domingo, 20 de setembro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Liturgia Diária - Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 9,9-13 - 21.09.2026

Segunda-feira, 21 de Setembro de 2026
São Mateus, Apóstolo e Evangelista, Festa, Ano A
25ª Semana do Tempo Comum


“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Aclamatión ad Evangelium

R. Allelúia, allelúia, allelúia.
V. Te, Deum, laudámus; te, Dóminum, confitémur;
  te, chorus Apostolórum laudat, Dómine.

Aclamação ao Evangelho

R. Aleluia, aleluia, aleluia.
V. A vós, ó Deus, louvamos; a vós, Senhor, confessamos;
  a vós louva, Senhor, o coro dos Apóstolos.


Ao ouvir o chamado de Cristo, o coração abandona o que o prende e entra inteiro na presença que o conduz à plenitude do ser.



Proclamatio Sancti Evangelii secundum Matthaeum, IX, IX-XIII

IX

Et, cum transiret inde Jesus, vidit hominem sedentem in telonio, Matthæum nomine. Et ait illi: Sequere me. Et surgens, secutus est eum.

  1. E, ao passar dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria. Disse-lhe, então, segue-me. Ele se levantou e seguiu-o.

X

Et factum est, discumbente eo in domo, ecce multi publicani et peccatores venientes, discumbebant cum Jesu, et discipulis ejus.

  1. E aconteceu que, estando Jesus à mesa em casa, muitos publicanos e pecadores vieram e se sentaram com Ele e com seus discípulos.

XI

Et videntes pharisæi, dicebant discipulis ejus: Quare cum publicanis et peccatoribus manducat magister vester?

  1. Ao verem isso, os fariseus perguntaram aos discípulos de Jesus por que o Mestre deles se sentava à mesa com publicanos e pecadores.

XII

At Jesus audiens, ait: Non est opus valentibus medicus, sed male habentibus.

  1. Jesus, ouvindo-os, respondeu que não são os que se consideram sãos que necessitam do médico, mas aqueles que reconhecem em si a enfermidade.

XIII

Euntes autem discite quid est: Misericordiam volo, et non sacrificium. Non enim veni vocare justos, sed peccatores.

  1. Ide, pois, e compreendei o que significa a palavra misericórdia, e não sacrifício. Eu não vim chamar os que se consideram justos, mas aqueles que reconhecem a necessidade de retornar à verdade.

Verbum Domini

Reflexão:

O chamado de Cristo alcança o ser precisamente onde ele se encontra.
Nada precisa ser abandonado antes que a presença seja reconhecida.
Quando a voz do Eterno ressoa, o instante deixa de ser passagem e torna-se encontro.
Mateus se levanta porque percebe, no interior, uma direção que não pode mais ignorar.
O verdadeiro movimento começa quando o coração acolhe aquilo que lhe revela sua origem.
A presença divina não exige aparência de plenitude, mas abertura diante da verdade.
Quem reconhece sua própria necessidade encontra o caminho pelo qual pode ser restaurado.
Assim, seguir Cristo é permanecer inteiro diante daquele que chama e conduz à plenitude.


Versículo mais importante:

Proclamatio Sancti Evangelii secundum Matthaeum [IX, IX-XIII]

XIII. Euntes autem discite quid est: Misericordiam volo, et non sacrificium. Non enim veni vocare justos, sed peccatores. (Matthaeus, IX, 13)

  1. Ide, pois, e aprendei o que significa a misericórdia. Eu quero misericórdia, e não sacrifício. Pois não vim chamar os justos, mas os pecadores. (Mateus, 9, 13) 


HOMILIA

Quando Cristo chama, o ser encontra sua origem

A presença de Cristo alcança o interior da pessoa e transforma o instante do chamado em princípio de uma existência amadurecida na verdade e orientada para a plenitude.

  O Evangelho apresenta Mateus sentado na coletoria, ocupado com aquilo que constituía sua existência naquele momento. Jesus passa, vê-o e pronuncia uma palavra breve que alcança uma profundidade que nenhum olhar exterior poderia alcançar. O chamado não se dirige apenas àquilo que Mateus fazia, mas àquilo que ele podia tornar-se diante de Deus. Há, nesse encontro, uma revelação essencial sobre a pessoa humana. O ser não se esgota na condição em que se encontra, porque existe no interior uma profundidade que pode ser despertada pela presença daquele que conhece sua origem e seu destino.

  Mateus levanta-se e segue Jesus. Esse movimento exterior manifesta uma transformação que já começou no interior. A mudança verdadeira não nasce simplesmente da substituição de uma atividade por outra, mas do reconhecimento de uma presença que reorganiza o sentido da existência. O instante do encontro torna-se decisivo porque nele aquilo que estava disperso encontra uma direção. O presente deixa de ser apenas sucessão de acontecimentos e passa a ser vivido diante daquele que permanece.

  Cristo não exige que Mateus apresente primeiro uma existência perfeita. Ele o chama no próprio lugar em que se encontra. Isso revela que a transformação não começa quando o ser alcança sua plenitude, mas quando acolhe a verdade que o conduz para ela. A maturação interior acontece à medida que a pessoa deixa de construir sua compreensão de si apenas a partir do que possui, realiza ou aparenta ser, e começa a reconhecer aquilo que é diante de Deus.

  Por isso, a presença de Cristo não acrescenta simplesmente uma dimensão religiosa à existência. Ela modifica a maneira de compreendê-la. O homem passa a perceber que sua vida possui uma profundidade que não pode ser reduzida ao instante exterior. Cada momento pode tornar-se lugar de encontro, discernimento e realização interior, porque o Eterno não está ausente da experiência humana. Sua presença ilumina o instante sem destruí-lo e permite que aquilo que ainda está em formação encontre uma direção.

  Quando Jesus se senta à mesa com publicanos e pecadores, revela também que o olhar divino alcança a pessoa para além das aparências que a definem diante dos outros. Cristo não confirma o homem em sua condição, mas também não o reduz ao seu passado. Seu olhar reconhece uma verdade mais profunda, capaz de conduzir o ser ao amadurecimento. A misericórdia, nesse sentido, não é simples tolerância diante daquilo que permanece sem transformação. Ela é a presença que chama a pessoa a reencontrar sua verdade e a assumir diante dela a responsabilidade pelo próprio caminho.

  É nesse ponto que a palavra de Cristo alcança uma dimensão ainda mais profunda. Ele declara que não veio chamar os que se consideram justos, mas os pecadores. O reconhecimento da própria necessidade não diminui a dignidade humana. Ao contrário, permite que a pessoa abandone a imagem que construiu de si e permaneça diante de Deus com verdade. Somente aquilo que é reconhecido pode ser verdadeiramente transformado. A interioridade amadurece quando já não procura esconder sua condição, mas permite que a presença divina alcance aquilo que necessita ser restaurado.

  Essa transformação não permanece isolada no interior. Ela alcança também a maneira como a pessoa vive seus vínculos mais fundamentais. A família, compreendida em sua dimensão espiritual e antropológica, torna-se lugar onde o ser aprende a presença, a responsabilidade, a fidelidade e o cuidado. Não se trata apenas de uma realidade exterior organizada por funções, mas de um espaço no qual cada pessoa é chamada a reconhecer a dignidade daquele que lhe foi confiado. A maturidade interior encontra expressão concreta na maneira como alguém permanece diante daqueles que fazem parte de sua vida.

  O Evangelho conduz, assim, do conhecimento exterior ao conhecimento interior. Podemos conhecer muitas coisas sobre nós mesmos e, ainda assim, permanecer distantes daquilo que somos diante de Deus. Cristo introduz uma forma mais profunda de conhecimento, porque seu chamado não informa apenas, mas transforma. Sua palavra revela uma possibilidade presente no próprio ser e convoca a pessoa a responder com toda a existência.

  A resposta de Mateus é simples. Ele se levanta e segue Jesus. Nessa simplicidade existe uma profundidade que atravessa toda a vida espiritual. Há momentos em que a verdade recebida não pede explicações prolongadas, mas uma resposta inteira. O instante torna-se fecundo quando a pessoa reconhece nele uma exigência interior e permite que sua existência se alinhe com aquilo que reconheceu como verdadeiro.

  Seguir Cristo não significa abandonar a própria existência, mas permitir que ela encontre sua orientação mais profunda. O ser não se realiza pela acumulação indefinida de experiências, nem pela tentativa de dominar o curso dos acontecimentos. Sua realização acontece quando aquilo que vive, pensa, escolhe e ama começa a corresponder à verdade que reconheceu diante de Deus.

  O chamado de Mateus permanece, portanto, como uma palavra dirigida ao interior de cada pessoa. Cristo passa pelo instante presente e encontra o ser onde ele realmente está. A resposta não precisa esperar por outro momento, porque a presença divina já se oferece no momento vivido. Quando essa presença é acolhida com verdade, o passado deixa de determinar sozinho o sentido da existência, o presente adquire profundidade e o futuro deixa de ser apenas aquilo que virá para tornar-se possibilidade de uma realização que começa no interior.

  O Evangelho nos conduz finalmente ao lugar onde toda transformação verdadeira começa. O ser diante de Deus. Ali, o chamado encontra sua resposta, a verdade encontra acolhimento e a existência começa a retornar à sua origem. Mateus levantou-se porque ouviu uma voz que não apenas o chamou para seguir alguém, mas o despertou para aquilo que poderia ser. Também nós somos chamados a permanecer atentos à presença que atravessa cada instante e nos conduz, com verdade e maturidade, à plenitude para a qual fomos chamados.


TEOLOGIA

Explicação Teológica

O chamado de Cristo e a dignidade da pessoa

  O centro da passagem está no encontro entre Cristo e Mateus. O Evangelho afirma que Jesus, ao passar, viu um homem sentado na coletoria e lhe disse que o seguisse. Mateus 9,9-13 apresenta esse acontecimento não apenas como uma mudança exterior de caminho, mas como manifestação da iniciativa divina que alcança a pessoa em sua situação concreta e a conduz a uma realidade mais profunda. O olhar de Cristo precede a resposta de Mateus. Antes que o homem se levante, ele já foi alcançado pela presença daquele que o chama.

  O verbo ver possui aqui uma importância teológica particular. Cristo não contempla Mateus somente segundo sua condição exterior. Seu olhar alcança a pessoa em sua verdade mais profunda e revela que sua existência não está encerrada naquilo que ela já realizou. O chamado manifesta uma dignidade que não depende da condição presente. A pessoa permanece aberta à ação da graça porque sua existência possui uma profundidade que somente Deus conhece plenamente.

A graça que chama e transforma

  A graça aparece no Evangelho como iniciativa de Cristo. Mateus não apresenta primeiro uma conquista espiritual para depois ser chamado. O chamado acontece antes e a resposta nasce desse encontro. A transformação, portanto, não é produzida exclusivamente pelo esforço humano. Ela acontece pela ação divina acolhida pela pessoa. A graça não elimina a resposta humana, mas torna possível que essa resposta alcance uma profundidade nova.

  Quando Mateus se levanta e segue Jesus, sua atitude manifesta a correspondência entre o chamado recebido e a resposta oferecida. A fé não consiste apenas em reconhecer intelectualmente quem Cristo é. Ela envolve a pessoa inteira e orienta sua existência para aquele que a chamou. O movimento exterior expressa uma realidade interior na qual a pessoa começa a compreender sua vida a partir de uma presença maior do que suas circunstâncias imediatas.

A misericórdia como revelação da verdade

  A presença de publicanos e pecadores junto de Jesus conduz o Evangelho ao seu núcleo teológico. Cristo declara que não veio chamar aqueles que se consideram justos, mas os pecadores. Essa palavra não significa aprovação do pecado, mas revela a finalidade da missão de Cristo. O Salvador aproxima-se daquilo que necessita de restauração para conduzi-lo à verdade.

  Quando Jesus afirma que deseja misericórdia e não sacrifício, ele revela que a relação com Deus não pode ser reduzida a exterioridades religiosas. O sacrifício possui sentido quando corresponde a uma verdade interior. A misericórdia manifesta a disposição do coração que reconhece a ação de Deus e permite que ela transforme a existência. O culto verdadeiro não permanece somente no gesto exterior, porque encontra sua autenticidade na conversão interior da pessoa.

Cristo como médico do ser

  A imagem do médico aprofunda ainda mais a compreensão da missão de Cristo. Jesus afirma que os que têm saúde não necessitam de médico, mas os que estão enfermos. A enfermidade mencionada no contexto não deve ser reduzida ao corpo. O Evangelho aponta para a condição espiritual daquele que necessita ser restaurado em sua relação com Deus.

  Cristo é o médico porque conhece a profundidade da pessoa e age sobre aquilo que necessita de cura. Sua ação não consiste simplesmente em retirar uma consequência exterior, mas em restaurar a relação fundamental entre o ser humano e sua origem em Deus. A salvação alcança a pessoa inteira e conduz sua existência para uma integração mais profunda na verdade.

A interioridade diante de Deus

  A passagem também revela que a transformação cristã acontece no interior antes de alcançar plenamente suas expressões exteriores. O chamado de Jesus encontra Mateus onde ele está, mas não o deixa encerrado naquele lugar. A presença de Cristo inaugura um movimento pelo qual a pessoa passa a compreender sua existência a partir de uma relação nova com Deus.

  A interioridade, na perspectiva cristã, não é isolamento do mundo nem fechamento sobre si mesma. É o espaço no qual a pessoa se apresenta diante de Deus e recebe dele a verdade sobre sua própria existência. Nesse encontro, aquilo que estava disperso pode reencontrar unidade, porque a pessoa deixa de tomar a si mesma como medida absoluta e reconhece em Deus sua origem e seu fim.

O instante como lugar de resposta

  O chamado de Mateus acontece em um momento concreto. Cristo passa, vê, chama e Mateus se levanta. A ação divina entra na história sem destruir a realidade do instante. O momento vivido torna-se ocasião de encontro entre a iniciativa de Deus e a resposta humana.

  Essa dimensão possui grande importância espiritual. A presença de Deus não precisa ser procurada somente em acontecimentos extraordinários. O Evangelho mostra que o encontro pode acontecer no momento em que a Palavra alcança a pessoa e exige dela uma resposta verdadeira. O instante recebe profundidade porque nele a eternidade de Deus toca a existência humana sem deixar de respeitar sua realidade concreta.

A responsabilidade diante da graça

  A graça é gratuita, mas não é indiferente à resposta humana. Mateus se levanta. Essa ação manifesta que o chamado recebido solicita uma correspondência. A pessoa não é objeto passivo da transformação. Ela participa dela ao acolher a Palavra, ordenar sua existência segundo a verdade e permanecer disponível à ação de Deus.

  Essa responsabilidade não significa autossuficiência. Ao contrário, reconhece que a resposta humana só encontra sua plenitude quando permanece fundada na graça. A pessoa responde porque foi chamada e caminha porque recebeu uma direção. A ação divina e a resposta humana não competem entre si. A graça desperta aquilo que a pessoa é chamada a realizar diante de Deus.

A família e a plenitude da pessoa

  Embora o Evangelho não apresente diretamente uma cena familiar, sua compreensão da pessoa possui consequências para todos os vínculos fundamentais da existência. Aquele que é visto por Cristo aprende a reconhecer também a dignidade daqueles que Deus coloca em seu caminho. A transformação interior não conduz ao isolamento, mas a uma maneira mais verdadeira de habitar os vínculos.

  A família pode ser compreendida nesse horizonte como espaço de comunhão no qual a pessoa aprende a receber, cuidar, permanecer e responder. Sua importância não deriva apenas de sua função na vida humana, mas de sua capacidade de acolher relações nas quais a dignidade de cada pessoa é reconhecida. Quando a interioridade encontra sua origem em Deus, os vínculos podem tornar-se expressão dessa verdade recebida.

A plenitude como realização da vocação

  Mateus não recebe apenas uma nova tarefa. Ele recebe uma nova orientação para sua existência. O chamado de Cristo revela que a vida possui uma direção que ultrapassa aquilo que pode ser percebido exteriormente. A vocação nasce do encontro entre aquilo que a pessoa é e aquilo que Deus a chama a tornar-se.

  A plenitude cristã não consiste em acumular realizações exteriores, mas em permitir que toda a existência seja progressivamente conformada à verdade de Cristo. A pessoa amadurece quando suas escolhas, seus afetos, sua consciência e seus vínculos começam a convergir para aquilo que reconheceu como verdadeiro diante de Deus. A transformação alcança sua profundidade quando o ser inteiro passa a corresponder à sua origem.

A Palavra que permanece

  O Evangelho de Mateus 9,9-13 mostra, finalmente, que a Palavra de Cristo não é uma informação acrescentada à existência. Ela é uma presença que chama, revela, cura e conduz. Mateus escuta uma palavra exterior, mas sua força manifesta-se no interior, onde uma nova compreensão de si começa a nascer.

  Aquele que se deixa alcançar por Cristo descobre que sua existência não está fechada sobre o passado nem limitada pelas aparências do presente. Há uma profundidade na qual a graça continua atuando e na qual a pessoa pode reencontrar sua verdade diante de Deus. O chamado permanece porque Cristo permanece. E a resposta torna-se caminho de amadurecimento, até que a existência encontre sua unidade na presença daquele que a chama desde sua origem e a conduz à plenitude.


FILOSOFIA

O instante em que o ser reconhece sua origem

Mateus 9,9-13

  O Evangelho segundo Mateus apresenta um acontecimento aparentemente simples. Jesus passa, vê Mateus sentado na coletoria e pronuncia uma palavra que altera o curso de sua existência. Em seguida, Mateus se levanta e segue aquele que o chamou. Poucas palavras descrevem um movimento exterior, mas nelas se concentra uma transformação cuja profundidade ultrapassa aquilo que pode ser percebido imediatamente. O que acontece naquele instante não é somente uma mudança de direção. Algo que permanecia interiormente possível encontra uma presença capaz de fazê-lo manifestar-se.

O chamado e a profundidade do instante

  O instante do encontro possui uma densidade que não pode ser medida apenas por sua duração. Cronologicamente, trata-se de um momento breve. Ontologicamente, porém, ele contém uma passagem decisiva. Cristo encontra Mateus no interior de uma condição já constituída, mas o chamado revela que aquilo que o homem é naquele momento não esgota aquilo que pode tornar-se.

  Há, portanto, uma diferença entre o tempo que registra a sucessão dos acontecimentos e a profundidade na qual uma existência pode ser transformada. O relógio reconhece a passagem de um momento para outro. A interioridade reconhece quando uma presença atravessa o momento e lhe confere um sentido que não provém simplesmente da sucessão. O instante torna-se fecundo porque nele uma realidade mais profunda encontra ocasião de manifestação.

  É nesse sentido que a palavra de Cristo possui uma força que não se limita ao som pronunciado. Ela alcança uma região anterior às escolhas já estabelecidas e desperta uma possibilidade que não nasceu naquele momento, embora naquele momento comece a aparecer. O chamado não cria do nada aquilo que Mateus poderá tornar-se. Ele revela e conduz algo que já encontrava, em sua profundidade, a possibilidade de responder.

A presença que acolhe e faz amadurecer

  A existência humana não se manifesta de uma única vez. Há no ser uma profundidade na qual aquilo que um dia aparecerá exteriormente encontra preparação, consistência e direção. Antes da ação existe uma disposição. Antes da palavra existe uma escuta. Antes da manifestação existe uma realidade interior que permanece recolhida até encontrar a condição de aparecer.

  O silêncio possui, nesse horizonte, uma função originária. Ele não é ausência de ser, mas espaço no qual o ser pode adquirir forma sem ser imediatamente exposto. O que permanece recolhido não está necessariamente inerte. Há movimentos que não podem ser observados porque pertencem à profundidade da formação. A realidade amadurece antes de tornar-se plenamente visível.

  O encontro de Mateus com Cristo pode ser compreendido a partir dessa profundidade. O chamado manifesta exteriormente aquilo que a presença de Cristo alcança no interior. A resposta de Mateus, embora apareça imediatamente como gesto, possui uma raiz que ultrapassa o gesto. O levantar-se torna visível uma transformação que não começou no movimento do corpo, mas no encontro entre a pessoa e uma presença que a alcançou em sua interioridade.

A origem que permanece presente

  A existência possui uma relação inseparável com sua origem. Aquilo que procede de uma fonte não deixa de depender dela pelo simples fato de manifestar-se exteriormente. A criatura permanece relacionada ao Criador não apenas no princípio de sua existência, mas em cada instante no qual continua sendo.

  Essa permanência é essencial para compreender a profundidade do Evangelho. Cristo não aparece apenas como alguém que oferece uma direção moral a Mateus. Sua presença introduz o homem numa relação com a própria origem de seu ser. O chamado possui força porque vem daquele em quem a existência encontra sua fonte e para quem encontra seu sentido último.

  Assim, a presença divina não é algo acrescentado posteriormente à existência. Ela sustenta a própria possibilidade de existir. O ser humano pode afastar-se interiormente dessa presença, pode não reconhecê-la ou pode viver como se ela não estivesse presente, mas sua existência continua recebendo dela o fundamento. O encontro com Cristo torna consciente aquilo que sustentava silenciosamente a vida.

A manifestação do que amadureceu

  Mateus levanta-se. O gesto é simples, mas possui uma estrutura profunda. O que estava interiormente acolhido começa a manifestar-se exteriormente. O movimento do corpo corresponde a uma transformação da direção interior. A manifestação não é independente daquilo que a precedeu. Ela é a expressão de uma realidade que alcançou determinada maturação.

  Isso permite compreender a existência como uma continuidade entre interioridade e manifestação. Aquilo que se manifesta exteriormente carrega consigo uma história invisível de formação. Nenhuma resposta profunda nasce inteiramente na superfície. Há uma preparação silenciosa pela qual a pessoa se torna capaz de reconhecer determinada verdade quando ela se apresenta.

  O chamado de Cristo não encontra Mateus como uma realidade acabada. Encontra-o como alguém capaz de tornar-se. A palavra recebida abre uma continuidade entre aquilo que ele era e aquilo que começava a ser. A transformação não destrói a existência anterior, mas reorganiza seu sentido a partir de uma origem reconhecida de maneira mais profunda.

A misericórdia e a verdade do ser

  Quando Jesus afirma que deseja misericórdia e não sacrifício, a passagem alcança uma dimensão ainda mais profunda. A misericórdia não é uma suspensão da verdade, mas uma forma de a verdade alcançar o ser sem destruí-lo. Deus não precisa que a pessoa esconda sua condição para aproximar-se dela. A verdade pode ser acolhida justamente porque existe uma presença capaz de conduzir aquilo que está incompleto à sua realização.

  Por isso, Cristo se apresenta como aquele que chama os pecadores. O pecado não constitui a última definição do ser. Ele é uma ruptura que pode ser alcançada pela graça. O chamado revela que a pessoa possui uma profundidade maior do que aquilo que nela se encontra desordenado. A ação divina alcança o ser em sua condição concreta e abre novamente o movimento em direção à origem.

  A misericórdia, então, não elimina o processo de transformação. Ela cria a possibilidade de que a verdade seja recebida e que a existência volte a amadurecer. O que estava interrompido pode reencontrar continuidade. O que permanecia disperso pode recuperar uma direção. O que se encontrava afastado de sua origem pode começar a retornar interiormente a ela.

A eternidade presente na sucessão

  A passagem de Mateus revela também que aquilo que é eterno não precisa abandonar o tempo para manifestar-se. O Eterno entra na sucessão sem tornar-se sucessivo. Cristo passa por um lugar, encontra uma pessoa em um momento determinado e pronuncia uma palavra. O acontecimento possui uma data e uma duração, mas sua realidade não se encerra nesses limites.

  O instante pode conter mais do que aquilo que cronologicamente acontece nele. Pode tornar-se abertura para uma dimensão que o ultrapassa. O encontro de Mateus não é importante somente porque ocorreu em determinado momento, mas porque naquele momento uma presença que não se limita à sucessão alcançou sua existência.

  A profundidade do instante nasce justamente dessa relação. O momento permanece temporal, mas torna-se portador de uma realidade que o transcende. A sucessão continua, os acontecimentos continuam passando, mas aquilo que foi recebido no interior pode permanecer como princípio de transformação. O instante passa. A verdade que nele foi reconhecida pode permanecer.

A plenitude como retorno à origem

  Toda geração verdadeira possui uma direção. Aquilo que se forma tende para uma realização que corresponde à sua própria natureza. A existência humana não é diferente. Há nela uma orientação profunda que não se reduz à acumulação de experiências. O ser busca sua consistência quando encontra aquilo a partir do qual pode compreender-se plenamente.

  No Evangelho, essa direção aparece na relação com Cristo. Mateus não encontra simplesmente um novo caminho entre muitos outros. Encontra aquele que dá ao caminho seu sentido. Seguir Cristo significa permitir que a própria existência seja gradualmente ordenada por uma presença que conhece sua origem e conduz sua realização.

  A plenitude, portanto, não consiste em tornar-se outra coisa, mas em chegar à verdade mais profunda do próprio ser diante de Deus. Aquilo que estava disperso encontra unidade. Aquilo que permanecia apenas como possibilidade encontra manifestação. Aquilo que estava em processo de formação encontra uma direção mais definida. A existência começa a corresponder àquilo que, desde sua origem, estava chamada a realizar.

O ser diante da Palavra

  Mateus 9,9-13 apresenta, assim, uma estrutura profunda da existência. Há um ser que permanece aberto, uma presença que o alcança, uma palavra que desperta, um interior que acolhe, uma resposta que manifesta e um caminho que conduz à realização. O acontecimento exterior é apenas a superfície de um movimento muito mais profundo.

  A Palavra de Cristo não acrescenta uma forma exterior ao ser. Ela alcança sua interioridade e revela uma possibilidade de realização que já estava inscrita em sua relação com Deus. Por isso, o chamado possui força geradora. Ele não apenas solicita uma ação. Ele desperta uma forma mais verdadeira de existir.

  O instante em que Cristo chama Mateus permanece, desse modo, como revelação de uma realidade que ultrapassa o próprio acontecimento. Cada existência carrega uma profundidade que não se manifesta imediatamente. Há nela um silêncio no qual possibilidades amadurecem, uma origem que sustenta, uma presença que acolhe e uma direção que conduz à plenitude.

  Quando a pessoa reconhece essa presença e responde à verdade que nela se manifesta, o instante deixa de ser apenas passagem. Torna-se lugar de realização. O ser começa a reencontrar sua origem não como algo perdido no passado, mas como presença que o sustenta no próprio ato de existir. É nesse retorno interior à fonte que a existência encontra sua unidade, e é nessa unidade que aquilo que estava oculto pode finalmente tornar-se presença manifesta.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

Leia também:

Primeira Leitura

Segunda Leitura

Salmo

Evangelho

Santo do dia

Oração Diária

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sábado, 19 de setembro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Liturgia Diária - Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 20,1-16a - 20.09.2026

Domingo, 20 de Setembro de 2026
25º Domingo do Tempo Comum, Ano A
Hoje, omite-se a Memória de Santos André Kim Tae-gon, presbítero, Paulo Chóng Hasang e companheiros, mártires


“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a
Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Acclamatio ad Evangelium, cf. Act XVI, XIVb

R. Alleluia, alleluia, alleluia.

V. Veni, aperi cor nostrum, Domine;
  et, Domine, aperi cor nostrum,
  ut verbum Filii tui
  amore pleno suscipere valeamus.

Aclamação ao Evangelho, cf. At 16,14b

R. Aleluia, aleluia, aleluia.

V. Vinde abrir o nosso coração, Senhor;
  ó Senhor, abri o nosso coração,
  e então poderemos acolher
  com muito amor a palavra de vosso Filho.


Quando o coração reconhece a bondade do Eterno, abandona a comparação, acolhe sua presença e encontra, no instante, a plenitude de ser em sua origem.



Evangelium secundum Matthaeum XX,I-XVIa

I. Simile est regnum cælorum homini patrifamilias, qui exiit primo mane conducere operarios in vineam suam.

  1. O Reino dos Céus é semelhante a um homem, senhor de sua casa, que saiu de madrugada para chamar trabalhadores para sua vinha.

II. Conventione autem facta cum operariis ex denario diurno, misit eos in vineam suam.

  1. Tendo combinado com os trabalhadores o pagamento de um denário por dia, enviou-os para sua vinha.

III. Et egressus circa horam tertiam, vidit alios stantes in foro otiosos,

  1. Saindo por volta da terceira hora, viu outros que permaneciam na praça, sem ocupação,

IV. et dixit illis, Ite et vos in vineam meam, et quod justum fuerit dabo vobis. Illi autem abierunt.

  1. E disse-lhes que fossem também para sua vinha, assegurando-lhes que lhes daria o que fosse justo. E eles foram.

V. Iterum autem exiit circa sextam et nonam horam, et fecit similiter.

  1. Saiu novamente por volta da sexta e da nona hora, e fez o mesmo.

VI. Circa undecimam vero exiit, et invenit alios stantes, et dicit illis, Quid hic statis tota die otiosi?

  1. Por volta da décima primeira hora, saiu ainda outra vez, encontrou outros que permaneciam ali e lhes perguntou por que estavam ociosos durante todo o dia.

VII. Dicunt ei, Quia nemo nos conduxit. Dicit illis, Ite et vos in vineam meam.

  1. Eles lhe responderam que ninguém os havia chamado. Então lhes disse que fossem também para sua vinha.

VIII. Cum sero autem factum esset, dicit dominus vineæ procuratori suo, Voca operarios, et redde illis mercedem incipiens a novissimis usque ad primos.

  1. Ao chegar a tarde, o senhor da vinha disse ao seu administrador que chamasse os trabalhadores e lhes desse a recompensa, começando pelos últimos até chegar aos primeiros.

IX. Cum venissent ergo qui circa undecimam horam venerant, acceperunt singulos denarios.

  1. Quando chegaram os que haviam vindo por volta da décima primeira hora, cada um recebeu um denário.

X. Venientes autem et primi, arbitrati sunt quod plus essent accepturi, acceperunt autem et ipsi singulos denarios.

  1. Chegando também os primeiros, imaginaram que receberiam mais. Contudo, também eles receberam cada um um denário.

XI. Et accipientes murmurabant adversus patremfamilias,

  1. Ao receberem o que lhes fora dado, começaram a murmurar contra o senhor da casa,

XII. dicentes, Hi novissimi una hora fecerunt, et pares illos nobis fecisti, qui portavimus pondus diei, et æstus.

  1. dizendo que aqueles últimos haviam trabalhado somente uma hora e que ele os tornara iguais aos que haviam suportado o peso e o calor do dia.

XIII. At ille respondens uni eorum, dixit, Amice, non facio tibi injuriam, nonne ex denario convenisti mecum?

  1. Mas ele respondeu a um deles e disse que não lhe fazia injustiça, pois não havia combinado com ele um denário?

XIV. Tolle quod tuum est, et vade, volo autem et huic novissimo dare sicut et tibi.

  1. Toma o que é teu e vai. Quanto a este último, quero dar-lhe tanto quanto dei a ti.

XV. Aut non licet mihi quod volo, facere, an oculus tuus nequam est, quia ego bonus sum?

  1. Não me é permitido fazer o que quero? Ou teu olhar se tornou mau porque eu sou bom?

XVI. Sic erunt novissimi primi, et primi novissimi.

  1. Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.

Reflexão:

  O Reino se manifesta onde a medida humana cessa e a presença eterna acolhe cada ser em sua plenitude.
  O instante não é vazio, pois nele a bondade divina se oferece inteira e chama cada consciência à realização.
  O coração encontra sua verdade quando deixa de medir o próprio ser pela comparação e permanece unido à origem.
  Aquele que recebe com inteireza reconhece que o dom não diminui quando alcança outro, mas revela sua própria abundância.
  A ordem profunda não depende da sucessão exterior, porque cada instante pode tornar-se presença plena diante do Eterno.
  O último não permanece afastado quando responde ao chamado, pois a realização do ser não se mede pela duração.
  A bondade divina não se ajusta aos cálculos humanos, mas conduz cada existência àquilo que nela pode alcançar plenitude.
  Assim, o coração repousa no presente e reconhece que a verdadeira riqueza consiste em receber plenamente o ser que lhe é dado.

Verbum Domini.


Versículo mais importante:

Proclamatio Sancti Evangelii secundum Mateum XX, I-XVIa

XV. Aut non licet mihi quod volo, facere, an oculus tuus nequam est, quia ego bonus sum? (Matthaeus XX, XV)

  1. Ou não me é permitido fazer o que quero? Ou teu olhar se torna mau porque eu sou bom? (Mateus 20,15)

HOMILIA

A bondade que revela a verdade do ser

Diante de Deus, cada instante pode tornar-se plenitude quando o coração deixa de medir o próprio ser pela medida dos outros e acolhe integralmente o dom recebido.

  A parábola dos trabalhadores da vinha nos conduz a uma compreensão mais profunda da existência. O olhar humano costuma ordenar a vida segundo a duração, a precedência e a quantidade. Quem chegou primeiro parece merecer mais. Quem permaneceu durante todo o dia parece possuir uma razão maior para receber. Cristo, porém, desloca o centro da compreensão. Ele mostra que a realidade mais profunda do ser não se encontra na comparação entre existências, mas na relação interior com aquele que chama, acolhe e realiza.

  Os trabalhadores chegam em horas diferentes, mas todos entram na mesma vinha. A diferença exterior permanece, porém não determina a dignidade daquele que foi chamado. O senhor da vinha não contempla apenas a sucessão dos acontecimentos. Ele vê cada pessoa em sua relação com o dom que lhe é oferecido. Assim, a existência não encontra seu sentido apenas na quantidade de tempo transcorrido, mas na profundidade com que cada instante é acolhido.

  Existe uma transformação decisiva quando compreendemos isso. O instante deixa de ser apenas uma passagem entre aquilo que já aconteceu e aquilo que ainda acontecerá. Ele pode tornar-se lugar interior de encontro, onde o ser recebe sua direção e reencontra sua origem. A presença de Deus não depende da extensão exterior da jornada. Ela pode alcançar a pessoa precisamente no momento em que seu coração se torna capaz de acolher aquilo que lhe é oferecido.

  Por isso, a parábola também revela algo sobre o amadurecimento interior. Amadurecer não significa simplesmente acumular duração, experiências ou realizações. Significa tornar-se capaz de receber com maior inteireza a verdade que se apresenta. O ser humano pode atravessar muitos anos sem penetrar verdadeiramente em si mesmo, enquanto um único instante acolhido com inteira disposição pode abrir uma profundidade que antes permanecia fechada.

  O trabalhador que chegou primeiro se inquieta porque olha para o outro antes de olhar para o dom que recebeu. Seu coração já não contempla a própria relação com o senhor da vinha, mas começa a medir sua existência pela existência alheia. Nesse movimento, aquilo que havia recebido perde sua evidência interior. A comparação obscurece a gratidão porque desloca o centro da consciência. A pessoa deixa de habitar aquilo que lhe foi dado e passa a procurar sua confirmação naquilo que o outro recebeu.

  Cristo conduz a pessoa para outro modo de existir. A pergunta essencial não é quanto o outro recebeu, nem em que momento chegou, nem quanto tempo permaneceu, mas o que acontece dentro daquele que recebe. A responsabilidade interior começa justamente quando a pessoa deixa de entregar sua medida às circunstâncias exteriores e passa a responder diante da verdade que encontrou. O dom recebido pede uma resposta pessoal, uma disposição interior e uma transformação real do ser.

  Essa verdade alcança também a vida familiar, porque a família não é apenas uma realidade constituída por vínculos exteriores. Ela se torna verdadeiramente fecunda quando cada pessoa aprende a reconhecer no outro uma presença que não precisa ser medida para ser acolhida. O amor amadurece quando deixa de transformar a proximidade em comparação e passa a reconhecer a dignidade singular de cada pessoa diante de Deus. Nesse espaço, cada existência pode crescer em responsabilidade, acolhimento e profundidade.

  A palavra de Cristo também corrige uma compreensão superficial da justiça. Deus não distribui sua bondade segundo os cálculos pelos quais os homens costumam medir o valor da existência. Sua bondade não diminui porque alcança outro. Seu dom não se torna menor porque chega a alguém depois. O que procede da plenitude não precisa ser dividido para permanecer pleno.

  Quando Cristo pergunta se o olhar se torna mau porque Ele é bom, toca o centro de uma transformação interior. O problema não está na bondade recebida pelo outro, mas na incapacidade de reconhecer a bondade como realidade suficiente em si mesma. O coração amadurecido não precisa que o outro receba menos para reconhecer a grandeza do próprio dom. Ele permanece diante de Deus e encontra nessa presença a medida mais profunda de sua existência.

  A vinha, então, revela uma realidade interior. Cada pessoa é chamada a entrar na profundidade de seu próprio ser e a realizar, no instante que lhe foi dado, aquilo que somente ela pode acolher e tornar fecundo. Não importa apenas quando o chamado foi percebido. Importa a resposta que nasce quando a presença de Deus se torna interiormente reconhecida.

  Aquele que chega na última hora não recebe uma existência menor. Ele recebe a possibilidade de entrar na plenitude daquele encontro. O passado não precisa ser negado, mas também não pode impedir a realização que começa quando o ser se abre à verdade. O instante presente contém uma possibilidade de transformação que não depende simplesmente daquilo que veio antes. A presença divina pode reunir a existência dispersa e conduzi-la novamente à sua origem.

  É assim que a Palavra de Cristo modifica nossa compreensão de nós mesmos. Já não somos apenas seres submetidos à sucessão dos acontecimentos. Somos pessoas chamadas a realizar interiormente aquilo que receberam. Cada instante pode conter uma convocação à maturidade, e cada resposta verdadeira pode aproximar o ser de sua plenitude.

  O Reino não se revela apenas no término da caminhada, mas na profundidade com que cada instante é vivido diante de Deus. A eternidade toca a existência quando o coração deixa de fugir de si mesmo, acolhe sua origem e responde ao chamado com inteireza. Então a vida deixa de ser apenas passagem e começa a revelar sua finalidade mais profunda, que é tornar-se plenamente aquilo para o qual foi chamada.

  Que Cristo nos ensine a receber sem comparar, a amadurecer sem medir os outros e a permanecer diante de Deus com inteira presença. Que cada instante encontre em nós uma resposta verdadeira, até que aquilo que recebemos se torne realização interior e nossa existência possa repousar na plenitude daquele que nos chamou.


TEOLOGIA

Explicação Teológica

O dom recebido e a bondade de Deus

«Aut non licet mihi quod volo, facere, an oculus tuus nequam est, quia ego bonus sum?» (Mateus 20,15)

A pergunta de Cristo constitui o centro teológico da parábola. O senhor da vinha não apresenta a bondade como algo submetido aos cálculos humanos, mas como expressão de sua própria natureza. A afirmação «ego bonus sum» revela que a origem do dom está naquele que é bom. A graça não nasce da comparação entre aqueles que a recebem, mas da iniciativa daquele que concede.

A parábola manifesta, portanto, uma verdade essencial sobre a relação entre Deus e a pessoa humana. Deus não concede sua bondade porque o ser humano tenha conseguido estabelecer diante dele uma medida suficiente de merecimento. A iniciativa pertence ao próprio Deus, que chama, acolhe e conduz cada pessoa à realização de sua vocação. A graça não destrói a responsabilidade humana, mas a precede e a torna possível.

Cristo e a plenitude do chamado

Os trabalhadores chegam à vinha em momentos diferentes. Essa diversidade temporal não significa diversidade de dignidade diante daquele que chama. O Evangelho desloca a atenção da duração exterior para a resposta interior. A pessoa é alcançada por Deus no momento concreto de sua existência, e esse encontro pode adquirir uma profundidade que ultrapassa a simples sucessão dos acontecimentos.

Cristo revela, assim, que a relação com Deus não pode ser compreendida somente pela quantidade de tempo transcorrido. A presença divina alcança o ser humano no instante em que ele se abre à verdade recebida. Aquele que responde ao chamado entra numa realidade que não depende apenas do passado, porque a graça pode transformar o sentido da existência a partir de sua raiz.

A conversão possui justamente essa dimensão. Ela não consiste apenas em modificar comportamentos exteriores, mas em permitir que a pessoa seja novamente orientada para sua origem. Quando Cristo chama, a existência recebe uma direção nova. A verdade não permanece diante da pessoa como conhecimento exterior. Ela começa a penetrar sua interioridade e a ordenar o ser para sua plenitude.

A graça como iniciativa divina

A graça ocupa lugar central nessa passagem. O senhor da vinha procura os trabalhadores repetidamente e, mesmo na última hora, continua chamando. A iniciativa parte sempre dele. O movimento de Deus precede a resposta humana e manifesta uma bondade que não se encerra nos limites daquilo que o homem considera proporcional.

Isso não significa que a resposta humana seja irrelevante. Ao contrário, o chamado exige acolhimento. Os trabalhadores precisam entrar na vinha. A graça recebida pede uma existência que corresponda ao dom. A pessoa não produz a graça, mas pode acolhê-la e permitir que ela transforme sua maneira de existir.

A vida espiritual encontra aqui uma de suas verdades mais profundas. Deus não apenas oferece algo à pessoa. Ele próprio se torna presença que chama o ser a uma realização mais profunda. O dom recebido possui uma finalidade interior. Ele conduz a pessoa para além de uma existência dispersa e a reconduz à unidade de sua origem.

A justiça iluminada pela bondade

A reação dos primeiros trabalhadores revela uma dificuldade espiritual profunda. Eles reconhecem a própria recompensa, mas passam a contemplá-la através daquilo que os outros receberam. A comparação altera o significado do dom. O que antes era recebido como justo passa a parecer insuficiente quando colocado diante da generosidade concedida a outro.

Cristo não elimina a justiça. Ele revela sua profundidade. A justiça divina não pode ser separada da bondade de Deus, porque Deus não age contra aquilo que Ele é. O senhor da vinha permanece fiel ao acordo estabelecido e, ao mesmo tempo, manifesta uma generosidade que ultrapassa a expectativa daqueles que chegaram primeiro.

A teologia da graça encontra aqui uma expressão particularmente clara. O dom de Deus não é uma realidade que precise ser diminuída para preservar aquilo que outro recebeu. A plenitude divina não funciona segundo a lógica da escassez. A bondade concedida a uma pessoa não empobrece a bondade concedida a outra. Cada pessoa pode receber verdadeiramente sem que a plenitude do outro constitua uma ameaça à sua própria realização.

A pessoa diante da verdade

A pergunta de Cristo sobre o olhar que se torna mau diante da bondade revela que o problema não está simplesmente naquilo que acontece fora da pessoa. Existe uma transformação necessária do olhar interior. A pessoa precisa aprender a contemplar a realidade a partir da verdade de Deus, e não apenas a partir das medidas que construiu para si mesma.

A fé possui precisamente essa dimensão. Crer não significa apenas aceitar determinadas verdades. Significa permitir que a verdade de Deus alcance a interioridade e reorganize a compreensão da própria existência. A pessoa começa então a reconhecer que sua dignidade não depende da comparação, da precedência ou da quantidade exterior de realizações.

Esse reconhecimento possui consequências para a vida familiar. A família encontra sua profundidade quando cada pessoa é acolhida não como medida do valor de outra, mas como presença singular diante de Deus. O vínculo familiar amadurece quando a dignidade de cada pessoa é reconhecida como recebida da própria origem e não como resultado de uma competição por reconhecimento.

O instante e a realização do ser

Aqueles que chegam na última hora recebem o mesmo denário. O texto não está ensinando uma simples equivalência quantitativa entre diferentes trajetórias. Ele revela algo mais profundo sobre a relação entre o chamado e a realização. A plenitude não depende simplesmente da duração exterior da caminhada, mas da verdade com que o chamado é acolhido.

O instante em que a pessoa encontra Deus não é espiritualmente vazio. Ele pode tornar-se o momento em que toda a existência é reorientada. O passado não desaparece, mas deixa de possuir a última palavra. A presença de Deus alcança o ser no presente e abre nele uma possibilidade real de transformação.

É nesse sentido que a existência humana encontra sua profundidade. Cada instante pode tornar-se interiormente fecundo quando a pessoa responde à verdade que recebeu. O tempo da vida permanece como sucessão, mas a presença de Deus introduz nessa sucessão uma profundidade que conduz o ser para além da mera passagem.

A família como lugar de maturação

A dimensão familiar também pode ser compreendida à luz dessa verdade. A família é uma realidade na qual a pessoa aprende, de maneira concreta, que o ser humano não se realiza apenas por aquilo que possui ou produz. A presença, o acolhimento, a responsabilidade e a fidelidade participam da formação interior da pessoa.

A dignidade familiar não procede apenas da estrutura exterior do vínculo. Ela encontra seu fundamento no valor de cada pessoa diante de Deus. Quando essa verdade é reconhecida, a família pode tornar-se espaço de maturação, onde cada pessoa aprende a receber, responder e entregar aquilo que lhe foi confiado.

A parábola ilumina essa dimensão porque mostra que a realização não acontece mediante comparação. Cada trabalhador recebe um chamado e deve responder a ele. Também na família cada pessoa possui uma responsabilidade própria diante da verdade, e essa responsabilidade não pode ser transferida para outro.

A Palavra que conduz à plenitude

A palavra de Cristo finalmente desloca o centro da existência para Deus. «Ego bonus sum» não é apenas uma afirmação sobre uma ação particular. É a revelação de que a origem do dom está na bondade daquele que chama. A pessoa encontra sua verdadeira medida quando deixa que essa bondade ilumine sua interioridade.

A plenitude cristã não consiste em possuir mais do que outro, nem em chegar antes, nem em acumular méritos exteriores. Consiste em permitir que o ser receba de Deus aquilo que somente Deus pode conceder e, recebido o dom, responda com toda a profundidade de sua existência.

Assim, a parábola dos trabalhadores da vinha revela uma verdade essencial do Evangelho. Deus chama cada pessoa a entrar em sua presença, e esse chamado pode alcançar a existência em qualquer momento. A graça encontra o ser onde ele está, mas não o deixa encerrado onde estava. Ela o conduz para sua origem, ilumina sua interioridade e abre diante dele o caminho da realização. A bondade de Deus permanece como fundamento, Cristo como aquele que chama e a pessoa como aquela que, acolhendo a verdade, permite que o dom recebido se torne plenitude em sua própria existência.


FILOSOFIA

A plenitude que se manifesta no instante

[Mateus 20,1-16a]

  A parábola dos trabalhadores da vinha apresenta uma realidade que ultrapassa a simples questão da recompensa. Em sua profundidade, ela toca o próprio modo como a existência recebe seu sentido. O senhor da vinha sai repetidamente ao encontro dos trabalhadores, em horas diferentes, e os chama para dentro de uma mesma obra. A sucessão das horas permanece presente, mas aquilo que acontece no interior desse movimento não pode ser compreendido apenas pela duração cronológica. Existe uma profundidade na qual o chamado, a resposta e a realização pertencem a uma unidade mais originária.

A origem que chama

  O movimento da parábola começa naquele que sai para chamar. Antes de qualquer resposta humana existe uma iniciativa que procede da origem. O trabalhador não produz o chamado que o conduz à vinha. Ele o recebe. Sua existência é alcançada por uma palavra que o retira da simples permanência exterior e o introduz em um processo de realização.

  Essa estrutura revela algo fundamental sobre o ser. Aquilo que existe não encontra em si mesmo a explicação última de sua existência. Há uma origem que precede a manifestação e que sustenta aquilo que vem a ser. A existência recebe sua possibilidade de uma fonte que não depende dela. Antes de tornar-se visível em sua forma exterior, o ser já se encontra relacionado àquilo de onde procede.

  A vinha, nesse sentido, não é apenas o cenário de uma atividade. Ela representa o âmbito no qual aquilo que foi chamado pode entrar em realização. O chamado não acrescenta exteriormente uma finalidade a uma existência já completa. Ele desperta uma possibilidade que estava destinada a tornar-se presente.

A profundidade escondida nas horas

  A parábola distribui os trabalhadores por diferentes momentos do dia. A sucessão das horas estabelece uma ordem exterior, mas Cristo impede que essa ordem seja confundida com a profundidade do acontecimento. O último trabalhador entra quando o dia já se aproxima de seu término, mas recebe a mesma possibilidade de realização daquele que chegou primeiro.

  Aqui aparece uma distinção essencial entre duração e profundidade. A duração mede a extensão de uma sucessão. A profundidade diz respeito àquilo que pode acontecer no interior de um único instante. Um momento não é espiritualmente determinado apenas por sua brevidade ou extensão. Sua densidade depende daquilo que nele se manifesta.

  O instante pode conter uma realidade que não se deixa reduzir à passagem cronológica. Quando a presença divina alcança o interior do ser, o momento presente deixa de ser apenas uma unidade sucessiva entre outras. Ele se torna ocasião de manifestação. Aquilo que estava oculto pode encontrar nele sua forma de presença.

O silêncio anterior à manifestação

  Aquele que chega à última hora não começa sua existência naquele instante. Sua chegada exterior é apenas o momento em que aquilo que estava ausente da vinha passa a manifestar-se dentro dela. Existe uma diferença entre começar a existir e começar a aparecer. A parábola permite contemplar essa diferença sem precisar transformá-la em uma teoria.

  Toda manifestação possui uma interioridade que a precede. Antes que algo se apresente plenamente, existe uma realidade que amadurece em silêncio. A forma exterior não constitui toda a realidade do ser. Ela é a expressão de uma profundidade que alcançou determinado grau de maturação.

  Assim também acontece com a existência humana diante de Deus. O chamado pode ser ouvido somente depois de longa permanência na exterioridade, mas isso não significa que a relação com a origem tenha começado naquele momento. A presença pode estar preparando interiormente aquilo que somente depois se torna consciente e manifesto.

A presença que reúne o tempo

  O senhor da vinha não contempla os trabalhadores apenas segundo a ordem em que chegaram. Ele os contempla a partir daquilo que deseja realizar neles. Sua ação introduz uma unidade onde a sucessão poderia parecer estabelecer diferenças definitivas.

  Isso revela uma dimensão profunda da eternidade. O eterno não precisa destruir a sucessão para estar presente nela. Pode penetrá-la e conferir ao instante uma densidade que não provém simplesmente de sua duração. O presente torna-se então mais do que um ponto entre passado e futuro. Ele pode receber uma presença que o ultrapassa sem abandoná-lo.

  A existência permanece temporal, mas não está fechada dentro da sucessão. Há nela uma profundidade capaz de acolher aquilo que não nasce da própria sucessão. O instante torna-se fecundo quando recebe a presença daquilo que o transcende. Nesse encontro, o tempo deixa de ser compreendido apenas como passagem e revela sua capacidade de acolher manifestação.

A bondade e a medida do ser

  A reação dos primeiros trabalhadores introduz outra dimensão essencial. Eles medem o próprio recebimento pela medida do recebimento alheio. O olhar que deveria contemplar o dom recebido desloca-se para a comparação. Com isso, a própria realidade do dom começa a perder sua transparência.

  A resposta do senhor da vinha reconduz a existência à sua origem. «Ego bonus sum». A bondade não é apresentada como cálculo, mas como fundamento. O que é dado procede daquele que dá. A plenitude da origem não diminui quando se manifesta em outro. O ser não precisa competir para possuir consistência, porque sua realidade procede de uma fonte que não se esgota ao comunicar-se.

  Aqui se encontra uma chave para compreender a maturação interior. Amadurecer significa tornar-se capaz de permanecer diante do ser recebido sem exigir que a existência de outro diminua a própria. A interioridade encontra sua estabilidade quando reconhece sua origem e deixa de buscar sua medida exclusivamente na exterioridade.

O instante como lugar de realização

  A última hora possui, portanto, uma significação que ultrapassa a cronologia. Ela mostra que o instante não é determinado somente pelo momento em que ocorre. Ele pode receber uma profundidade que reúne origem, presença e realização.

  Quando o trabalhador entra na vinha, sua presença exterior acontece tarde, mas sua realização não é tardia diante daquele que o chama. A origem não está submetida à sucessão da mesma maneira que aquilo que dela procede. Por isso, aquilo que parece tardio segundo a ordem exterior pode tornar-se pleno segundo a ordem interior.

  A passagem de Mateus 20,1-16a revela, assim, uma concepção da existência na qual cada momento pode receber uma densidade nova. O presente não é simplesmente aquilo que resta depois do passado. Ele é a abertura na qual a realidade pode tornar-se manifesta. A presença divina alcança o ser no ponto concreto de sua existência e pode conduzi-lo àquilo que estava destinado a realizar.

A geração interior do ser

  O chamado recebido não produz imediatamente sua plenitude. Existe um processo interior no qual aquilo que foi acolhido precisa tornar-se forma de existência. A pessoa não se transforma apenas porque ouviu uma palavra. A palavra precisa penetrar, permanecer, amadurecer e tornar-se princípio de manifestação.

  Nesse sentido, a existência possui uma dimensão geradora. Aquilo que é recebido interiormente pode tornar-se realidade vivida. A verdade deixa de ser apenas algo contemplado e começa a configurar o próprio ser. A presença recebida transforma-se progressivamente em modo de existir.

  O silêncio possui aqui uma função decisiva. Ele não é ausência de acontecimento. É profundidade na qual aquilo que ainda não se manifesta exteriormente pode adquirir consistência. O que amadurece no silêncio não está inativo. Está reunindo interiormente as condições de sua manifestação.

A origem e o destino

  A parábola também permite compreender que origem e destino não são realidades estranhas entre si. Aquilo que procede de uma origem encontra sua realização quando retorna à verdade de sua procedência. O trabalhador entra na vinha porque foi chamado, e sua entrada realiza exteriormente aquilo que começou com a iniciativa daquele que o chamou.

  A plenitude não consiste, portanto, em acrescentar indefinidamente algo ao ser. Ela consiste em permitir que aquilo que foi recebido alcance sua forma própria de realização. A existência torna-se plena quando aquilo que procede da origem encontra uma resposta capaz de acolhê-lo inteiramente.

  Em Cristo, essa verdade adquire sua dimensão propriamente espiritual. O chamado não conduz simplesmente a uma tarefa. Conduz a uma relação. A pessoa é chamada a permanecer diante daquele de quem recebe o ser e, nessa relação, permitir que sua existência se torne aquilo que pode ser em sua verdade mais profunda.

A manifestação da plenitude

  A parábola dos trabalhadores da vinha revela finalmente que a plenitude não pode ser medida somente pela sucessão. O último e o primeiro encontram-se diante da mesma bondade. O que muda é o percurso exterior, não a possibilidade de participar daquilo que a origem oferece.

  O instante pode, portanto, tornar-se lugar de uma manifestação que ultrapassa sua duração. Nele, o que estava oculto pode aparecer, o que estava disperso pode reunir-se e aquilo que ainda não havia alcançado sua forma pode começar a realizá-la. A presença divina não elimina o tempo, mas o penetra e lhe confere profundidade.

  A Palavra de Cristo conduz a existência para esse centro. O ser não encontra sua plenitude quando mede sua trajetória pela trajetória de outro, mas quando reconhece sua origem, acolhe a presença que o chama e permite que aquilo que recebeu amadureça até tornar-se manifestação verdadeira.

  A vinha permanece como imagem de uma realidade em que o chamado precede a resposta, a presença sustenta a maturação e a plenitude se manifesta quando o ser alcança sua forma própria diante de sua origem. Assim, mesmo na última hora, o instante pode conter a profundidade de uma realização inteira, porque aquilo que é eterno pode encontrar no presente a morada de sua manifestação.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

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LITURGIA DA PALAVRA - Liturgia Diária - Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 8,4-15 - 19.09.2026

Sábado, 19 de Setembro de 2026
24ª Semana do Tempo Comum, Ano Par (II)


“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a
Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Sim. O título deve aparecer primeiro em latim, com a referência bíblica em algarismos romanos; abaixo, o título correspondente em português, com a referência em algarismos arábicos. Mantendo o texto da aclamação conforme a formulação apresentada:

Acclamatio ad Evangelium

cf. Lc VIII, 15

R. Alleluia, alleluia, alleluia.

V. Beati qui verbum Domini observant corde recto,
  et fructum afferunt in patientia usque in finem!

Aclamação ao Evangelho

cf. Lc 8,15

R. Aleluia, Aleluia, Aleluia.

V. Felizes os que observam a palavra do Senhor de reto coração,
  e que produzem muitos frutos, até o fim perseverantes!


A Palavra acolhida no íntimo permanece viva, amadurece no silêncio do ser e, perseverante, manifesta frutos que revelam a plenitude da presença divina em nós.



Proclamatio Sancti Evangelii secundum Lucam VIII, IV-XV

IV Cum autem turba plurima convenirent, et de civitatibus properarent ad eum, dixit per similitudinem:

4 Quando uma grande multidão se reuniu e pessoas vindas das cidades se aproximavam dele, Jesus lhes falou por meio de uma parábola.

V Exiit qui seminat, seminare semen suum. Et dum seminat, aliud cecidit secus viam, et conculcatum est, et volucres cæli comederunt illud.

5 Saiu o semeador para semear a sua semente. Enquanto semeava, uma parte caiu junto ao caminho, foi pisada, e as aves do céu a comeram.

VI Et aliud cecidit supra petram: et natum aruit, quia non habebat humorem.

6 Outra parte caiu sobre a pedra e, depois de nascer, secou, porque não tinha umidade.

VII Et aliud cecidit inter spinas, et simul exortæ spinæ suffocaverunt illud.

7 Outra parte caiu entre os espinhos, e os espinhos que nasceram juntamente com ela a sufocaram.

VIII Et aliud cecidit in terram bonam: et ortum fecit fructum centuplum. Hæc dicens clamabat: Qui habet aures audiendi, audiat.

8 Outra parte caiu em terra boa e, depois de brotar, produziu fruto cem vezes maior. Dizendo isso, clamava que aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça.

IX Interrogabant autem eum discipuli ejus, quæ esset hæc parabola.

9 Seus discípulos lhe perguntaram qual era o sentido daquela parábola.

X Quibus ipse dixit: Vobis datum est nosse mysterium regni Dei, ceteris autem in parabolis: ut videntes non videant, et audientes non intelligant.

10 Ele lhes respondeu que a eles foi dado conhecer o mistério do Reino de Deus, enquanto aos demais ele é apresentado em parábolas, para que, vendo, não vejam, e, ouvindo, não compreendam.

XI Est autem hæc parabola: Semen est verbum Dei.

11 O sentido desta parábola é este. A semente é a Palavra de Deus.

XII Qui autem secus viam, hi sunt qui audiunt: deinde venit diabolus, et tollit verbum de corde eorum, ne credentes salvi fiant.

12 Os que estão junto ao caminho são aqueles que ouvem. Depois vem o diabo e retira a Palavra do coração deles, para que, crendo, não sejam salvos.

XIII Nam qui supra petram, qui cum audierint, cum gaudio suscipiunt verbum: et hi radices non habent: qui ad tempus credunt, et in tempore tentationis recedunt.

13 Os que estão sobre a pedra são aqueles que, ao ouvirem, recebem a Palavra com alegria, mas não possuem raízes. Creem por algum tempo e, no momento da provação, afastam-se.

XIV Quod autem in spinis cecidit: hi sunt, qui audierunt, et a sollicitudinibus, et divitiis, et voluptatibus vitæ euntes suffocantur, et non referunt fructum.

14 O que caiu entre os espinhos são aqueles que ouviram, mas, envolvidos pelas preocupações, pelas riquezas e pelos prazeres da vida, deixam que a Palavra seja sufocada e não produzem fruto.

XV Quod autem in bonam terram: hi sunt, qui in corde bono et optimo audientes verbum retinent, et fructum afferunt in patientia.

15 O que caiu em terra boa são aqueles que, ouvindo a Palavra com coração bom e íntegro, a conservam no íntimo e produzem fruto com perseverança.

Verbum Domini

Reflexão:

A Palavra acolhida no coração permanece como presença que atravessa o instante e alcança sua profundidade.
O ser recolhido recebe aquilo que vem da origem e permite que sua verdade encontre morada interior.
A escuta verdadeira não termina no ouvir, mas transforma o íntimo daquele que acolhe.
Cada instante pode tornar-se fecundo quando a presença recebida encontra um coração inteiramente disposto.
A perseverança conserva a raiz daquilo que foi acolhido e conduz silenciosamente à plenitude.
O fruto nasce quando o interior permanece unido à verdade que recebeu.
Assim, aquilo que foi semeado não desaparece na passagem, mas amadurece na profundidade do ser.
E a Palavra manifesta, em sua realização, a plenitude que já trazia desde a origem.


Versículo mais importante:


XI Est autem hæc parabola: Semen est verbum Dei. (Lucam XI)

11 O sentido desta parábola é este. A semente é a Palavra de Deus. (Lucas 8,11)


HOMILIA

A Palavra que encontra a terra interior

A Palavra de Cristo não apenas alcança o ouvido, mas chama o ser a tornar-se aquilo que recebeu em sua profundidade.

  O Evangelho apresenta a semente lançada sobre diferentes terrenos, mas sua verdade mais profunda não está somente naquilo que acontece com a semente. Está naquilo que acontece com aquele que a recebe. A Palavra vem de Cristo como presença que alcança o interior da pessoa e solicita uma resposta que não pode ser dada apenas exteriormente. Ouvir é o início de um movimento que somente se completa quando aquilo que foi ouvido encontra morada no ser.

  A semente é a Palavra de Deus. Ela possui em si uma força que não depende do ruído exterior, porque procede da origem e traz consigo a possibilidade da realização. Entretanto, sua fecundidade não se estabelece pela simples passagem da Palavra pelos sentidos. O ouvido pode recebê-la sem que o coração a acolha. A inteligência pode compreendê-la sem que a existência se deixe transformar. Existe uma distância profunda entre conhecer uma verdade e permitir que essa verdade forme interiormente aquilo que somos.

  Cristo conduz seus discípulos para dentro dessa diferença. O caminho, a pedra, os espinhos e a terra boa não são apenas imagens exteriores. Revelam diferentes profundidades da pessoa diante daquilo que recebe. A Palavra pode encontrar uma interioridade que permanece superficial, pode encontrar um coração que acolhe por algum tempo, pode ser sufocada pelas múltiplas solicitações da existência ou pode encontrar uma profundidade capaz de conservá-la e fazê-la amadurecer.

  A terra boa é aquela em que a Palavra não permanece na superfície. Ela desce ao íntimo, encontra uma disposição capaz de recebê-la e começa uma transformação silenciosa. O Evangelho não fala de uma mudança instantânea produzida por uma emoção passageira. Fala de fruto que chega mediante a perseverança. Existe uma maturação própria da verdade recebida. Aquilo que realmente transforma a pessoa precisa penetrar sua maneira de pensar, de desejar, de escolher e de habitar a própria existência.

  É nesse ponto que a Palavra modifica também a compreensão que temos de nós mesmos. Diante de Cristo, a pessoa descobre que sua existência não é uma realidade fechada em si mesma. Há uma origem que a precede, uma verdade que a chama e uma plenitude para a qual sua própria interioridade pode se ordenar. O ser humano amadurece quando deixa de viver apenas segundo aquilo que aparece imediatamente e começa a reconhecer, no mais profundo de si, aquilo que possui valor permanente.

  O instante vivido adquire então uma densidade nova. Cada momento pode ser apenas uma sucessão exterior ou pode tornar-se acolhimento de uma presença que o transcende. A eternidade não precisa ser imaginada como algo distante da existência. Ela pode tocar o instante quando o ser se recolhe à verdade que recebeu e permite que essa verdade ordene sua interioridade. O momento presente torna-se fecundo quando não é simplesmente consumido, mas habitado com consciência diante de Deus.

  Essa transformação exige responsabilidade. A semente é oferecida, mas a terra precisa ser acolhida em sua própria profundidade. A pessoa não determina a origem da Palavra, mas responde pelo modo como a recebe. Há uma responsabilidade interior diante da verdade. Aquilo que Deus comunica não elimina a participação da pessoa, mas solicita sua adesão consciente, sua perseverança e sua capacidade de permanecer diante daquilo que reconheceu como verdadeiro.

  Também a família encontra aqui uma dimensão profundamente espiritual. Antes de ser uma realidade organizada exteriormente, ela nasce de pessoas que aprendem a receber, guardar e transmitir aquilo que reconhecem como essencial. A maturidade de cada pessoa repercute na qualidade das relações que estabelece, porque ninguém oferece ao outro uma profundidade que não procura cultivar dentro de si. Quando a Palavra encontra espaço no coração, ela alcança também a maneira de amar, de permanecer, de cuidar e de construir comunhão.

  A terra boa não é aquela que não conhece dificuldades. É aquela que não permite que as dificuldades determinem sua profundidade. A perseverança mencionada por Cristo não significa simplesmente suportar a passagem dos acontecimentos. Significa permanecer unido à verdade recebida enquanto o próprio ser amadurece sob sua ação. O fruto nasce dessa fidelidade interior, desse consentimento contínuo àquilo que conduz a existência para sua realização.

  Cristo não lança sua Palavra para acrescentar mais um conhecimento àquilo que já sabemos. Ele a lança para alcançar aquilo que somos. Sua Palavra penetra a interioridade e revela que a existência possui uma direção mais profunda do que a sucessão dos acontecimentos. O ser começa a reconhecer sua origem, compreende melhor seu sentido e percebe que a plenitude não está na dispersão de si, mas na integração de tudo aquilo que é diante daquele de quem recebeu a existência.

  Por isso, o Evangelho termina com a imagem do fruto. A Palavra acolhida não permanece invisível para sempre. Ela transforma a existência até que aquilo que foi recebido interiormente se manifeste na maneira de viver. O fruto é a expressão exterior de uma realidade amadurecida no silêncio do ser. A presença de Cristo torna-se então uma realidade vivida, não apenas conhecida.

  Que a nossa escuta não permaneça na superfície. Que a Palavra encontre em nós profundidade suficiente para ser conservada, maturada e realizada. E que cada instante diante de Deus se torne espaço de acolhimento, até que nossa existência manifeste, com simplicidade e inteireza, o fruto daquela Palavra que desde a origem nos chama à plenitude.


TEOLOGIA

Explicação Teológica

  “Est autem hæc parabola. Semen est verbum Dei.” (Lucas 8,11)

  “Esta é a significação da parábola. A semente é a Palavra de Deus.” (Lucas 8,11)

A Palavra como iniciativa divina

  A parábola do semeador revela primeiramente que a iniciativa pertence a Deus. A semente não nasce da terra, mas é lançada sobre ela. A Palavra precede a resposta humana, porque Deus se comunica antes que a pessoa consiga procurá-lo plenamente. Cristo não apresenta a Palavra como simples conhecimento religioso, mas como realidade viva que procede de Deus e alcança o interior da pessoa.

  Quando Jesus identifica a semente com a Palavra de Deus, estabelece uma relação profunda entre revelação e existência. Deus não apenas transmite uma informação sobre si mesmo. Sua Palavra comunica uma verdade que possui força transformadora. Recebê-la significa entrar em relação com aquele que fala. A Palavra possui, portanto, uma dimensão pessoal, porque encontra a pessoa em sua interioridade e a chama a uma resposta diante de Deus.

Cristo e a realização da Palavra

  A Palavra encontra sua expressão plena em Cristo. Ele não é apenas aquele que anuncia a Palavra, mas aquele em quem a Palavra divina se torna presente de modo perfeito na história humana. Por isso, escutar Cristo significa acolher uma presença que ilumina a origem e o destino da existência.

  A parábola mostra que a eficácia da Palavra não deve ser confundida com uma ação automática. A graça é oferecida por Deus, mas sua fecundidade na pessoa envolve acolhimento, permanência e perseverança. A ação divina não transforma o ser humano em realidade passiva. A graça alcança a pessoa e desperta nela uma resposta consciente, pela qual aquilo que recebeu começa a configurar sua existência.

A interioridade como lugar da fé

  Os diferentes terrenos indicam diferentes profundidades de acolhimento. O problema não está na semente, que permanece a mesma, mas na disposição daquele que a recebe. A Palavra possui sua integridade, sua verdade e sua origem divina. A diferença acontece no modo como ela encontra a interioridade humana.

  A fé, nesse contexto, não consiste apenas em admitir exteriormente determinadas verdades. Ela envolve uma adesão interior pela qual a verdade recebida começa a ordenar a existência. O coração torna-se fecundo quando deixa de ser apenas receptor momentâneo e passa a conservar aquilo que recebeu. A Palavra permanece, e sua permanência permite que a pessoa seja progressivamente formada por ela.

O amadurecimento do ser

  O Evangelho associa a fecundidade à perseverança. Essa relação possui profundo significado teológico. A ação de Deus não precisa ser reduzida àquilo que aparece imediatamente. Existe uma maturação interior pela qual a verdade recebida penetra gradualmente todas as dimensões da pessoa.

  A plenitude cristã não consiste em acumular experiências espirituais, mas em permitir que a presença de Deus alcance a totalidade do ser. O amadurecimento acontece quando a pessoa passa de uma relação exterior com a Palavra para uma comunhão interior com aquilo que Deus lhe comunica. O conhecimento torna-se vida, a escuta torna-se permanência e a permanência torna-se fruto.

A verdade recebida e a responsabilidade pessoal

  A parábola também revela a responsabilidade da pessoa diante da graça. Cristo oferece a Palavra, mas cada pessoa precisa recebê-la no interior de sua própria existência. A resposta não pode ser delegada. Existe uma responsabilidade espiritual diante da verdade que Deus comunica.

  Essa responsabilidade não significa autossuficiência. Pelo contrário, quanto mais profundamente a pessoa reconhece a origem divina da Palavra, mais compreende que sua própria realização depende de permanecer aberta à ação de Deus. A resposta humana participa da obra da graça sem substituir a iniciativa divina. Deus chama, a pessoa acolhe, permanece e deixa que aquilo que recebeu produza fruto.

A pessoa e a família diante de Deus

  A dimensão pessoal da parábola também alcança a família, porque a vida familiar nasce do encontro entre pessoas que carregam em sua interioridade aquilo que receberam e escolheram conservar. A família possui uma dimensão espiritual quando se torna espaço no qual a verdade, a fé e a presença de Deus podem ser acolhidas e transmitidas.

  A dignidade da pessoa não depende de sua produtividade nem de sua aparência exterior. Ela encontra fundamento mais profundo em sua origem diante de Deus e em sua capacidade de acolher uma verdade que a conduz à plenitude. A família participa dessa realidade quando reconhece em cada pessoa uma existência que não pode ser reduzida ao imediato, mas que possui uma vocação interior diante de Deus.

O instante diante da eternidade

  A Palavra alcança a pessoa no instante concreto de sua existência. É nesse instante que Deus chama, ilumina e oferece sua presença. O encontro com Deus não precisa ser procurado apenas em uma realidade distante da vida. A eternidade pode tocar a existência quando o presente é acolhido diante daquele que é sua origem e seu fundamento.

  Por isso, o instante não é espiritualmente vazio. Ele pode tornar-se lugar de acolhimento, de decisão interior e de realização. Quando a pessoa recebe a Palavra e permanece nela, o momento presente deixa de ser apenas passagem e adquire uma profundidade que ultrapassa sua duração exterior. O eterno não é simplesmente aquilo que virá depois do tempo, mas aquilo cuja presença pode dar ao instante sua verdadeira densidade.

A plenitude como fruto da Palavra

  A terra boa representa a pessoa que escuta, conserva e produz fruto. A sequência é teologicamente significativa. Primeiro existe a escuta, depois a permanência e finalmente a fecundidade. A vida espiritual não se completa no primeiro contato com a verdade. Ela alcança sua maturidade quando aquilo que foi recebido passa a constituir interiormente a própria existência.

  O fruto manifesta exteriormente uma transformação que começou no interior. A pessoa não se torna outra realidade pela simples acumulação de conhecimentos, mas pela assimilação profunda da Palavra. A presença de Cristo vai penetrando sua inteligência, sua vontade, seus afetos e suas escolhas, até que sua existência inteira adquira uma orientação nova.

  A parábola do semeador conduz, assim, ao centro da relação entre Deus e a pessoa humana. Deus oferece sua Palavra, Cristo a torna presente, a graça sustenta sua ação e a pessoa é chamada a acolhê-la no íntimo. A plenitude não consiste em possuir simplesmente a Palavra, mas em permitir que ela alcance o ser inteiro e produza fruto.

  A terra boa é, finalmente, aquela interioridade que permanece aberta à presença de Deus. Nela, a Palavra não desaparece depois de ser ouvida. Ela permanece, amadurece e se realiza. O instante em que é acolhida torna-se início de uma transformação que conduz o ser de volta à sua origem e o orienta para a plenitude para a qual foi criado.


FILOSOFIA

A profundidade onde a Palavra amadurece

[Lucas 8,4-15]

A Palavra e a origem

  A parábola do semeador apresenta uma realidade que ultrapassa a simples relação entre ouvir e obedecer. Em Lucas 8,4-15, Cristo revela que a Palavra possui uma origem que não está no homem e que, ao ser acolhida, introduz no interior da existência uma possibilidade de transformação. A semente vem antes do fruto, assim como aquilo que deve tornar-se plenamente manifesto já possui uma origem que o precede.

  A Palavra é lançada. Esse gesto contém uma realidade fundamental. O que procede de Deus entra na sucessão da existência sem deixar de pertencer à sua origem. O eterno não precisa abandonar sua natureza para alcançar o instante. Ele pode tocar o que passa sem se reduzir àquilo que passa. A Palavra entra no tempo sem perder a profundidade de onde procede.

  Por isso, a semente não representa simplesmente algo que será acrescentado ao ser humano. Ela traz consigo uma potência de realização. Ao encontrar a interioridade, inicia-se uma relação entre aquilo que vem da origem e aquilo que está destinado a manifestá-lo. O ser recebe uma presença que não lhe é exterior apenas porque chega de fora. Ela alcança uma profundidade na qual aquilo que foi recebido pode tornar-se princípio de transformação.

A terra como profundidade do ser

  Cristo distingue os terrenos porque nem toda recepção possui a mesma profundidade. A diferença não está na Palavra, que permanece íntegra, mas na capacidade de acolhimento daquilo que a recebe. O caminho representa a superfície onde a semente não encontra profundidade suficiente para penetrar. A pedra recebe o início da vida, mas não oferece densidade para sustentá-la. Os espinhos permitem que a semente esteja presente, mas a envolvem até impedir sua manifestação.

  A terra boa introduz uma dimensão diferente. Nela, a Palavra é recebida, conservada e conduzida à maturação. Existe um interior capaz de acolher sem dissolver, de permanecer sem precipitar e de amadurecer sem exigir manifestação imediata. A fecundidade nasce dessa profundidade.

  O que acontece interiormente possui uma temporalidade própria. A semente não se torna fruto por um salto exterior. Existe uma passagem silenciosa pela qual aquilo que foi acolhido começa a organizar sua própria realização. A transformação verdadeira não se identifica com aquilo que aparece primeiro. Antes da manifestação existe uma formação invisível, uma concentração do ser em torno daquilo que recebeu.

O silêncio da formação

  A parábola permite compreender que o silêncio não é ausência de acontecimento. Existe uma atividade profunda que não precisa aparecer para ser real. O que amadurece permanece, durante certo período, oculto à percepção exterior. Sua invisibilidade não significa inexistência. Significa que sua realidade ainda pertence à profundidade de onde a manifestação nascerá.

  Assim também acontece com a Palavra no interior humano. Sua presença pode preceder durante muito tempo aquilo que ela produzirá exteriormente. O instante em que é ouvida contém mais do que sua aparência imediata. Nele começa uma relação entre presença e realização, entre origem e manifestação, entre aquilo que foi recebido e aquilo que poderá tornar-se.

  A sucessão dos momentos não esgota o significado do que acontece em cada momento. Um instante pode receber uma profundidade que não se mede pela sua duração. Quando a Palavra encontra interioridade, o momento deixa de ser apenas uma passagem cronológica e torna-se participação em uma realidade que o ultrapassa.

A presença que gera

  A presença divina não se manifesta somente como algo que aparece diante do ser. Ela atua como princípio interior de geração. Deus não apenas encontra a criatura no ponto em que ela está. Sua presença sustenta a possibilidade de que aquilo que foi criado alcance a plenitude de sua própria realização.

  Nesse sentido, receber a Palavra é permitir que uma origem superior alcance a interioridade e nela inaugure um processo de formação. A Palavra não destrói aquilo que a pessoa é. Ela conduz o ser à verdade mais profunda de sua própria existência. O amadurecimento não consiste em abandonar a própria identidade, mas em permitir que ela seja conduzida à sua forma mais plena.

  Existe, portanto, uma correspondência entre origem e destino. Aquilo que procede de uma origem possui uma direção interior. A criatura não encontra sua plenitude na dispersão de suas possibilidades, mas na realização daquilo para o qual foi chamada a existir. A Palavra revela essa direção porque traz consigo uma verdade capaz de ordenar o ser a partir de sua origem.

O instante e a eternidade

  A parábola torna possível compreender de maneira mais profunda a relação entre o instante e aquilo que não passa. A semente é lançada em um momento determinado, mas o que nela se inicia não se limita à duração desse momento. O instante contém uma possibilidade cuja realização se prolonga.

  Existe, assim, uma profundidade no presente que não pode ser reduzida ao relógio. O momento em que a Palavra é acolhida pode conter o princípio de uma transformação que somente mais tarde se tornará visível. A eternidade toca a sucessão não porque se torne sucessiva, mas porque pode estar presente naquilo que acontece dentro dela.

  O presente adquire então uma densidade nova. Ele não é apenas o ponto entre um passado que desapareceu e um futuro que ainda não chegou. Pode ser o lugar em que a origem se comunica e em que o destino começa a tornar-se presente. O instante recebe uma profundidade que ultrapassa sua duração porque nele pode acontecer uma verdadeira geração do ser.

A manifestação como fruto

  O fruto não é algo acrescentado artificialmente à semente. Ele é a manifestação de uma realidade que já estava presente em princípio. Aquilo que aparece no exterior possui sua origem em um processo que começou no interior. O fruto torna visível uma maturação que permaneceu durante certo tempo oculta.

  Por isso, a passagem de Lucas não apresenta a transformação como uma ruptura arbitrária da existência. Ela revela uma continuidade profunda entre origem, acolhimento, formação e manifestação. A Palavra recebida gera uma nova configuração interior, e essa configuração encontra posteriormente sua expressão na existência.

  O fruto é, portanto, a verdade da semente manifestada. Quando a Palavra alcança sua realização, o que aparece não é algo estranho ao que foi recebido. É a expressão amadurecida de uma presença que encontrou profundidade suficiente para gerar forma.

A plenitude da realização

  A terra boa não é simplesmente aquela que recebe a Palavra. É aquela que permite que a Palavra percorra todo o caminho de sua realização. Existe uma diferença entre possuir uma verdade e ser formado por ela. A primeira pode permanecer exterior. A segunda alcança a estrutura profunda do ser.

  A plenitude acontece quando origem, interioridade e manifestação deixam de estar dispersas. Aquilo que a pessoa recebe encontra espaço para amadurecer, aquilo que amadurece encontra forma e aquilo que se manifesta revela a verdade de sua origem. A existência alcança sua unidade quando aquilo que é interiormente reconhecido pode tornar-se realidade vivida.

  Em Lucas 8,4-15, Cristo apresenta a Palavra como princípio de uma geração interior que conduz à manifestação. A semente procede de Deus, encontra a terra humana, atravessa o silêncio da maturação e finalmente produz fruto. Nesse movimento está contida uma visão profunda da existência. O ser não se realiza simplesmente porque passa pelo tempo, mas porque acolhe aquilo que pode dar ao seu próprio tempo uma direção, uma profundidade e um sentido.

  A Palavra permanece como presença originária no interior daquele que a acolhe. Ela não elimina o tempo da formação, mas habita sua profundidade. E quando chega à plenitude de sua manifestação, aquilo que estava oculto torna-se visível como fruto, revelando que o que verdadeiramente nasce no interior já traz consigo a direção de sua própria realização.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

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