“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Evangelium Secundum Corinthios II
2Cor 8,9
R. Alleluia, Alleluia, Alleluia.
V. Scitis enim gratiam Domini nostri Jesu Christi, quoniam propter vos egenus factus est, cum esset dives, ut illius inopia vos divites essetis.
Aclamação ao Evangelho
V. Conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo. Sendo rico, por vossa causa fez-se pobre, para que, pela sua pobreza, recebêsseis a verdadeira riqueza, e aquilo que em Deus permanece se tornasse em vós plenitude.
Quando o ser desprende sua suficiência, reconhece que a eternidade não se alcança pela posse, mas pela transformação interior que o conduz ao Reino eterno.
Proclamatio Evangelii Iesu Christi secundum Matthaeum, XIX, XXIII–XXX
XXIII. Jesus autem dixit discipulis suis, Amen dico vobis, quia dives difficile intrabit in regnum caelorum.
23. Jesus disse aos seus discípulos, Em verdade vos digo que aquele que se prende à própria riqueza dificilmente penetrará no Reino dos Céus, pois o ser, quando se encerra naquilo que possui, perde de vista a plenitude para a qual foi chamado.
XXIV. Et iterum dico vobis, Facilius est camelum per foramen acus transire, quam divitem intrare in regnum caelorum.
24. E novamente vos digo, é mais fácil o camelo passar pelo buraco de uma agulha do que aquele que permanece interiormente preso às suas riquezas entrar no Reino dos Céus, porque nenhuma posse exterior pode ocupar o lugar da realidade eterna.
XXV. Auditis autem his, discipuli mirabantur valde, dicentes, Quis ergo poterit salvus esse?
25. Ouvindo estas palavras, os discípulos ficaram profundamente admirados e perguntaram, Quem poderá, então, alcançar a salvação, se o próprio coração pode tornar-se obstáculo ao seu destino eterno?
XXVI. Aspiciens autem Jesus, dixit illis, Apud homines hoc impossibile est, apud Deum autem omnia possibilia sunt.
26. Jesus, porém, olhando para eles, disse, Para o ser humano isto é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis, pois aquilo que a existência não consegue realizar por suas próprias forças pode receber do Eterno uma possibilidade inteiramente nova.
XXVII. Tunc respondens Petrus, dixit ei, Ecce nos reliquimus omnia, et secuti sumus te, quid ergo erit nobis?
27. Então Pedro, tomando a palavra, disse, Eis que deixamos tudo e vos seguimos, que será, portanto, de nós? A pergunta revela o desejo de compreender qual destino nasce quando o ser orienta toda a sua existência para uma realidade superior.
XXVIII. Jesus autem dixit illis, Amen dico vobis, quod vos, qui secuti estis me, in regeneratione cum sederit Filius hominis in sede majestatis suae, sedebitis et vos super sedes duodecim, judicantes duodecim tribus Israel.
28. Jesus lhes respondeu, Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do Homem se assentar no trono de sua majestade, também vos assentareis em doze tronos, porque aquele que orienta sua existência para o eterno participa de uma realidade que ultrapassa a sucessão comum dos instantes.
XXIX. Et omnis qui reliquerit domum, vel fratres, aut sorores, aut patrem, aut matrem, aut uxorem, aut filios, aut agros propter nomen meum, centuplum accipiet, et vitam aeternam possidebit.
29. E todo aquele que tiver deixado casa, irmãos, irmãs, pai, mãe, esposa, filhos ou campos por causa do meu nome receberá cem vezes mais e possuirá a vida eterna, porque a entrega interior ao Eterno não diminui o ser, mas o conduz à plenitude de sua própria existência.
XXX. Multi autem erunt primi novissimi, et novissimi primi.
30. Muitos, porém, que agora parecem primeiros serão últimos, e muitos que parecem últimos serão primeiros, porque a verdadeira medida da existência não se encontra na aparência do instante, mas naquilo que permanece diante da eternidade.
Verbum Domini
Reflexão:
O ser humano frequentemente confunde posse com plenitude.
Aquilo que domina exteriormente pode tornar-se prisão interior.
A verdadeira grandeza começa quando o ser reconhece sua insuficiência.
O instante encontra seu sentido quando se orienta para o eterno.
Nenhuma realidade temporal consegue preencher aquilo que ultrapassa o tempo.
A decisão interior determina a direção da própria existência.
Quem ordena o ser ao Eterno transforma o modo de habitar cada instante.
Assim, o Reino começa quando o coração já se volta para aquilo que permanece.
Versículo mais implrtante:
XXVI. Aspiciens autem Jesus, dixit illis, Apud homines hoc impossibile est, apud Deum autem omnia possibilia sunt. (Matthaeum XIX, XXVI)
26. Jesus, porém, olhando para eles, disse-lhes que aquilo que para o ser humano permanece impossível encontra em Deus sua possibilidade plena, porque o poder do Eterno ultrapassa os limites da existência e conduz o ser à realização de seu destino último. (Mateus 19,26)
HOMILIA
A riqueza que não pode atravessar o limiar do Eterno
Quando o ser abandona a centralidade daquilo que possui, o instante se abre ao Eterno e a existência começa a participar de uma plenitude que não passa.
O Evangelho segundo Mateus nos coloca diante de uma palavra que, à primeira vista, parece severa. Jesus fala da dificuldade de um rico entrar no Reino dos Céus e, diante da admiração dos discípulos, declara que aquilo que parece impossível ao ser humano é possível para Deus.
Entretanto, a palavra de Cristo não se dirige simplesmente à riqueza enquanto realidade exterior. Ela alcança uma região muito mais profunda da existência. O verdadeiro obstáculo não está necessariamente naquilo que o ser possui, mas naquilo que passa a possuir o próprio ser.
Existe uma diferença essencial entre possuir alguma coisa e permitir que alguma coisa determine o centro da própria existência. A posse pode permanecer exterior. O apego, porém, penetra no interior e começa a ordenar os pensamentos, os desejos e as decisões segundo uma realidade que é necessariamente passageira.
É nesse ponto que a imagem do camelo e do buraco da agulha adquire uma profundidade singular. Jesus não está apenas descrevendo uma impossibilidade material. Ele revela, por meio de uma imagem extrema, a dificuldade de uma existência excessivamente preenchida por si mesma atravessar o estreito limiar que conduz à realidade do Reino.
O Reino de Deus não é simplesmente um lugar para onde o ser humano se desloca depois desta vida. Ele começa quando a existência encontra sua verdadeira orientação. O Reino se manifesta quando aquilo que é passageiro deixa de ocupar o lugar reservado ao que permanece.
O ser humano vive no tempo, mas não se esgota nele. Cada instante passa, porém aquilo que o ser realiza interiormente pode adquirir uma profundidade que ultrapassa a simples sucessão dos acontecimentos.
Há momentos em que o instante deixa de ser apenas passagem e se torna abertura. O presente deixa então de ser uma superfície fechada sobre si mesma e se revela como possibilidade de encontro com aquilo que não está submetido ao desgaste das horas.
É justamente nessa passagem interior que podemos compreender a palavra de Jesus sobre a riqueza.
A riqueza pode ser recebida como responsabilidade, administrada com sabedoria e integrada à existência sem ocupar o lugar do absoluto. O problema começa quando o que deveria ser instrumento se transforma em finalidade e quando aquilo que pertence ao domínio do passageiro pretende preencher a sede do eterno.
O coração humano possui uma profundidade que nenhuma realidade temporal consegue esgotar. Por isso, quando tenta encontrar sua plenitude exclusivamente nas coisas que possui, permanece sempre diante de uma insuficiência que nenhuma quantidade consegue resolver.
A pergunta dos discípulos nasce precisamente dessa percepção. Se até mesmo aquilo que parece oferecer segurança pode tornar-se obstáculo, quem poderá alcançar a salvação?
Jesus responde conduzindo o olhar para Deus. Aquilo que o ser humano não consegue realizar somente por suas próprias forças encontra em Deus uma possibilidade que ultrapassa seus limites.
Aqui se encontra uma das afirmações mais profundas do Evangelho. A transformação interior não é produzida apenas pelo esforço humano. Existe uma abertura da existência à ação de Deus, e essa abertura modifica a própria compreensão do possível.
Deus não destrói aquilo que somos. Ele conduz o ser à sua verdade mais profunda.
Por isso, a vida espiritual não consiste em abandonar a existência, mas em ordená-la. Não consiste em negar o mundo, mas em impedir que o mundo ocupe dentro de nós o lugar que pertence somente a Deus.
A verdadeira transformação começa quando o ser aprende a distinguir o necessário do absoluto, o passageiro do permanente, aquilo que serve daquilo que pretende dominar.
Pedro então pergunta o que acontecerá com aqueles que deixaram tudo para seguir Cristo. Sua pergunta possui uma dimensão profundamente humana. Quando alguém reorganiza toda a própria existência em torno de uma realidade superior, que novo horizonte se abre diante de si?
Jesus responde falando de regeneração e de vida eterna.
A palavra regeneração indica uma passagem. Não se trata simplesmente de acrescentar alguma coisa à existência anterior. Trata-se de uma transformação do próprio modo de existir.
O ser começa a perceber que sua vida não é uma sucessão desordenada de instantes. Cada momento pode receber uma direção. Cada decisão pode participar de uma realidade mais profunda. Cada escolha pode aproximar a existência de sua finalidade última.
É por isso que o Evangelho termina com uma frase aparentemente paradoxal. Muitos que são primeiros serão últimos, e muitos que são últimos serão primeiros.
Cristo desloca completamente a medida pela qual costumamos avaliar a existência. Aquilo que aparece primeiro aos olhos humanos pode não possuir a primazia diante de Deus. Aquilo que permanece oculto pode conter uma grandeza que somente a eternidade consegue revelar.
A verdadeira ordem das coisas não é determinada pela aparência imediata. Existe uma medida mais profunda, diante da qual as posições se transformam e os critérios exteriores perdem sua autoridade.
Cada pessoa carrega dentro de si uma dignidade que não depende daquilo que possui, daquilo que demonstra ou da posição que ocupa. Essa dignidade nasce do próprio fato de existir diante de Deus e de ser chamada a realizar interiormente sua vocação.
Também a família participa dessa realidade, porque é no interior dos vínculos mais profundos que a pessoa aprende a receber, cuidar, permanecer, perdoar e amadurecer. Quando esses vínculos são vividos com verdade, eles não aprisionam a existência, mas podem tornar-se espaço de crescimento e de responsabilidade.
O Evangelho, portanto, não nos convida simplesmente a possuir menos. Ele nos chama a ser mais.
Ser mais não significa acumular uma grandeza exterior. Significa permitir que o interior alcance uma profundidade correspondente àquilo para o qual foi criado.
O grande movimento da existência acontece quando o ser deixa de perguntar apenas o que pode possuir e começa a perguntar aquilo em que deve se tornar.
Nesse momento, o instante recebe outra densidade.
O presente deixa de ser apenas aquilo que desaparece e passa a ser ocasião de uma decisão que pode permanecer. O agora torna-se lugar de encontro entre aquilo que somos e aquilo que somos chamados a ser.
É nesse sentido que a palavra de Cristo sobre o impossível adquire sua maior força. O ser humano não consegue atravessar sozinho o estreito limite que separa a posse da entrega, o domínio da confiança, a aparência da verdade e o passageiro do eterno.
Mas Deus pode abrir esse caminho.
Ele pode transformar o coração que se encontra preso às coisas em um coração capaz de recebê-las sem ser dominado por elas. Pode transformar a existência dispersa em existência orientada. Pode transformar o instante fragmentado em ocasião de encontro com aquilo que permanece.
Por isso, a pergunta decisiva do Evangelho não é quanto possuímos, mas onde está colocado o centro de nossa existência.
Se o centro está no que passa, nossa vida passa com aquilo que amamos de maneira desordenada.
Se o centro está em Deus, até mesmo o que passa pode receber uma orientação nova, porque tudo começa a ser contemplado a partir daquilo que permanece.
O Reino dos Céus começa a tornar-se perceptível quando o coração já não precisa possuir o mundo para sentir-se inteiro.
Então compreendemos que a pobreza anunciada por Cristo não é simplesmente ausência de bens. É uma disposição interior pela qual nada criado ocupa o lugar do Criador.
E a riqueza verdadeira não é aquilo que acumulamos diante dos homens. É a profundidade que Deus realiza no interior do ser.
Assim, o Evangelho nos conduz a uma passagem silenciosa. Somos chamados a deixar que Deus reorganize em nós aquilo que o tempo desordenou, purifique aquilo que se tornou absoluto e reconduza cada realidade ao seu verdadeiro lugar.
Quando isso acontece, o instante já não permanece fechado em sua própria duração.
Ele se abre.
E, nessa abertura, o ser descobre que a eternidade não está distante da existência. Ela pode tocar o presente quando o coração deixa de se fechar sobre aquilo que passa e se orienta inteiramente para Aquele que permanece.
O impossível torna-se então o lugar onde começa a confiança.
E a existência, conduzida por Deus para além de suas próprias limitações, começa a experimentar aquela plenitude que nenhuma posse poderia oferecer.
TEOLOGIA
O impossível humano diante da possibilidade divina
Mateus 19,26
Jesus, porém, olhando para eles, disse-lhes que aquilo que para o ser humano permanece impossível encontra em Deus sua possibilidade plena, porque o poder do Eterno ultrapassa os limites da existência e conduz o ser à realização de seu destino último.
O olhar de Cristo sobre a impossibilidade humana
O versículo começa com um gesto que possui grande densidade espiritual. Jesus olha para os discípulos antes de lhes revelar que aquilo que parece impossível ao ser humano é possível para Deus. Esse olhar não é apenas uma percepção exterior. No contexto do Evangelho, ele acompanha uma palavra que reconduz o ser humano aos seus próprios limites e, simultaneamente, abre diante dele uma realidade que ultrapassa esses limites.
Depois de ouvir a advertência sobre a dificuldade de um rico entrar no Reino dos Céus, os discípulos perguntam quem poderia então ser salvo. A pergunta revela uma compreensão decisiva. Quando o ser humano percebe que nem mesmo suas seguranças, seus méritos ou seus recursos podem garantir a entrada no Reino, descobre que a salvação não pode ser reduzida a uma conquista produzida exclusivamente por suas próprias forças.
Cristo não responde diminuindo a exigência do Reino. Ele desloca o fundamento da esperança. O que não pode ser realizado pela capacidade humana encontra sua possibilidade na ação de Deus.
A salvação como realidade que ultrapassa o ser humano
A afirmação de Jesus contém uma distinção fundamental entre aquilo que pertence às possibilidades naturais do ser humano e aquilo que somente Deus pode realizar. A criatura possui limites. Deus não está submetido aos mesmos limites, porque é o princípio e o fundamento de toda realidade criada.
Por isso, quando Cristo afirma que para Deus todas as coisas são possíveis, não está ensinando que qualquer desejo humano será necessariamente realizado. A onipotência divina não significa submissão de Deus aos desejos da criatura. Significa que nenhuma impossibilidade criada pode limitar o poder pelo qual Deus sustenta, transforma e conduz todas as coisas segundo sua sabedoria.
A salvação pertence precisamente a essa ordem. Ela não é simplesmente o aperfeiçoamento das capacidades naturais do ser humano. É participação na vida de Deus, e essa participação ultrapassa aquilo que a criatura poderia produzir por si mesma.
O ser humano pode preparar-se, responder, perseverar e orientar sua existência para Deus. Porém, a própria possibilidade de alcançar a plenitude para a qual foi criado depende, em última instância, da graça divina.
O desprendimento como transformação interior
O contexto imediato do versículo é essencial para compreender sua profundidade. Jesus fala da riqueza porque a riqueza pode tornar-se símbolo de uma realidade interior muito mais ampla. O problema não está simplesmente em possuir bens, mas em permitir que aquilo que é criado ocupe o lugar reservado ao Criador.
Quando uma realidade temporal se transforma em absoluto, o coração passa a depender dela para encontrar sua própria consistência. A pessoa deixa de possuir as coisas de maneira ordenada e começa, interiormente, a ser possuída por elas.
É nesse sentido que o Evangelho conduz a uma purificação do desejo. Cristo não apresenta uma simples mudança exterior, mas uma transformação da ordem interior pela qual a pessoa reconhece que nenhum bem criado pode constituir sua plenitude definitiva.
O desprendimento cristão não consiste em desprezar a criação. Consiste em reconhecer sua verdadeira natureza. As coisas criadas são boas enquanto criaturas, mas nenhuma delas pode ocupar o lugar daquele que é o próprio fundamento do ser.
A passagem do possível humano ao dom divino
Existe, portanto, uma passagem fundamental entre a capacidade humana e a graça. O ser humano pode chegar ao limite de suas próprias forças e descobrir que esse limite não constitui o limite de Deus.
Essa descoberta possui grande importância espiritual. A consciência da própria insuficiência não precisa conduzir ao desespero. Quando iluminada pela fé, ela pode tornar-se abertura para a ação divina.
Aquele que reconhece que não pode salvar-se por suas próprias forças começa a compreender que a salvação é recebida como dom. A criatura não deixa de agir. Ao contrário, sua ação passa a ser uma resposta à graça que a precede.
A vida espiritual torna-se, assim, uma cooperação consciente com aquilo que Deus realiza no interior da pessoa. A iniciativa pertence a Deus, mas a resposta humana possui verdadeira importância.
A transformação do interior
A palavra de Cristo também revela que a verdadeira transformação não acontece apenas na superfície da existência. O Reino exige uma mudança na orientação profunda do ser.
A pessoa pode conservar determinadas condições exteriores e, ainda assim, possuir um coração inteiramente voltado para Deus. Da mesma maneira, alguém pode possuir pouco exteriormente e permanecer interiormente dominado pela mesma lógica de posse.
O centro da questão está no coração, compreendido biblicamente como o núcleo da pessoa, onde se encontram sua inteligência, sua vontade, seus desejos e suas decisões.
Quando esse centro é ordenado para Deus, toda a existência começa a adquirir uma nova direção. O ser deixa de interpretar a realidade somente a partir daquilo que passa e começa a contemplá-la a partir daquilo que permanece.
O tempo humano aberto à eternidade
O versículo também permite compreender a existência humana como uma realidade que não se esgota na sucessão dos momentos. Cada instante passa, mas a pessoa que vive esse instante possui uma vocação que ultrapassa a própria duração temporal.
O presente pode permanecer fechado em si mesmo ou pode tornar-se abertura para o eterno. Quando a pessoa orienta suas decisões para Deus, o instante deixa de ser apenas uma unidade passageira e passa a participar de uma direção que ultrapassa a sucessão das horas.
Nesse sentido, a existência não é simplesmente uma sequência de acontecimentos. Ela possui uma profundidade interior na qual cada decisão pode contribuir para a configuração do próprio ser.
O que acontece no exterior passa. O que é acolhido, escolhido e transformado interiormente pode participar de uma realidade mais profunda.
A dignidade da pessoa diante de Deus
A resposta de Cristo também revela uma verdade essencial sobre a dignidade humana. O ser humano não é reduzido às suas capacidades, às suas posses ou às suas limitações. Ele permanece criatura chamada à comunhão com Deus.
Sua grandeza não está em ser autossuficiente. Está precisamente em ser capaz de receber de Deus aquilo que não poderia produzir sozinho.
Essa dependência de Deus não diminui a pessoa. Ao contrário, revela sua verdadeira condição. A criatura encontra sua plenitude não quando se transforma em princípio absoluto de si mesma, mas quando reconhece o princípio eterno do qual recebe o próprio ser.
A dignidade humana encontra, assim, sua raiz mais profunda na relação com Deus.
A resposta da fé
Quando Cristo afirma que para Deus todas as coisas são possíveis, Ele não elimina a responsabilidade humana. Ele a coloca em seu verdadeiro horizonte.
A pessoa continua chamada a decidir, a renunciar ao que desordena seu interior, a perseverar no bem e a orientar conscientemente sua existência. Porém, não precisa considerar suas próprias forças como fundamento último da salvação.
A fé consiste também em confiar que Deus pode realizar no ser humano aquilo que o próprio ser humano não conseguiria completar sozinho.
Essa confiança não é passividade. É uma atitude interior pela qual a pessoa entrega a Deus aquilo que reconhece não poder realizar por si mesma e, ao mesmo tempo, permanece disponível para responder à graça.
O sentido último da palavra de Cristo
Mateus 19,26 não é simplesmente uma afirmação sobre o poder ilimitado de Deus. É uma revelação sobre a origem e o destino da existência humana.
O ser humano encontra diante de si um limite que nenhuma força natural consegue ultrapassar. Deus, porém, não está encerrado nesse limite. Ele pode conduzir a criatura para além daquilo que ela poderia alcançar somente por suas próprias capacidades.
Por isso, o impossível anunciado por Cristo não deve ser contemplado apenas como uma barreira. Ele pode tornar-se o lugar onde a criatura descobre a necessidade da graça.
Quando o ser reconhece sua insuficiência sem perder a confiança, abre-se uma dimensão nova da existência. O coração deixa de buscar sua plenitude naquilo que passa e começa a orientar-se para aquilo que permanece.
Então a palavra de Cristo alcança sua verdadeira profundidade. O impossível humano não é a última palavra sobre a existência. A última palavra pertence a Deus, cuja graça pode conduzir a criatura à plenitude para a qual foi chamada desde sua origem.
FILOSOFIA
O impossível como passagem para uma realidade superior
A existência diante do seu próprio limite
Há momentos em que o ser humano encontra diante de si uma impossibilidade que não pode ser vencida pelo simples aumento de suas forças. Nesse ponto, a existência é conduzida a reconhecer que aquilo que a constitui não se encontra inteiramente dentro de seus próprios limites.
A palavra de Cristo em Mateus 19,26 nasce precisamente dessa fronteira. O ser humano percebe a insuficiência de seus próprios recursos, mas Jesus não transforma essa insuficiência em condenação. Ele a converte em abertura. O limite deixa de ser apenas aquilo que encerra e passa a revelar uma realidade maior que o envolve e o sustenta.
A profundidade invisível do ser
Toda realidade manifesta possui uma profundidade que não aparece imediatamente. Antes que uma forma se apresente, existe uma possibilidade silenciosa que a sustenta. Antes que algo seja percebido exteriormente, existe uma origem invisível na qual sua realização já encontra sua condição.
Assim também acontece com a pessoa humana. Aquilo que vemos em determinado momento não esgota aquilo que ela é. Existe no interior do ser uma dimensão ainda não plenamente realizada, como uma possibilidade que permanece recolhida até encontrar as condições de sua manifestação.
A existência, portanto, não deve ser compreendida apenas pelo que já apareceu. Ela também precisa ser contemplada a partir daquilo que ainda pode tornar-se.
O mistério da geração interior
A transformação mais profunda não acontece como uma simples substituição exterior. Ela possui uma estrutura semelhante à geração. Algo novo começa a existir no interior antes de alcançar sua expressão visível.
A graça atua precisamente nesse espaço profundo. Deus não trabalha apenas sobre aquilo que já está formado. Ele alcança a própria possibilidade de transformação do ser e, silenciosamente, conduz essa possibilidade à sua maturação.
Por isso, a ação divina frequentemente permanece escondida. O que é essencial pode começar sem produzir imediatamente sinais exteriores. A realidade mais profunda pode estar acontecendo antes que a consciência consiga reconhecê-la.
O instante que contém mais do que aparenta
O tempo cotidiano costuma apresentar os acontecimentos como uma sucessão. Um instante vem depois de outro, e aquilo que passou parece desaparecer definitivamente.
Entretanto, a experiência espiritual revela outra profundidade. Um único instante pode conter uma decisão cuja consequência ultrapassa sua duração. Uma palavra pode permanecer durante toda uma vida. Um encontro pode modificar uma existência inteira. Um ato interior pode inaugurar uma direção que só posteriormente se tornará visível.
O instante, então, deixa de ser apenas passagem. Ele se torna profundidade.
Existe uma dimensão da existência em que o presente recebe sua significação não somente daquilo que o precede ou do que o sucede, mas da realidade eterna para a qual está orientado.
A eternidade entrando na forma
Quando Deus transforma uma pessoa, não acrescenta simplesmente uma realidade exterior àquilo que ela já é. Ele conduz sua própria existência a uma forma mais elevada de realização.
A criatura continua sendo criatura, mas sua relação com o fundamento de seu ser é aprofundada. Aquilo que estava disperso começa a encontrar unidade. Aquilo que estava fragmentado começa a adquirir direção. Aquilo que permanecia apenas como possibilidade começa a assumir uma forma interior.
A eternidade não destrói o tempo. Ela dá ao tempo sua profundidade última.
É por isso que a transformação espiritual pode acontecer silenciosamente. O que está sendo formado interiormente não precisa aparecer imediatamente no exterior. Existe uma maturação que acontece no oculto, onde a pessoa vai sendo preparada para aquilo que ainda não consegue contemplar plenamente.
O ser como realidade em gestação
A existência humana pode ser compreendida como uma realidade continuamente chamada à realização. O ser não recebe sua forma definitiva no primeiro momento de sua existência. Há um caminho interior pelo qual suas possibilidades são ordenadas, purificadas e conduzidas à plenitude.
Essa dinâmica possui algo de profundamente gerador. O que ainda não possui forma definitiva não é necessariamente ausência. Pode ser presença em estado de preparação.
Assim, o silêncio interior não precisa ser interpretado como vazio. Pode ser o espaço no qual uma realidade nova está sendo formada.
A ausência aparente de manifestação não significa ausência de ação. Muitas vezes, aquilo que possui maior profundidade começa precisamente onde os sentidos ainda não conseguem perceber.
O olhar de Cristo e a origem do possível
Jesus olha para os discípulos antes de afirmar que para Deus todas as coisas são possíveis. Esse olhar possui uma força particular porque o Cristo não contempla apenas aquilo que o ser humano é naquele instante. Ele contempla também aquilo que a graça pode realizar nele.
O olhar divino alcança uma profundidade que ultrapassa a aparência atual da pessoa. Deus vê a possibilidade escondida sob a insuficiência, a plenitude ainda não manifestada sob a fragilidade e a forma futura sob aquilo que ainda se encontra em processo de formação.
Por isso, o impossível não constitui necessariamente o fim do caminho. Pode ser justamente o ponto em que a existência começa a ser conduzida para além de sua própria medida.
A passagem para uma forma nova de existência
A salvação, nesse horizonte, não pode ser compreendida como simples recompensa acrescentada à vida depois de sua conclusão. Ela é uma transformação progressiva da própria existência em direção à comunhão com Deus.
A pessoa começa a tornar-se aquilo que é chamada a ser quando permite que sua interioridade seja ordenada por uma realidade superior.
Esse processo exige purificação porque aquilo que ocupa desordenadamente o centro precisa ceder espaço ao que verdadeiramente possui primazia. A transformação não consiste em destruir a pessoa, mas em retirar os obstáculos que impedem sua realização mais profunda.
O ser não perde sua identidade ao aproximar-se de Deus. Ele encontra sua verdade mais elevada.
A plenitude escondida no presente
Existe, portanto, uma grandeza escondida no presente. O momento atual pode parecer pequeno diante da eternidade, mas pode carregar uma decisão cuja profundidade ultrapassa sua duração.
Cada instante pode tornar-se lugar de preparação. Cada escolha pode contribuir para uma forma futura de existência. Cada ato interior pode participar de uma realidade que ainda não se revelou completamente.
O presente possui, assim, uma espécie de profundidade invisível. Ele é pequeno enquanto duração, mas pode ser imenso enquanto significado.
É nesse sentido que a vida espiritual exige atenção. O essencial nem sempre acontece quando alguma coisa extraordinária se manifesta. Muitas vezes, o essencial acontece quando quase nada parece estar acontecendo.
Quando o impossível se torna nascimento
A palavra de Cristo alcança então uma dimensão ainda mais profunda. O impossível não é simplesmente aquilo que o ser humano não consegue realizar. É também o ponto em que uma possibilidade superior começa a nascer.
Aquilo que a criatura não pode produzir por si mesma pode ser recebido como dom. E aquilo que é recebido como dom pode transformar progressivamente toda a estrutura interior da existência.
Deus conduz o ser humano a uma realidade que já o ultrapassa, mas que, ao mesmo tempo, corresponde àquilo para o qual sua própria natureza foi orientada desde a origem.
O impossível torna-se, assim, passagem.
Não passagem para algo estranho ao ser, mas para sua realização mais profunda.
E quando a existência se abre inteiramente à ação daquele que a sustenta, o instante deixa de ser apenas um ponto perdido na sucessão das horas. Torna-se lugar de geração, de transformação e de encontro com aquilo que permanece.
Então compreendemos a palavra de Cristo em sua profundidade maior. Para o ser humano, há um limite. Para Deus, porém, o limite da criatura não é o limite da possibilidade.
É precisamente nesse espaço entre o que somos e aquilo que ainda podemos receber que começa a obra silenciosa da plenitude.
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