“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Acclamatio ad Evangelium
Mt 5,3
R. Alleluia, alleluia, alleluia.
V. Beati pauperes spiritu,
quia ipsorum est regnum caelorum.
Aclamação ao Evangelho
R. Aleluia, aleluia, aleluia.
V. Felizes os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
Reflexão
A pobreza de espírito não é ausência, mas despojamento interior. O ser deixa de se apoiar naquilo que possui e se torna disponível à presença que o transcende. O Reino dos Céus começa a manifestar-se quando o coração, desocupado de si mesmo, acolhe aquilo que não pode produzir por suas próprias forças.
A perfeição nasce quando o ser abandona o apego ao possuir e se orienta para o eterno, onde encontra seu verdadeiro tesouro interior da existência.
Proclamatio Evangelii Iesu Christi secundum Matthaeum, XIX, 16–22
XVI. Et ecce unus accedens, ait illi
Magister bone, quid boni faciam ut habeam vitam aeternam?
16. E eis que alguém se aproxima e pergunta ao Senhor o que deve realizar para alcançar a vida eterna, procurando na própria existência o caminho que conduz à plenitude.
XVII. Qui dixit ei
Quid me interrogas de bono? Unus est bonus, Deus. Si autem vis ad vitam ingredi, serva mandata.
17. Jesus lhe responde que o Bem possui sua fonte única em Deus. Entrar na vida exige ordenar o ser segundo aquilo que permanece e guardar interiormente os mandamentos.
XVIII. Dicit illi
Quae? Jesus autem dixit
Non homicidium facies; non adulterabis; non facies furtum; non falsum testimonium dices;
18. O jovem pergunta quais são os mandamentos, e Jesus recorda os fundamentos que preservam a integridade do ser, afastando-o daquilo que rompe sua ordem interior.
XIX. Honora patrem tuum, et matrem tuam, et diliges proximum tuum sicut teipsum.
19. Honra teu pai e tua mãe, e ama o próximo como a ti mesmo. O ser encontra sua justa medida quando reconhece no outro uma realidade que não lhe é exterior.
XX. Dicit illi adolescens
Omnia haec custodivi a juventute mea: quid adhuc mihi deest?
20. O jovem reconhece ter guardado tudo isso desde a juventude e percebe, porém, que ainda permanece diante de si uma falta mais profunda, como uma pergunta que nenhuma realização exterior consegue encerrar.
XXI. Ait illi Jesus
Si vis perfectus esse, vade, vende quae habes, et da pauperibus, et habebis thesaurum in caelo: et veni, sequere me.
21. Jesus lhe mostra que a plenitude exige ultrapassar o apego ao que possui, para que o ser se desocupe do transitório e se volte inteiramente para o tesouro que permanece.
XXII. Cum audisset autem adolescens verbum, abiit tristis: erat enim habens multas possessiones.
22. Ao ouvir essa palavra, o jovem afasta-se entristecido, porque seus muitos bens haviam ocupado um espaço interior maior que aquele reservado ao chamado da eternidade.
Verbum Domini
Reflexão:
O ser se realiza quando reconhece aquilo que verdadeiramente possui valor eterno.
Nenhuma posse exterior pode preencher a medida mais profunda da existência.
A alma amadurece quando distingue o necessário do que apenas a retém.
O instante presente pode tornar-se lugar de decisão interior.
Cada escolha revela aquilo que o coração realmente considera seu tesouro.
A serenidade nasce quando o ser não depende do que pode perder.
Seguir o Bem exige domínio sobre aquilo que pretende dominar o próprio ser.
Então o tempo deixa de dispersar a existência e começa a conduzi-la ao eterno.
Versículo mais importante:
XXI. Ait illi Jesus
Si vis perfectus esse, vade, vende quae habes, et da pauperibus, et habebis thesaurum in caelo, et veni, sequere me. (Matthaeus XIX, 21)
21. Jesus lhe disse
Se queres alcançar a perfeição, vai, vende o que possuis, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me, deixando que tua existência se oriente inteiramente para aquilo que permanece. (Mateus 19,21)
HOMILIA
O tesouro que permanece
Quando o ser se despoja daquilo que o prende ao transitório, o instante deixa de ser mera passagem e se abre à presença do eterno.
O Evangelho apresenta um homem que se aproxima de Jesus trazendo uma pergunta que atravessa toda existência humana. Ele deseja saber o que deve fazer para alcançar a vida eterna. Não procura apenas uma regra, nem uma resposta exterior. No fundo, procura compreender para onde deve orientar o próprio ser.
Jesus conduz sua pergunta para além da simples realização de deveres. O homem já observa os mandamentos e, ainda assim, percebe que existe nele uma ausência. Há uma distância entre cumprir aquilo que é devido e entregar inteiramente a existência à verdade que a chama.
É precisamente nesse ponto que a palavra de Cristo adquire uma profundidade extraordinária. Ele não acrescenta simplesmente uma exigência a muitas outras. Ele toca o centro da pessoa. Pede que o homem examine aquilo que ocupa o lugar mais profundo de seu coração.
Os bens que ele possui não são apresentados como mal em si mesmos. O problema está naquilo que pode acontecer quando aquilo que possuímos começa a possuir interiormente o nosso ser. O exterior pode tornar-se senhor do interior. Aquilo que deveria permanecer nas mãos pode acabar ocupando o coração.
Por isso, a palavra de Jesus é um chamado ao despojamento interior. Trata-se de recuperar a capacidade de permanecer diante do essencial sem permitir que o transitório determine a direção da existência. O ser humano somente pode avançar quando reconhece que sua realização não está na acumulação daquilo que passa, mas na ordenação profunda de sua própria existência.
Há aqui uma passagem decisiva. O homem pergunta o que deve fazer. Jesus conduz sua pergunta para aquilo que ele deve tornar-se. A vida espiritual não consiste apenas em acrescentar ações corretas, mas em permitir que a própria interioridade seja progressivamente ordenada pela verdade.
A pessoa possui uma dignidade que não deriva daquilo que possui, produz ou demonstra. Existe nela uma profundidade que nenhuma realidade exterior consegue medir. É nessa interioridade que se encontra a possibilidade de uma resposta verdadeiramente pessoal ao chamado de Deus.
Também a família encontra aqui uma luz silenciosa. O ser humano não amadurece isoladamente, como se sua existência pudesse ser compreendida apenas por aquilo que possui. Ele recebe sua primeira experiência de pertencimento, responsabilidade e entrega no espaço concreto das relações que constituem sua história. A maturidade interior não destrói esses vínculos. Purifica o modo de habitá-los.
Jesus, porém, não termina dizendo apenas para abandonar. Ele diz para seguir. O despojamento cristão não é vazio sem direção. É abertura para uma presença. O que é deixado para trás perde sua condição de absoluto porque algo maior foi reconhecido.
Por isso, a tristeza daquele homem é tão significativa. Ele encontra diante de si a possibilidade de uma existência mais profunda, mas ainda não consegue atravessar a distância entre aquilo que possui e aquilo que é chamado a ser. Seu coração permanece dividido entre a segurança do que pode conservar e a plenitude que somente pode receber mediante uma entrega interior.
Cada ser humano conhece, em alguma medida, essa mesma distância. Há momentos em que sabemos qual direção se abre diante de nós, mas hesitamos porque determinada realidade adquiriu em nosso interior uma importância maior do que deveria possuir.
O Evangelho não condena a existência terrena. Ele recoloca cada coisa em seu devido lugar. O que é temporal deve permanecer temporal. O que é eterno deve ocupar o centro. Quando essa ordem se restabelece, o presente deixa de ser apenas sucessão de instantes e torna-se ocasião de encontro com aquilo que permanece.
A palavra de Cristo, portanto, não nos conduz para fora da existência. Ela nos conduz para sua profundidade. O verdadeiro despojamento acontece quando o ser deixa de medir sua plenitude pelo que consegue conservar e começa a reconhecê-la naquilo que pode entregar.
Seguir Jesus é permitir que a existência inteira encontre sua direção. É passar da posse à entrega, da dispersão à unidade, da superfície à profundidade. É descobrir que a verdadeira riqueza não está em acumular o tempo, mas em deixar que cada instante seja atravessado por uma presença que não passa.
O jovem afastou-se triste porque ainda não conseguia realizar essa passagem. O Evangelho permanece diante de nós como uma pergunta silenciosa. O que, em nosso interior, ainda ocupa o lugar que pertence somente ao essencial?
Quando essa pergunta é acolhida com sinceridade, começa uma transformação que não depende de circunstâncias exteriores. O ser aprende a reconhecer sua própria profundidade e percebe que a existência não alcança sua plenitude quando retém tudo, mas quando encontra aquilo pelo qual vale a pena entregar-se inteiramente.
TEOLOGIA
A perfeição como orientação integral do ser
Jesus lhe disse
Se queres alcançar a perfeição, vai, vende o que possuis, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me, deixando que tua existência se oriente inteiramente para aquilo que permanece. (Mateus 19,21)
A palavra dirigida ao coração
A resposta de Jesus ultrapassa uma simples exigência exterior. O jovem havia perguntado o que deveria fazer para alcançar a vida eterna, mas Cristo conduz a pergunta para uma dimensão mais profunda. Não se trata somente de acrescentar uma prática àquilo que já era realizado. Trata-se de permitir que toda a existência encontre seu verdadeiro centro.
A perfeição apresentada por Cristo não significa uma condição de impecabilidade alcançada apenas pelo esforço humano. Ela corresponde à integração progressiva da pessoa diante de Deus. O coração deixa de permanecer dividido entre aquilo que passa e aquilo que permanece, entre a segurança encontrada nas coisas e a confiança depositada no próprio Deus.
O sentido do despojamento
Quando Jesus diz para vender o que possui, sua palavra atinge a relação interior do homem com seus bens. As posses não constituem, por si mesmas, o núcleo do problema. O perigo surge quando aquilo que deveria ser apenas um meio começa a ocupar o lugar de um fim absoluto.
O despojamento pedido por Cristo possui, portanto, uma dimensão espiritual. O homem é chamado a descobrir que nenhuma realidade criada pode ocupar o lugar reservado ao Criador. A renúncia exterior somente encontra seu sentido pleno quando corresponde a uma transformação interior.
Nesse sentido, perder determinadas seguranças pode significar recuperar a verdade sobre si mesmo. Quando o coração deixa de depender daquilo que pode possuir, conservar ou perder, torna-se mais capaz de reconhecer aquilo que não pode ser reduzido à posse.
O tesouro no céu
A expressão tesouro no céu revela uma mudança radical na compreensão da riqueza. Jesus não desloca simplesmente a riqueza de um lugar para outro. Ele revela uma ordem diferente de realidade. O que é depositado em Deus não participa da mesma condição das coisas que o tempo pode consumir.
O tesouro celeste simboliza aquilo que permanece diante da passagem de todas as coisas. A existência humana encontra sua plenitude quando suas escolhas deixam de ser determinadas exclusivamente pelaquilo que é transitório e passam a ser orientadas pela realidade eterna.
Assim, o céu não aparece apenas como uma recompensa futura. Ele começa a iluminar o presente. A eternidade pode penetrar o instante quando a pessoa ordena sua existência segundo aquilo que possui valor permanente diante de Deus.
O chamado para seguir Cristo
Depois de pedir o despojamento, Jesus pronuncia uma palavra decisiva, segue-me. Essa expressão mostra que o cristianismo não consiste simplesmente em abandonar coisas. O abandono possui uma finalidade. Ele prepara o coração para uma adesão pessoal àquele que chama.
Seguir Cristo significa permitir que Ele se torne o princípio orientador da existência. Não basta afastar aquilo que ocupa indevidamente o centro. É necessário reconhecer quem deve ocupar esse centro.
Por isso, a perfeição cristã não é um vazio produzido pela renúncia. É uma plenitude recebida mediante uma relação viva com Cristo. O homem deixa determinadas seguranças porque encontra uma segurança mais profunda na própria presença daquele que o chama.
A passagem do instante para a eternidade
O episódio revela também uma verdade profunda sobre a existência humana. Cada instante pode permanecer fechado sobre si mesmo ou pode abrir-se para uma realidade que o transcende. O presente não precisa ser apenas uma passagem entre aquilo que já aconteceu e aquilo que ainda acontecerá.
Quando uma decisão é tomada diante de Deus, o instante adquire uma profundidade que não pode ser medida apenas pela sucessão cronológica. Uma escolha realizada no presente pode possuir alcance eterno porque nela a pessoa orienta o próprio ser para aquilo que não passa.
É nessa perspectiva que a palavra de Cristo sobre o tesouro no céu adquire sua força. O eterno não é simplesmente aquilo que vem depois do tempo. Ele pode iluminar o tempo presente e conferir às decisões humanas uma profundidade que ultrapassa sua aparência imediata.
A tristeza do jovem
A reação do jovem é uma das partes mais profundas do episódio. Ele compreende a exigência de Jesus, mas não consegue realizar a passagem interior que lhe é proposta. Sua tristeza manifesta a distância entre reconhecer uma verdade e permitir que essa verdade transforme inteiramente a existência.
Existe uma forma de conhecimento que permanece exterior. A pessoa pode compreender intelectualmente aquilo que deve fazer e, ainda assim, permanecer presa àquilo que não consegue abandonar interiormente.
O jovem encontra diante de si uma possibilidade de plenitude, mas seus muitos bens constituem uma espécie de gravidade interior. Ele não é apresentado como alguém sem conhecimento do bem. Sua dificuldade está em entregar aquilo que ocupava o centro de sua segurança.
A dignidade da pessoa diante de Deus
A palavra de Cristo também revela a grandeza da pessoa humana. Jesus não trata aquele homem como alguém destinado simplesmente a obedecer mecanicamente. Ele o chama para uma decisão que envolve sua consciência, sua interioridade e toda a orientação de sua existência.
A dignidade humana manifesta-se precisamente nessa capacidade de responder pessoalmente ao chamado de Deus. A pessoa não é reduzida às suas posses, às suas realizações ou às suas circunstâncias. Existe nela uma profundidade espiritual que somente encontra sua verdadeira medida quando se abre ao Absoluto.
A resposta de Cristo pressupõe, portanto, uma pessoa capaz de discernir, escolher e assumir interiormente o caminho que lhe é apresentado.
A perfeição como plenitude
A perfeição cristã não consiste em possuir mais, conhecer mais ou realizar exteriormente mais coisas. Ela consiste em ordenar o ser segundo seu verdadeiro fim. Quanto mais a pessoa reconhece Deus como centro, mais as demais realidades encontram seu lugar adequado.
O Evangelho não apresenta a perfeição como uma conquista da autossuficiência. Pelo contrário, revela uma existência que se torna plena justamente quando deixa de fazer de si mesma sua medida última.
O jovem procurava saber o que ainda lhe faltava. Jesus mostra que a falta não estava simplesmente em alguma ação que ainda não havia realizado. Havia uma realidade mais profunda que precisava ser entregue. O que faltava era a passagem da observância para a entrega, da posse para a confiança e da segurança nas coisas para a adesão à pessoa de Cristo.
O sentido último do Evangelho
A palavra de Mateus 19,21 permanece como um chamado à unidade interior. Cristo não pede apenas que o homem faça algo diferente. Ele pede que se torne diferente na raiz de sua existência.
Vender o que possui, entregar e seguir não constituem três ações isoladas. Formam um único movimento espiritual. O coração se desocupa daquilo que pretende possuir como absoluto, reconhece o verdadeiro tesouro e então encontra em Cristo a direção de sua existência.
A grande pergunta do Evangelho deixa de ser apenas quanto possuímos ou quanto somos capazes de renunciar. Ela passa a ser outra. Aquilo que possuímos está ordenado ao nosso verdadeiro fim ou já começou a ocupar em nós o lugar que pertence somente a Deus?
Quando essa pergunta alcança o centro da pessoa, o instante presente deixa de ser mera sucessão e torna-se ocasião de transformação. A existência começa então a ser orientada por aquilo que permanece, e a pessoa descobre que sua verdadeira riqueza não está naquilo que consegue conservar, mas naquele a quem pode entregar inteiramente o próprio ser.
FILOSOFIA
A origem invisível da plenitude
A palavra de Cristo conduz a existência para uma região mais profunda do ser, onde aquilo que aparece exteriormente começa a revelar sua origem invisível. O jovem pergunta pelo que deve fazer, mas Jesus conduz sua consciência para aquilo que deve nascer dentro dele. A questão deixa de ser apenas comportamental e torna-se ontológica.
Existe na pessoa uma profundidade anterior às suas posses, às suas escolhas e até mesmo às formas pelas quais ela se reconhece. É nessa profundidade que a existência recebe sua orientação fundamental. Antes de qualquer realização exterior, há um princípio interior que acolhe, ordena e faz amadurecer aquilo que ainda não alcançou sua forma plena.
O espaço interior onde o ser amadurece
A imagem do nascimento ajuda a compreender essa realidade. Toda existência que verdadeiramente se transforma necessita de um espaço oculto de gestação. O que está destinado a surgir primeiro permanece invisível. Não aparece imediatamente em sua forma acabada, mas atravessa um processo silencioso no qual sua realidade vai sendo constituída.
Assim também acontece com a transformação espiritual. A palavra de Cristo penetra a interioridade como uma semente que não produz imediatamente sua manifestação definitiva. Ela permanece, trabalha silenciosamente e reorganiza o centro da pessoa. Aquilo que antes parecia indispensável pode começar a perder sua centralidade, enquanto aquilo que permanecia oculto começa lentamente a adquirir forma.
A existência, nesse sentido, não é somente aquilo que já apareceu. Ela contém possibilidades que ainda não chegaram à manifestação. Há dentro do ser uma dimensão receptiva capaz de acolher uma realidade superior e permitir que ela amadureça até tornar-se presença concreta.
A renúncia como abertura
Por isso, a exigência de Cristo não deve ser compreendida apenas como perda. O desprendimento possui uma dimensão geradora. Quando algo deixa de ocupar o centro absoluto da consciência, abre-se um espaço para que outra realidade possa nascer.
O jovem possuía muitas coisas, mas talvez suas posses ocupassem justamente o espaço interior necessário para acolher uma existência mais profunda. Cristo não lhe apresenta simplesmente um vazio. Ele abre diante dele a possibilidade de uma nova configuração do ser.
A renúncia, quando compreendida espiritualmente, não destrói a pessoa. Ela remove aquilo que impede o amadurecimento daquilo que ainda precisa nascer. O despojamento torna-se, então, uma condição de fecundidade interior.
O tesouro que não pertence à passagem
O tesouro no céu introduz outra dimensão. Há realidades que envelhecem, desaparecem e deixam de existir sob a ação da passagem. Há, porém, uma realidade que não recebe sua consistência daquilo que passa.
O verdadeiro tesouro é aquilo que consegue atravessar a mudança sem perder sua identidade. Ele não depende da acumulação, porque sua natureza não é possuir algo exterior, mas participar de uma realidade que permanece.
Quando Cristo orienta o homem para esse tesouro, Ele desloca o centro da existência. O ser deixa de procurar sua consistência naquilo que pode ser perdido e começa a recebê-la de uma realidade que não está submetida à mesma sucessão das coisas passageiras.
A profundidade escondida no instante
O presente possui uma profundidade que normalmente permanece ocultada pela sucessão dos acontecimentos. Um instante parece pequeno porque passa. Entretanto, uma decisão tomada nele pode transformar a direção inteira de uma existência.
É justamente aí que o ensinamento de Cristo alcança uma dimensão extraordinária. O momento presente não é apenas uma fração entre passado e futuro. Ele pode tornar-se o lugar em que o ser inteiro se orienta para sua origem e para seu destino.
Quando uma pessoa acolhe interiormente uma verdade eterna, algo que pertence ao permanente começa a habitar sua experiência temporal. O instante torna-se mais profundo do que sua duração. Sua importância já não depende de quanto tempo permanece, mas daquilo que nele foi acolhido.
O nascimento de uma forma nova
A palavra de Cristo pode, portanto, ser compreendida como um chamado para que uma forma mais elevada de existência venha à luz. O homem que se aproxima de Jesus já possui uma determinada configuração interior. Conhece os mandamentos, possui bens, possui uma história e possui uma determinada compreensão de si mesmo.
Mas ainda não nasceu nele aquilo que Cristo deseja revelar.
O chamado introduz uma possibilidade nova. Para que essa possibilidade alcance sua forma, é necessário que o centro antigo seja deslocado. O ser precisa deixar de gravitar em torno daquilo que possui para começar a gravitar em torno daquele que o chama.
Nesse movimento ocorre uma espécie de nascimento interior. A pessoa não deixa de ser quem é. Torna-se mais profundamente aquilo que estava destinada a ser.
A palavra como princípio de gestação
A palavra de Cristo possui uma força que não se limita à informação. Ela atua sobre o ser de quem a recebe. Quando acolhida verdadeiramente, não permanece exterior à consciência. Penetra, questiona, desorganiza antigas centralidades e estabelece uma nova ordem.
Por isso, a palavra divina possui uma característica semelhante àquilo que acontece em toda gestação. Primeiro existe uma realidade ainda invisível. Depois, essa realidade começa a organizar silenciosamente aquilo que a circunda. Finalmente, aquilo que estava oculto alcança uma manifestação perceptível.
O Evangelho apresenta justamente esse movimento. O chamado é pronunciado no exterior, mas sua verdadeira realização deve acontecer no interior.
A tristeza como sinal de uma passagem interrompida
A tristeza do jovem possui também uma dimensão ontológica. Ele encontra a possibilidade de uma nova existência, mas não consegue atravessar o limiar que separa aquilo que já possui daquilo que poderia tornar-se.
Sua tristeza nasce do encontro entre duas realidades. De um lado, está aquilo que lhe oferece segurança. De outro, aquilo que lhe oferece plenitude. Ele percebe a diferença, mas ainda não consegue realizar a passagem.
Esse momento revela que toda transformação profunda exige uma decisão no interior do ser. Nenhuma realidade nova pode nascer plenamente quando a pessoa permanece inteiramente fechada àquilo que precisa ser deixado para trás.
A existência como gestação do eterno
A vida humana pode ser compreendida como um processo no qual o visível recebe continuamente aquilo que vem do invisível. Pensamentos tornam-se decisões. Decisões tornam-se atos. Atos repetidos configuram hábitos. Hábitos formam uma maneira de existir.
Mas, antes de tudo isso, existe uma origem mais profunda. Existe um centro interior no qual a direção da existência é escolhida.
Quando esse centro se orienta para aquilo que permanece, a própria sucessão dos acontecimentos adquire outro significado. O tempo deixa de ser somente aquilo que consome e passa a tornar-se também aquilo que amadurece.
O que é eterno não precisa destruir o temporal para manifestar-se. Pode penetrá-lo silenciosamente, transformando-o desde dentro.
O chamado e a forma definitiva do ser
Por isso, o último verbo de Cristo é decisivo. Segue-me. Depois da renúncia vem o movimento. Depois do despojamento vem a configuração de uma nova existência.
Cristo não chama o homem simplesmente para deixar alguma coisa. Chama-o para entrar em uma realidade nova. A renúncia é apenas a abertura do espaço interior onde essa nova forma pode nascer.
A verdadeira transformação acontece quando aquilo que estava apenas como possibilidade começa a adquirir forma concreta na existência. O ser passa a manifestar exteriormente aquilo que foi concebido interiormente.
Nesse sentido, a palavra de Cristo permanece como um princípio de gestação espiritual. Ela chama o invisível a tornar-se visível, o potencial a tornar-se realidade e o instante a acolher uma dimensão que o ultrapassa.
A plenitude que nasce no oculto
O Evangelho revela, finalmente, que a plenitude não surge necessariamente onde existe maior abundância exterior. Ela pode começar justamente quando o ser descobre dentro de si um espaço ainda não preenchido.
É nesse espaço que o chamado pode ser acolhido. É nele que a palavra pode amadurecer. É nele que uma nova forma de existência pode começar a ser concebida.
O homem que realmente encontra Cristo não recebe apenas uma resposta para aquilo que perguntou. Recebe uma possibilidade nova de ser.
E talvez seja essa a profundidade última da palavra dirigida ao jovem. O tesouro não está simplesmente em algum lugar para onde o homem deverá ir. O tesouro começa a transformar aquele que se torna capaz de recebê-lo. A eternidade começa a formar-se na interioridade antes de manifestar plenamente sua presença.
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