Liturgia Diária
6 – 5º DOMINGO DA QUARESMA
(roxo, creio – 1ª semana do saltério)
Fazei justiça, ó Deus, e defendei-me contra a gente impiedosa; do homem perverso e mentiroso libertai-me, ó Senhor! Sois vós o meu Deus e meu refúgio (Sl 42,1s).
Reunidos na profundidade da Eucaristia, somos chamados a acolher o amor e a misericórdia divinos, que fluem como rios transformadores, permeando a terra árida do ser. A ressurreição de Cristo se revela naqueles que, em liberdade, buscam a comunhão com o eterno. Devemos avançar, superando as máscaras da hipocrisia e a tendência de condenar o outro. No caminho da verdade, o perdão divino nos oferece sempre o recomeço, permitindo-nos transcender as limitações do ego e abraçar a possibilidade infinita de renovação, onde cada alma é convidada a florescer em sua plena autenticidade e liberdade interior.
Evangelium secundum Ioannem 8,1-11
1 Iesus autem perrexit in montem Olivarum.
Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras.
2 Et diluculo iterum venit in templum, et omnis populus venit ad eum, et sedens docebat eos.
De madrugada, voltou ao templo, e todo o povo veio a ele; e, assentando-se, ensinava-os.
3 Adducunt autem scribae et pharisaei mulierem in adulterio deprehensam et statuerunt eam in medio,
Então, os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério e, pondo-a no meio,
4 et dixerunt ei: “Magister, haec mulier manifesta deprehensa est in adulterio.
Disseram-lhe: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério.
5 In lege autem Moyses mandavit nobis huiusmodi lapidare; tu ergo quid dicis?”.
Ora, na lei, Moisés nos ordenou apedrejar tais mulheres. Tu, pois, que dizes?”
6 Hoc autem dicebant tentantes eum, ut possent accusare eum. Iesus autem inclinans se deorsum, digito scribebat in terra.
Diziam isso para testá-lo, a fim de terem de que acusá-lo. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra.
7 Cum autem perseverarent interrogantes eum, erexit se et dixit eis: “Qui sine peccato est vestrum, primus in illam lapidem mittat”.
Como insistissem em perguntar-lhe, ergueu-se e disse-lhes: “Aquele de vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.”
8 Et iterum se inclinans, scribebat in terra.
E, inclinando-se novamente, escrevia na terra.
9 Audientes autem unus post unum exibant, incipientes a senioribus; et remansit solus, et mulier in medio stans.
Ouvindo isso, foram-se retirando um após outro, começando pelos mais velhos; e ficou só Jesus com a mulher, que estava no meio.
10 Erigens autem se Iesus dixit ei: “Mulier, ubi sunt? Nemo te condemnavit?”.
Erguendo-se, Jesus disse-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?”
11 Quae dixit: “Nemo, Domine”. Dixit autem Iesus: “Nec ego te condemno; vade et amplius iam noli peccare”.
Ela respondeu: “Ninguém, Senhor.” Disse-lhe então Jesus: “Nem eu te condeno; vai e não peques mais.”
Reflexão:
"Qui sine peccato est vestrum, primus in illam lapidem mittat."
"Aquele de vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra." (Jo 8:7)
Essa frase revela a essência do ensinamento de Jesus sobre a hipocrisia, a compaixão e a verdadeira justiça, deslocando o foco da punição para a introspecção e a misericórdia.
A cada um é dada a liberdade de trilhar o caminho do amadurecimento interior, onde a justiça não se confunde com a vingança e o erro não define a essência do ser. O olhar de Cristo transcende a rigidez dos julgamentos, enxergando na queda a oportunidade de ascensão. A consciência do próprio limite permite ao espírito crescer sem o peso das correntes impostas pelo medo. No convite ao recomeço, há um chamado à responsabilidade, pois o verdadeiro perdão não é um fim, mas o início de uma jornada na qual a verdade se revela na plenitude da liberdade.
HOMILIA
A Pedra e o Horizonte do Espírito
No silêncio do templo, onde a eternidade se cruza com o instante, uma mulher é lançada ao centro, não apenas como ré, mas como reflexo da humanidade diante do Absoluto. A cena não é apenas um julgamento; é a revelação do olhar divino sobre a condição humana. Entre os que acusam, cada pedra carrega o peso da ilusão de pureza própria, enquanto o Mestre, curvado ao chão, escreve nos limites da matéria o chamado à transcendência.
"Quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra." Com essa sentença, o tempo se abre diante do espírito. Não há mais os gritos da acusação nem o peso das leis desprovidas de amor; há apenas a consciência despida, confrontada com a verdade inapelável da própria insuficiência. Cada um, ao soltar a pedra, liberta-se do cárcere da rigidez e da falsa superioridade, pois compreender o erro alheio é mergulhar no próprio mistério da existência.
Cristo não valida o erro, mas dissolve a condenação. Ele não compactua com a queda, mas a converte em degrau. "Vai e não peques mais" não é uma ordem imposta de fora, mas um convite ao ser para reencontrar sua trajetória em direção ao que é pleno. Na liberdade do perdão, não há licenciosidade, mas o impulso para o crescimento, a consciência de que o verdadeiro caminho não se encerra no pecado, mas na ascensão ao bem.
O horizonte que se abre neste episódio não é apenas o da justiça, mas o da maturidade do espírito. Somos chamados a olhar para além das sombras que projetamos sobre os outros, compreendendo que a elevação de um ser jamais pode ser construída sobre a destruição do outro. A mão que se fecha sobre uma pedra é a mesma que se fecha para a graça; a mão que se abre para o perdão é aquela que se abre para o infinito.
No silêncio que resta após a dispersão dos acusadores, há uma lição que ressoa por toda a existência: a grandeza do ser não se encontra em julgar, mas em compreender; não se fortalece no castigo, mas na renovação. O templo, outrora palco de condenação, torna-se espaço de liberdade, e a mulher, antes prisioneira de sentenças humanas, recebe do Verbo Eterno a dádiva do recomeço.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
A Fronteira entre a Justiça e a Graça: Aquele que Estiver sem Pecado, Atire a Primeira Pedra
A frase de Cristo em João 8,7 não é apenas uma resposta a um dilema jurídico ou moral, mas um mergulho na essência da justiça divina em contraste com a justiça humana. Para compreendê-la profundamente, é necessário desvendar suas implicações teológicas no contexto da queda, da redenção e da relação entre a lei e a graça.
1. O Pecado como Condição Universal
Quando Jesus declara: “Aquele de vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra”, ele não apenas desarma os acusadores da mulher adúltera, mas os conduz à reflexão sobre sua própria condição. A estrutura da frase sugere um reconhecimento implícito da universalidade do pecado. O Antigo Testamento já afirmava: “Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e nunca peque” (Ecl 7,20). O pecado não é um ato isolado, mas uma realidade que atravessa a existência humana desde a Queda, e sua consciência é o primeiro passo para a verdadeira justiça.
Ao estabelecer este critério para o julgamento — a ausência de pecado — Jesus desloca a questão da legalidade para a do estado interior do juiz. Quem pode condenar verdadeiramente? Somente aquele que não necessita de perdão. Mas, na ordem da criação caída, tal ser não existe entre os homens.
2. A Lei e a Graça: Uma Nova Economia da Justiça
A Lei mosaica, citada pelos fariseus para justificar a condenação, foi dada como tutela (Gl 3,24), apontando a necessidade da purificação do homem. No entanto, a lei, por si só, nunca foi suficiente para restaurar o coração humano; ela expõe o pecado, mas não redime.
Cristo não nega a Lei, mas a supera em plenitude ao introduzir a dimensão da graça. Se a Lei aponta o erro e requer punição, a graça aponta o ser e requer conversão. A frase de Jesus não apenas impede a lapidação da mulher, mas também revela que os próprios juízes são réus diante da justiça divina. Dessa forma, ele expõe a hipocrisia dos que querem condenar sem reconhecer sua própria necessidade de misericórdia.
3. O Perdão como Restauração, Não como Relativismo
Jesus não afirma que o pecado da mulher não existe. Ele tampouco legitima sua conduta. Mas sua justiça não consiste em uma retribuição impessoal e impiedosa, e sim na restauração do ser. Ao dizer "Nem eu te condeno; vai e não peques mais" (Jo 8,11), ele estabelece uma nova relação entre justiça e liberdade.
O perdão não é um apagar arbitrário das consequências do pecado, mas a concessão da possibilidade de um recomeço. Deus não ignora o erro, mas transforma a condenação em um chamado à conversão. Aqui, a justiça não é violada, mas cumprida de forma superior: não pela destruição do pecador, mas por sua elevação.
4. A Pedra: Símbolo da Dureza do Coração
A pedra que não foi lançada torna-se símbolo do coração endurecido que se desfaz diante da consciência da própria miséria. Aqueles que seguravam as pedras são os mesmos que, aos poucos, abandonam a cena, um a um, começando pelos mais velhos (Jo 8,9). A experiência dos anos lhes trouxe maior consciência do próprio pecado, enquanto os mais jovens, menos amadurecidos, talvez tardassem mais a compreender.
A pedra, que na mão do acusador representava condenação, ao ser solta simboliza o início de um processo de libertação do próprio juiz. Para perdoar, é preciso primeiro reconhecer a necessidade do próprio perdão.
5. Cristo: O Único que Poderia Lançar a Pedra
A ironia sublime do episódio é que o único presente que poderia atirar a pedra era Cristo, pois nele não havia pecado. Ele, no entanto, escolhe a misericórdia. Esse é o mistério da encarnação: o Santo que se fez pecado por nós (2Cor 5,21) não veio para condenar, mas para salvar.
O gesto de Jesus é a antecipação da cruz, onde ele próprio se colocará no lugar dos réus, assumindo sobre si a condenação que pertencia a todos. Se houvesse de fato um apedrejamento, seria ele quem o sofreria, e não a mulher.
Conclusão: A Justiça que Conduz à Verdade
Cristo revela que a verdadeira justiça não está na aplicação cega da punição, mas na condução da alma à verdade. O julgamento, sem amor, destrói; a verdade, sem misericórdia, oprime. Somente quando o homem abandona suas pedras é que se torna capaz de olhar para si mesmo e, assim, trilhar o caminho da conversão.
A frase "Aquele de vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra" não é um chamado à indiferença moral, mas ao reconhecimento da própria fragilidade e à compreensão de que a justiça divina sempre se ordena à restauração, jamais à destruição. O perdão não anula a exigência da mudança, mas a torna possível.
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