Liturgia Diária
15 – DOMINGO
6º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(verde, glória, creio – 2ª semana do saltério)
“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Salmo 30(31), 3–4 — Vulgata Clementina
Esto mihi in Deum protectorem, et in domum refugii, ut salvum me facias.
Quoniam fortitudo mea et refugium meum es tu; et propter nomen tuum deduces me et enutries me.
Tradução
Sê para mim, ó Eterno, Presença que antecede o tempo,
Rochedo invisível onde a alma repousa antes de nascer cada instante.
Torna-Te minha Morada interior e meu Refúgio vivo, para que eu seja salvo do esquecimento de Ti.Pois Tu és a força que me sustenta no agora eterno,
o Centro onde toda dispersão se recolhe.
Por causa do Teu Nome — que é Ser e Origem —
Tu me conduzes pelo caminho que não passa
e me nutres com o pão silencioso da permanência.
Nesta liturgia interior o Senhor chama a consciência a percorrer o traçado dos mandamentos como órbita do ser. Entre sombras e claridades, decide a direção do coração, colhendo fruto de plenitude ou dispersão. Reunidos, celebramos o Mistério pascal de Cristo, passagem que nos conduz do transitório ao fundamento perene. Que a Sabedoria nos guie, nutrindo o íntimo com fidelidade ao Nome, para que cada gesto se torne oferta viva, e a existência amadureça na unidade do eterno presente, onde o espírito encontra descanso e vigor incessante para caminhar em retidão luminosa sempre, silenciosa e profunda contemplação do ser interior pleno.
Evangelium secundum Matthaeum V, XVII–XXXVII
XVII
Nolite putare quoniam veni solvere legem aut prophetas non veni solvere sed adimplere
Não vim dissolver a Lei que sustenta o ser, mas conduzi-la à sua plenitude interior, onde cada preceito se torna forma viva do eterno no coração humano.
XVIII
Amen quippe dico vobis donec transeat caelum et terra iota unum aut unus apex non praeteribit a lege donec omnia fiant
Em verdade nada do desígnio se perde, pois até o menor traço permanece inscrito na tessitura do real, sustentando o cosmos no instante que não passa.
XIX
Qui ergo solverit unum de mandatis istis minimis et docuerit sic homines minimus vocabitur in regno caelorum qui autem fecerit et docuerit hic magnus vocabitur in regno caelorum
Quem rompe a harmonia do mandamento diminui a própria luz, mas quem o vive torna-se amplo como o céu e participa da grandeza do Alto.
XX
Dico enim vobis quia nisi abundaverit iustitia vestra plus quam scribarum et pharisaeorum non intrabitis in regnum caelorum
A retidão pedida não é exterior, mas transbordamento íntimo, pureza que nasce do centro e conduz à morada invisível do espírito.
XXI
Audistis quia dictum est antiquis non occides qui autem occiderit reus erit iudicio
O antigo preceito ecoa como guardião da vida, lembrando que toda ruptura começa no pensamento antes de tocar as mãos.
XXII
Ego autem dico vobis quia omnis qui irascitur fratri suo reus erit iudicio qui autem dixerit fratri suo racha reus erit concilio qui autem dixerit fatue reus erit gehennae ignis
Mas a chama que consome nasce da cólera secreta, e o juízo já se forma no interior onde a palavra fere antes do gesto.
XXIII
Si ergo offers munus tuum ad altare et ibi recordatus fueris quia frater tuus habet aliquid adversum te
Ao aproximar-te do altar, lembra-te que o culto verdadeiro pede inteireza de consciência.
XXIV
Relinque ibi munus tuum ante altare et vade prius reconciliari fratri tuo et tunc veniens offeres munus tuum
Primeiro recompõe a unidade do coração, depois a oferenda sobe pura como incenso silencioso.
XXV
Esto consentiens adversario tuo cito dum es in via cum eo ne forte tradat te adversarius iudici et iudex ministro et in carcerem mittaris
Caminha em concórdia enquanto percorres o caminho, pois cada passo é ocasião de ajuste e claridade.
XXVI
Amen dico tibi non exies inde donec reddas novissimum quadrantem
Nada fica sem equilíbrio, e até o menor débito pede restauração para que a alma respire inteira.
XXVII
Audistis quia dictum est antiquis non moechaberis
O chamado antigo protege a fidelidade do ser, guardando a pureza do vínculo interior.
XXVIII
Ego autem dico vobis quia omnis qui viderit mulierem ad concupiscendum eam iam moechatus est eam in corde suo
O desvio começa no olhar desordenado, pois o coração é o primeiro templo a ser velado.
XXIX
Quod si oculus tuus dexter scandalizat te erue eum et proice abs te expedit enim tibi ut pereat unum membrorum tuorum quam totum corpus tuum mittatur in gehennam
Remove de ti o que obscurece a visão, ainda que custe esforço, para que o todo permaneça íntegro na luz.
XXX
Et si dextera manus tua scandalizat te abscide eam et proice abs te expedit enim tibi ut pereat unum membrorum tuorum quam totum corpus tuum eat in gehennam
Afasta o gesto que conduz ao erro, pois é melhor perder o supérfluo que afastar-se do caminho do alto.
XXXI
Dictum est autem quicumque dimiserit uxorem suam det illi libellum repudii
Foi permitido separar por dureza do coração, sinal da fragilidade humana.
XXXII
Ego autem dico vobis quia omnis qui dimiserit uxorem suam excepta fornicationis causa facit eam moechari et qui dimissam duxerit adulterat
Mas a união pede fidelidade profunda, pois o amor verdadeiro reflete a constância do Eterno.
XXXIII
Iterum audistis quia dictum est antiquis non periurabis reddes autem Domino iuramenta tua
Também foi dito que a palavra empenhada deve corresponder à verdade que a sustenta.
XXXIV
Ego autem dico vobis non iurare omnino neque per caelum quia thronus Dei est
Não te apoies em juramentos, pois o céu já testemunha cada intenção.
XXXV
Neque per terram quia scabellum est pedum eius neque per Hierosolymam quia civitas est magni regis
Nem pela terra nem pela cidade santa, porque tudo pertence ao Mistério que envolve o mundo.
XXXVI
Neque per caput tuum iuraveris quia non potes unum capillum album facere aut nigrum
Nem por ti mesmo, pois não dominas sequer o fio do próprio cabelo.
XXXVII
Sit autem sermo vester est est non non quod autem his abundantius est a malo est
Que tua palavra seja simples e inteira, pois a verdade dispensa excesso e repousa na transparência do ser.
Verbum Domini
Reflexão
O mandamento não pesa quando nasce do íntimo iluminado
A lei torna-se caminho de unificação do espírito
Cada escolha molda o caráter como o escultor modela a pedra
O coração disciplinado encontra serenidade diante das mudanças
A fidelidade cotidiana constrói morada estável no invisível
O silêncio interior sustenta a ação justa sem violência
A palavra íntegra harmoniza pensamento e gesto
Assim a existência se alinha ao Eterno e caminha em paz contínua
Versículo mais importante:
XVIII
Amen quippe dico vobis donec transeat caelum et terra iota unum aut unus apex non praeteribit a lege donec omnia fiant
Em verdade vos digo nada do que procede do Eterno se perde no curso dos dias. Ainda que céus e terra se transformem, o menor traço do desígnio permanece vivo. Assim a alma aprende que há um fundamento que não passa, onde cada instante repousa e recebe sentido. Nessa permanência invisível somos conduzidos, nutridos e guardados, para que a vida se alinhe ao centro imperecível do Ser. (Mt 5,18)
HOMILIA
Homilia da Plenitude Interior da Lei
A fidelidade cotidiana edifica um santuário invisível, no qual a vida encontra estabilidade, dignidade e permanência.
Amados, o Senhor não veio romper a ordem secreta do mundo, mas conduzi-la ao seu cumprimento vivo. A Lei não é peso imposto de fora, nem cadeia que restringe o passo humano. Ela é forma do próprio ser, música invisível que sustenta a criação. Quando Cristo afirma que não veio abolir, mas completar, revela que todo mandamento é um caminho de inteireza, uma arquitetura para que a alma habite a verdade.
Nada do que é eterno se perde. Nem o menor sinal do desígnio divino se dissolve na sucessão dos dias. O que passa pertence às sombras do tempo. O que permanece pertence ao fundamento. Por isso a justiça pedida por Cristo não se contenta com aparências. Ela nasce do centro, do lugar silencioso onde a consciência se encontra com Deus. Ali cada gesto é pesado, cada palavra adquire densidade, cada intenção se torna semente de destino.
Quando o Senhor fala do homicídio, Ele alcança a raiz invisível da violência. Quando fala do adultério, toca o olhar antes do ato. Quando adverte sobre os juramentos, purifica a própria linguagem. Assim nos ensina que o mal não começa nos fatos, mas na desordem interior. E que a restauração começa no recolhimento do coração.
O altar, então, deixa de ser apenas pedra e se torna estado de alma. A oferenda verdadeira é a reconciliação, a unidade recuperada, o vínculo restaurado. A existência inteira converte-se em liturgia. Cada passo no caminho torna-se ocasião de ajuste, cada encontro uma possibilidade de harmonia.
Também a família resplandece como primeiro santuário. Ali a fidelidade aprende a durar, o cuidado aprende a servir, o amor aprende a permanecer. Esse núcleo discreto guarda a dignidade do ser humano, pois nele a vida é recebida como dom e sustentada com constância. Quando esse vínculo é honrado, o próprio mundo encontra estabilidade.
Cristo nos conduz a uma maturidade do espírito em que a palavra é simples e o sim é inteiro. Nada de duplicidade, nada de fragmentação. A unidade interior torna o homem firme como rocha. Quem vive assim não é arrastado pelas mudanças, pois habita um ponto que não oscila.
Esta é a passagem que celebramos. Não uma fuga do mundo, mas a transformação do íntimo. Não uma imposição externa, mas a adesão consciente ao bem. Não uma obediência servil, mas a concordância profunda entre o querer humano e o querer divino.
Que a Lei se torne luz dentro de nós. Que o coração se torne morada do Eterno. E que, sustentados por essa presença silenciosa, caminhemos com retidão, inteireza e paz. Assim nossa vida será evangelho vivo, escrito não em tábuas de pedra, mas na substância do ser.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Em verdade vos digo nada do que procede do Eterno se perde no curso dos dias. Ainda que céus e terra se transformem, o menor traço do desígnio permanece vivo. Assim a alma aprende que há um fundamento que não passa, onde cada instante repousa e recebe sentido. Nessa permanência invisível somos conduzidos, nutridos e guardados, para que a vida se alinhe ao centro imperecível do Ser. Mt 5,18
O fundamento que sustenta todas as coisas
A palavra do Senhor revela que a criação não está entregue ao acaso nem dissolvida na sucessão dos acontecimentos. Existe um princípio estável que antecede toda mudança e sustenta cada forma de existência. O mundo visível se altera, mas a raiz que o mantém permanece íntegra. A Lei nasce desse fundamento. Ela não é regra externa, mas expressão da própria estrutura do ser, como um eixo invisível que mantém o cosmos em harmonia.
A permanência no interior da alma
Quando a consciência se recolhe, descobre que também participa dessa estabilidade. No íntimo há um lugar que não oscila com as circunstâncias. Ali a pessoa encontra clareza, direção e repouso. Essa região silenciosa é o espaço onde Deus instrui sem ruído. A oração, o exame do coração e a fidelidade cotidiana tornam-se caminhos de retorno a esse centro. Assim a vida deixa de ser dispersa e passa a ser unificada.
O cumprimento da Lei como plenitude do ser
Cristo não anula a Lei porque ela é o traçado da plenitude humana. Cumpri-la significa permitir que o próprio ser floresça conforme sua verdade mais alta. Cada mandamento guarda a integridade da pessoa, preserva o amor, protege a palavra, ordena os desejos. Não se trata de temor, mas de consonância. A existência se alinha ao Bem como o instrumento que se afina ao tom justo.
A dignidade da pessoa e da família
A fidelidade ensinada pelo Evangelho manifesta-se de modo concreto nas relações mais próximas. A pessoa humana é portadora de valor intrínseco porque participa do sopro divino. A família, como primeiro lugar de acolhida e cuidado, torna-se escola de constância, respeito e entrega. Nesse espaço discreto a Lei se encarna, não como teoria, mas como vida compartilhada e preservada.
O sentido litúrgico da existência
Cada instante, sustentado por esse fundamento que não passa, pode tornar-se oferenda. O culto não se limita ao templo. Ele se prolonga na conduta reta, na palavra verdadeira e na reconciliação do coração. Assim toda a existência assume forma orante. O ser humano caminha, trabalha e ama diante de Deus, guardado por uma presença que conduz, nutre e sustenta. Nessa fidelidade silenciosa a alma encontra paz e participa da eternidade que já a envolve.
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