sexta-feira, 4 de abril de 2025

LITURGIA E HOMILIA DIÁRIA - Evangelho: João 8,1-11 - 06.04.2025

 Liturgia Diária


6 – 5º DOMINGO DA QUARESMA 

(roxo, creio – 1ª semana do saltério)


Fazei justiça, ó Deus, e defendei-me contra a gente impiedosa; do homem perverso e mentiroso libertai-me, ó Senhor! Sois vós o meu Deus e meu refúgio (Sl 42,1s).


Reunidos na profundidade da Eucaristia, somos chamados a acolher o amor e a misericórdia divinos, que fluem como rios transformadores, permeando a terra árida do ser. A ressurreição de Cristo se revela naqueles que, em liberdade, buscam a comunhão com o eterno. Devemos avançar, superando as máscaras da hipocrisia e a tendência de condenar o outro. No caminho da verdade, o perdão divino nos oferece sempre o recomeço, permitindo-nos transcender as limitações do ego e abraçar a possibilidade infinita de renovação, onde cada alma é convidada a florescer em sua plena autenticidade e liberdade interior.



Evangelium secundum Ioannem 8,1-11

1 Iesus autem perrexit in montem Olivarum.
Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras.

2 Et diluculo iterum venit in templum, et omnis populus venit ad eum, et sedens docebat eos.
De madrugada, voltou ao templo, e todo o povo veio a ele; e, assentando-se, ensinava-os.

3 Adducunt autem scribae et pharisaei mulierem in adulterio deprehensam et statuerunt eam in medio,
Então, os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério e, pondo-a no meio,

4 et dixerunt ei: “Magister, haec mulier manifesta deprehensa est in adulterio.
Disseram-lhe: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério.

5 In lege autem Moyses mandavit nobis huiusmodi lapidare; tu ergo quid dicis?”.
Ora, na lei, Moisés nos ordenou apedrejar tais mulheres. Tu, pois, que dizes?”

6 Hoc autem dicebant tentantes eum, ut possent accusare eum. Iesus autem inclinans se deorsum, digito scribebat in terra.
Diziam isso para testá-lo, a fim de terem de que acusá-lo. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra.

7 Cum autem perseverarent interrogantes eum, erexit se et dixit eis: “Qui sine peccato est vestrum, primus in illam lapidem mittat”.
Como insistissem em perguntar-lhe, ergueu-se e disse-lhes: “Aquele de vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.”

8 Et iterum se inclinans, scribebat in terra.
E, inclinando-se novamente, escrevia na terra.

9 Audientes autem unus post unum exibant, incipientes a senioribus; et remansit solus, et mulier in medio stans.
Ouvindo isso, foram-se retirando um após outro, começando pelos mais velhos; e ficou só Jesus com a mulher, que estava no meio.

10 Erigens autem se Iesus dixit ei: “Mulier, ubi sunt? Nemo te condemnavit?”.
Erguendo-se, Jesus disse-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?”

11 Quae dixit: “Nemo, Domine”. Dixit autem Iesus: “Nec ego te condemno; vade et amplius iam noli peccare”.
Ela respondeu: “Ninguém, Senhor.” Disse-lhe então Jesus: “Nem eu te condeno; vai e não peques mais.”

Reflexão:

"Qui sine peccato est vestrum, primus in illam lapidem mittat."
"Aquele de vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra." (Jo 8:7)

Essa frase revela a essência do ensinamento de Jesus sobre a hipocrisia, a compaixão e a verdadeira justiça, deslocando o foco da punição para a introspecção e a misericórdia.

A cada um é dada a liberdade de trilhar o caminho do amadurecimento interior, onde a justiça não se confunde com a vingança e o erro não define a essência do ser. O olhar de Cristo transcende a rigidez dos julgamentos, enxergando na queda a oportunidade de ascensão. A consciência do próprio limite permite ao espírito crescer sem o peso das correntes impostas pelo medo. No convite ao recomeço, há um chamado à responsabilidade, pois o verdadeiro perdão não é um fim, mas o início de uma jornada na qual a verdade se revela na plenitude da liberdade.


HOMILIA

A Pedra e o Horizonte do Espírito

No silêncio do templo, onde a eternidade se cruza com o instante, uma mulher é lançada ao centro, não apenas como ré, mas como reflexo da humanidade diante do Absoluto. A cena não é apenas um julgamento; é a revelação do olhar divino sobre a condição humana. Entre os que acusam, cada pedra carrega o peso da ilusão de pureza própria, enquanto o Mestre, curvado ao chão, escreve nos limites da matéria o chamado à transcendência.

"Quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra." Com essa sentença, o tempo se abre diante do espírito. Não há mais os gritos da acusação nem o peso das leis desprovidas de amor; há apenas a consciência despida, confrontada com a verdade inapelável da própria insuficiência. Cada um, ao soltar a pedra, liberta-se do cárcere da rigidez e da falsa superioridade, pois compreender o erro alheio é mergulhar no próprio mistério da existência.

Cristo não valida o erro, mas dissolve a condenação. Ele não compactua com a queda, mas a converte em degrau. "Vai e não peques mais" não é uma ordem imposta de fora, mas um convite ao ser para reencontrar sua trajetória em direção ao que é pleno. Na liberdade do perdão, não há licenciosidade, mas o impulso para o crescimento, a consciência de que o verdadeiro caminho não se encerra no pecado, mas na ascensão ao bem.

O horizonte que se abre neste episódio não é apenas o da justiça, mas o da maturidade do espírito. Somos chamados a olhar para além das sombras que projetamos sobre os outros, compreendendo que a elevação de um ser jamais pode ser construída sobre a destruição do outro. A mão que se fecha sobre uma pedra é a mesma que se fecha para a graça; a mão que se abre para o perdão é aquela que se abre para o infinito.

No silêncio que resta após a dispersão dos acusadores, há uma lição que ressoa por toda a existência: a grandeza do ser não se encontra em julgar, mas em compreender; não se fortalece no castigo, mas na renovação. O templo, outrora palco de condenação, torna-se espaço de liberdade, e a mulher, antes prisioneira de sentenças humanas, recebe do Verbo Eterno a dádiva do recomeço.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

A Fronteira entre a Justiça e a Graça: Aquele que Estiver sem Pecado, Atire a Primeira Pedra

A frase de Cristo em João 8,7 não é apenas uma resposta a um dilema jurídico ou moral, mas um mergulho na essência da justiça divina em contraste com a justiça humana. Para compreendê-la profundamente, é necessário desvendar suas implicações teológicas no contexto da queda, da redenção e da relação entre a lei e a graça.

1. O Pecado como Condição Universal

Quando Jesus declara: “Aquele de vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra”, ele não apenas desarma os acusadores da mulher adúltera, mas os conduz à reflexão sobre sua própria condição. A estrutura da frase sugere um reconhecimento implícito da universalidade do pecado. O Antigo Testamento já afirmava: “Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e nunca peque” (Ecl 7,20). O pecado não é um ato isolado, mas uma realidade que atravessa a existência humana desde a Queda, e sua consciência é o primeiro passo para a verdadeira justiça.

Ao estabelecer este critério para o julgamento — a ausência de pecado — Jesus desloca a questão da legalidade para a do estado interior do juiz. Quem pode condenar verdadeiramente? Somente aquele que não necessita de perdão. Mas, na ordem da criação caída, tal ser não existe entre os homens.

2. A Lei e a Graça: Uma Nova Economia da Justiça

A Lei mosaica, citada pelos fariseus para justificar a condenação, foi dada como tutela (Gl 3,24), apontando a necessidade da purificação do homem. No entanto, a lei, por si só, nunca foi suficiente para restaurar o coração humano; ela expõe o pecado, mas não redime.

Cristo não nega a Lei, mas a supera em plenitude ao introduzir a dimensão da graça. Se a Lei aponta o erro e requer punição, a graça aponta o ser e requer conversão. A frase de Jesus não apenas impede a lapidação da mulher, mas também revela que os próprios juízes são réus diante da justiça divina. Dessa forma, ele expõe a hipocrisia dos que querem condenar sem reconhecer sua própria necessidade de misericórdia.

3. O Perdão como Restauração, Não como Relativismo

Jesus não afirma que o pecado da mulher não existe. Ele tampouco legitima sua conduta. Mas sua justiça não consiste em uma retribuição impessoal e impiedosa, e sim na restauração do ser. Ao dizer "Nem eu te condeno; vai e não peques mais" (Jo 8,11), ele estabelece uma nova relação entre justiça e liberdade.

O perdão não é um apagar arbitrário das consequências do pecado, mas a concessão da possibilidade de um recomeço. Deus não ignora o erro, mas transforma a condenação em um chamado à conversão. Aqui, a justiça não é violada, mas cumprida de forma superior: não pela destruição do pecador, mas por sua elevação.

4. A Pedra: Símbolo da Dureza do Coração

A pedra que não foi lançada torna-se símbolo do coração endurecido que se desfaz diante da consciência da própria miséria. Aqueles que seguravam as pedras são os mesmos que, aos poucos, abandonam a cena, um a um, começando pelos mais velhos (Jo 8,9). A experiência dos anos lhes trouxe maior consciência do próprio pecado, enquanto os mais jovens, menos amadurecidos, talvez tardassem mais a compreender.

A pedra, que na mão do acusador representava condenação, ao ser solta simboliza o início de um processo de libertação do próprio juiz. Para perdoar, é preciso primeiro reconhecer a necessidade do próprio perdão.

5. Cristo: O Único que Poderia Lançar a Pedra

A ironia sublime do episódio é que o único presente que poderia atirar a pedra era Cristo, pois nele não havia pecado. Ele, no entanto, escolhe a misericórdia. Esse é o mistério da encarnação: o Santo que se fez pecado por nós (2Cor 5,21) não veio para condenar, mas para salvar.

O gesto de Jesus é a antecipação da cruz, onde ele próprio se colocará no lugar dos réus, assumindo sobre si a condenação que pertencia a todos. Se houvesse de fato um apedrejamento, seria ele quem o sofreria, e não a mulher.

Conclusão: A Justiça que Conduz à Verdade

Cristo revela que a verdadeira justiça não está na aplicação cega da punição, mas na condução da alma à verdade. O julgamento, sem amor, destrói; a verdade, sem misericórdia, oprime. Somente quando o homem abandona suas pedras é que se torna capaz de olhar para si mesmo e, assim, trilhar o caminho da conversão.

A frase "Aquele de vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra" não é um chamado à indiferença moral, mas ao reconhecimento da própria fragilidade e à compreensão de que a justiça divina sempre se ordena à restauração, jamais à destruição. O perdão não anula a exigência da mudança, mas a torna possível.

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quinta-feira, 3 de abril de 2025

LITURGIA E HOMILIA DIÁRIA - Evangelho: João 7:40-53 - 05.04.2025

 Liturgia Diária


5 – SÁBADO 

4ª SEMANA DA QUARESMA


(roxo – ofício do dia)


Ondas da morte me envolveram totalmente, e as torrentes da maldade me aterraram; ao Senhor eu invoquei na minha angústia e de seu templo ele escutou a minha voz (Sl 17,5ss).


A Verdade, manifesta em Cristo, dissolve os ídolos do poder que se impõem sobre os homens. Sua luz transcende hierarquias artificiais e revela a dignidade inalienável do ser. Na comunhão do Verbo, não há espaço para privilégios sustentados pela imposição, mas sim para a expansão da liberdade espiritual. O coração desperto à essência do Logos se entrega à harmonia da Vontade Suprema, onde a missão não é submissão a estruturas transitórias, mas realização plena do chamado interior. Abramos nossa consciência ao fluxo divino, renunciando às amarras do egoísmo e assumindo, com inteireza, a responsabilidade de nossa própria existência.



Lectio Sancti Evangelii secundum Ioannem
(Jo 7,40-53)

40. Ex illa ergo turba, cum audissent hos sermones eius, dicebant: Hic est vere propheta.
40. Então, alguns da multidão, ouvindo essas palavras, diziam: Este é realmente o profeta.

41. Alii dicebant: Hic est Christus. Quidam autem dicebant: Numquid a Galilæa venit Christus?
41. Outros diziam: Este é o Cristo. Mas alguns perguntavam: Porventura o Cristo vem da Galileia?

42. Nonne Scriptura dicit: Quia ex semine David et Bethleem castello, ubi erat David, venit Christus?
42. A Escritura não diz que o Cristo vem da descendência de Davi e da aldeia de Belém, onde Davi estava?

43. Dissensio itaque facta est in turba propter eum.
43. Assim, houve uma divisão entre a multidão por causa dele.

44. Quidam autem ex ipsis volebant apprehendere eum: sed nemo misit super eum manus.
44. Alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém pôs as mãos nele.

45. Venerunt ergo ministri ad pontifices et pharisæos. Et dixerunt eis illi: Quare non adduxistis eum?
45. Então, os guardas voltaram aos sumos sacerdotes e fariseus, e estes lhes perguntaram: Por que não o trouxestes?

46. Responderunt ministri: Numquam sic locutus est homo, sicut hic homo loquitur.
46. Os guardas responderam: Nunca um homem falou como este homem.

47. Responderunt ergo eis pharisæi: Numquid et vos seducti estis?
47. Então, os fariseus lhes disseram: Será que também fostes enganados?

48. Numquid ex principibus aliquis credidit in eum, aut ex pharisæis?
48. Por acaso, algum dos chefes ou dos fariseus acreditou nele?

49. Sed turba hæc, quæ non novit legem, maledicti sunt.
49. Mas esta multidão, que não conhece a Lei, é maldita.

50. Dixit Nicodemus ad eos, ille qui venit ad eum nocte, qui unus erat ex ipsis:
50. Nicodemos, um deles, que antes fora ter com Jesus, disse-lhes:

51. Numquid lex nostra judicat hominem, nisi prius audierit ab ipso, et cognoverit quid faciat?
51. A nossa Lei julga alguém sem antes ouvi-lo e saber o que ele faz?

52. Responderunt et dixerunt ei: Numquid et tu Galilæus es? Scrutare Scripturas, et vide quia a Galilæa propheta non surgit.
52. Responderam-lhe: És tu também galileu? Examina as Escrituras e verás que da Galileia não surge profeta.

53. Et reversi sunt unusquisque in domum suam.
53. E cada um voltou para sua casa.

Reflexão:

"Responderunt ministri: Numquam sic locutus est homo, sicut hic homo loquitur."
"Os guardas responderam: Nunca um homem falou como este homem." (Jo 7:46)

Essa declaração revela o impacto singular da mensagem de Cristo, que transcende qualquer discurso humano. Mesmo aqueles enviados para prendê-lo reconhecem a autoridade única de suas palavras, que não derivam do poder terreno, mas de uma verdade superior que liberta e ilumina.

Os homens dividem-se diante da Verdade, pois a liberdade do espírito desafia os limites das convenções. O Cristo não se submete à autoridade imposta, mas fala com soberania própria, despertando consciências. Sua palavra não necessita de respaldo institucional, pois ecoa a força do que é autêntico. Quem deseja aprisionar a verdade age com medo da luz que dissolve privilégios. Mas aquele que a acolhe compreende que não se trata de poder temporal, e sim da realização plena do ser. A pergunta essencial não é de onde Ele vem, mas se estamos prontos para segui-Lo na plenitude do caminho.


HOMILIA

A Voz que Desperta o Ser

O Verbo se manifesta, e os homens se dividem. Uns reconhecem sua presença luminosa e dizem: “Este é o Profeta.” Outros afirmam: “Este é o Cristo.” Mas há aqueles que, presos às estruturas do pensamento herdado, questionam: “Pode o Cristo vir da Galileia?” Assim, em torno da Verdade, levanta-se o véu da inquietação, pois seu resplendor exige de cada consciência uma escolha.

A Palavra que emana do Cristo não busca alianças com poderes passageiros, nem se curva às interpretações que reduzem o mistério ao controle humano. Sua voz ecoa na profundidade do ser e faz estremecer aqueles que se apegam às certezas rígidas. Pois aquele que fala com autoridade não necessita de títulos concedidos pelos homens, nem de validação por parte dos que julgam possuir o conhecimento definitivo. Ele próprio é a fonte, e sua mensagem ressoa em quem tem ouvidos para ouvir.

Os guardas enviados para prendê-lo, ao ouvirem sua voz, não podem executar a ordem recebida. Reconhecem, ainda que sem compreender plenamente, que jamais ouviram alguém falar assim. Algo neles desperta, e um vislumbre da liberdade perdida reluz na escuridão do dever imposto. Eles retornam sem Jesus, mas não voltam os mesmos, pois sua consciência tocou a margem do infinito.

Os fariseus, fiéis à sua estrutura de poder, não toleram esse despertar. Perguntam: “Também fostes enganados?” Como pode a autoridade ser desafiada? Como pode a multidão reconhecer algo que seus líderes não avalizaram? Mas Nicodemos, que em silêncio já buscava a verdade, interpela-os: “Pode a Lei condenar alguém sem antes ouvi-lo?” A resposta que recebe não é argumento, mas desprezo, pois aquele que questiona as certezas estabelecidas torna-se ameaça.

Diante de Cristo, a grande divisão se revela: há os que procuram compreender, há os que escutam e se transformam, e há os que rejeitam porque temem perder aquilo que lhes confere poder. Mas a Verdade não pode ser contida. Ela não se encerra nas tradições, nos dogmas inflexíveis ou nas regras estabelecidas por conveniência. Ela habita na liberdade da alma que ousa buscá-la e encontra nela a plenitude do ser.

Hoje, como então, muitos retornam para suas casas sem dar passos rumo à luz. Mas aqueles que ouvem e permitem que a voz do Verbo os atravesse, esses jamais serão os mesmos. Pois a Verdade, uma vez tocada, jamais pode ser esquecida.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

A Palavra que Transcende o Humano

A resposta dos guardas—“Nunca um homem falou como este homem” (Jo 7,46)—não é uma mera constatação de admiração, mas a confissão de um mistério que ultrapassa a ordem natural. Diante da autoridade de Cristo, aqueles que foram enviados para prendê-lo encontram-se, paradoxalmente, cativos da verdade que dele emana. Essa afirmação involuntária revela que a palavra de Jesus não pode ser equiparada à de nenhum outro homem, pois sua origem não é terrena, mas divina.

A Palavra que não se Submete às Estruturas do Mundo

Os fariseus esperavam que os guardas trouxessem Jesus preso, como se a verdade pudesse ser contida pela força. No entanto, algo os impediu. O que ouviram não era um discurso persuasivo no sentido humano, mas uma voz que falava diretamente à essência do ser. Jesus não argumenta como os rabinos de sua época, nem como os filósofos. Sua palavra não se apoia em lógicas convencionais ou em autoridades externas; ao contrário, ela possui a força intrínseca de quem é a própria Verdade.

O Evangelho de João já antecipava esse mistério: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Cristo não apenas ensina a verdade; Ele é a Verdade. Sua fala não é um instrumento para algo maior, mas a manifestação direta da realidade última. É por isso que suas palavras não apenas informam, mas transformam.

O Impacto do Logos Encarnado

Os guardas, mesmo sem compreender plenamente o que estavam ouvindo, experimentam algo inédito: uma autoridade que não vem do reconhecimento humano, mas da substância da própria Palavra. Esse fenômeno confirma as palavras de Jesus: “As palavras que vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras” (Jo 14,10).

O impacto desse encontro ecoa em toda a tradição cristã. Diferente de qualquer outro mestre, Jesus não fala a partir de conceitos aprendidos, mas a partir de sua própria identidade divina. Ele não aponta para uma verdade exterior a si mesmo, mas revela em sua pessoa a plenitude do que é eterno. Por isso, quem ouve sua voz com o coração aberto não pode permanecer o mesmo.

Conclusão: A Verdade que Liberta e Confronta

A frase dos guardas é uma das mais poderosas confissões involuntárias da divindade de Cristo. Eles foram enviados para subjugá-lo, mas foram eles que se tornaram dominados pela Verdade que dele emanava. Isso demonstra que a autoridade de Jesus não se impõe por meio da força ou da coerção, mas pela própria luz que carrega.

Diante dessa Palavra, a humanidade é sempre confrontada com uma escolha: resistir à verdade por medo do que ela exige ou abrir-se à sua força transformadora. A história dos guardas nos recorda que aqueles que verdadeiramente escutam a voz do Verbo Encarnado jamais podem permanecer os mesmos.

Leia também: LITURGIA DA PALAVRA

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Primeira Leitura

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Salmo

Evangelho

Santo do dia

Oração Diária

Mensagens de Fé

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quarta-feira, 2 de abril de 2025

LITURGIA E HOOMILIA DIÁRIA - Evangelho: João 7:1-2.10.25-30 - 04.04.2025

 Liturgia Diária


4 – SEXTA-FEIRA 

4ª SEMANA DA QUARESMA


(roxo – ofício do dia)


Por vosso nome, salvai-me, Senhor; e dai-me a vossa justiça! Ó meu Deus, atendei a minha prece e escutai as palavras que eu digo! (Sl 53,3s)


Diante das forças que tentam silenciar a Verdade, Jesus não se submete. Ele permanece firme na expressão da vontade do Pai, revelando a liberdade interior que transcende as ameaças externas. Sua confiança no desígnio divino nos convida a cultivar uma fé que não depende de imposições, mas brota da essência do ser. Ao buscar consolo no Pai, encontramos a força para resistir às adversidades e manter nossa integridade espiritual. Ele nos chama a viver segundo a liberdade da verdade, que não se curva às pressões, mas eleva o espírito que busca a autenticidade e a paz interior.



Lectio Sancti Evangelii secundum Ioannem 
7,1-2.10.25-30

7,1 Post hæc autem ambulabat Jesus in Galilæam: non enim volebat in Judæam ambulare, quia quærebant eum Judæi interficere.
Depois disso, Jesus andava pela Galileia, pois não queria andar na Judeia, porque os judeus procuravam matá-lo.

7,2 Erat autem in proximo dies festus Judæorum, Scenopegia.
Estava próxima a festa dos judeus, a dos Tabernáculos.

7,10 Ut autem ascenderunt fratres ejus, tunc et ipse ascendit ad diem festum, non manifeste, sed quasi in occulto.
Mas, depois que seus irmãos subiram para a festa, ele também subiu, não publicamente, mas como em segredo.

7,25 Dicebant ergo quidam ex Jerosolymis: Nonne hic est, quem quærunt interficere?
Diziam então alguns de Jerusalém: Não é este aquele que procuram matar?

7,26 Et ecce palam loquitur, et nihil ei dicunt. Numquid vere cognoverunt principes quia hic est Christus?
E eis que fala abertamente, e nada lhe dizem. Será que, de fato, os chefes reconheceram que este é o Cristo?

7,27 Sed hunc scimus unde sit: Christus autem cum venerit, nemo scit unde sit.
Mas este nós sabemos de onde é; já o Cristo, quando vier, ninguém saberá de onde ele é.

7,28 Clamabat ergo Jesus in templo docens, et dicens: Et me scitis, et unde sim scitis: et a meipso non veni, sed est verus qui misit me, quem vos nescitis.
Então Jesus clamava no templo, ensinando e dizendo: Vós me conheceis e sabeis de onde sou; mas não vim de mim mesmo; aquele que me enviou é verdadeiro, e vós não o conheceis.

7,29 Ego scio eum, quia ab ipso sum, et ipse me misit.
Eu o conheço, porque venho dele, e ele me enviou.

7,30 Quærebant ergo eum apprehendere: et nemo misit in illum manus, quia nondum venerat hora ejus.
Então procuravam prendê-lo, mas ninguém lhe pôs as mãos, porque ainda não tinha chegado a sua hora.

Reflexão:

Clamabat ergo Jesus in templo docens, et dicens: Et me scitis, et unde sim scitis: et a meipso non veni, sed est verus qui misit me, quem vos nescitis.
"Então Jesus clamava no templo, ensinando e dizendo: Vós me conheceis e sabeis de onde sou; mas não vim de mim mesmo; aquele que me enviou é verdadeiro, e vós não o conheceis." (Jo 7:28)

Essa frase é central porque revela a origem transcendente de Jesus e a ignorância dos homens sobre Deus, destacando a missão divina que não se prende às aparências terrenas.

Aquele que fala a verdade não se submete ao medo, pois sabe que sua existência não se reduz às circunstâncias. Jesus caminha entre os que desejam silenciá-lo, mas seu olhar transcende os limites impostos pelos homens. A origem do ser não se define pelo que é visível, mas pelo que participa da essência que o sustenta. O tempo não aprisiona quem compreende que sua jornada é mais do que um destino imposto. A liberdade não é concessão de poderes terrenos, mas expressão de um chamado superior. Quem reconhece sua fonte não teme, mas avança, porque sabe que é enviado.

HOMILIA

O Chamado à Verdade que Liberta

Amados, ao meditarmos sobre as palavras do Evangelho segundo João (7,1-2.10.25-30), somos conduzidos a uma realidade que ultrapassa o tempo e as circunstâncias. Jesus, mesmo diante da hostilidade, não se oculta na sombra do temor. Ele avança, consciente de que sua existência não é mero acidente, mas um desdobramento de uma vontade superior. Seu caminhar não obedece às imposições dos homens, mas à verdade que o sustenta.

“Vós me conheceis e sabeis de onde sou; mas não vim de mim mesmo; aquele que me enviou é verdadeiro, e vós não o conheceis.” (Jo 7,28). Essas palavras ressoam como um convite à busca autêntica do que é verdadeiro. Há aqueles que julgam conhecer Cristo por sua aparência, por suas palavras ou por suas ações, mas desconhecem sua essência. Assim também acontece com a verdade: muitos pensam tê-la apreendido, mas ainda não penetraram em sua profundidade.

A jornada de Jesus nos revela que a verdade não se impõe pela força, nem se curva às expectativas alheias. Ela simplesmente é. O tempo e as circunstâncias não a limitam, pois sua raiz não está no transitório, mas no eterno. Quem a reconhece não se prende ao medo, não negocia sua liberdade interior, mas avança com os olhos voltados para aquilo que transcende.

Cristo nos ensina que aquele que é enviado deve caminhar sem hesitação, pois sua existência tem um propósito que não pode ser detido pelas ameaças do mundo. A verdadeira liberdade não é ausência de desafios, mas a consciência de que nenhum obstáculo pode alterar o que foi inscrito no âmago do ser.

Diante dessas palavras, somos chamados a uma escolha: permanecer na superficialidade das aparências ou lançar-nos à profundidade daquele que nos envia. Quem busca a verdade não recua, pois sabe que ela não depende do reconhecimento humano, mas da fidelidade ao que é. Sejamos, portanto, aqueles que não apenas conhecem Cristo de nome, mas que o reconhecem na essência, trilhando o caminho da liberdade que somente a verdade pode conceder.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

A Origem de Cristo e o Véu da Verdade

A frase de Jesus em João 7,28 encerra uma profundidade teológica que nos conduz ao mistério de sua origem e missão. Ele se encontra no templo, o espaço sagrado onde a revelação divina deveria ser reconhecida, e, no entanto, seus ouvintes permanecem na cegueira espiritual.

1. "Vós me conheceis e sabeis de onde sou" – O Conhecimento Aparente

Aqui, Cristo reconhece que os judeus o conhecem em sua manifestação humana. Ele é identificado como Jesus de Nazaré, filho de Maria, criado na Galileia. Seu nome e sua origem terrena são reconhecidos, mas esse conhecimento é apenas superficial. É o conhecimento segundo a carne (cf. 2Cor 5,16), que não penetra a verdade mais profunda de sua identidade.

Essa limitação no entendimento reflete uma realidade espiritual mais ampla: há um conhecimento que se apoia no que os sentidos percebem, mas a verdade última não pode ser captada apenas por essa via. É um lembrete de que a razão sozinha, sem a abertura para o transcendente, não é suficiente para compreender a plenitude do ser de Cristo.

2. "Mas não vim de mim mesmo" – A Origem no Pai

Jesus rejeita a ideia de uma existência autônoma. Sua vinda ao mundo não foi uma decisão isolada, nem fruto de uma necessidade histórica, mas um ato de envio. Ele não é apenas um profeta ou um mestre que decidiu proclamar uma nova doutrina; ele é o Enviado, aquele que procede do Pai, em perfeita comunhão com Ele (cf. Jo 8,42).

Aqui, há uma negação radical de qualquer interpretação que veja Cristo apenas como um sábio ou um reformador. Ele não vem de si mesmo porque não é um ser isolado no cosmos; sua identidade só pode ser compreendida a partir do Pai que o envia. Esse envio não é apenas um ato externo, mas expressa a própria relação eterna entre o Filho e o Pai.

3. "Aquele que me enviou é verdadeiro, e vós não o conheceis" – A Verdade Oculta

A revelação de Jesus é, ao mesmo tempo, uma denúncia: aqueles que se consideram os conhecedores da Lei e da tradição não conhecem verdadeiramente o Pai. O conhecimento de Deus não é um dado garantido pela herança cultural ou pelo domínio intelectual da Escritura. Ele exige uma abertura do espírito, um reconhecimento que vai além do visível e do racional.

Jesus revela que há um véu sobre os olhos daqueles que o escutam. Deus, que deveria ser conhecido, permanece desconhecido para os que confiam apenas em sua própria compreensão. Isso ecoa a afirmação de João no prólogo de seu Evangelho: "A Deus ninguém jamais viu; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou" (Jo 1,18).

Conclusão: O Chamado à Verdadeira Compreensão

Essa passagem nos leva a refletir sobre a distinção entre o conhecimento exterior e a experiência profunda da verdade. Saber sobre Cristo não é o mesmo que conhecê-lo. Jesus desafia seus ouvintes – e a nós – a não ficarmos presos às aparências ou às interpretações limitadas, mas a buscar a verdade última, que não pode ser encontrada sem que o véu seja removido.

A questão que permanece é: conhecemos realmente aquele que enviou Jesus? Pois quem não conhece o Pai, ainda que pense saber de onde Jesus veio, permanece na escuridão.

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terça-feira, 1 de abril de 2025

LITURGIA E HOMILIA DIÁRIA - Evangelho: João 5:31-47 - 03.04.2025

 Liturgia Diária


3 – QUINTA-FEIRA 

4ª SEMANA DA QUARESMA


(roxo – ofício do dia)


Exulte o coração que busca a Deus! Procurai o Senhor Deus e seu poder, buscai constantemente a sua face (Sl 104,3s).


A celebração do Espírito nos revela que, apesar das múltiplas imperfeições da vontade, a Fonte Suprema permanece íntegra em sua essência e benevolência. No Verbo manifestado, àqueles que reconhecem a luz da consciência é concedida a plenitude do ser e a ascensão da alma, dádivas da Inteligência Criadora, cuja manifestação cabe ao indivíduo buscar livremente. Na comunhão com essa verdade, encontra-se o caminho para a realização e a elevação, onde a liberdade do espírito se harmoniza com a ordem transcendente. Que cada existência celebre, com consciência e profundidade, a luminosa jornada rumo à perfeição do ser.



Lectio Sancti Evangelii secundum Ioannem (5:31-47)

31 Si ego testimonium perhibeo de meipso, testimonium meum non est verum.
Se eu der testemunho de mim mesmo, meu testemunho não será verdadeiro.

32 Alius est, qui testimonium perhibet de me: et scio quia verum est testimonium, quod perhibet de me.
Há outro que dá testemunho de mim, e eu sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro.

33 Vos misistis ad Ioannem, et testimonium perhibuit veritati.
Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade.

34 Ego autem non ab homine testimonium accipio: sed haec dico ut vos salvi sitis.
Eu, porém, não recebo testemunho de homem algum, mas digo isso para que sejais salvos.

35 Ille erat lucerna ardens et lucens: vos autem voluistis ad horam exsultare in luce eius.
Ele era a lâmpada ardente e brilhante, e vós quisestes por um momento alegrar-vos com sua luz.

36 Ego autem habeo testimonium maius Ioanne. Opera enim, quae dedit mihi Pater ut perficiam ea, ipsa opera, quae ego facio, testimonium perhibent de me, quia Pater misit me.
Mas eu tenho um testemunho maior que o de João: as obras que o Pai me concedeu realizar, estas mesmas obras que faço dão testemunho de mim, de que o Pai me enviou.

37 Et qui misit me, Pater, ipse testimonium perhibuit de me: neque vocem eius umquam audistis, neque speciem eius vidistis.
E o Pai, que me enviou, ele mesmo deu testemunho de mim. Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes a sua face.

38 Et verbum eius non habetis in vobis manens: quia quem misit ille, huic vos non creditis.
E não tendes a sua palavra habitando em vós, porque não credes naquele que ele enviou.

39 Scrutamini Scripturas, quia vos putatis in ipsis vitam aeternam habere: et illae sunt, quae testimonium perhibent de me.
Examinai as Escrituras, pois julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de mim.

40 Et non vultis venire ad me, ut vitam habeatis.
Mas não quereis vir a mim para terdes vida.

41 Claritatem ab hominibus non accipio.
Eu não recebo glória dos homens.

42 Sed cognovi vos, quia dilectionem Dei non habetis in vobis.
Mas eu vos conheço e sei que não tendes o amor de Deus em vós.

43 Ego veni in nomine Patris mei, et non accipitis me: si alius venerit in nomine suo, illum accipietis.
Eu vim em nome de meu Pai, e não me recebeis; se outro vier em seu próprio nome, a esse recebereis.

44 Quomodo potestis vos credere, qui gloriam ab invicem accipitis: et gloriam, quae a solo Deo est, non quaeritis?
Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus?

45 Nolite putare quia ego accusaturus sim vos apud Patrem: est qui accusat vos, Moyses, in quo vos speratis.
Não penseis que sou eu quem vos acusará diante do Pai; quem vos acusa é Moisés, em quem depositastes vossa esperança.

46 Si enim crederetis Moysi, crederetis forsitan et mihi: de me enim ille scripsit.
Se crêsseis em Moisés, talvez crêsseis também em mim, pois foi a meu respeito que ele escreveu.

47 Si autem illius litteris non creditis, quomodo meis verbis credetis?
Mas se não credes em seus escritos, como crereis em minhas palavras?

Reflexão:

"Scrutamini Scripturas, quia vos putatis in ipsis vitam aeternam habere: et illae sunt, quae testimonium perhibent de me."
"Examinai as Escrituras, pois julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de mim." (Jo 5:39)

A verdade não se impõe pela força, mas se manifesta por sua própria luz. A liberdade interior exige o reconhecimento da realidade que transcende as aparências e conduz ao aperfeiçoamento da consciência. Aquele que busca a clareza do ser precisa confrontar-se com os próprios limites e superar as sombras da ilusão. A autenticidade do espírito não está na aprovação dos homens, mas na coerência entre palavra e ação. O testemunho que se sustenta pela verdade não necessita de imposição, pois encontra sua força na essência da própria existência, onde a plenitude se revela àqueles que desejam realmente ver.


HOMILIA

A Luz da Verdade e o Chamado à Autenticidade

Amados, as palavras do Evangelho de João hoje nos revelam uma realidade profunda sobre a natureza da verdade e da liberdade do espírito. Cristo declara que seu testemunho não se sustenta por si só, mas é confirmado pelo Pai e pelas obras que realiza. Vemos aqui um princípio essencial: a verdade não necessita de imposição, pois sua força está na própria luz que emana.

Muitos buscaram na letra das Escrituras a promessa da vida eterna, mas não reconheceram que essas mesmas palavras testemunhavam a presença viva de Cristo. Isso nos leva a refletir sobre a busca genuína pelo conhecimento: não basta acumular informações ou aderir a tradições por hábito. A sabedoria verdadeira exige um espírito que se abre ao real, que transcende meras aparências e alcança a essência do ser.

Jesus aponta para a incoerência dos que buscam glória entre si, mas não a que vem do Pai. Há uma advertência aqui: a necessidade de reconhecimento externo pode obscurecer a visão da verdade, pois aqueles que se voltam apenas para a aprovação dos outros tornam-se escravos de um reflexo fugaz. A liberdade do espírito, ao contrário, nasce da fidelidade àquilo que é essencial, ao que sustenta a vida além das circunstâncias passageiras.

A voz de Moisés ecoava como testemunha do Cristo que viria, mas aqueles que diziam crer nele não acolheram a plenitude da revelação. Isso nos mostra que não basta dizer-se fiel a princípios e valores se, no momento de encarnar essa verdade, o coração permanece fechado. O espírito que deseja a luz precisa aceitar ser transformado por ela, pois a verdade só é realmente conhecida quando vivida.

Hoje, somos chamados a essa mesma decisão: permanecer nas sombras da interpretação limitada ou abrir-se à clareza da verdade. A autenticidade não reside em palavras vazias, mas na coerência entre pensamento, palavra e ação. E essa coerência não é uma prisão, mas a chave para a verdadeira liberdade, pois aquele que caminha na verdade caminha sem medo, pois sabe que não está sozinho, mas sustentado pelo próprio fundamento da existência.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

1. O Chamado à Investigação Profunda

A expressão "Examinai as Escrituras" não é um mero convite à leitura, mas uma exortação à busca sincera da verdade. O verbo "examinai" sugere um ato de investigação rigorosa, um mergulho além da superfície, exigindo do espírito humano um compromisso real com aquilo que está sendo revelado. Jesus não critica o estudo das Escrituras, mas alerta para o perigo de uma interpretação meramente intelectual, desconectada da realidade espiritual que elas testemunham.

2. A Escritura como Testemunho e Não Como Fim

Os líderes religiosos da época acreditavam que nas Escrituras encontrariam a vida eterna, mas Jesus corrige essa concepção: a vida eterna não está no conhecimento formal, mas naquilo que as Escrituras testemunham. O Antigo Testamento não é um sistema fechado de leis e preceitos, mas uma revelação progressiva que culmina na pessoa de Cristo. Ler as Escrituras sem reconhecer esse testemunho é como contemplar um mapa sem jamais caminhar para o destino indicado.

3. Cristo Como Chave Hermenêutica da Revelação

A frase de Jesus também aponta para uma verdade fundamental: Ele próprio é a chave de interpretação das Escrituras. O Logos eterno é aquele sobre quem Moisés e os profetas falaram, e é n'Ele que todas as promessas divinas encontram cumprimento. Assim, não basta conhecer a letra da Lei; é necessário enxergar seu espírito, que conduz ao Cristo.

Essa revelação nos ensina que a verdade não se reduz a conceitos abstratos ou regras, mas se encarna numa Pessoa viva. O verdadeiro sentido das Escrituras só se torna acessível quando se reconhece essa presença real e transformadora.

4. O Verdadeiro Caminho Para a Vida Eterna

Ao dizer que os judeus "julgavam ter nelas a vida eterna", Jesus denuncia a ilusão de um saber que não se traduz em vida. A vida eterna não é um prêmio por aderir a um conjunto de preceitos, mas um estado de comunhão com a Verdade. As Escrituras apontam para esse caminho, mas a decisão de segui-lo depende de um encontro existencial e transformador com Cristo.

Conclusão

João 5:39 nos convida a ir além da leitura superficial das Escrituras, chamando-nos a enxergar nelas um testemunho vivo de Cristo. A revelação divina não é um sistema fechado de normas ou um conhecimento reservado a poucos, mas uma verdade acessível àqueles que têm o coração aberto para reconhecer a presença de Deus na história e na vida. A vida eterna começa no momento em que, iluminados pela Palavra, nos entregamos àquele que é a própria Vida.

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