domingo, 8 de fevereiro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Evangelho: Marcos 7,1-13 - 10.02.2026

 Liturgia Diária


10 – TERÇA-FEIRA 

SANTA ESCOLÁSTICA


VIRGEM


(branco, pref. comum ou das virgens – ofício da memória)

“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Ego autem sicut oliva fructifera in domo Dei,
speravi in misericordia Dei in aeternum, et in saeculum saeculi.
(Psalmus 51 [52], 10)

Eu, porém, como oliveira sempre viva na Casa do Senhor,
permaneço enraizado na Misericórdia que não passa;
confio no meu Deus no Agora eterno,
no tempo sem declínio, no século dos séculos. (Salmo 51(52),10)


Escolástica, irmã de Bento e serva do Silêncio, elevou sua existência à altura do invisível, fazendo do claustro um espaço onde o ser se alinha ao Eterno. Nela, a oração não foi fuga do mundo, mas eixo interior que ordena todas as coisas. Como oliveira plantada junto à Casa divina, permaneceu firme, nutrida por seiva incorruptível. Sua vida ensinou que o espírito amadurece quando escolhe o bem por adesão consciente, não por imposição. Honremos, pois, esse recolhimento luminoso, cultivando um coração desperto, capaz de habitar o Agora imutável, onde cada ato se torna oferenda e presença diante do Mistério.



Evangelium secundum Marcum VII, I–XIII

I
Et conveniunt ad eum pharisaei et quidam de scribis, venientes ab Hierosolymis.
Reúnem-se diante do Mestre as vozes da antiga forma, trazendo o peso da memória e do costume, como pensamentos que retornam ao centro da consciência.

II
Et cum vidissent quosdam ex discipulis eius communibus manibus, id est non lotis, manducare panes, vituperaverunt.
Vendo mãos não purificadas, julgam a aparência, esquecendo que a raiz do homem não se mede pela superfície, mas pelo interior que sustenta o gesto.

III
Pharisaei enim et omnes Iudaei nisi crebro lavent manus non manducant, tenentes traditionem seniorum.
Seguem repetições herdadas, buscando segurança nos ritos, como se a repetição externa pudesse aquietar o vazio do coração.

IV
Et a foro nisi baptizentur non comedunt et alia multa sunt quae acceperunt servanda, baptismata calicum et urceorum et aeramentorum et lectorum.
Multiplicam purificações, lavando objetos e formas, enquanto o íntimo pede uma fonte mais alta, invisível e perene.

V
Et interrogant eum pharisaei et scribae quare discipuli tui non ambulant iuxta traditionem seniorum sed communibus manibus manducant panem.
Questionam o Caminho vivo, pois o espírito fixado na regra teme o sopro que renova todas as coisas.

VI
At ille respondens dixit eis bene prophetavit Isaias de vobis hypocritis sicut scriptum est populus hic labiis me honorat cor autem eorum longe est a me.
Ele revela a distância entre palavra e ser, lembrando que a verdadeira honra nasce do centro silencioso onde o homem se encontra com o Eterno.

VII
In vanum autem me colunt docentes doctrinas et praecepta hominum.
O culto vazio se dissipa como fumaça, pois ensinamentos sem verdade interior não atravessam a eternidade do instante.

VIII
Relinquentes enim mandatum Dei tenetis traditionem hominum baptismata urceorum et calicum et alia similia his facitis multa.
Ao apegar-se ao acessório, perde-se o essencial, e a alma se dispersa entre sombras quando abandona a fonte que a sustenta.

IX
Et dicebat illis bene irritum facitis praeceptum Dei ut traditionem vestram servetis.
O apego rígido anula o chamado mais alto, trocando a vida que pulsa por estruturas sem respiração.

X
Moyses enim dixit honora patrem tuum et matrem tuam et qui maledixerit patri vel matri morte moriatur.
A antiga lei recorda a ordem do ser, onde gratidão e reverência mantêm íntegra a harmonia do caminho humano.

XI
Vos autem dicitis si dixerit homo patri aut matri corban quod est donum quodcumque ex me tibi profuerit.
Contudo, criam palavras que desviam o sentido, transformando oferta em desculpa e afastando o cuidado concreto.

XII
Et ultra non dimittitis eum quidquam facere patri suo aut matri.
Assim, o coração se fecha, incapaz de agir com retidão, preso a justificativas que obscurecem a consciência.

XIII
Rescindentes verbum Dei per traditionem vestram quam tradidistis et similia huiusmodi multa facitis.
Ao romper a Palavra viva, multiplicam-se gestos ocos, mas a Verdade permanece, chamando cada ser ao recolhimento autêntico.

Verbum Domini

Reflexão:
No silêncio do coração cessa a disputa das formas
A pureza nasce de dentro como fonte que não se esgota
O gesto simples vale mais que a máscara elaborada
Quem vigia a si mesmo não se perde em aparências
A lei interior orienta cada passo com serenidade
O instante presente contém toda a plenitude do ser
Aceitar o real com firmeza dissipa a inquietação
Assim a vida torna-se oferta contínua diante do Inefável


Versículo mais importante:

VI
At ille respondens dixit eis: Bene prophetavit Isaias de vobis hypocritis, sicut scriptum est: Populus hic labiis me honorat, cor autem eorum longe est a me.

Ele, porém, responde e desvela o descompasso do ser: este povo eleva palavras, mas habita longe do próprio centro; pois só no coração recolhido o homem permanece diante do Eterno, onde o instante não passa e a presença se torna verdadeira adoração. (Mc 7,6)


HOMILIA

Pureza do coração e a morada do Eterno

No silêncio interior, cada instante se expande como plenitude, e o agir torna-se oferenda contínua.

Amados, o Evangelho nos conduz hoje ao limiar entre o gesto exterior e a verdade interior. Os fariseus lavam as mãos, purificam vasos, ordenam minúcias, mas o Senhor volta o olhar para um lugar mais profundo, onde nenhuma água toca e nenhuma forma alcança. Ali se decide o valor de cada ato. Ali nasce o culto verdadeiro.

A existência humana não se cumpre na repetição automática de costumes, mas no alinhamento silencioso do coração com o Bem que não muda. Quando a prática se separa da fonte, resta apenas aparência. Quando o interior se harmoniza com o Alto, até o gesto mais simples se torna sagrado.

O Cristo não rejeita a lei, mas a reconduz ao seu centro. Ele recorda que a Palavra viva precede toda tradição. A forma deve servir ao espírito, e não aprisioná-lo. A obediência autêntica não é peso, é consentimento lúcido ao que é justo. O homem amadurece quando age por adesão íntima ao verdadeiro, e não por temor ou hábito.

Por isso Ele denuncia a distância entre lábios e coração. A boca pode louvar enquanto a alma permanece dispersa. A presença divina, porém, só se manifesta onde há inteireza. Ser inteiro é reunir pensamento, afeto e ação numa mesma direção, como raiz, tronco e fruto participando de uma única seiva.

Nesse recolhimento, o tempo deixa de ser sucessão ansiosa e se torna plenitude. Cada instante contém a totalidade do sentido. O agora se abre como morada estável, onde o ser repousa no Eterno. A oração, então, não é fuga do mundo, mas permanência lúcida no fundamento de todas as coisas.

Também a família é guardiã desse fundamento. Honrar pai e mãe significa reconhecer a origem, acolher o dom da vida e preservar a dignidade do vínculo primeiro. Quando esse laço é respeitado, a pessoa aprende a responsabilidade, o cuidado e a fidelidade. O lar torna-se escola de interioridade, onde o caráter é talhado como pedra paciente sob a água.

Cada um de nós é chamado a esse caminho de depuração. Não a multiplicar regras, mas a purificar intenções. Não a exibir sinais, mas a cultivar retidão. O coração limpo é templo, e a consciência desperta é altar. Aí o Verbo encontra morada.

Peçamos, portanto, a graça de uma vida unificada. Que nossos atos brotem da fonte interior. Que nossa palavra corresponda ao que somos. E que, permanecendo recolhidos no Mistério, nos tornemos como oliveiras na Casa do Senhor, firmes, fecundos e silenciosamente luminosos.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

Mc 7,6
Ele, porém, responde e desvela o descompasso do ser este povo eleva palavras, mas habita longe do próprio centro pois só no coração recolhido o homem permanece diante do Eterno, onde o instante não passa e a presença se torna verdadeira adoração

A unidade entre palavra e ser

Quando o Senhor pronuncia essa advertência, Ele não corrige apenas um comportamento religioso imperfeito. Ele revela uma fratura ontológica. Os lábios se movem, mas o interior permanece disperso. Há som, mas não há consonância. A adoração, separada do centro vivo da pessoa, converte-se em eco vazio.

A palavra humana foi criada para expressar a verdade do que se é. Quando há ruptura entre linguagem e interioridade, o culto se torna teatro. A integridade, ao contrário, reúne pensamento, afeto e ação em uma única direção, fazendo da própria existência uma oração silenciosa.

O coração como santuário

Na tradição bíblica, o coração não é mero sentimento. Ele é o núcleo da consciência, a fonte das decisões, o lugar onde o homem encontra a si mesmo diante de Deus. É nesse espaço que a Palavra deve descer e criar morada.

Purificar o coração significa ordenar as intenções, retirar excessos, desfazer máscaras. Não se trata de acrescentar práticas, mas de remover o que obscurece a presença. Quando o interior se torna simples, o santuário se abre, e a alma reconhece a proximidade constante do Altíssimo.

A permanência diante do Eterno

O versículo indica ainda algo mais profundo. O homem pode viver disperso na sucessão apressada dos acontecimentos ou pode habitar um plano mais alto de presença. Nesse estado, cada instante se torna pleno, pois é sustentado por Aquele que não muda.

Assim, a adoração deixa de ser apenas um momento delimitado e torna-se condição contínua. Trabalhar, silenciar, servir e amar convertem-se em gestos que participam da mesma luz. O tempo já não é fuga, mas morada.

A purificação do culto

Cristo não elimina as formas sagradas. Ele as reconduz ao seu princípio. O rito existe para conduzir ao encontro interior. Quando esse encontro falta, a forma se esvazia. Quando o encontro acontece, até o menor gesto se transfigura.

O verdadeiro culto é a conformidade do ser com a vontade divina. É a retidão constante, a escolha do bem por adesão íntima, a fidelidade silenciosa que não necessita de exibição.

Aplicação litúrgica da vida

Na assembleia orante, cada fiel é chamado a esse recolhimento. Cantar, responder, ajoelhar-se e ouvir a Palavra são movimentos que devem brotar do íntimo reconciliado. A liturgia exterior espelha a liturgia secreta da alma.

Quando o coração permanece atento, toda a existência se torna altar. E o homem, reconciliado consigo mesmo e com Deus, permanece estável diante do Mistério, oferecendo não apenas palavras, mas a própria vida como louvor contínuo.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

Leia também:

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Salmo

Evangelho

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sábado, 7 de fevereiro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Evangelho: Marcos 6,53-56 - 09.02.2026

Liturgia Diária


9 – SEGUNDA-FEIRA 

5ª SEMANA DO TEMPO COMUM


(verde – ofício do dia)


“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Salmo 94 (95), 6–7 — Vulgata Clementina

Venite, adoremus, et procidamus ante Deum;
ploremus coram Domino, qui fecit nos:
quia ipse est Dominus Deus noster;
nos autem populus pascuae eius, et oves manus eius.

Tradução 

Vinde — entremos no Agora do Eterno —,
adoremos Aquele que é a Fonte do Ser,
prostremo-nos até que o eu silencie,
ajoelhemo-nos diante do Princípio que continuamente nos cria.

Porque Ele não apenas foi nosso Deus,
mas é — neste instante sem tempo — o Pastor da consciência,
e nós somos o campo vivo de Sua presença,
as ovelhas conduzidas pela Mão invisível que sustenta o existir.                                      (Salmo 94 (95), 6–7 )


Cristo manifesta-se como o Santuário vivo onde o Invisível se torna presença tangível. Nele, o Mistério não habita pedras, mas respira na consciência desperta. Ele é a Aliança que não se escreve em tábuas, mas no íntimo do ser, chamando cada criatura ao reencontro com sua origem. Para Ele convergem os passos da alma, não por temor, mas por íntima atração do Bem. Nesta celebração, aproximamo-nos do Centro silencioso, onde o tempo se recolhe e o espírito se alinha ao Eterno. Ali recebemos cura, sentido e direção, e o coração aprende a consentir com o próprio existir.



Evangelium secundum Marcum VI LIII LVI

LIII
Et cum transfretassent, venerunt in terram Genesareth, et applicuerunt
E, ao atravessarem as águas, aportaram na região interior do ser, onde a travessia externa se converte em chegada ao íntimo, e a consciência encontra chão no Invisível

LIV
Cumque egressi essent de navi, continuo cognoverunt eum
Ao deixarem a barca das inquietações, reconheceram-no de imediato, pois o olhar purificado percebe o Presente que sempre esteve ali

LV
Et percurrentes universam regionem illam, coeperunt in grabatis eos qui se male habebant portare, ubi audiebant eum esse
E percorrendo toda a extensão da vida, conduziam os enfermos do espírito ao lugar onde Sua presença se manifestava, buscando o toque que restaura a inteireza do ser

LVI
Et quocumque introibat in vicos, vel in villas, aut civitates, in plateis ponebant infirmos, et deprecabantur eum ut vel fimbriam vestimenti eius tangerent, et quotquot tangebant eum, salvi fiebant
E onde quer que Ele entrasse, nas pequenas ou grandes moradas do mundo, depunham suas fragilidades diante dEle, e bastava roçar a orla de Sua realidade para que a vida se recompusesse no eixo eterno

Verbum Domini

Reflexão:
A presença do Mestre não se mede por distância, mas por atenção interior
Cada passo exterior conduz ao recolhimento do coração
O encontro verdadeiro acontece quando cessam as dispersões
O toque que cura nasce do consentimento silencioso do espírito
Nada falta a quem se alinha ao Bem que sustenta todas as coisas
A dor perde domínio quando a mente repousa no que é estável
O caminho torna-se reto quando a vontade concorda com a ordem do ser
Assim a celebração converte-se em permanência no Agora que não passa


Versículo mais importante:

56

Et quocumque introibat in vicos, vel in villas, aut civitates, in plateis ponebant infirmos, et deprecabantur eum ut vel fimbriam vestimenti eius tangerent, et quotquot tangebant eum, salvi fiebant

E onde quer que Ele adentre as moradas da existência, nos espaços amplos ou íntimos da alma, depõem-se diante dEle as fragilidades do ser, e basta tocar a orla de Sua Presença para que o instante se abra no Eterno e a criatura reencontre sua integridade, pois o contato com o Princípio recompõe aquilo que estava disperso e devolve o espírito à sua origem viva (Mc 6,56)


HOMILIA

O Toque que Reconduz ao Centro

Toda enfermidade nasce da dispersão do espírito e toda cura começa no retorno ao centro.

Amados, o Evangelho nos apresenta uma travessia. O Mestre passa pelas águas, chega à terra firme e caminha entre vilas e casas. Nada é grandioso aos olhos do mundo, mas tudo é decisivo no invisível. A passagem do barco à margem indica o movimento interior pelo qual a consciência deixa a instabilidade e encontra repouso no fundamento do ser.

Ao descerem da barca, reconheceram-no imediatamente. Não foi um raciocínio demorado, mas um reconhecimento silencioso. Quando o coração se aquieta, a verdade se mostra por si mesma. A presença divina não precisa ser construída, apenas percebida.

Os enfermos são trazidos em leitos. Essas enfermidades também nos habitam. São dispersões da alma, medos, fragmentações, desejos sem direção. O ser humano, afastado do centro, perde a unidade. Contudo, ao aproximar-se do Cristo, aquilo que estava dividido começa a recompor-se.

Basta tocar a orla de sua veste. O gesto é mínimo, quase invisível. O encontro com o Eterno não exige grandeza exterior, mas adesão íntima. Um leve consentimento do espírito já abre passagem para a restauração. O toque é a concordância do coração com a ordem do Alto.

Ele entra em casas e aldeias. Entra também na morada interior de cada pessoa. Santifica o lar, fortalece o vínculo entre pais e filhos, estabelece a casa como espaço de cuidado e transmissão da vida. A família torna-se o primeiro templo, onde o amor aprende a perseverar e a pessoa descobre seu valor próprio.

Segui-lo é amadurecer por dentro. É deixar de reagir às tempestades e aprender a permanecer firme. A vontade se educa, os afetos se purificam, e o espírito passa a agir por convicção, não por impulso. Assim, cada um assume sua responsabilidade diante do bem.

Nesta celebração, aproximemo-nos como aqueles do Evangelho. Coloquemos diante dEle nossas fragilidades. Toquemos, ainda que discretamente, a orla de sua presença. E no silêncio do agora, o ser será restaurado, reencontrando direção, inteireza e paz.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

Mc 6,56
E onde quer que Ele adentre as moradas da existência, nos espaços amplos ou íntimos da alma, depõem-se diante dEle as fragilidades do ser, e basta tocar a orla de Sua Presença para que o instante se abra no Eterno e a criatura reencontre sua integridade, pois o contato com o Princípio recompõe aquilo que estava disperso e devolve o espírito à sua origem viva

A Presença que atravessa todas as moradas

O texto revela um Cristo que não permanece circunscrito a lugares sagrados nem a momentos determinados. Ele entra em vilas, casas e caminhos, indicando que a manifestação divina percorre toda a extensão da existência. Cada espaço humano pode tornar-se lugar de encontro. A morada exterior espelha a morada interior, e ambas se tornam receptáculo da visita do Alto. A fé, então, não é fuga do mundo, mas abertura do ser ao que o sustenta por dentro.

O reconhecimento interior do Senhor

O encontro não depende de longos discursos, mas de percepção purificada. Quando a agitação cessa, a alma reconhece a fonte de onde procede. Há um saber silencioso que antecede o raciocínio. Esse reconhecimento é retorno à própria origem. O coração percebe que não está diante de algo estranho, mas diante dAquele em quem já vive e respira.

O toque que restaura a integridade

O gesto de tocar a orla da veste possui sentido profundo. Não se trata apenas de contato físico, mas de adesão do íntimo. O ser humano, frequentemente disperso entre desejos e temores, reencontra unidade quando se aproxima do Princípio. O que estava fragmentado se recompõe. O que estava enfraquecido readquire firmeza. A cura é a reintegração da pessoa ao eixo que a sustenta.

O instante aberto ao Eterno

Nesse encontro, o tempo comum perde seu domínio. O momento presente deixa de ser simples sucessão e torna-se plenitude. Tudo converge para um agora pleno, onde a ação divina se realiza sem distância. A salvação não é apenas promessa futura, mas acontecimento que se cumpre no interior daquele que consente. O eterno toca o instante e o transforma em permanência.

A dignidade da pessoa e da casa

Ao entrar nas casas, o Senhor consagra o cotidiano. A pessoa descobre seu valor próprio por ser portadora dessa visita. A família torna-se primeiro espaço de transmissão do bem, escola de cuidado e fidelidade. O lar, vivido com retidão, converte-se em pequeno santuário onde a vida amadurece e aprende a amar com constância.

Sentido litúrgico do encontro

Na assembleia orante, repetimos esse movimento do Evangelho. Aproximamo-nos com nossas fragilidades e as colocamos diante dEle. Cada gesto, cada silêncio e cada palavra tornam-se toque humilde em sua veste. E nesse contato, ainda discreto, a alma é reconduzida à sua origem, encontrando direção, firmeza e paz duradoura.

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Evangelho: Mateus 5,13-16 - 08.02.2026

 Liturgia Diária


8 – DOMINGO 

5º DOMINGO DO TEMPO COMUM


(verde, glória, creio – 1ª semana do saltério)


“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Psalmus 94 (95), 6–7 — Vulgata Clementina

Veníte, adorémus, et procidámus ante Deum;
plorémus coram Dómino qui fecit nos:
quia ipse est Dóminus Deus noster,
et nos pópulus páscuæ ejus, et oves manus ejus.

Tradução

Vinde: recolhei o espírito e subi ao Centro.
Adoremos — isto é, entreguemos o peso do ego ao Silêncio.
Prostremo-nos — desçamos ao húmus do ser,
pois somente quem se curva atravessa o limiar do Eterno.
Choremos diante do Senhor que nos gerou,
porque Ele é a Fonte que continuamente nos cria.
Ele é o nosso Deus — o Fundamento do Agora —
e nós somos o campo do seu sopro,
rebanho conduzido pela mão invisível da Presença.


Reunimo-nos no limiar do Mistério, para contemplar o Cristo que, atravessando a cruz, revela a vida indestrutível. A celebração torna-se ascensão interior, onde cada consciência se alinha ao Eterno, fonte do ser. Somos chamados a irradiar claridade, convertendo gestos em sinais de verdade, e palavras em cuidado. Como sal, preservamos a substância do mundo, restaurando o sentido das coisas. Louvamos o Pai, princípio amante, cuja presença dissipa sombras, erguendo o espírito para a escolha consciente, fidelidade ao bem, e caminho aberto à plenitude do existir. Silêncio funda cada passo, conduzindo-nos ao centro vivo da presença eterna, simples, inteira, luminosa, serena.



Evangelium secundum Matthaeum V, XIII–XVI

XIII
Vos estis sal terræ. Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras, et conculcetur ab hominibus.
Vós sois a essência que preserva o mundo do esquecimento. Se perderdes o vigor interior, nada restará que sustente o sentido. Sem o centro vivo, a existência dispersa-se e torna-se pó sob passos distraídos.

XIV
Vos estis lux mundi. Non potest civitas abscondi supra montem posita.
Sois claridade erguida no alto do ser. A consciência desperta não se oculta, pois a verdade, uma vez acesa, eleva-se como cume que atravessa toda sombra.

XV
Neque accendunt lucernam, et ponunt eam sub modio, sed super candelabrum, ut luceat omnibus qui in domo sunt.
Ninguém acende o fogo do espírito para escondê-lo. A chama é colocada no ponto mais alto da alma, para que cada pensamento e gesto recebam direção e calor.

XVI
Sic luceat lux vestra coram hominibus, ut videant opera vestra bona, et glorificent Patrem vestrum qui in cælis est.
Assim resplandeça o que habita em vós, para que as obras revelem harmonia interior e toda ação retorne em louvor Àquele que sustenta o invisível e o eterno.

Verbum Domini

Reflexão
O coração recolhe-se e encontra um eixo silencioso que nada pode romper
A partir desse ponto cada gesto nasce inteiro e sem dispersão
A alma aprende a permanecer firme diante das mudanças do mundo
O domínio de si torna-se mais forte que qualquer ruído exterior
A luz interior guia escolhas claras e responsáveis
O bem realizado não busca aplauso mas consonância com o alto
A serenidade transforma o instante comum em presença plena
E assim a vida inteira converte-se em oferta luminosa ao Eterno


Versículo mais importante:

XVI

Sic luceat lux vestra coram hominibus, ut videant opera vestra bona, et glorificent Patrem vestrum qui in cælis est.

Assim resplandeça a claridade que habita o íntimo do ser, para que cada gesto revele a origem invisível de onde procede a vida. Que as obras se tornem transparência do Alto, e que, ao agir, o coração se alinhe ao Eterno Presente, elevando toda existência ao louvor silencioso do Pai, fonte e destino de toda luz. (Mt 5,16)


HOMILIA

Luz que preserva e eleva

Irmãos reunidos no silêncio do Mistério, o Evangelho nos conduz ao centro onde a existência reencontra sua origem. O Cristo não fala apenas de tarefas exteriores, mas de uma qualidade do ser. Ele nos chama sal e luz. Não como metáforas frágeis, mas como sinais de uma vocação interior, gravada na própria estrutura da alma.

O sal preserva o que é essencial. Assim também o coração humano, quando fiel ao Princípio, guarda a integridade do mundo invisível. Se essa fidelidade se dissipa, tudo perde sabor, peso e direção. A vida torna-se dispersa. Por isso somos convidados a recolher-nos, a permanecer acordados, a sustentar em nós a substância que não se corrompe.

A luz, por sua vez, não luta contra a sombra. Ela simplesmente brilha. Sua presença basta. Quando a consciência se eleva acima das agitações do tempo, acende-se uma claridade serena que orienta cada gesto. Essa claridade não se impõe, mas irradia. Não domina, mas ordena. Não busca reconhecimento, mas revela sentido.

O Cristo nos convida a colocar a lâmpada no alto da casa interior. A casa é a alma. O alto é o ponto mais puro do espírito, onde pensamento, vontade e ação se unem. Dali nasce uma conduta íntegra, coerente, firme. As obras tornam-se expressão natural de um interior pacificado.

Essa retidão silenciosa amadurece a pessoa em sua dignidade. Cada ser humano passa a reconhecer-se portador de um sopro sagrado. E, no mesmo movimento, aprende a cuidar do lar, esse primeiro santuário onde a vida é acolhida, nutrida e transmitida. A família torna-se célula viva do cuidado, escola de responsabilidade, espaço onde a luz é partilhada de geração em geração.

Assim, o caminho espiritual não consiste em conquistar o mundo, mas em ordenar o próprio centro. Quando o interior se harmoniza com o Alto, toda escolha ganha nitidez. Surge a capacidade de agir por convicção e não por impulso, por verdade e não por medo. O ser humano caminha ereto, guiado por uma chama que nada externo pode apagar.

Ser sal e luz é, portanto, habitar essa presença constante, onde cada instante toca o eterno. É permitir que a vida inteira se torne transparência do Pai. E, quando isso acontece, até o gesto mais simples adquire peso de eternidade.

Que a nossa existência, recolhida e vigilante, conserve o sabor do espírito e irradie a claridade que conduz ao Céu. Amém.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

Assim resplandeça a claridade que habita o íntimo do ser, para que cada gesto revele a origem invisível de onde procede a vida. Que as obras se tornem transparência do Alto, e que, ao agir, o coração se alinhe ao Eterno Presente, elevando toda existência ao louvor silencioso do Pai, fonte e destino de toda luz. Mt 5,16

A luz como princípio do ser

A palavra do Senhor não descreve apenas um comportamento moral, mas revela uma realidade ontológica. A luz mencionada pelo Evangelho não é acréscimo exterior, mas dom inscrito na própria criação da alma. Todo ser humano nasce tocado por essa claridade primeira, vestígio do Sopro divino que o sustenta. Brilhar, portanto, não é esforço de aparência, mas consentimento interior ao que já foi depositado por Deus no centro do espírito.

O interior como altar

Antes de alcançar o mundo visível, a luz precisa ser acolhida no santuário do coração. Ali se ergue o verdadeiro altar, onde pensamento, memória e vontade se oferecem em unidade. Quando o interior se ordena, cessa a dispersão. O ser recolhe-se ao seu eixo e aprende a agir a partir de uma fonte estável. A vida espiritual torna-se permanência consciente diante do Mistério que continuamente cria e sustenta todas as coisas.

As obras como transparência

O Evangelho ensina que as obras devem revelar o Pai. Isso significa que o agir não busca exibição, mas manifestação do invisível. Cada gesto reto converte-se em janela por onde a luz do Alto atravessa a matéria do cotidiano. A ação justa não nasce da inquietação, mas de uma quietude profunda. Assim, o bem realizado carrega simplicidade e verdade, como fruto que amadurece naturalmente na árvore sadia.

A dignidade da pessoa e do lar

Quando a claridade interior governa a consciência, a pessoa reconhece em si mesma um valor que não depende de circunstâncias. Essa percepção funda respeito por si e cuidado pelo próximo mais próximo. O lar torna-se a primeira morada dessa luz, espaço de formação do caráter, de transmissão da fé e de cultivo da fidelidade. A casa transforma-se em pequena chama contínua, guardando a presença de Deus na sucessão das gerações.

A elevação do instante

Alinhar o coração ao Eterno significa permitir que cada momento seja tocado pela eternidade. O tempo deixa de ser mera sucessão e adquire densidade sagrada. O agora torna-se lugar de encontro com o Pai. Nesse estado, a existência inteira converte-se em oração silenciosa. Viver, trabalhar e amar passam a ser formas de louvor.

Assim, a luz de que fala Cristo não apenas ilumina o caminho. Ela transforma o próprio ser em claridade, para que tudo o que somos se torne cântico discreto dirigido Àquele que é princípio e plenitude de toda vida.

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Evangelho: Marcos 6,30-34 - 07.02.2026

 Liturgia Diária


7 – SÁBADO 

4ª SEMANA DO TEMPO COMUM


(verde – ofício do dia)


“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Vulgata Clementina (Sl 105, 47)

Salvos nos fac, Domine Deus noster,
et congrega nos de nationibus,
ut confiteamur nomini sancto tuo,
et gloriemur in laude tua.

Tradução

Salva-nos, Senhor, Fonte do nosso Ser;
reúne-nos das dispersões do mundo e das fragmentações da alma;
conduze-nos ao centro do Teu Nome eterno,
para que a gratidão seja nossa respiração
e o louvor, a luz pela qual existimos.


Na quietude do sagrado encontro, aproximamo-nos do Cristo como quem retorna ao próprio centro do ser. Ele não distingue vozes, mas reconhece a transparência da intenção; acolhe todo aquele que se apresenta inteiro, sem máscaras. Nesta celebração, elevamos o espírito para além das sucessões passageiras, buscando o ponto onde o eterno sustenta cada instante. Pedimos um coração lúcido e vasto, capaz de discernir com retidão e agir com ternura. Que nossas escolhas brotem da consciência desperta, não do impulso cego; que a ação reflita a harmonia interior. Assim, viver torna-se oferenda contínua, e cada gesto, silencioso louvor.



Evangelium secundum Marcum VI, XXX–XXXIV

XXX Et convenientes apostoli ad Iesum renuntiaverunt illi omnia quae egerant et docuerant.
E reunidos ao Cristo interior, os enviados recolhem as obras do caminho e as depõem no silêncio da Presença, onde todo agir encontra sentido e repouso.

XXXI Et ait illis Venite seorsum in desertum locum et requiescite pusillum. Erant enim qui veniebant et redibant multi et nec manducandi spatium habebant.
E Ele chama ao lugar ermo do coração, ao espaço sem ruído, onde a alma respira além das urgências e aprende o descanso que nasce do alto.

XXXII Et abierunt in navicula in desertum locum seorsum.
Assim atravessam as águas instáveis do mundo, como quem navega para dentro de si, buscando a região imóvel onde o ser se reencontra.

XXXIII Et viderunt eos abeuntes et cognoverunt multi et pedestres de omnibus civitatibus concurrerunt illuc et praevenerunt eos.
Muitos percebem esse movimento e correm, pois todo espírito pressente a fonte e deseja alcançar o centro que antecede os passos.

XXXIV Et exiens vidit turbam multam et misertus est super eos quia erant sicut oves non habentes pastorem et coepit docere eos multa.
Ao contemplar a multidão dispersa, Ele compadece-se e oferece direção interior, ensinando a ordem que recolhe a mente e pacifica o querer.

Verbum Domini

Reflexão:
No recolhimento nasce a clareza que orienta cada gesto
O coração firme não se deixa arrastar pelos ventos do instante
Quem aprende o silêncio governa os próprios movimentos
A compaixão torna-se força serena e não agitação
O caminho verdadeiro inicia-se no interior antes de tocar o mundo
Cada decisão pode brotar de um centro estável e luminoso
Assim o agir torna-se simples, sem excesso nem carência
E a vida inteira converte-se em oração contínua e lúcida


Versículo mais importante:

Evangelium secundum Marcum VI, XXXIV

Et exiens vidit turbam multam et misertus est super eos quia erant sicut oves non habentes pastorem et coepit docere eos multa.

Ao manifestar-se, o Cristo contempla a dispersão das consciências e, movido por íntima compaixão, recolhe-as ao centro do Ser, conduzindo-as do errante para o estável, do ruído para a escuta, instruindo-as na sabedoria que não passa, onde cada instante se abre ao Eterno e o coração encontra direção, repouso e plenitude. (Mc 6,34)


HOMILIA

O Recolhimento que Ordena o Ser

O coração que retorna ao silêncio reencontra a fonte onde todo agir se purifica.

O Evangelho nos mostra os enviados que retornam ao Mestre trazendo consigo o peso das obras e das palavras. Antes de qualquer avaliação, Ele os conduz ao lugar ermo. Esse movimento revela que o agir só permanece íntegro quando nasce de um centro silencioso. Há um ritmo mais alto que sustenta o tempo comum e é nele que a alma reencontra sua medida.

O deserto não é ausência, mas espaço de unificação. Ao afastar-se do fluxo incessante, o coração aprende a discernir sem ansiedade e a escolher sem fragmentação. Assim se forma a maturidade interior que permite caminhar sem servidão aos impulsos.

Quando o Cristo vê a multidão, não reage com agitação. Sua compaixão é lúcida, firme, ordenadora. Ele ensina, pois o ensinamento reconstrói por dentro e devolve direção ao que estava disperso. A pessoa reencontra sua dignidade quando volta a escutar a verdade que a precede.

Nesse mesmo ensinamento, a vida familiar aparece como primeiro lugar de acolhimento e transmissão do sentido. É no vínculo originário, nutrido pelo cuidado e pela fidelidade, que o ser humano aprende a permanecer inteiro e a reconhecer o outro sem posse.

Assim, este Evangelho nos chama a um retorno contínuo ao essencial. Não para fugir do mundo, mas para habitá-lo com inteireza. Quando o interior se ordena, cada gesto torna-se justo, cada palavra encontra peso verdadeiro, e a existência passa a refletir a harmonia que nasce do alto e sustenta tudo o que vive.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

Inspirado no Evangelho segundo Marcos capítulo seis versículo trinta e quatro

O olhar que unifica

Quando o Cristo se manifesta e contempla a multidão, não vê apenas corpos reunidos, mas estados interiores dispersos. Seu olhar penetra além das aparências e reconhece a fragmentação que nasce quando o ser perde o contato com seu princípio. Essa visão não julga nem se inquieta. Ela reconhece e acolhe, porque conhece a origem e o destino de tudo o que vive.

A compaixão como força ordenadora

A compaixão que brota do Cristo não é emoção passageira, mas potência que reconduz ao centro. Ela age como princípio de reorganização interior, reunindo o que estava espalhado e oferecendo estabilidade ao coração humano. Por isso, sua resposta não é imediatismo, mas ensino. Ensinar é restaurar a direção do ser e devolver-lhe consistência.

O ensinamento que precede o agir

Ao começar a ensinar, o Cristo indica que toda ação verdadeira nasce de uma escuta profunda. Antes de transformar o exterior, é necessário alinhar o interior com a verdade que sustenta a existência. O ensinamento desperta a consciência para esse alinhamento e permite que cada instante seja vivido com inteireza e fidelidade ao que é essencial.

O repouso que gera plenitude

Nesse movimento de recolhimento interior, o coração encontra repouso não como fuga, mas como permanência no que não passa. O ser humano reencontra sua dignidade quando se ancora nessa estabilidade e passa a viver sem dispersão. Assim, a vida se torna plena, não pelo acúmulo de atos, mas pela unidade silenciosa que sustenta cada gesto e cada escolha.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Evangelho: Marcos 6,14-29 - 06.02.2026

 Liturgia Diária


6 – SEXTA-FEIRA 

SÃO PAULO MIKI E COMPANHEIROS


MÁRTIRES


(vermelho, pref. comum ou dos mártires – ofício da memória)


“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Diante do Mistério que sustenta os mundos, corações consagrados ofereceram a própria respiração como incenso vivo. Seus passos não se prenderam às horas, pois caminhavam na altura do eterno, onde cada instante toca a Origem. Amaram o Cristo como chama interior e, ao serem feridos, tornaram-se espelhos de Sua mansidão. O sangue, longe de derrota, transfigurou-se em semente de luz. Perdoando, coroaram o invisível com cânticos. Que tal testemunho nos eleve o ânimo, purifique a vontade e firme a consciência no bem, para que, atravessando provações, permaneçamos íntegros na Verdade que não declina.



Evangelium secundum Marcum VI XIV–XXIX

XIV
Audivit autem rex Herodes. Manifestum enim factum erat nomen Iesu et dicebat quia Ioannes Baptista resurrexit a mortuis et propterea inoperantur virtutes in illo.
O poder do Nome atravessa as eras e desperta a consciência além das horas comuns, onde o que parece morto retorna como presença viva.

XV
Alii autem dicebant quia Elias est. Alii vero dicebant quia propheta est quasi unus ex prophetis.
As formas mudam, porém o sopro eterno fala sempre, assumindo rostos diversos para recordar a origem invisível.

XVI
Quo audito Herodes ait quem ego decollavi Ioannem hic a mortuis resurrexit.
O remorso faz eco no íntimo e o passado ergue-se diante da alma como espelho do que ainda não foi reconciliado.

XVII
Ipse enim Herodes misit ac tenuit Ioannem et vinxit eum in carcere propter Herodiadem uxorem Philippi fratris sui quia duxerat eam.
Quando o desejo obscurece o discernimento, a mente aprisiona a voz que chama ao retorno do centro interior.

XVIII
Dicebat enim Ioannes Herodi non licet tibi habere uxorem fratris tui.
A verdade permanece ereta como coluna de fogo, mesmo quando confronta tronos e vontades instáveis.

XIX
Herodias autem insidiabatur illi et volebat occidere nec poterat.
O coração dominado por sombras trama silenciosamente, incapaz de suportar a claridade que o denuncia.

XX
Herodes enim metuebat Ioannem sciens eum virum iustum et sanctum et custodiebat eum et audito eo multa faciebat et libenter eum audiebat.
Ainda cercado de poder, o espírito reconhece a retidão e sente secreta atração pela pureza que o chama para o alto.

XXI
Et cum dies opportunus accidisset Herodes natalis sui cenam fecit principibus et tribunis et primis Galilaeae.
Chega o momento propício em que as escolhas ocultas amadurecem e pedem manifestação diante do mundo.

XXII
Cumque introisset filia ipsius Herodiadis et saltasset placuit Herodi simulque recumbentibus et rex ait puellae pete a me quod vis et dabo tibi.
O fascínio dos sentidos distrai a atenção e o ser disperso promete o que não ponderou no silêncio do coração.

XXIII
Et iuravit illi quia quidquid petieris dabo tibi licet dimidium regni mei.
Palavras precipitadas erguem destinos, pois o verbo humano participa do peso do eterno.

XXIV
Quae cum exisset dixit matri suae quid petam at illa dixit caput Ioannis Baptistae.
A consulta às paixões gera conselho turvo e a decisão nasce distante da luz interior.

XXV
Cumque introisset statim cum festinatione ad regem petivit dicens volo ut protinus des mihi in disco caput Ioannis Baptistae.
O impulso sem medida corre veloz e transforma desejo em decreto, como lâmina que corta o curso do tempo.

XXVI
Et contristatus est rex propter iusiurandum et propter simul recumbentes noluit eam contristare.
O apego à aparência aprisiona a vontade e impede o retorno ao caminho reto que ainda sussurra dentro.

XXVII
Sed misso speculatore praecepit adferri caput eius in disco.
Assim o poder externo cumpre sua ordem, ignorando a delicadeza do invisível que sustenta toda vida.

XXVIII
Et decollavit eum in carcere et attulit caput eius in disco et dedit illud puellae et puella dedit matri suae.
O gesto extremo parece triunfo da noite, porém apenas rasga o véu para outra dimensão do ser.

XXIX
Quo audito discipuli eius venerunt et tulerunt corpus eius et posuerunt illud in monumento.
Os fiéis recolhem o que resta e o depositam no silêncio, onde cada fim repousa como semente de eternidade.

Verbum Domini

Reflexão
No recolhimento a alma percebe um eixo que não se move
Nele cada instante toca a origem e o destino simultaneamente
A perda visível não dissolve o que é essencial
O justo permanece inteiro mesmo quando o corpo cai
A vontade firme vence o medo e a perturbação
O perdão converte a dor em claridade interior
Assim caminhamos acima das horas sucessivas
E o coração repousa no bem que jamais declina


Versículo mais importantte:

XX
Herodes enim metuebat Ioannem sciens eum virum iustum et sanctum et custodiebat eum et audito eo multa faciebat et libenter eum audiebat.

Herodes temia a presença do justo porque a retidão abre no íntimo uma altura onde as horas cessam de correr e a consciência toca o eterno. Ao escutar a voz pura, a alma é chamada para além do fluxo dos dias, reconhecendo no silêncio uma medida mais alta do ser, onde cada decisão ecoa diante do Infinito e o coração aprende a permanecer desperto na verdade. (Mc 6,20)


HOMILIA

A Voz que Permanece acima das Horas

A alma que se ancora no Eterno atravessa as horas sem se fragmentar, permanecendo íntegra mesmo quando o mundo oscila.

Irmãos e irmãs reunidos no silêncio do sagrado, o Evangelho nos conduz ao drama de um rei inquieto, de um profeta fiel e de decisões nascidas da dispersão do coração. Não é apenas um relato antigo, mas um espelho da alma humana diante do Mistério. Herodes possui poder exterior, contudo carece de eixo interior. João nada possui, porém habita a firmeza do justo.

Assim se revelam dois modos de existir. Um se prende ao ruído dos dias, às promessas precipitadas, aos impulsos que nascem do desejo desordenado. Outro se eleva à região onde a consciência repousa no Eterno e cada gesto é pesado na balança da verdade. O primeiro oscila como sombra. O segundo permanece como rocha.

João fala com simplicidade, e sua palavra corta como luz. Não agride, não se impõe, apenas manifesta o que é reto. A retidão é a verdadeira força do espírito. Quem a acolhe torna-se inteiro. Quem a rejeita fragmenta-se por dentro. Por isso Herodes teme o profeta. O temor nasce quando a alma reconhece uma altura que ainda não alcançou.

O martírio do justo não é derrota. O corpo pode ser silenciado, mas a voz que procede do alto não se extingue. Ela continua a ressoar no interior dos que escutam. Há uma dimensão onde os acontecimentos não se perdem, onde cada fidelidade permanece viva diante de Deus. Nessa região, o testemunho de João continua presente, convocando os corações à integridade.

Somos chamados a essa maturação interior. Crescer espiritualmente é ordenar os afetos, purificar a intenção, aprender a agir sem servidão às paixões. É tornar-se senhor de si, para que o bem seja escolhido por convicção e não por impulso. Tal caminho devolve à pessoa sua nobreza original, imagem do Criador.

Também a família, pequena morada do amor, participa desse desígnio. Quando nela a palavra é verdadeira, o respeito é mútuo e o cuidado é constante, forma-se um santuário onde a vida floresce. Ali a criança aprende a justiça, o adulto aprende a doação, e cada geração recebe a herança do caráter. A casa torna-se escola de transcendência.

O Evangelho nos ensina que nenhuma circunstância externa substitui essa construção interior. O mundo pode oferecer honras ou ameaças, mas somente o coração firmado no Alto conhece a paz que não se desfaz. Quem vive assim atravessa as mudanças sem perder o centro, como lâmpada protegida do vento.

Peçamos, portanto, a graça de ouvir a voz do justo que ainda ecoa. Que ela nos conduza à firmeza, à sobriedade e à constância. Que nossas escolhas nasçam do silêncio orante. E que, sustentados pelo Eterno, caminhemos com dignidade, guardando a luz que não se apaga e que transforma cada instante em presença de Deus.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

A presença do justo como sinal do Alto

Herodes temia a presença do justo porque a retidão abre no íntimo uma altura onde as horas cessam de correr e a consciência toca o eterno. Ao escutar a voz pura, a alma é chamada para além do fluxo dos dias, reconhecendo no silêncio uma medida mais alta do ser, onde cada decisão ecoa diante do Infinito e o coração aprende a permanecer desperto na verdade. Mc 6,20

A figura do justo não se impõe pela força exterior, mas pela densidade do ser. Sua vida torna-se transparente ao querer divino. Por isso sua simples existência perturba os que vivem dispersos. A santidade não acusa com palavras duras. Ela revela, por contraste, a desordem interior de quem se afastou do princípio. Diante do íntegro, toda máscara perde consistência.

A altura interior da consciência

Existe no homem uma dimensão que não se mede pelo relógio. Quando a consciência se recolhe em Deus, ela entra numa região onde passado e futuro perdem o domínio, e o instante adquire plenitude. Nesse recolhimento, a alma percebe que sua origem não está no acaso, mas no Chamado que a sustenta. Aí nasce o verdadeiro discernimento, pois cada escolha é vista à luz do que permanece para sempre.

O justo habita essa altura. Seus atos brotam de uma fonte silenciosa. Ele não reage por impulso, mas responde a uma fidelidade profunda. Tal postura confere estabilidade, como árvore enraizada junto às águas. Ainda que o mundo se agite, seu interior conserva serenidade.

O temor de Herodes como sinal de divisão

O temor de Herodes não é apenas psicológico. É sinal de cisão espiritual. Ele reconhece a justiça de João, escuta-o com agrado, mas não consente em converter o coração. Permanece dividido entre a verdade e os próprios desejos. Dessa divisão nasce a inquietação.

Sempre que o ser humano evita a luz que o chama à inteireza, surge o medo. A consciência sabe o que é reto, porém hesita. O resultado é a perda do centro. O poder externo, então, revela-se frágil, incapaz de oferecer paz.

A pedagogia do silêncio e da escuta

A voz do profeta convida à escuta interior. Não se trata apenas de ouvir palavras, mas de permitir que o espírito seja moldado por elas. O silêncio torna-se espaço sagrado onde Deus trabalha a alma. Nesse espaço, a pessoa aprende a governar os afetos, ordenar pensamentos e agir com retidão.

Tal caminho edifica também o lar. Quando cada membro cultiva essa escuta profunda, a casa torna-se lugar de fidelidade, respeito e cuidado mútuo. A família converte-se em terreno fértil onde a verdade é transmitida como herança viva.

Chamado à permanência na verdade

O versículo recorda que a proximidade do justo é graça oferecida por Deus. Ela nos desperta do torpor e nos convida a viver de modo mais alto. Somos chamados a permanecer acordados, com o coração firme no bem, deixando que cada decisão seja tomada diante do olhar divino.

Assim, mesmo no curso das horas, habitamos uma região que não passa. E a vida inteira, unida ao Eterno, torna-se culto silencioso, onde a verdade é guardada como lâmpada acesa no íntimo.

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