Liturgia Diária
19 – QUINTA-FEIRA
DEPOIS DAS CINZAS
(roxo – ofício do dia)
“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Psalmus 54 (55), 17–20.23
Biblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam
17 Vespere, et mane, et meridie narrabo et annuntiabo:
et exaudiet vocem meam.18 Redimet in pace animam meam ab his qui appropinquant mihi:
quoniam inter multos erant mecum.19 Exaudiet Deus, et humiliabit illos:
qui est ante saecula.
Non enim est illis commutatio, et non timuerunt Deum.23 Jacta super Dominum curam tuam, et ipse te enutriet:
non dabit in aeternum fluctuationem justo.
Tradução
Quando, no entardecer da alma, ao amanhecer da esperança e no fulgor do meio-dia interior, elevo minha voz ao Senhor,
Ele a recolhe no Agora eterno, onde não há sucessão, mas Presença.
Ele resgata minha vida no silêncio da paz,
mesmo quando forças se aproximam para me desestabilizar;
pois Sua eternidade envolve meu instante
e transforma a ameaça em caminho de purificação.
Deus, Aquele que é antes dos séculos,
manifesta-Se no Tempo Vertical —
não como resposta tardia,
mas como fundamento invisível que sustenta cada segundo.
Aqueles que não se convertem permanecem na instabilidade da superfície;
mas o coração que se abre ao Eterno
encontra eixo no Invisível.
Lança, pois, teus cuidados sobre o Senhor.
Entrega-Lhe o peso do tempo horizontal,
as ansiedades que nascem da sucessão e do medo.
Ele mesmo te nutrirá.
Ele será o sustento secreto da tua existência.
Não permitirá que o justo seja abalado para sempre,
porque quem repousa no Eterno
já participa da firmeza do que não passa.
Obedecer a Deus é orientar o ser para a Fonte do existir, onde a vida encontra seu sentido pleno. Ao seguir Jesus, a consciência retorna ao Princípio que a sustenta e purifica as intenções dispersas. Conversão é esse movimento interior contínuo: não mera mudança exterior, mas realinhamento do querer humano com a Verdade eterna. Cada dia se torna ocasião de reencontro com o Centro invisível que antecede e ultrapassa os instantes. No tempo quaresmal, tal exercício aprofunda-se como disciplina do espírito, restaurando a unidade interior e conduzindo a alma à estabilidade que nasce da comunhão com o Absoluto.
EVANGELIUM SECUNDUM LUCAM IX, XXII–XXV
XXII
Dicens Quia oportet Filium hominis multa pati et reprobari a senioribus et principibus sacerdotum et scribis et occidi et tertia die resurgere
É necessário que o Filho do Homem atravesse o sofrimento, seja rejeitado e entregue à morte, para que, ao terceiro dia, manifeste a vida que não se extingue. No mistério dessa passagem, revela-se o eixo eterno que sustenta cada instante.
XXIII
Dicebat autem ad omnes Si quis vult post me venire abneget semetipsum et tollat crucem suam cotidie et sequatur me
Quem deseja seguir o Caminho renuncie ao domínio ilusório do próprio eu, assuma diariamente sua cruz e caminhe na direção do Alto. Assim o coração se ordena ao Centro invisível que precede e ultrapassa o tempo sucessivo.
XXIV
Qui enim voluerit animam suam salvam facere perdet illam nam qui perdiderit animam suam propter me salvam faciet illam
Quem busca preservar-se a partir do medo perde o sentido profundo do ser. Quem se oferece confiadamente ao Eterno reencontra a vida em sua fonte indestrutível.
XXV
Quid enim proficit homo si lucretur universum mundum se autem ipsum perdat et detrimentum sui faciat
De que vale possuir o mundo exterior se o interior se dispersa. O verdadeiro ganho é permanecer unido ao Princípio que fundamenta todo existir.
Verbum Domini
Reflexão
A existência encontra plenitude quando se orienta ao que permanece.
O sofrimento aceito com retidão purifica a intenção e fortalece o caráter.
Renunciar ao apego desordenado restitui a clareza do espírito.
A cruz cotidiana educa o querer e disciplina os impulsos.
Perder-se no que é eterno é reencontrar-se em verdade.
O domínio interior vale mais que qualquer conquista externa.
A constância diante das provações gera firmeza serena.
Assim o coração participa da estabilidade que não passa.
Versículo mais importante:
XXIII
Dicebat autem ad omnes Si quis vult post me venire abneget semetipsum et tollat crucem suam cotidie et sequatur me
Se alguém deseja vir após Mim, renuncie ao domínio do ego transitório, assuma a cruz de cada dia e caminhe segundo o Eterno. Nesse seguimento, o instante humano é elevado ao Agora que não passa, e o cotidiano torna-se passagem para a Vida que sustenta todos os tempos. (Lc 9,23)
HOMILIA
A Travessia do Coração para a Vida que Não Passa
No silêncio fiel do cotidiano, a alma participa da estabilidade que ultrapassa o tempo e permanece.
Amados irmãos e irmãs
O Filho do Homem anuncia que deve sofrer, ser rejeitado e morrer, para então ressurgir. Não se trata apenas de um acontecimento histórico, mas da revelação de uma lei inscrita no próprio ser. Tudo o que é chamado a participar da plenitude precisa atravessar a purificação. A semente não floresce sem antes ocultar-se na terra. Assim também o coração humano é conduzido por caminhos que o despojam para que nele se manifeste a vida mais alta.
Quando o Senhor convida cada um a tomar a própria cruz e segui-Lo, Ele não impõe um peso arbitrário. Ele revela a estrutura do crescimento interior. A cruz cotidiana é o ponto onde a vontade desordenada encontra medida, onde os impulsos se submetem à verdade e onde o amor amadurece. Nesse consentimento silencioso, o instante deixa de ser fragmento disperso e torna-se participação no fundamento eterno que sustenta todas as coisas.
Quem busca preservar-se a qualquer custo termina por empobrecer a própria alma. Quem se oferece confiadamente ao desígnio superior descobre uma força que não depende das circunstâncias. Perder a vida por causa de Cristo é permitir que o centro da existência seja deslocado do eu instável para o Princípio que não se altera. Aí nasce a verdadeira autonomia do espírito, não como afirmação isolada, mas como adesão consciente ao Bem.
De que vale conquistar o mundo e perder a si mesmo. O mundo exterior é vasto, mas o interior é mais profundo. O homem é chamado a governar antes de tudo o próprio coração. Nessa ordem interior encontra-se sua dignidade inviolável, pois cada pessoa é portadora de um valor que procede do Alto e não pode ser reduzido a utilidade alguma.
Essa dignidade floresce primeiramente na família, célula mater onde a vida é acolhida, formada e orientada. No lar aprende-se a disciplina do amor, o respeito mútuo, a responsabilidade silenciosa. Ali a cruz cotidiana se traduz em serviço, fidelidade e cuidado perseverante. Quando a família se mantém enraizada no fundamento eterno, torna-se espaço de crescimento integral e de transmissão do sentido mais alto da existência.
O caminho proposto por Cristo não conduz à diminuição do ser, mas à sua elevação. A renúncia purifica, o sofrimento assumido com retidão fortalece, a entrega confiante amplia o horizonte interior. Assim a alma, unida ao Mistério pascal, participa de uma vida que não se limita ao fluxo dos dias. No seguimento fiel, cada momento é tocado pela eternidade e o coração encontra a estabilidade que nada pode abalar.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Se alguém deseja vir após Mim renuncie ao domínio do ego transitório assuma a cruz de cada dia e caminhe segundo o Eterno Lc 9,23
O chamado ao seguimento
A palavra do Senhor revela que o discipulado não é mera adesão exterior, mas reconfiguração do próprio ser. Seguir Cristo implica deslocar o centro da existência do eu instável para Aquele que é fundamento de todo existir. Não se trata de anular a personalidade, mas de purificá-la, para que a vontade humana encontre sua forma plena na comunhão com a Vontade divina. O chamado é universal e íntimo, dirigido ao núcleo mais profundo da consciência.
A renúncia como ordenação interior
Renunciar ao domínio do ego transitório significa reconhecer que a identidade construída apenas sobre desejos passageiros é frágil. A tradição cristã compreende essa renúncia como exercício de verdade. O coração aprende a distinguir entre o que passa e o que permanece. Tal movimento não empobrece o ser, antes o fortalece, pois o liberta da dispersão interior e o conduz à unidade. A cruz cotidiana torna-se, assim, escola de maturidade espiritual.
A cruz como via de configuração
Assumir a cruz de cada dia é acolher as circunstâncias à luz da fé, transformando provação em participação no mistério pascal. A cruz não é fim em si mesma, mas passagem. Nela, o sofrimento é integrado ao amor redentor de Cristo. Cada ato de fidelidade silenciosa une o instante humano ao horizonte eterno de Deus. O cotidiano deixa de ser fragmento isolado e torna-se lugar de comunhão com a vida que não se extingue.
O instante elevado à eternidade
Caminhar segundo o Eterno significa viver cada momento sob a luz daquele que é antes de todos os séculos. Em Cristo, o tempo não é apenas sucessão, mas abertura ao que permanece. O presente é tocado pela presença divina e torna-se espaço de transformação. Assim, o fiel participa já agora da estabilidade que não passa. O seguimento configura a alma à Ressurreição, permitindo que a existência histórica seja sustentada pelo fundamento eterno que a envolve e a plenifica.
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