“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Aclamatión ad Evangelium
R. Allelúia, allelúia, allelúia.
V. Te, Deum, laudámus; te, Dóminum, confitémur;
te, chorus Apostolórum laudat, Dómine.
Aclamação ao Evangelho
R. Aleluia, aleluia, aleluia.
V. A vós, ó Deus, louvamos; a vós, Senhor, confessamos;
a vós louva, Senhor, o coro dos Apóstolos.
Ao ouvir o chamado de Cristo, o coração abandona o que o prende e entra inteiro na presença que o conduz à plenitude do ser.
Proclamatio Sancti Evangelii secundum Matthaeum, IX, IX-XIII
IX
Et, cum transiret inde Jesus, vidit hominem sedentem in telonio, Matthæum nomine. Et ait illi: Sequere me. Et surgens, secutus est eum.
E, ao passar dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria. Disse-lhe, então, segue-me. Ele se levantou e seguiu-o.
X
Et factum est, discumbente eo in domo, ecce multi publicani et peccatores venientes, discumbebant cum Jesu, et discipulis ejus.
E aconteceu que, estando Jesus à mesa em casa, muitos publicanos e pecadores vieram e se sentaram com Ele e com seus discípulos.
XI
Et videntes pharisæi, dicebant discipulis ejus: Quare cum publicanis et peccatoribus manducat magister vester?
Ao verem isso, os fariseus perguntaram aos discípulos de Jesus por que o Mestre deles se sentava à mesa com publicanos e pecadores.
XII
At Jesus audiens, ait: Non est opus valentibus medicus, sed male habentibus.
Jesus, ouvindo-os, respondeu que não são os que se consideram sãos que necessitam do médico, mas aqueles que reconhecem em si a enfermidade.
XIII
Euntes autem discite quid est: Misericordiam volo, et non sacrificium. Non enim veni vocare justos, sed peccatores.
Ide, pois, e compreendei o que significa a palavra misericórdia, e não sacrifício. Eu não vim chamar os que se consideram justos, mas aqueles que reconhecem a necessidade de retornar à verdade.
Verbum Domini
Reflexão:
O chamado de Cristo alcança o ser precisamente onde ele se encontra.
Nada precisa ser abandonado antes que a presença seja reconhecida.
Quando a voz do Eterno ressoa, o instante deixa de ser passagem e torna-se encontro.
Mateus se levanta porque percebe, no interior, uma direção que não pode mais ignorar.
O verdadeiro movimento começa quando o coração acolhe aquilo que lhe revela sua origem.
A presença divina não exige aparência de plenitude, mas abertura diante da verdade.
Quem reconhece sua própria necessidade encontra o caminho pelo qual pode ser restaurado.
Assim, seguir Cristo é permanecer inteiro diante daquele que chama e conduz à plenitude.
Versículo mais importante:
Proclamatio Sancti Evangelii secundum Matthaeum [IX, IX-XIII]
XIII. Euntes autem discite quid est: Misericordiam volo, et non sacrificium. Non enim veni vocare justos, sed peccatores. (Matthaeus, IX, 13)
Ide, pois, e aprendei o que significa a misericórdia. Eu quero misericórdia, e não sacrifício. Pois não vim chamar os justos, mas os pecadores. (Mateus, 9, 13)
Quando Cristo chama, o ser encontra sua origem
A presença de Cristo alcança o interior da pessoa e transforma o instante do chamado em princípio de uma existência amadurecida na verdade e orientada para a plenitude.
O Evangelho apresenta Mateus sentado na coletoria, ocupado com aquilo que constituía sua existência naquele momento. Jesus passa, vê-o e pronuncia uma palavra breve que alcança uma profundidade que nenhum olhar exterior poderia alcançar. O chamado não se dirige apenas àquilo que Mateus fazia, mas àquilo que ele podia tornar-se diante de Deus. Há, nesse encontro, uma revelação essencial sobre a pessoa humana. O ser não se esgota na condição em que se encontra, porque existe no interior uma profundidade que pode ser despertada pela presença daquele que conhece sua origem e seu destino.
Mateus levanta-se e segue Jesus. Esse movimento exterior manifesta uma transformação que já começou no interior. A mudança verdadeira não nasce simplesmente da substituição de uma atividade por outra, mas do reconhecimento de uma presença que reorganiza o sentido da existência. O instante do encontro torna-se decisivo porque nele aquilo que estava disperso encontra uma direção. O presente deixa de ser apenas sucessão de acontecimentos e passa a ser vivido diante daquele que permanece.
Cristo não exige que Mateus apresente primeiro uma existência perfeita. Ele o chama no próprio lugar em que se encontra. Isso revela que a transformação não começa quando o ser alcança sua plenitude, mas quando acolhe a verdade que o conduz para ela. A maturação interior acontece à medida que a pessoa deixa de construir sua compreensão de si apenas a partir do que possui, realiza ou aparenta ser, e começa a reconhecer aquilo que é diante de Deus.
Por isso, a presença de Cristo não acrescenta simplesmente uma dimensão religiosa à existência. Ela modifica a maneira de compreendê-la. O homem passa a perceber que sua vida possui uma profundidade que não pode ser reduzida ao instante exterior. Cada momento pode tornar-se lugar de encontro, discernimento e realização interior, porque o Eterno não está ausente da experiência humana. Sua presença ilumina o instante sem destruí-lo e permite que aquilo que ainda está em formação encontre uma direção.
Quando Jesus se senta à mesa com publicanos e pecadores, revela também que o olhar divino alcança a pessoa para além das aparências que a definem diante dos outros. Cristo não confirma o homem em sua condição, mas também não o reduz ao seu passado. Seu olhar reconhece uma verdade mais profunda, capaz de conduzir o ser ao amadurecimento. A misericórdia, nesse sentido, não é simples tolerância diante daquilo que permanece sem transformação. Ela é a presença que chama a pessoa a reencontrar sua verdade e a assumir diante dela a responsabilidade pelo próprio caminho.
É nesse ponto que a palavra de Cristo alcança uma dimensão ainda mais profunda. Ele declara que não veio chamar os que se consideram justos, mas os pecadores. O reconhecimento da própria necessidade não diminui a dignidade humana. Ao contrário, permite que a pessoa abandone a imagem que construiu de si e permaneça diante de Deus com verdade. Somente aquilo que é reconhecido pode ser verdadeiramente transformado. A interioridade amadurece quando já não procura esconder sua condição, mas permite que a presença divina alcance aquilo que necessita ser restaurado.
Essa transformação não permanece isolada no interior. Ela alcança também a maneira como a pessoa vive seus vínculos mais fundamentais. A família, compreendida em sua dimensão espiritual e antropológica, torna-se lugar onde o ser aprende a presença, a responsabilidade, a fidelidade e o cuidado. Não se trata apenas de uma realidade exterior organizada por funções, mas de um espaço no qual cada pessoa é chamada a reconhecer a dignidade daquele que lhe foi confiado. A maturidade interior encontra expressão concreta na maneira como alguém permanece diante daqueles que fazem parte de sua vida.
O Evangelho conduz, assim, do conhecimento exterior ao conhecimento interior. Podemos conhecer muitas coisas sobre nós mesmos e, ainda assim, permanecer distantes daquilo que somos diante de Deus. Cristo introduz uma forma mais profunda de conhecimento, porque seu chamado não informa apenas, mas transforma. Sua palavra revela uma possibilidade presente no próprio ser e convoca a pessoa a responder com toda a existência.
A resposta de Mateus é simples. Ele se levanta e segue Jesus. Nessa simplicidade existe uma profundidade que atravessa toda a vida espiritual. Há momentos em que a verdade recebida não pede explicações prolongadas, mas uma resposta inteira. O instante torna-se fecundo quando a pessoa reconhece nele uma exigência interior e permite que sua existência se alinhe com aquilo que reconheceu como verdadeiro.
Seguir Cristo não significa abandonar a própria existência, mas permitir que ela encontre sua orientação mais profunda. O ser não se realiza pela acumulação indefinida de experiências, nem pela tentativa de dominar o curso dos acontecimentos. Sua realização acontece quando aquilo que vive, pensa, escolhe e ama começa a corresponder à verdade que reconheceu diante de Deus.
O chamado de Mateus permanece, portanto, como uma palavra dirigida ao interior de cada pessoa. Cristo passa pelo instante presente e encontra o ser onde ele realmente está. A resposta não precisa esperar por outro momento, porque a presença divina já se oferece no momento vivido. Quando essa presença é acolhida com verdade, o passado deixa de determinar sozinho o sentido da existência, o presente adquire profundidade e o futuro deixa de ser apenas aquilo que virá para tornar-se possibilidade de uma realização que começa no interior.
O Evangelho nos conduz finalmente ao lugar onde toda transformação verdadeira começa. O ser diante de Deus. Ali, o chamado encontra sua resposta, a verdade encontra acolhimento e a existência começa a retornar à sua origem. Mateus levantou-se porque ouviu uma voz que não apenas o chamou para seguir alguém, mas o despertou para aquilo que poderia ser. Também nós somos chamados a permanecer atentos à presença que atravessa cada instante e nos conduz, com verdade e maturidade, à plenitude para a qual fomos chamados.
TEOLOGIA
Explicação Teológica
O chamado de Cristo e a dignidade da pessoa
O centro da passagem está no encontro entre Cristo e Mateus. O Evangelho afirma que Jesus, ao passar, viu um homem sentado na coletoria e lhe disse que o seguisse. Mateus 9,9-13 apresenta esse acontecimento não apenas como uma mudança exterior de caminho, mas como manifestação da iniciativa divina que alcança a pessoa em sua situação concreta e a conduz a uma realidade mais profunda. O olhar de Cristo precede a resposta de Mateus. Antes que o homem se levante, ele já foi alcançado pela presença daquele que o chama.
O verbo ver possui aqui uma importância teológica particular. Cristo não contempla Mateus somente segundo sua condição exterior. Seu olhar alcança a pessoa em sua verdade mais profunda e revela que sua existência não está encerrada naquilo que ela já realizou. O chamado manifesta uma dignidade que não depende da condição presente. A pessoa permanece aberta à ação da graça porque sua existência possui uma profundidade que somente Deus conhece plenamente.
A graça que chama e transforma
A graça aparece no Evangelho como iniciativa de Cristo. Mateus não apresenta primeiro uma conquista espiritual para depois ser chamado. O chamado acontece antes e a resposta nasce desse encontro. A transformação, portanto, não é produzida exclusivamente pelo esforço humano. Ela acontece pela ação divina acolhida pela pessoa. A graça não elimina a resposta humana, mas torna possível que essa resposta alcance uma profundidade nova.
Quando Mateus se levanta e segue Jesus, sua atitude manifesta a correspondência entre o chamado recebido e a resposta oferecida. A fé não consiste apenas em reconhecer intelectualmente quem Cristo é. Ela envolve a pessoa inteira e orienta sua existência para aquele que a chamou. O movimento exterior expressa uma realidade interior na qual a pessoa começa a compreender sua vida a partir de uma presença maior do que suas circunstâncias imediatas.
A misericórdia como revelação da verdade
A presença de publicanos e pecadores junto de Jesus conduz o Evangelho ao seu núcleo teológico. Cristo declara que não veio chamar aqueles que se consideram justos, mas os pecadores. Essa palavra não significa aprovação do pecado, mas revela a finalidade da missão de Cristo. O Salvador aproxima-se daquilo que necessita de restauração para conduzi-lo à verdade.
Quando Jesus afirma que deseja misericórdia e não sacrifício, ele revela que a relação com Deus não pode ser reduzida a exterioridades religiosas. O sacrifício possui sentido quando corresponde a uma verdade interior. A misericórdia manifesta a disposição do coração que reconhece a ação de Deus e permite que ela transforme a existência. O culto verdadeiro não permanece somente no gesto exterior, porque encontra sua autenticidade na conversão interior da pessoa.
Cristo como médico do ser
A imagem do médico aprofunda ainda mais a compreensão da missão de Cristo. Jesus afirma que os que têm saúde não necessitam de médico, mas os que estão enfermos. A enfermidade mencionada no contexto não deve ser reduzida ao corpo. O Evangelho aponta para a condição espiritual daquele que necessita ser restaurado em sua relação com Deus.
Cristo é o médico porque conhece a profundidade da pessoa e age sobre aquilo que necessita de cura. Sua ação não consiste simplesmente em retirar uma consequência exterior, mas em restaurar a relação fundamental entre o ser humano e sua origem em Deus. A salvação alcança a pessoa inteira e conduz sua existência para uma integração mais profunda na verdade.
A interioridade diante de Deus
A passagem também revela que a transformação cristã acontece no interior antes de alcançar plenamente suas expressões exteriores. O chamado de Jesus encontra Mateus onde ele está, mas não o deixa encerrado naquele lugar. A presença de Cristo inaugura um movimento pelo qual a pessoa passa a compreender sua existência a partir de uma relação nova com Deus.
A interioridade, na perspectiva cristã, não é isolamento do mundo nem fechamento sobre si mesma. É o espaço no qual a pessoa se apresenta diante de Deus e recebe dele a verdade sobre sua própria existência. Nesse encontro, aquilo que estava disperso pode reencontrar unidade, porque a pessoa deixa de tomar a si mesma como medida absoluta e reconhece em Deus sua origem e seu fim.
O instante como lugar de resposta
O chamado de Mateus acontece em um momento concreto. Cristo passa, vê, chama e Mateus se levanta. A ação divina entra na história sem destruir a realidade do instante. O momento vivido torna-se ocasião de encontro entre a iniciativa de Deus e a resposta humana.
Essa dimensão possui grande importância espiritual. A presença de Deus não precisa ser procurada somente em acontecimentos extraordinários. O Evangelho mostra que o encontro pode acontecer no momento em que a Palavra alcança a pessoa e exige dela uma resposta verdadeira. O instante recebe profundidade porque nele a eternidade de Deus toca a existência humana sem deixar de respeitar sua realidade concreta.
A responsabilidade diante da graça
A graça é gratuita, mas não é indiferente à resposta humana. Mateus se levanta. Essa ação manifesta que o chamado recebido solicita uma correspondência. A pessoa não é objeto passivo da transformação. Ela participa dela ao acolher a Palavra, ordenar sua existência segundo a verdade e permanecer disponível à ação de Deus.
Essa responsabilidade não significa autossuficiência. Ao contrário, reconhece que a resposta humana só encontra sua plenitude quando permanece fundada na graça. A pessoa responde porque foi chamada e caminha porque recebeu uma direção. A ação divina e a resposta humana não competem entre si. A graça desperta aquilo que a pessoa é chamada a realizar diante de Deus.
A família e a plenitude da pessoa
Embora o Evangelho não apresente diretamente uma cena familiar, sua compreensão da pessoa possui consequências para todos os vínculos fundamentais da existência. Aquele que é visto por Cristo aprende a reconhecer também a dignidade daqueles que Deus coloca em seu caminho. A transformação interior não conduz ao isolamento, mas a uma maneira mais verdadeira de habitar os vínculos.
A família pode ser compreendida nesse horizonte como espaço de comunhão no qual a pessoa aprende a receber, cuidar, permanecer e responder. Sua importância não deriva apenas de sua função na vida humana, mas de sua capacidade de acolher relações nas quais a dignidade de cada pessoa é reconhecida. Quando a interioridade encontra sua origem em Deus, os vínculos podem tornar-se expressão dessa verdade recebida.
A plenitude como realização da vocação
Mateus não recebe apenas uma nova tarefa. Ele recebe uma nova orientação para sua existência. O chamado de Cristo revela que a vida possui uma direção que ultrapassa aquilo que pode ser percebido exteriormente. A vocação nasce do encontro entre aquilo que a pessoa é e aquilo que Deus a chama a tornar-se.
A plenitude cristã não consiste em acumular realizações exteriores, mas em permitir que toda a existência seja progressivamente conformada à verdade de Cristo. A pessoa amadurece quando suas escolhas, seus afetos, sua consciência e seus vínculos começam a convergir para aquilo que reconheceu como verdadeiro diante de Deus. A transformação alcança sua profundidade quando o ser inteiro passa a corresponder à sua origem.
A Palavra que permanece
O Evangelho de Mateus 9,9-13 mostra, finalmente, que a Palavra de Cristo não é uma informação acrescentada à existência. Ela é uma presença que chama, revela, cura e conduz. Mateus escuta uma palavra exterior, mas sua força manifesta-se no interior, onde uma nova compreensão de si começa a nascer.
Aquele que se deixa alcançar por Cristo descobre que sua existência não está fechada sobre o passado nem limitada pelas aparências do presente. Há uma profundidade na qual a graça continua atuando e na qual a pessoa pode reencontrar sua verdade diante de Deus. O chamado permanece porque Cristo permanece. E a resposta torna-se caminho de amadurecimento, até que a existência encontre sua unidade na presença daquele que a chama desde sua origem e a conduz à plenitude.
FILOSOFIA
O instante em que o ser reconhece sua origem
Mateus 9,9-13
O Evangelho segundo Mateus apresenta um acontecimento aparentemente simples. Jesus passa, vê Mateus sentado na coletoria e pronuncia uma palavra que altera o curso de sua existência. Em seguida, Mateus se levanta e segue aquele que o chamou. Poucas palavras descrevem um movimento exterior, mas nelas se concentra uma transformação cuja profundidade ultrapassa aquilo que pode ser percebido imediatamente. O que acontece naquele instante não é somente uma mudança de direção. Algo que permanecia interiormente possível encontra uma presença capaz de fazê-lo manifestar-se.
O chamado e a profundidade do instante
O instante do encontro possui uma densidade que não pode ser medida apenas por sua duração. Cronologicamente, trata-se de um momento breve. Ontologicamente, porém, ele contém uma passagem decisiva. Cristo encontra Mateus no interior de uma condição já constituída, mas o chamado revela que aquilo que o homem é naquele momento não esgota aquilo que pode tornar-se.
Há, portanto, uma diferença entre o tempo que registra a sucessão dos acontecimentos e a profundidade na qual uma existência pode ser transformada. O relógio reconhece a passagem de um momento para outro. A interioridade reconhece quando uma presença atravessa o momento e lhe confere um sentido que não provém simplesmente da sucessão. O instante torna-se fecundo porque nele uma realidade mais profunda encontra ocasião de manifestação.
É nesse sentido que a palavra de Cristo possui uma força que não se limita ao som pronunciado. Ela alcança uma região anterior às escolhas já estabelecidas e desperta uma possibilidade que não nasceu naquele momento, embora naquele momento comece a aparecer. O chamado não cria do nada aquilo que Mateus poderá tornar-se. Ele revela e conduz algo que já encontrava, em sua profundidade, a possibilidade de responder.
A presença que acolhe e faz amadurecer
A existência humana não se manifesta de uma única vez. Há no ser uma profundidade na qual aquilo que um dia aparecerá exteriormente encontra preparação, consistência e direção. Antes da ação existe uma disposição. Antes da palavra existe uma escuta. Antes da manifestação existe uma realidade interior que permanece recolhida até encontrar a condição de aparecer.
O silêncio possui, nesse horizonte, uma função originária. Ele não é ausência de ser, mas espaço no qual o ser pode adquirir forma sem ser imediatamente exposto. O que permanece recolhido não está necessariamente inerte. Há movimentos que não podem ser observados porque pertencem à profundidade da formação. A realidade amadurece antes de tornar-se plenamente visível.
O encontro de Mateus com Cristo pode ser compreendido a partir dessa profundidade. O chamado manifesta exteriormente aquilo que a presença de Cristo alcança no interior. A resposta de Mateus, embora apareça imediatamente como gesto, possui uma raiz que ultrapassa o gesto. O levantar-se torna visível uma transformação que não começou no movimento do corpo, mas no encontro entre a pessoa e uma presença que a alcançou em sua interioridade.
A origem que permanece presente
A existência possui uma relação inseparável com sua origem. Aquilo que procede de uma fonte não deixa de depender dela pelo simples fato de manifestar-se exteriormente. A criatura permanece relacionada ao Criador não apenas no princípio de sua existência, mas em cada instante no qual continua sendo.
Essa permanência é essencial para compreender a profundidade do Evangelho. Cristo não aparece apenas como alguém que oferece uma direção moral a Mateus. Sua presença introduz o homem numa relação com a própria origem de seu ser. O chamado possui força porque vem daquele em quem a existência encontra sua fonte e para quem encontra seu sentido último.
Assim, a presença divina não é algo acrescentado posteriormente à existência. Ela sustenta a própria possibilidade de existir. O ser humano pode afastar-se interiormente dessa presença, pode não reconhecê-la ou pode viver como se ela não estivesse presente, mas sua existência continua recebendo dela o fundamento. O encontro com Cristo torna consciente aquilo que sustentava silenciosamente a vida.
A manifestação do que amadureceu
Mateus levanta-se. O gesto é simples, mas possui uma estrutura profunda. O que estava interiormente acolhido começa a manifestar-se exteriormente. O movimento do corpo corresponde a uma transformação da direção interior. A manifestação não é independente daquilo que a precedeu. Ela é a expressão de uma realidade que alcançou determinada maturação.
Isso permite compreender a existência como uma continuidade entre interioridade e manifestação. Aquilo que se manifesta exteriormente carrega consigo uma história invisível de formação. Nenhuma resposta profunda nasce inteiramente na superfície. Há uma preparação silenciosa pela qual a pessoa se torna capaz de reconhecer determinada verdade quando ela se apresenta.
O chamado de Cristo não encontra Mateus como uma realidade acabada. Encontra-o como alguém capaz de tornar-se. A palavra recebida abre uma continuidade entre aquilo que ele era e aquilo que começava a ser. A transformação não destrói a existência anterior, mas reorganiza seu sentido a partir de uma origem reconhecida de maneira mais profunda.
A misericórdia e a verdade do ser
Quando Jesus afirma que deseja misericórdia e não sacrifício, a passagem alcança uma dimensão ainda mais profunda. A misericórdia não é uma suspensão da verdade, mas uma forma de a verdade alcançar o ser sem destruí-lo. Deus não precisa que a pessoa esconda sua condição para aproximar-se dela. A verdade pode ser acolhida justamente porque existe uma presença capaz de conduzir aquilo que está incompleto à sua realização.
Por isso, Cristo se apresenta como aquele que chama os pecadores. O pecado não constitui a última definição do ser. Ele é uma ruptura que pode ser alcançada pela graça. O chamado revela que a pessoa possui uma profundidade maior do que aquilo que nela se encontra desordenado. A ação divina alcança o ser em sua condição concreta e abre novamente o movimento em direção à origem.
A misericórdia, então, não elimina o processo de transformação. Ela cria a possibilidade de que a verdade seja recebida e que a existência volte a amadurecer. O que estava interrompido pode reencontrar continuidade. O que permanecia disperso pode recuperar uma direção. O que se encontrava afastado de sua origem pode começar a retornar interiormente a ela.
A eternidade presente na sucessão
A passagem de Mateus revela também que aquilo que é eterno não precisa abandonar o tempo para manifestar-se. O Eterno entra na sucessão sem tornar-se sucessivo. Cristo passa por um lugar, encontra uma pessoa em um momento determinado e pronuncia uma palavra. O acontecimento possui uma data e uma duração, mas sua realidade não se encerra nesses limites.
O instante pode conter mais do que aquilo que cronologicamente acontece nele. Pode tornar-se abertura para uma dimensão que o ultrapassa. O encontro de Mateus não é importante somente porque ocorreu em determinado momento, mas porque naquele momento uma presença que não se limita à sucessão alcançou sua existência.
A profundidade do instante nasce justamente dessa relação. O momento permanece temporal, mas torna-se portador de uma realidade que o transcende. A sucessão continua, os acontecimentos continuam passando, mas aquilo que foi recebido no interior pode permanecer como princípio de transformação. O instante passa. A verdade que nele foi reconhecida pode permanecer.
A plenitude como retorno à origem
Toda geração verdadeira possui uma direção. Aquilo que se forma tende para uma realização que corresponde à sua própria natureza. A existência humana não é diferente. Há nela uma orientação profunda que não se reduz à acumulação de experiências. O ser busca sua consistência quando encontra aquilo a partir do qual pode compreender-se plenamente.
No Evangelho, essa direção aparece na relação com Cristo. Mateus não encontra simplesmente um novo caminho entre muitos outros. Encontra aquele que dá ao caminho seu sentido. Seguir Cristo significa permitir que a própria existência seja gradualmente ordenada por uma presença que conhece sua origem e conduz sua realização.
A plenitude, portanto, não consiste em tornar-se outra coisa, mas em chegar à verdade mais profunda do próprio ser diante de Deus. Aquilo que estava disperso encontra unidade. Aquilo que permanecia apenas como possibilidade encontra manifestação. Aquilo que estava em processo de formação encontra uma direção mais definida. A existência começa a corresponder àquilo que, desde sua origem, estava chamada a realizar.
O ser diante da Palavra
Mateus 9,9-13 apresenta, assim, uma estrutura profunda da existência. Há um ser que permanece aberto, uma presença que o alcança, uma palavra que desperta, um interior que acolhe, uma resposta que manifesta e um caminho que conduz à realização. O acontecimento exterior é apenas a superfície de um movimento muito mais profundo.
A Palavra de Cristo não acrescenta uma forma exterior ao ser. Ela alcança sua interioridade e revela uma possibilidade de realização que já estava inscrita em sua relação com Deus. Por isso, o chamado possui força geradora. Ele não apenas solicita uma ação. Ele desperta uma forma mais verdadeira de existir.
O instante em que Cristo chama Mateus permanece, desse modo, como revelação de uma realidade que ultrapassa o próprio acontecimento. Cada existência carrega uma profundidade que não se manifesta imediatamente. Há nela um silêncio no qual possibilidades amadurecem, uma origem que sustenta, uma presença que acolhe e uma direção que conduz à plenitude.
Quando a pessoa reconhece essa presença e responde à verdade que nela se manifesta, o instante deixa de ser apenas passagem. Torna-se lugar de realização. O ser começa a reencontrar sua origem não como algo perdido no passado, mas como presença que o sustenta no próprio ato de existir. É nesse retorno interior à fonte que a existência encontra sua unidade, e é nessa unidade que aquilo que estava oculto pode finalmente tornar-se presença manifesta.
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