Liturgia Diária
31 – DOMINGO
22º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(verde, glória, creio – 2ª semana do saltério)
Piedade de mim, ó Senhor, porque clamo por vós todo o dia! Ó Senhor, vós sois bom e clemente, sois perdão para quem vos invoca (Sl 85,3.5).
O Senhor é a fonte da verdadeira alegria, que nos convoca à comunhão livre, sem imposições, mas pelo impulso íntimo do amor. Em sua Palavra encontramos a clareza que ilumina o pensamento e na Eucaristia recebemos a força que sustenta a existência. Ele, mediador da Aliança eterna, oferece a mesa como espaço de encontro, onde cada consciência se eleva em dignidade. A celebração torna-se, assim, testemunho da liberdade espiritual que harmoniza o ser com o próximo. Hoje, unidos em gratidão, recordamos os que anunciam a sabedoria e cultivam a consciência do Espírito.
“Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2Cor 3,17).
Evangelium secundum Lucam 14,1.7-14
-
Et factum est, cum intraret in domum cuiusdam principis pharisæorum sabbato manducare panem, et ipsi observabant eum.
E aconteceu que, ao entrar Ele na casa de um dos principais fariseus, num sábado, para comer pão, eles o observavam. -
Dicebat autem ad invitatos parabolam, intendens quomodo primos discubitus eligerent, dicens ad illos:
E dizia aos convidados uma parábola, notando como escolhiam os primeiros lugares, e disse-lhes: -
Cum invitatus fueris ab aliquo ad nuptias, non discumbas in primo loco, ne forte honoratior te sit invitatus ab eo,
Quando fores convidado a um casamento, não te reclines no primeiro lugar, para que não aconteça que alguém mais honrado do que tu tenha sido convidado. -
et veniens is qui te et illum vocavit, dicat tibi: Da huic locum; et tunc incipias cum rubore novissimum locum tenere.
E vindo aquele que te convidou a ti e a ele, te diga: Dá o lugar a este; e então, envergonhado, vás ocupar o último lugar. -
Sed cum vocatus fueris, vade, recumbe in novissimo loco, ut, cum venerit qui te invitavit, dicat tibi: Amice, ascende superius. Tunc erit tibi gloria coram simul discumbentibus.
Mas quando fores convidado, vai, reclina-te no último lugar, para que, quando vier aquele que te convidou, te diga: Amigo, sobe mais para cima. Então terás glória diante dos que estão à mesa contigo. -
Quia omnis, qui se exaltat, humiliabitur; et, qui se humiliat, exaltabitur.
Pois todo aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado. -
Dicebat autem et ei, qui se invitaverat: Cum facis prandium aut cenam, noli vocare amicos tuos, neque fratres tuos, neque cognatos neque vicinos divites, ne forte et ipsi te reinvitent, et fiat tibi retributio.
E dizia também ao que o tinha convidado: Quando fizeres um almoço ou jantar, não chames teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos, para que não aconteça que eles também te convidem e tu sejas retribuído. -
Sed cum facis convivium, voca pauperes, debiles, claudos, cæcos,
Mas, quando fizeres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. -
et beatus eris, quia non habent retribuere tibi: retribuetur enim tibi in resurrectione iustorum.
E serás bem-aventurado, porque eles não têm como te retribuir; pois te será retribuído na ressurreição dos justos.
Reflexão:
O convite do Senhor é uma convocação ao despojamento interior, onde a grandeza não se mede por posições, mas pela abertura ao outro. A mesa torna-se imagem de uma ordem maior, na qual cada consciência é chamada a reconhecer sua dignidade. O ato de escolher o último lugar não é renúncia de valor, mas afirmação da liberdade que nasce do amor. No gesto de servir, descobrimos a ascensão verdadeira, que não oprime, mas eleva. Assim, o banquete do Reino revela-se como espaço de comunhão, em que a justiça floresce e o futuro se abre como promessa de plenitude.
Versículo mais importante:
O versículo central e mais importante desse trecho é o versículo 11, pois nele se encontra a síntese do ensinamento de Jesus sobre humildade e verdadeira grandeza.
Lucam 14,11
Quia omnis, qui se exaltat, humiliabitur; et, qui se humiliat, exaltabitur.
Pois todo aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado.(Lc 14:11)
HOMILIA
A Ascensão do Último Lugar
No silêncio do Evangelho, o Senhor nos conduz a uma mesa que não é apenas de pão e convívio, mas de revelação da ordem oculta que sustenta o ser. Ele nos recorda que a verdadeira grandeza não se encontra nos primeiros assentos, mas na capacidade de descer ao lugar mais simples, onde o coração se desapega das ilusões do poder e se abre à luz que vem do Alto.
Aquele que escolhe o último lugar realiza um movimento interior de libertação: abdica do desejo de domínio para descobrir que a elevação não é conquista humana, mas graça que o convida a subir. Nesse gesto, a pessoa descobre a sua dignidade essencial, não definida por títulos ou posses, mas pela liberdade de ser em comunhão com o Mistério.
A mesa preparada pelo Senhor torna-se então imagem de um processo evolutivo da consciência, em que cada ser humano, ao reconhecer-se pequeno, se torna capaz de receber o chamado à altura. A humildade não é renúncia de valor, mas a porta pela qual a vida se expande em direção à plenitude.
Assim, o convite a não chamar apenas os ricos, mas também os pobres, os cegos e os coxos, manifesta a ordem secreta do Reino: a vida é grande quando se abre para acolher, quando compreende que o outro não é um obstáculo, mas parte do mesmo caminho.
O banquete do Senhor é, portanto, o lugar da verdadeira ascensão, onde a liberdade interior se encontra com a dignidade universal, e onde a consciência humana aprende que servir é o modo mais alto de ser exaltado.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
O Mistério do Movimento Invertido
O versículo revela um paradoxo divino que rompe com a lógica da posse e da hierarquia humanas. O que se exalta, isto é, o que busca elevar-se por sua própria força e vanglória, encontra o limite do efêmero e se vê desmoronar. O que se humilha, porém, acolhe a dinâmica do Espírito que eleva a consciência além das aparências e a integra na ordem invisível do Reino. A inversão não é punição, mas revelação de um princípio universal: o ser só cresce quando se entrega à fonte que o transcende.
Humildade como Expansão do Ser
A humildade, nesse contexto, não é diminuição do valor da pessoa, mas abertura interior que a liberta das prisões do ego. Aquele que se humilha reconhece sua dependência da Origem e descobre a dignidade que não precisa de aplausos. A humilhação voluntária é movimento de consciência: descentralizar-se de si mesmo para centrar-se no Mistério que sustenta todas as coisas. Assim, a humildade se torna força criadora, pois abre espaço para que o ser seja habitado pela luz.
Exaltação como Graça
A exaltação prometida não é honra exterior ou prestígio terreno, mas elevação interior, plenitude que nasce do encontro com o Absoluto. É o ser que, ao esvaziar-se, torna-se capaz de receber mais, não por esforço próprio, mas pela graça que o ergue. Essa exaltação não oprime, não estabelece domínio, mas liberta. Trata-se de um crescimento silencioso, uma ascensão que conduz o homem a ser mais plenamente ele mesmo, na sua essência.
A Lei Espiritual da Liberdade
Neste versículo se revela uma lei espiritual: quem busca afirmar-se sobre os outros se aprisiona ao peso do orgulho; quem se coloca em serviço, em abertura, encontra a liberdade que o ergue. A humilhação voluntária é, portanto, um ato de liberdade: negar o falso eu para que o verdadeiro possa florescer. Assim, a exaltação é consequência de um caminho de entrega, no qual a consciência se eleva em harmonia com o Todo.
O Último Lugar como Portal de Eternidade
O último lugar não é um ponto de derrota, mas de revelação. Ali, onde nada mais sustenta a vaidade, o ser humano encontra a grandeza escondida de sua condição: é amado, é chamado, é levantado pelo convite divino. A humilhação torna-se então portal de eternidade, pois nela se revela a verdadeira exaltação — não de aparência, mas de essência, não de prestígio, mas de comunhão com o Infinito.
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