“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Acclamatio ad Evangelium
Hb 4,12
R. Alleluia, alleluia, alleluia.
V. Vivus est enim sermo Dei et efficax,
et penetrabilior omni gladio ancipiti,
et pertingens usque ad divisionem animae ac spiritus,
compagum quoque ac medullarum,
et discretor cogitationum et intentionum cordis.
R. Alleluia, alleluia, alleluia.
Aclamação ao Evangelho
Hb 4,12
R. Aleluia, aleluia, aleluia.
V. A palavra de Deus é viva e eficaz.
Ela penetra mais profundamente que qualquer espada de dois gumes,
alcançando a divisão da alma e do espírito,
das articulações e das medulas,
e discernindo os pensamentos e as intenções do coração.
R. Aleluia, aleluia, aleluia.
O ser é chamado a discernir o essencial no instante, permanecendo fiel à verdade que transcende a forma e conduz sua existência à plenitude.
Proclamatio Sancti Evangelii secundum Matthaeum XXIII, XXIII-XXVI
XXIII
Væ vobis scribæ et pharisæi hypocritæ, qui decimatis mentham, et anethum, et cyminum, et reliquistis quæ graviora sunt legis, judicium, et misericordiam, et fidem! hæc oportuit facere, et illa non omittere.
23. Ai de vós, escribas e fariseus, porque cuidais minuciosamente das pequenas coisas e deixais de lado aquilo que possui maior profundidade na Lei, o discernimento, a misericórdia e a fé. Era necessário praticar estas coisas sem abandonar aquelas, para que a existência permanecesse unificada diante da verdade.
XXIV
Duces cæci, excolantes culicem, camelum autem glutientes.
24. Guias cegos, que filtram o menor detalhe, mas deixam passar aquilo que é imenso. Assim, o olhar que se prende ao exterior pode perder a verdade que se revela no interior.
XXV
Væ vobis scribæ et pharisæi hypocritæ, quia mundatis quod deforis est calicis et paropsidis; intus autem pleni estis rapina et immunditia!
25. Ai de vós, escribas e fariseus, porque purificais apenas o exterior do cálice e do prato, enquanto interiormente permaneceis repletos de desordem e impureza. A aparência pode ser corrigida, mas somente a transformação interior restaura a unidade do ser.
XXVI
Pharisæe cæce, munda prius quod intus est calicis, et paropsidis, ut fiat id, quod deforis est, mundum.
26. Fariseu cego, purifica primeiro o interior do cálice e do prato, para que também o exterior se torne verdadeiramente puro. Quando o centro do ser encontra sua ordem, aquilo que se manifesta exteriormente recebe dela sua clareza.
Verbum Domini
Reflexão
O instante revela aquilo que habita silenciosamente o interior.
A verdade não necessita de aparência para permanecer verdadeira.
O discernimento ordena a alma diante do que é essencial.
A consciência amadurece quando contempla além das formas.
Aquele que domina seus impulsos encontra firmeza interior.
A razão serena reconhece o bem que permanece além das circunstâncias.
A purificação interior transforma naturalmente aquilo que se manifesta.
Assim, a existência encontra sua unidade diante do Eterno.
Versículo mais importante:
Væ vobis, scribæ et pharisæi hypocritæ, qui decimatis mentham, et anethum, et cyminum, et reliquistis quæ graviora sunt legis, judicium, et misericordiam, et fidem! Hæc oportuit facere, et illa non omittere. (Matthaeus XXIII, XXIII)
Ai de vós, escribas e fariseus, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas deixais de lado aquilo que é mais profundo na Lei, o discernimento, a misericórdia e a fé. Era necessário praticar estas coisas, sem, contudo, abandonar aquelas, para que a existência permanecesse íntegra diante da verdade. (Mateus 23,23)
HOMILIA
A pureza que nasce do interior
Quando a alma reconhece a verdade que a habita, o instante deixa de ser apenas passagem e se torna lugar de encontro com aquilo que permanece.
O Evangelho de Mateus nos conduz ao centro invisível da existência. Jesus não condena o cuidado com as pequenas coisas, nem despreza os gestos exteriores que expressam a fé. O que Ele revela é uma desordem mais profunda, aquela que acontece quando a forma permanece correta, enquanto o interior se distancia de sua origem.
Por isso, suas palavras alcançam diretamente o coração. O ser humano pode organizar aquilo que aparece aos olhos, pode aperfeiçoar comportamentos e preservar cuidadosamente determinadas práticas, mas nenhuma exterioridade consegue substituir a verdade interior. Aquilo que somos diante de Deus não se reduz ao que conseguimos apresentar diante dos outros.
Jesus afirma que era necessário praticar certas coisas sem abandonar aquelas que possuem maior profundidade. Há nessa palavra uma ordem essencial. A existência não deve fragmentar aquilo que pertence à sua unidade. O gesto exterior precisa nascer de uma interioridade verdadeira, assim como a expressão visível deve conservar a verdade daquilo que permanece oculto.
A purificação, portanto, começa no interior. Antes de transformar aquilo que se manifesta, é necessário permitir que a consciência seja iluminada em sua profundidade. O coração que reconhece a verdade começa a ordenar seus pensamentos, seus desejos e suas escolhas segundo uma medida superior à instabilidade das circunstâncias.
Nesse movimento acontece uma transformação silenciosa. O ser deixa de viver disperso entre aparências e começa a reunir sua existência em torno de um centro. A consciência já não é conduzida apenas pela sucessão dos acontecimentos, porque aprende a reconhecer, dentro do instante, uma presença que não passa.
É nesse ponto que a dignidade da pessoa revela sua profundidade. Cada ser humano possui uma interioridade que não pode ser reduzida às aparências, às funções ou às circunstâncias. A pessoa é chamada a tornar-se aquilo que, em sua profundidade, recebeu como possibilidade de plenitude.
Também a família encontra aqui sua verdade mais elevada. Antes de ser uma realidade exterior, ela é uma comunhão de pessoas que aprendem a formar interiormente um espaço de fidelidade, cuidado e permanência. Quando cada pessoa procura purificar o próprio coração, a convivência deixa de depender somente das aparências e passa a receber sua força de uma verdade interior compartilhada.
O Evangelho também nos ensina que a consciência não deve permanecer prisioneira do imediato. Existe uma dimensão mais profunda na qual cada decisão pode ser iluminada por aquilo que não passa. O instante, quando acolhe essa dimensão, deixa de ser mera sucessão e adquire uma profundidade nova.
Por isso, Cristo chama de cegueira a incapacidade de distinguir o essencial do secundário. O cego não é somente aquele que não vê exteriormente, mas aquele que perdeu a capacidade de reconhecer a ordem interior das coisas. Pode enxergar inúmeras formas e, ainda assim, não perceber a verdade que lhes dá sentido.
A verdadeira purificação acontece quando o interior se torna transparente à verdade. Então o exterior não precisa ser abandonado, mas passa a receber sua justa medida. O gesto torna-se expressão da consciência, a palavra nasce da verdade e a existência começa a manifestar aquilo que anteriormente era cultivado no silêncio.
Assim, o ensinamento de Jesus não nos conduz para longe do mundo, mas para mais profundamente dentro de nós mesmos, onde cada pessoa encontra o lugar secreto de sua decisão diante de Deus. É ali que o coração aprende a distinguir aquilo que apenas passa daquilo que permanece.
O Evangelho nos convida, finalmente, a uma existência unificada. Não basta parecer puro, é necessário permitir que a fonte interior seja purificada. Não basta conhecer a verdade, é necessário deixar que ela ordene a própria existência. Não basta atravessar o instante, é necessário acolher nele a presença do Eterno.
Quando isso acontece, o ser humano começa a viver de outra maneira. O tempo exterior continua seu curso, mas a consciência encontra um centro que não se dissolve com ele. E aquilo que nasce dessa profundidade alcança naturalmente os pensamentos, as palavras, os gestos e todas as relações que constituem a vida.
Que Cristo nos conceda um coração capaz de reconhecer o essencial, uma consciência capaz de permanecer diante da verdade e uma existência cuja exterioridade seja expressão fiel daquilo que, em silêncio, foi purificado no interior.
TEOLOGIA
A unidade interior diante de Deus
O coração humano encontra sua verdade quando aquilo que realiza exteriormente nasce de uma ordem interior iluminada pela presença de Deus.
O sentido da palavra de Cristo
(Matthaeus XXIII, XXIII)
Ai de vós, escribas e fariseus, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas deixais de lado aquilo que é mais profundo na Lei, o discernimento, a misericórdia e a fé. Era necessário praticar estas coisas, sem, contudo, abandonar aquelas, para que a existência permanecesse íntegra diante da verdade. (Mateus 23,23)
A palavra de Cristo não deve ser compreendida como uma rejeição das práticas religiosas exteriores. O Senhor não condena a fidelidade à Lei nem considera insignificantes os atos concretos de devoção. Sua advertência alcança algo muito mais profundo. Ele denuncia a possibilidade de uma pessoa cumprir exteriormente determinadas prescrições e, ao mesmo tempo, permitir que o coração se afaste daquilo que dá sentido a todas elas.
A questão fundamental está, portanto, na unidade do ser. A prática exterior possui verdadeiro valor quando procede de uma consciência orientada para Deus. Quando o gesto religioso se separa da verdade interior, ele pode conservar sua aparência e, contudo, perder sua finalidade espiritual.
A ordem das coisas essenciais
Jesus menciona o dízimo da hortelã, do endro e do cominho. São elementos pequenos diante das exigências mais profundas da Lei. O problema não está em cuidar dessas pequenas obrigações, mas em transformar o secundário em absoluto e deixar de reconhecer aquilo que possui maior peso diante de Deus.
O Senhor estabelece uma ordem. O discernimento, a misericórdia e a fé não anulam as práticas exteriores, mas lhes conferem seu verdadeiro significado. O que é exterior deve permanecer unido ao que é interior. O gesto precisa conservar sua raiz espiritual para que não se transforme em mera formalidade.
Existe aqui uma pedagogia divina da interioridade. Deus não olha apenas para aquilo que a pessoa realiza, mas para a disposição pela qual ela realiza. A ação recebe sua profundidade da intenção que a anima e da verdade que orienta a consciência.
A fé como princípio de integração
A fé não é simplesmente uma afirmação intelectual sobre Deus. Ela constitui uma orientação fundamental do ser diante daquele que é reconhecido como origem e finalidade de toda existência. Por isso, quando a fé se torna verdadeiramente interior, ela começa a ordenar pensamentos, desejos, escolhas e ações.
A pessoa deixa então de viver dividida entre aquilo que afirma e aquilo que realiza. A fé procura tornar-se existência. O que é contemplado interiormente deseja manifestar-se exteriormente, não como aparência, mas como consequência natural de uma transformação profunda.
A unidade entre fé e vida constitui uma das grandes exigências do Evangelho. Cristo não procura apenas discípulos que conheçam suas palavras, mas pessoas cuja existência seja progressivamente conformada à verdade que essas palavras revelam.
O discernimento como iluminação da consciência
O discernimento mencionado no ensinamento de Cristo pressupõe uma consciência capaz de distinguir o essencial do secundário. Não se trata simplesmente de escolher entre coisas boas e más, mas de reconhecer a ordem correta entre aquilo que possui diferentes graus de importância.
A consciência precisa aprender a perceber o que conduz ao centro e o que permanece apenas na periferia. Essa capacidade exige silêncio interior, atenção e disposição para deixar que a verdade corrija aquilo que se encontra desordenado.
O discernimento espiritual impede que a pessoa transforme meios em fins. As práticas religiosas são caminhos pelos quais o ser humano se volta para Deus. Quando o caminho passa a ocupar o lugar da própria finalidade, a prática permanece exteriormente correta, mas perde sua capacidade de conduzir o coração à profundidade para a qual foi destinada.
A misericórdia como manifestação da verdade
A misericórdia aparece no ensinamento de Cristo como expressão de uma verdade que não permanece abstrata. Quem reconhece a realidade de Deus começa a compreender também a dignidade da pessoa humana como criatura chamada à plenitude.
A misericórdia não significa relativizar a verdade. Ao contrário, ela nasce quando a verdade é contemplada em sua profundidade e aplicada ao ser humano com sabedoria. Ela reconhece a fragilidade sem transformar a fragilidade em destino e corrige sem destruir a pessoa que precisa ser corrigida.
Por isso, a misericórdia pertence ao movimento interior da alma. Ela nasce quando o coração deixa de ser governado exclusivamente pelo julgamento imediato e aprende a olhar a pessoa à luz de uma realidade mais profunda.
A purificação do interior
O contexto desse ensinamento alcança seu desenvolvimento nos versículos seguintes, quando Cristo fala da purificação do interior do cálice. A imagem é extremamente significativa. O exterior não é ignorado, mas sua verdadeira qualidade depende daquilo que existe dentro.
A transformação cristã começa no coração porque é dali que procedem as intenções, os pensamentos e as escolhas. O ser humano pode modificar sua aparência em pouco tempo, mas sua conversão exige uma obra interior mais profunda.
Essa purificação não acontece por mera força humana. Ela pressupõe a ação da graça e a resposta consciente da pessoa. Deus ilumina, chama e sustenta, enquanto o ser humano acolhe essa ação e permite que sua existência seja progressivamente ordenada pela verdade.
A dignidade da pessoa diante do mistério
A palavra de Cristo também revela uma compreensão elevada da pessoa humana. Cada pessoa possui uma interioridade diante de Deus que não pode ser reduzida àquilo que aparece exteriormente. Há uma profundidade no ser que somente Deus conhece plenamente.
Essa interioridade constitui o lugar da resposta pessoal ao chamado divino. Ninguém pode realizar por outra pessoa aquilo que pertence à decisão íntima da consciência. A fé pode ser ensinada, testemunhada e recebida em uma comunidade, mas sua adesão mais profunda acontece no interior da pessoa.
É nesse espaço interior que o ser humano se abre à verdade e começa a ordenar sua existência segundo aquilo que reconhece como bem supremo. A dignidade da pessoa encontra, assim, uma dimensão espiritual que ultrapassa qualquer aparência ou circunstância.
A família como espaço de formação interior
Essa compreensão também ilumina a vida familiar. A família não é apenas uma estrutura exterior de convivência, mas um espaço privilegiado no qual a pessoa aprende a verdade, a fidelidade, a responsabilidade e o cuidado.
Quando a vida interior é cultivada, a família pode tornar-se lugar de formação da consciência e de transmissão da fé. O exemplo dos pais, a educação dos filhos, a oração e a fidelidade cotidiana participam dessa formação silenciosa.
A autenticidade familiar nasce quando aquilo que se ensina corresponde àquilo que se procura viver. A coerência entre palavra e existência possui uma força educativa que nenhuma explicação puramente intelectual consegue substituir.
A presença de Deus no interior do instante
O ensinamento de Cristo conduz finalmente a uma compreensão mais profunda da existência. Cada instante pode tornar-se ocasião de encontro com Deus quando a consciência permanece aberta à verdade. O tempo exterior passa, mas a pessoa pode acolher, dentro de cada momento, uma dimensão que não se reduz à sucessão dos acontecimentos.
Nesse sentido, a vida espiritual não consiste apenas em esperar uma realidade futura. Ela começa na transformação do presente interior. O coração que se volta para Deus aprende a reconhecer sua presença no próprio instante em que vive.
A eternidade não precisa ser confundida com a duração indefinida do tempo. Ela pertence a uma ordem mais profunda do ser. Quando a consciência se abre a essa realidade, cada momento pode adquirir uma densidade espiritual que ultrapassa sua simples passagem.
A unidade entre interior e exterior
O ensinamento de Mateus 23,23 pode ser resumido pela necessidade de conservar unidos o interior e o exterior. Cristo não pede que abandonemos as práticas concretas, mas que elas permaneçam enraizadas naquilo que é essencial.
A verdadeira vida espiritual não despreza os gestos, porque o ser humano também se expressa por meio deles. Entretanto, os gestos precisam nascer de uma verdade interior. Quando isso acontece, a prática religiosa deixa de ser aparência e torna-se manifestação de uma consciência transformada.
Assim, o ensinamento de Cristo permanece profundamente atual para toda alma que deseja crescer na vida espiritual. A pergunta fundamental não é apenas aquilo que fazemos, mas aquilo que está se tornando o nosso interior enquanto fazemos.
A verdade que permanece
Cristo chama o ser humano a uma existência íntegra, na qual a fé, o discernimento e a misericórdia ocupem seu lugar próprio e iluminem todas as demais práticas.
O Evangelho revela que Deus não deseja apenas uma aparência ordenada, mas um coração verdadeiramente orientado para Ele. A purificação interior transforma progressivamente o modo de pensar, de escolher e de agir.
Quando o interior encontra sua ordem diante de Deus, o exterior começa a receber dessa ordem sua verdadeira forma. Então a existência deixa de ser dividida entre aparência e realidade e passa a manifestar, com maior fidelidade, aquilo que foi reconhecido e acolhido no mais profundo da consciência.
FILOSOFIA
A interioridade como lugar de gestação do ser
A palavra de Cristo em Mateus 23,23 revela uma realidade que ultrapassa a simples distinção entre práticas exteriores e disposições interiores. O ensinamento alcança a própria estrutura do ser humano, mostrando que toda manifestação verdadeira nasce de uma profundidade anterior, silenciosa e invisível.
O ser não começa naquilo que aparece. Antes de tornar-se gesto, palavra ou decisão, ele permanece como possibilidade interior, recolhido em uma dimensão na qual aquilo que ainda não se manifestou já possui uma orientação para a manifestação. A existência exterior é, nesse sentido, fruto de uma realidade interior que a precede.
A gestação invisível da verdade
Quando Cristo afirma que era necessário praticar determinadas coisas sem abandonar aquelas, Ele estabelece uma ordem entre profundidade e manifestação. O essencial não pode ser sacrificado em favor do aparente, porque aquilo que possui verdadeira primazia é justamente aquilo que sustenta tudo o que posteriormente se manifesta.
Há, no interior da pessoa, uma espécie de espaço originário onde pensamentos, intenções e decisões amadurecem antes de alcançar a forma visível. Esse espaço não é simplesmente psicológico. Ele toca a própria dimensão ontológica da pessoa, onde o ser se encontra diante da verdade e recebe dela sua orientação.
Assim como uma realidade viva pode permanecer invisível enquanto se forma, também uma transformação espiritual pode acontecer silenciosamente antes que seus efeitos sejam percebidos. O silêncio interior não significa ausência. Muitas vezes, significa justamente a presença de uma realidade em processo de formação.
O invisível como origem do visível
A crítica de Cristo à exterioridade separada do interior revela uma lei profunda da existência. O que aparece precisa possuir uma origem correspondente. Quando a aparência se separa da origem, surge uma ruptura entre aquilo que o ser manifesta e aquilo que verdadeiramente é.
A pureza exterior, portanto, não constitui a origem da transformação. Ela é consequência. Primeiro acontece uma ordenação interior; depois, aquilo que foi ordenado começa a manifestar-se na vida.
Por isso, Cristo desloca o olhar para dentro. Ele não está simplesmente pedindo uma mudança comportamental, mas revelando que a transformação autêntica precisa alcançar a fonte da qual procedem os pensamentos, as intenções e os atos.
O coração como centro originário
Na linguagem bíblica, o coração não representa apenas o campo das emoções. Ele designa o centro profundo da pessoa, o lugar onde se encontram inteligência, vontade, intenção e orientação fundamental da existência.
Quando Cristo fala das intenções do coração, toca exatamente essa região originária. É nela que a pessoa começa a tornar-se aquilo que posteriormente será percebido em suas ações.
O coração pode ser compreendido como uma realidade interior em gestação. Nele, aquilo que ainda não possui forma exterior já começa a adquirir direção. Uma intenção cultivada repetidamente tende a transformar-se em disposição; a disposição, em hábito; o hábito, em modo de existir.
A transformação espiritual, portanto, precisa alcançar essa origem.
A fecundidade do instante
Existe uma profundidade no instante que não pode ser medida pela duração cronológica. Um momento exteriormente breve pode conter uma decisão capaz de modificar toda uma existência.
Quando a consciência acolhe a verdade, aquele instante deixa de ser apenas uma unidade sucessiva do tempo. Ele torna-se uma abertura para uma dimensão mais profunda, na qual o presente recebe sua orientação de uma realidade que o ultrapassa.
É nesse sentido que o instante pode ser fecundo. Ele não apenas passa. Pode gerar. Pode acolher uma decisão, uma conversão, uma compreensão ou uma entrega que posteriormente encontrará expressão em toda a existência.
O instante torna-se, então, um lugar de nascimento.
O princípio da geração interior
Toda transformação verdadeira possui uma origem. Antes que uma nova forma de existência apareça, algo precisa ser gerado no interior.
A pessoa que começa a contemplar a verdade ainda não apresenta necessariamente uma mudança exterior imediata. Entretanto, algo já começou a nascer. A consciência recebeu uma luz, a vontade encontrou uma direção e o ser começou a reorganizar-se silenciosamente.
Essa geração interior possui uma característica essencial. Ela acontece sem ruído. O que é mais profundo frequentemente amadurece longe da aparência, protegido do olhar exterior.
Por isso, a vida espiritual exige paciência. Nem toda transformação pode ser percebida imediatamente. Há realidades que precisam permanecer ocultas durante determinado período para alcançar sua maturidade.
O movimento da origem para a manifestação
A existência pode ser compreendida como um movimento que parte de uma origem invisível e alcança progressivamente a forma.
Pensamento, intenção, decisão, palavra e ação pertencem a diferentes momentos de uma mesma dinâmica interior. Quando existe unidade entre eles, a pessoa manifesta exteriormente aquilo que interiormente reconheceu como verdadeiro.
Quando essa unidade desaparece, a existência se fragmenta. A pessoa pode dizer uma coisa, desejar outra e realizar algo diferente. A forma continua existindo, mas perdeu sua correspondência com a origem.
Cristo chama essa ruptura de hipocrisia porque ela produz uma aparência sem verdadeira correspondência interior.
A purificação como nascimento de uma nova ordem
A purificação interior mencionada no Evangelho pode ser compreendida como uma reorganização do ser a partir de seu centro.
Não se trata apenas de eliminar aquilo que está errado. Trata-se de permitir que uma ordem superior ocupe o lugar da desordem. O vazio deixado por aquilo que foi superado precisa ser preenchido por uma orientação mais profunda.
A alma purificada começa a perceber de maneira diferente. Aquilo que antes parecia essencial pode revelar-se secundário. Aquilo que permanecia oculto pode adquirir importância. O olhar se transforma porque o centro a partir do qual se olha foi transformado.
A conversão é, portanto, uma mudança de origem.
A presença que não passa
Há uma diferença entre aquilo que simplesmente acontece e aquilo que possui fundamento no ser. Os acontecimentos pertencem à sucessão. A verdade, porém, pode ser contemplada como aquilo que permanece enquanto os acontecimentos passam.
Quando a consciência se orienta para essa permanência, o presente adquire outra profundidade. A pessoa deixa de receber sua identidade exclusivamente das circunstâncias e começa a reconhecê-la a partir de uma realidade interior mais estável.
Isso não significa abandonar o mundo exterior, mas compreender que a existência visível encontra sua verdadeira medida em uma realidade mais profunda.
O instante deixa de ser apenas passagem e torna-se encontro.
A dignidade do ser em formação
Cada pessoa carrega dentro de si possibilidades que ainda não alcançaram sua manifestação plena. Há uma dimensão de fecundidade no próprio ser humano que indica que sua existência não está encerrada naquilo que já realizou.
A pessoa é também aquilo que pode tornar-se.
Essa possibilidade não é mera construção arbitrária. Ela está vinculada à verdade profunda do ser e à sua capacidade de acolher aquilo que o conduz à plenitude. Por isso, a formação interior exige consciência, discernimento e perseverança.
O ser humano não é uma realidade acabada no sentido de uma existência sem movimento interior. Há nele uma capacidade permanente de amadurecimento, como se cada encontro verdadeiro com a luz pudesse gerar uma forma mais elevada de existência.
A unidade entre origem e destino
O ensinamento de Cristo conduz finalmente à união entre aquilo que está na origem e aquilo que aparece no destino da existência.
Quando a fonte interior é verdadeira, a manifestação tende a adquirir verdade. Quando o centro está ordenado, as ações começam progressivamente a receber essa ordem.
A verdadeira maturidade espiritual acontece quando o exterior já não precisa representar aquilo que o interior ainda não possui. O gesto simplesmente manifesta aquilo que foi gerado silenciosamente no coração.
Então a pessoa deixa de viver dividida.
Sua palavra nasce de sua consciência. Sua ação nasce de sua intenção. Sua intenção nasce de sua relação com a verdade. E sua existência começa a adquirir uma unidade que ultrapassa a simples sucessão dos momentos.
O mistério de uma existência que gera eternidade
O Evangelho apresenta, assim, uma realidade de extraordinária profundidade. O ser humano vive no tempo, mas sua interioridade pode acolher aquilo que ultrapassa o tempo.
Cada instante pode receber uma semente de eternidade. Cada decisão pode permitir que uma realidade invisível encontre forma. Cada ato interior de verdade pode iniciar uma transformação que somente mais tarde será plenamente percebida.
A existência torna-se fecunda quando acolhe aquilo que não passa.
E quando o interior se torna lugar de acolhimento, silêncio e transformação, aquilo que nasce na profundidade começa naturalmente a iluminar a forma exterior. O invisível gera o visível, o silêncio prepara a palavra e o instante torna-se espaço de nascimento para uma existência renovada diante do Eterno.
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