ele ensina que toda ação verdadeira nasce do recolhimento. Somente quem retorna ao silêncio permanece íntegro diante do tempo, das escolhas e do destino último da própria existência.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Apresentação do versículo
A decisão que brota do centro do Logos toca o que estava separado e reintegra o homem à unidade do existir. Lc 5,13
O centro do Logos
No Evangelho, a palavra pronunciada por Cristo não nasce de um impulso momentâneo, mas do centro do Logos, onde vontade e verdade coincidem. Quando Ele diz quero sê purificado, manifesta uma decisão que não oscila nem reage às circunstâncias. Trata-se de uma vontade plenamente ajustada ao princípio do ser, capaz de agir sem conflito interno. Esse centro é o lugar onde tudo encontra medida, sentido e finalidade.
O toque que atravessa a separação
O gesto de tocar o leproso não é apenas físico. Ele atravessa a fratura que isolava o homem de si mesmo, dos outros e da ordem da criação. A separação não é negada, mas superada por uma presença que não teme o contato com a fragilidade. O toque restabelece continuidade onde havia ruptura, mostrando que a integridade não se impõe pela distância, mas pela comunhão com a verdade do ser.
A reintegração da unidade
A purificação não devolve apenas a saúde do corpo, mas reconduz o homem à unidade do existir. Ele volta a habitar a própria vida com inteireza. A unidade aqui não significa uniformidade, mas harmonia entre interioridade, ação e destino. Quando o ser é reintegrado, ele passa a agir com coerência, reconhecendo seu lugar na ordem que o sustenta.
A decisão divina como fundamento da dignidade
A decisão de Cristo revela que a dignidade humana não depende de condições externas, mas do olhar que a reconhece desde a origem. Ao reintegrar o homem, o Logos confirma que toda pessoa é chamada a viver em plenitude, orientada por uma vontade que busca o bem, preserva a ordem e conduz o existir ao seu cumprimento último.
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