Acclamatio ad Evangelium, cf. Act XVI, XIVb
R. Alleluia, alleluia, alleluia.
V. Veni, aperi cor nostrum, Domine;
et, Domine, aperi cor nostrum,
ut verbum Filii tui
amore pleno suscipere valeamus.
Aclamação ao Evangelho, cf. At 16,14b
R. Aleluia, aleluia, aleluia.
V. Vinde abrir o nosso coração, Senhor;
ó Senhor, abri o nosso coração,
e então poderemos acolher
com muito amor a palavra de vosso Filho.
Quando o coração reconhece a bondade do Eterno, abandona a comparação, acolhe sua presença e encontra, no instante, a plenitude de ser em sua origem.
Evangelium secundum Matthaeum XX,I-XVIa
I. Simile est regnum cælorum homini patrifamilias, qui exiit primo mane conducere operarios in vineam suam.
O Reino dos Céus é semelhante a um homem, senhor de sua casa, que saiu de madrugada para chamar trabalhadores para sua vinha.
II. Conventione autem facta cum operariis ex denario diurno, misit eos in vineam suam.
Tendo combinado com os trabalhadores o pagamento de um denário por dia, enviou-os para sua vinha.
III. Et egressus circa horam tertiam, vidit alios stantes in foro otiosos,
Saindo por volta da terceira hora, viu outros que permaneciam na praça, sem ocupação,
IV. et dixit illis, Ite et vos in vineam meam, et quod justum fuerit dabo vobis. Illi autem abierunt.
E disse-lhes que fossem também para sua vinha, assegurando-lhes que lhes daria o que fosse justo. E eles foram.
V. Iterum autem exiit circa sextam et nonam horam, et fecit similiter.
Saiu novamente por volta da sexta e da nona hora, e fez o mesmo.
VI. Circa undecimam vero exiit, et invenit alios stantes, et dicit illis, Quid hic statis tota die otiosi?
Por volta da décima primeira hora, saiu ainda outra vez, encontrou outros que permaneciam ali e lhes perguntou por que estavam ociosos durante todo o dia.
VII. Dicunt ei, Quia nemo nos conduxit. Dicit illis, Ite et vos in vineam meam.
Eles lhe responderam que ninguém os havia chamado. Então lhes disse que fossem também para sua vinha.
VIII. Cum sero autem factum esset, dicit dominus vineæ procuratori suo, Voca operarios, et redde illis mercedem incipiens a novissimis usque ad primos.
Ao chegar a tarde, o senhor da vinha disse ao seu administrador que chamasse os trabalhadores e lhes desse a recompensa, começando pelos últimos até chegar aos primeiros.
IX. Cum venissent ergo qui circa undecimam horam venerant, acceperunt singulos denarios.
Quando chegaram os que haviam vindo por volta da décima primeira hora, cada um recebeu um denário.
X. Venientes autem et primi, arbitrati sunt quod plus essent accepturi, acceperunt autem et ipsi singulos denarios.
Chegando também os primeiros, imaginaram que receberiam mais. Contudo, também eles receberam cada um um denário.
XI. Et accipientes murmurabant adversus patremfamilias,
Ao receberem o que lhes fora dado, começaram a murmurar contra o senhor da casa,
XII. dicentes, Hi novissimi una hora fecerunt, et pares illos nobis fecisti, qui portavimus pondus diei, et æstus.
dizendo que aqueles últimos haviam trabalhado somente uma hora e que ele os tornara iguais aos que haviam suportado o peso e o calor do dia.
XIII. At ille respondens uni eorum, dixit, Amice, non facio tibi injuriam, nonne ex denario convenisti mecum?
Mas ele respondeu a um deles e disse que não lhe fazia injustiça, pois não havia combinado com ele um denário?
XIV. Tolle quod tuum est, et vade, volo autem et huic novissimo dare sicut et tibi.
Toma o que é teu e vai. Quanto a este último, quero dar-lhe tanto quanto dei a ti.
XV. Aut non licet mihi quod volo, facere, an oculus tuus nequam est, quia ego bonus sum?
Não me é permitido fazer o que quero? Ou teu olhar se tornou mau porque eu sou bom?
XVI. Sic erunt novissimi primi, et primi novissimi.
Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.
Reflexão:
O Reino se manifesta onde a medida humana cessa e a presença eterna acolhe cada ser em sua plenitude.
O instante não é vazio, pois nele a bondade divina se oferece inteira e chama cada consciência à realização.
O coração encontra sua verdade quando deixa de medir o próprio ser pela comparação e permanece unido à origem.
Aquele que recebe com inteireza reconhece que o dom não diminui quando alcança outro, mas revela sua própria abundância.
A ordem profunda não depende da sucessão exterior, porque cada instante pode tornar-se presença plena diante do Eterno.
O último não permanece afastado quando responde ao chamado, pois a realização do ser não se mede pela duração.
A bondade divina não se ajusta aos cálculos humanos, mas conduz cada existência àquilo que nela pode alcançar plenitude.
Assim, o coração repousa no presente e reconhece que a verdadeira riqueza consiste em receber plenamente o ser que lhe é dado.
Verbum Domini.
Versículo mais importante:
Proclamatio Sancti Evangelii secundum Mateum XX, I-XVIa
XV. Aut non licet mihi quod volo, facere, an oculus tuus nequam est, quia ego bonus sum? (Matthaeus XX, XV)
Ou não me é permitido fazer o que quero? Ou teu olhar se torna mau porque eu sou bom? (Mateus 20,15)
A bondade que revela a verdade do ser
Diante de Deus, cada instante pode tornar-se plenitude quando o coração deixa de medir o próprio ser pela medida dos outros e acolhe integralmente o dom recebido.
A parábola dos trabalhadores da vinha nos conduz a uma compreensão mais profunda da existência. O olhar humano costuma ordenar a vida segundo a duração, a precedência e a quantidade. Quem chegou primeiro parece merecer mais. Quem permaneceu durante todo o dia parece possuir uma razão maior para receber. Cristo, porém, desloca o centro da compreensão. Ele mostra que a realidade mais profunda do ser não se encontra na comparação entre existências, mas na relação interior com aquele que chama, acolhe e realiza.
Os trabalhadores chegam em horas diferentes, mas todos entram na mesma vinha. A diferença exterior permanece, porém não determina a dignidade daquele que foi chamado. O senhor da vinha não contempla apenas a sucessão dos acontecimentos. Ele vê cada pessoa em sua relação com o dom que lhe é oferecido. Assim, a existência não encontra seu sentido apenas na quantidade de tempo transcorrido, mas na profundidade com que cada instante é acolhido.
Existe uma transformação decisiva quando compreendemos isso. O instante deixa de ser apenas uma passagem entre aquilo que já aconteceu e aquilo que ainda acontecerá. Ele pode tornar-se lugar interior de encontro, onde o ser recebe sua direção e reencontra sua origem. A presença de Deus não depende da extensão exterior da jornada. Ela pode alcançar a pessoa precisamente no momento em que seu coração se torna capaz de acolher aquilo que lhe é oferecido.
Por isso, a parábola também revela algo sobre o amadurecimento interior. Amadurecer não significa simplesmente acumular duração, experiências ou realizações. Significa tornar-se capaz de receber com maior inteireza a verdade que se apresenta. O ser humano pode atravessar muitos anos sem penetrar verdadeiramente em si mesmo, enquanto um único instante acolhido com inteira disposição pode abrir uma profundidade que antes permanecia fechada.
O trabalhador que chegou primeiro se inquieta porque olha para o outro antes de olhar para o dom que recebeu. Seu coração já não contempla a própria relação com o senhor da vinha, mas começa a medir sua existência pela existência alheia. Nesse movimento, aquilo que havia recebido perde sua evidência interior. A comparação obscurece a gratidão porque desloca o centro da consciência. A pessoa deixa de habitar aquilo que lhe foi dado e passa a procurar sua confirmação naquilo que o outro recebeu.
Cristo conduz a pessoa para outro modo de existir. A pergunta essencial não é quanto o outro recebeu, nem em que momento chegou, nem quanto tempo permaneceu, mas o que acontece dentro daquele que recebe. A responsabilidade interior começa justamente quando a pessoa deixa de entregar sua medida às circunstâncias exteriores e passa a responder diante da verdade que encontrou. O dom recebido pede uma resposta pessoal, uma disposição interior e uma transformação real do ser.
Essa verdade alcança também a vida familiar, porque a família não é apenas uma realidade constituída por vínculos exteriores. Ela se torna verdadeiramente fecunda quando cada pessoa aprende a reconhecer no outro uma presença que não precisa ser medida para ser acolhida. O amor amadurece quando deixa de transformar a proximidade em comparação e passa a reconhecer a dignidade singular de cada pessoa diante de Deus. Nesse espaço, cada existência pode crescer em responsabilidade, acolhimento e profundidade.
A palavra de Cristo também corrige uma compreensão superficial da justiça. Deus não distribui sua bondade segundo os cálculos pelos quais os homens costumam medir o valor da existência. Sua bondade não diminui porque alcança outro. Seu dom não se torna menor porque chega a alguém depois. O que procede da plenitude não precisa ser dividido para permanecer pleno.
Quando Cristo pergunta se o olhar se torna mau porque Ele é bom, toca o centro de uma transformação interior. O problema não está na bondade recebida pelo outro, mas na incapacidade de reconhecer a bondade como realidade suficiente em si mesma. O coração amadurecido não precisa que o outro receba menos para reconhecer a grandeza do próprio dom. Ele permanece diante de Deus e encontra nessa presença a medida mais profunda de sua existência.
A vinha, então, revela uma realidade interior. Cada pessoa é chamada a entrar na profundidade de seu próprio ser e a realizar, no instante que lhe foi dado, aquilo que somente ela pode acolher e tornar fecundo. Não importa apenas quando o chamado foi percebido. Importa a resposta que nasce quando a presença de Deus se torna interiormente reconhecida.
Aquele que chega na última hora não recebe uma existência menor. Ele recebe a possibilidade de entrar na plenitude daquele encontro. O passado não precisa ser negado, mas também não pode impedir a realização que começa quando o ser se abre à verdade. O instante presente contém uma possibilidade de transformação que não depende simplesmente daquilo que veio antes. A presença divina pode reunir a existência dispersa e conduzi-la novamente à sua origem.
É assim que a Palavra de Cristo modifica nossa compreensão de nós mesmos. Já não somos apenas seres submetidos à sucessão dos acontecimentos. Somos pessoas chamadas a realizar interiormente aquilo que receberam. Cada instante pode conter uma convocação à maturidade, e cada resposta verdadeira pode aproximar o ser de sua plenitude.
O Reino não se revela apenas no término da caminhada, mas na profundidade com que cada instante é vivido diante de Deus. A eternidade toca a existência quando o coração deixa de fugir de si mesmo, acolhe sua origem e responde ao chamado com inteireza. Então a vida deixa de ser apenas passagem e começa a revelar sua finalidade mais profunda, que é tornar-se plenamente aquilo para o qual foi chamada.
Que Cristo nos ensine a receber sem comparar, a amadurecer sem medir os outros e a permanecer diante de Deus com inteira presença. Que cada instante encontre em nós uma resposta verdadeira, até que aquilo que recebemos se torne realização interior e nossa existência possa repousar na plenitude daquele que nos chamou.
TEOLOGIA
Explicação Teológica
O dom recebido e a bondade de Deus
«Aut non licet mihi quod volo, facere, an oculus tuus nequam est, quia ego bonus sum?» (Mateus 20,15)
A pergunta de Cristo constitui o centro teológico da parábola. O senhor da vinha não apresenta a bondade como algo submetido aos cálculos humanos, mas como expressão de sua própria natureza. A afirmação «ego bonus sum» revela que a origem do dom está naquele que é bom. A graça não nasce da comparação entre aqueles que a recebem, mas da iniciativa daquele que concede.
A parábola manifesta, portanto, uma verdade essencial sobre a relação entre Deus e a pessoa humana. Deus não concede sua bondade porque o ser humano tenha conseguido estabelecer diante dele uma medida suficiente de merecimento. A iniciativa pertence ao próprio Deus, que chama, acolhe e conduz cada pessoa à realização de sua vocação. A graça não destrói a responsabilidade humana, mas a precede e a torna possível.
Cristo e a plenitude do chamado
Os trabalhadores chegam à vinha em momentos diferentes. Essa diversidade temporal não significa diversidade de dignidade diante daquele que chama. O Evangelho desloca a atenção da duração exterior para a resposta interior. A pessoa é alcançada por Deus no momento concreto de sua existência, e esse encontro pode adquirir uma profundidade que ultrapassa a simples sucessão dos acontecimentos.
Cristo revela, assim, que a relação com Deus não pode ser compreendida somente pela quantidade de tempo transcorrido. A presença divina alcança o ser humano no instante em que ele se abre à verdade recebida. Aquele que responde ao chamado entra numa realidade que não depende apenas do passado, porque a graça pode transformar o sentido da existência a partir de sua raiz.
A conversão possui justamente essa dimensão. Ela não consiste apenas em modificar comportamentos exteriores, mas em permitir que a pessoa seja novamente orientada para sua origem. Quando Cristo chama, a existência recebe uma direção nova. A verdade não permanece diante da pessoa como conhecimento exterior. Ela começa a penetrar sua interioridade e a ordenar o ser para sua plenitude.
A graça como iniciativa divina
A graça ocupa lugar central nessa passagem. O senhor da vinha procura os trabalhadores repetidamente e, mesmo na última hora, continua chamando. A iniciativa parte sempre dele. O movimento de Deus precede a resposta humana e manifesta uma bondade que não se encerra nos limites daquilo que o homem considera proporcional.
Isso não significa que a resposta humana seja irrelevante. Ao contrário, o chamado exige acolhimento. Os trabalhadores precisam entrar na vinha. A graça recebida pede uma existência que corresponda ao dom. A pessoa não produz a graça, mas pode acolhê-la e permitir que ela transforme sua maneira de existir.
A vida espiritual encontra aqui uma de suas verdades mais profundas. Deus não apenas oferece algo à pessoa. Ele próprio se torna presença que chama o ser a uma realização mais profunda. O dom recebido possui uma finalidade interior. Ele conduz a pessoa para além de uma existência dispersa e a reconduz à unidade de sua origem.
A justiça iluminada pela bondade
A reação dos primeiros trabalhadores revela uma dificuldade espiritual profunda. Eles reconhecem a própria recompensa, mas passam a contemplá-la através daquilo que os outros receberam. A comparação altera o significado do dom. O que antes era recebido como justo passa a parecer insuficiente quando colocado diante da generosidade concedida a outro.
Cristo não elimina a justiça. Ele revela sua profundidade. A justiça divina não pode ser separada da bondade de Deus, porque Deus não age contra aquilo que Ele é. O senhor da vinha permanece fiel ao acordo estabelecido e, ao mesmo tempo, manifesta uma generosidade que ultrapassa a expectativa daqueles que chegaram primeiro.
A teologia da graça encontra aqui uma expressão particularmente clara. O dom de Deus não é uma realidade que precise ser diminuída para preservar aquilo que outro recebeu. A plenitude divina não funciona segundo a lógica da escassez. A bondade concedida a uma pessoa não empobrece a bondade concedida a outra. Cada pessoa pode receber verdadeiramente sem que a plenitude do outro constitua uma ameaça à sua própria realização.
A pessoa diante da verdade
A pergunta de Cristo sobre o olhar que se torna mau diante da bondade revela que o problema não está simplesmente naquilo que acontece fora da pessoa. Existe uma transformação necessária do olhar interior. A pessoa precisa aprender a contemplar a realidade a partir da verdade de Deus, e não apenas a partir das medidas que construiu para si mesma.
A fé possui precisamente essa dimensão. Crer não significa apenas aceitar determinadas verdades. Significa permitir que a verdade de Deus alcance a interioridade e reorganize a compreensão da própria existência. A pessoa começa então a reconhecer que sua dignidade não depende da comparação, da precedência ou da quantidade exterior de realizações.
Esse reconhecimento possui consequências para a vida familiar. A família encontra sua profundidade quando cada pessoa é acolhida não como medida do valor de outra, mas como presença singular diante de Deus. O vínculo familiar amadurece quando a dignidade de cada pessoa é reconhecida como recebida da própria origem e não como resultado de uma competição por reconhecimento.
O instante e a realização do ser
Aqueles que chegam na última hora recebem o mesmo denário. O texto não está ensinando uma simples equivalência quantitativa entre diferentes trajetórias. Ele revela algo mais profundo sobre a relação entre o chamado e a realização. A plenitude não depende simplesmente da duração exterior da caminhada, mas da verdade com que o chamado é acolhido.
O instante em que a pessoa encontra Deus não é espiritualmente vazio. Ele pode tornar-se o momento em que toda a existência é reorientada. O passado não desaparece, mas deixa de possuir a última palavra. A presença de Deus alcança o ser no presente e abre nele uma possibilidade real de transformação.
É nesse sentido que a existência humana encontra sua profundidade. Cada instante pode tornar-se interiormente fecundo quando a pessoa responde à verdade que recebeu. O tempo da vida permanece como sucessão, mas a presença de Deus introduz nessa sucessão uma profundidade que conduz o ser para além da mera passagem.
A família como lugar de maturação
A dimensão familiar também pode ser compreendida à luz dessa verdade. A família é uma realidade na qual a pessoa aprende, de maneira concreta, que o ser humano não se realiza apenas por aquilo que possui ou produz. A presença, o acolhimento, a responsabilidade e a fidelidade participam da formação interior da pessoa.
A dignidade familiar não procede apenas da estrutura exterior do vínculo. Ela encontra seu fundamento no valor de cada pessoa diante de Deus. Quando essa verdade é reconhecida, a família pode tornar-se espaço de maturação, onde cada pessoa aprende a receber, responder e entregar aquilo que lhe foi confiado.
A parábola ilumina essa dimensão porque mostra que a realização não acontece mediante comparação. Cada trabalhador recebe um chamado e deve responder a ele. Também na família cada pessoa possui uma responsabilidade própria diante da verdade, e essa responsabilidade não pode ser transferida para outro.
A Palavra que conduz à plenitude
A palavra de Cristo finalmente desloca o centro da existência para Deus. «Ego bonus sum» não é apenas uma afirmação sobre uma ação particular. É a revelação de que a origem do dom está na bondade daquele que chama. A pessoa encontra sua verdadeira medida quando deixa que essa bondade ilumine sua interioridade.
A plenitude cristã não consiste em possuir mais do que outro, nem em chegar antes, nem em acumular méritos exteriores. Consiste em permitir que o ser receba de Deus aquilo que somente Deus pode conceder e, recebido o dom, responda com toda a profundidade de sua existência.
Assim, a parábola dos trabalhadores da vinha revela uma verdade essencial do Evangelho. Deus chama cada pessoa a entrar em sua presença, e esse chamado pode alcançar a existência em qualquer momento. A graça encontra o ser onde ele está, mas não o deixa encerrado onde estava. Ela o conduz para sua origem, ilumina sua interioridade e abre diante dele o caminho da realização. A bondade de Deus permanece como fundamento, Cristo como aquele que chama e a pessoa como aquela que, acolhendo a verdade, permite que o dom recebido se torne plenitude em sua própria existência.
FILOSOFIA
A plenitude que se manifesta no instante
[Mateus 20,1-16a]
A parábola dos trabalhadores da vinha apresenta uma realidade que ultrapassa a simples questão da recompensa. Em sua profundidade, ela toca o próprio modo como a existência recebe seu sentido. O senhor da vinha sai repetidamente ao encontro dos trabalhadores, em horas diferentes, e os chama para dentro de uma mesma obra. A sucessão das horas permanece presente, mas aquilo que acontece no interior desse movimento não pode ser compreendido apenas pela duração cronológica. Existe uma profundidade na qual o chamado, a resposta e a realização pertencem a uma unidade mais originária.
A origem que chama
O movimento da parábola começa naquele que sai para chamar. Antes de qualquer resposta humana existe uma iniciativa que procede da origem. O trabalhador não produz o chamado que o conduz à vinha. Ele o recebe. Sua existência é alcançada por uma palavra que o retira da simples permanência exterior e o introduz em um processo de realização.
Essa estrutura revela algo fundamental sobre o ser. Aquilo que existe não encontra em si mesmo a explicação última de sua existência. Há uma origem que precede a manifestação e que sustenta aquilo que vem a ser. A existência recebe sua possibilidade de uma fonte que não depende dela. Antes de tornar-se visível em sua forma exterior, o ser já se encontra relacionado àquilo de onde procede.
A vinha, nesse sentido, não é apenas o cenário de uma atividade. Ela representa o âmbito no qual aquilo que foi chamado pode entrar em realização. O chamado não acrescenta exteriormente uma finalidade a uma existência já completa. Ele desperta uma possibilidade que estava destinada a tornar-se presente.
A profundidade escondida nas horas
A parábola distribui os trabalhadores por diferentes momentos do dia. A sucessão das horas estabelece uma ordem exterior, mas Cristo impede que essa ordem seja confundida com a profundidade do acontecimento. O último trabalhador entra quando o dia já se aproxima de seu término, mas recebe a mesma possibilidade de realização daquele que chegou primeiro.
Aqui aparece uma distinção essencial entre duração e profundidade. A duração mede a extensão de uma sucessão. A profundidade diz respeito àquilo que pode acontecer no interior de um único instante. Um momento não é espiritualmente determinado apenas por sua brevidade ou extensão. Sua densidade depende daquilo que nele se manifesta.
O instante pode conter uma realidade que não se deixa reduzir à passagem cronológica. Quando a presença divina alcança o interior do ser, o momento presente deixa de ser apenas uma unidade sucessiva entre outras. Ele se torna ocasião de manifestação. Aquilo que estava oculto pode encontrar nele sua forma de presença.
O silêncio anterior à manifestação
Aquele que chega à última hora não começa sua existência naquele instante. Sua chegada exterior é apenas o momento em que aquilo que estava ausente da vinha passa a manifestar-se dentro dela. Existe uma diferença entre começar a existir e começar a aparecer. A parábola permite contemplar essa diferença sem precisar transformá-la em uma teoria.
Toda manifestação possui uma interioridade que a precede. Antes que algo se apresente plenamente, existe uma realidade que amadurece em silêncio. A forma exterior não constitui toda a realidade do ser. Ela é a expressão de uma profundidade que alcançou determinado grau de maturação.
Assim também acontece com a existência humana diante de Deus. O chamado pode ser ouvido somente depois de longa permanência na exterioridade, mas isso não significa que a relação com a origem tenha começado naquele momento. A presença pode estar preparando interiormente aquilo que somente depois se torna consciente e manifesto.
A presença que reúne o tempo
O senhor da vinha não contempla os trabalhadores apenas segundo a ordem em que chegaram. Ele os contempla a partir daquilo que deseja realizar neles. Sua ação introduz uma unidade onde a sucessão poderia parecer estabelecer diferenças definitivas.
Isso revela uma dimensão profunda da eternidade. O eterno não precisa destruir a sucessão para estar presente nela. Pode penetrá-la e conferir ao instante uma densidade que não provém simplesmente de sua duração. O presente torna-se então mais do que um ponto entre passado e futuro. Ele pode receber uma presença que o ultrapassa sem abandoná-lo.
A existência permanece temporal, mas não está fechada dentro da sucessão. Há nela uma profundidade capaz de acolher aquilo que não nasce da própria sucessão. O instante torna-se fecundo quando recebe a presença daquilo que o transcende. Nesse encontro, o tempo deixa de ser compreendido apenas como passagem e revela sua capacidade de acolher manifestação.
A bondade e a medida do ser
A reação dos primeiros trabalhadores introduz outra dimensão essencial. Eles medem o próprio recebimento pela medida do recebimento alheio. O olhar que deveria contemplar o dom recebido desloca-se para a comparação. Com isso, a própria realidade do dom começa a perder sua transparência.
A resposta do senhor da vinha reconduz a existência à sua origem. «Ego bonus sum». A bondade não é apresentada como cálculo, mas como fundamento. O que é dado procede daquele que dá. A plenitude da origem não diminui quando se manifesta em outro. O ser não precisa competir para possuir consistência, porque sua realidade procede de uma fonte que não se esgota ao comunicar-se.
Aqui se encontra uma chave para compreender a maturação interior. Amadurecer significa tornar-se capaz de permanecer diante do ser recebido sem exigir que a existência de outro diminua a própria. A interioridade encontra sua estabilidade quando reconhece sua origem e deixa de buscar sua medida exclusivamente na exterioridade.
O instante como lugar de realização
A última hora possui, portanto, uma significação que ultrapassa a cronologia. Ela mostra que o instante não é determinado somente pelo momento em que ocorre. Ele pode receber uma profundidade que reúne origem, presença e realização.
Quando o trabalhador entra na vinha, sua presença exterior acontece tarde, mas sua realização não é tardia diante daquele que o chama. A origem não está submetida à sucessão da mesma maneira que aquilo que dela procede. Por isso, aquilo que parece tardio segundo a ordem exterior pode tornar-se pleno segundo a ordem interior.
A passagem de Mateus 20,1-16a revela, assim, uma concepção da existência na qual cada momento pode receber uma densidade nova. O presente não é simplesmente aquilo que resta depois do passado. Ele é a abertura na qual a realidade pode tornar-se manifesta. A presença divina alcança o ser no ponto concreto de sua existência e pode conduzi-lo àquilo que estava destinado a realizar.
A geração interior do ser
O chamado recebido não produz imediatamente sua plenitude. Existe um processo interior no qual aquilo que foi acolhido precisa tornar-se forma de existência. A pessoa não se transforma apenas porque ouviu uma palavra. A palavra precisa penetrar, permanecer, amadurecer e tornar-se princípio de manifestação.
Nesse sentido, a existência possui uma dimensão geradora. Aquilo que é recebido interiormente pode tornar-se realidade vivida. A verdade deixa de ser apenas algo contemplado e começa a configurar o próprio ser. A presença recebida transforma-se progressivamente em modo de existir.
O silêncio possui aqui uma função decisiva. Ele não é ausência de acontecimento. É profundidade na qual aquilo que ainda não se manifesta exteriormente pode adquirir consistência. O que amadurece no silêncio não está inativo. Está reunindo interiormente as condições de sua manifestação.
A origem e o destino
A parábola também permite compreender que origem e destino não são realidades estranhas entre si. Aquilo que procede de uma origem encontra sua realização quando retorna à verdade de sua procedência. O trabalhador entra na vinha porque foi chamado, e sua entrada realiza exteriormente aquilo que começou com a iniciativa daquele que o chamou.
A plenitude não consiste, portanto, em acrescentar indefinidamente algo ao ser. Ela consiste em permitir que aquilo que foi recebido alcance sua forma própria de realização. A existência torna-se plena quando aquilo que procede da origem encontra uma resposta capaz de acolhê-lo inteiramente.
Em Cristo, essa verdade adquire sua dimensão propriamente espiritual. O chamado não conduz simplesmente a uma tarefa. Conduz a uma relação. A pessoa é chamada a permanecer diante daquele de quem recebe o ser e, nessa relação, permitir que sua existência se torne aquilo que pode ser em sua verdade mais profunda.
A manifestação da plenitude
A parábola dos trabalhadores da vinha revela finalmente que a plenitude não pode ser medida somente pela sucessão. O último e o primeiro encontram-se diante da mesma bondade. O que muda é o percurso exterior, não a possibilidade de participar daquilo que a origem oferece.
O instante pode, portanto, tornar-se lugar de uma manifestação que ultrapassa sua duração. Nele, o que estava oculto pode aparecer, o que estava disperso pode reunir-se e aquilo que ainda não havia alcançado sua forma pode começar a realizá-la. A presença divina não elimina o tempo, mas o penetra e lhe confere profundidade.
A Palavra de Cristo conduz a existência para esse centro. O ser não encontra sua plenitude quando mede sua trajetória pela trajetória de outro, mas quando reconhece sua origem, acolhe a presença que o chama e permite que aquilo que recebeu amadureça até tornar-se manifestação verdadeira.
A vinha permanece como imagem de uma realidade em que o chamado precede a resposta, a presença sustenta a maturação e a plenitude se manifesta quando o ser alcança sua forma própria diante de sua origem. Assim, mesmo na última hora, o instante pode conter a profundidade de uma realização inteira, porque aquilo que é eterno pode encontrar no presente a morada de sua manifestação.
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