Liturgia Diária
29 – SEXTA-FEIRA
MARTÍRIO DE SÃO JOÃO BATISTA
(vermelho, pref. próprio – ofício da memória)
Quero falar de vossa lei perante os reis e darei meu testemunho sem temor. Muito me alegro com os vossos mandamentos que eu amo, amo tanto, mais que tudo (Sl 118,46s).
Na fortaleza de Maqueronte, João Batista entregou sua vida diante do poder que teme a verdade. Sua voz, silenciada pela espada, permanece como eco eterno da consciência humana que não se curva diante da injustiça. Sua morte não é derrota, mas testemunho da dignidade que não negocia princípios. O sangue derramado revela que a liberdade interior é mais forte que os grilhões externos, pois nasce do espírito que reconhece em Deus a fonte da verdade. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Assim, sua memória inspira a firmeza de consciência e a coragem de viver justos.
Passio Sancti Ioannis Baptistae
Passio Sancti Ioannis Baptistae
Evangelium secundum Marcum 6,17-29 – Vulgata
-
Ipse enim Herodes misit ac tenuit Ioannem et vinxit eum in carcere propter Herodiadem uxorem Philippi fratris sui, quia duxerat eam.
Pois o próprio Herodes havia mandado prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, que ele havia tomado por esposa. -
Dicebat enim Ioannes Herodi: “Non licet tibi habere uxorem fratris tui.”
João dizia a Herodes: Não te é permitido ter a mulher do teu irmão. -
Herodias autem insidiabatur illi et volebat occidere eum nec poterat.
Herodíades, porém, o odiava e queria matá-lo, mas não podia. -
Herodes enim metuebat Ioannem, sciens eum virum iustum et sanctum, et custodiebat eum; et audito eo, multum haesitabat et libenter eum audiebat.
Herodes respeitava João, sabendo que era homem justo e santo, e o guardava; ao ouvi-lo, ficava perplexo, mas o escutava de boa vontade. -
Et cum dies opportunus accidisset, Herodes natalis sui coenam fecit principibus et tribunis et primis Galilaeae.
E chegou o dia oportuno, quando Herodes, em seu aniversário, ofereceu um banquete aos grandes, aos oficiais e aos principais da Galileia. -
Cumque introisset filia ipsius Herodiadis et saltasset, placuit Herodi simulque recumbentibus; rex ait puellae: “Pete a me, quod vis, et dabo tibi.”
Tendo entrado a filha de Herodíades e dançado, agradou a Herodes e aos que estavam à mesa; o rei disse à jovem: Pede-me o que quiseres, e eu te darei. -
Et iuravit illi: “Quidquid petieris, dabo tibi, usque ad dimidium regni mei.”
E jurou: Tudo o que me pedires, eu te darei, ainda que seja a metade do meu reino. -
Quae cum exisset, dixit matri suae: “Quid petam?” At illa dixit: “Caput Ioannis Baptistae.”
Ela saiu e perguntou à mãe: Que devo pedir? E esta respondeu: A cabeça de João Batista. -
Cumque introisset statim cum festinatione ad regem, petivit dicens: “Volo ut protinus des mihi in disco caput Ioannis Baptistae.”
E, entrando logo com pressa diante do rei, pediu: Quero que me dês agora, num prato, a cabeça de João Batista. -
Et contristatus rex, propter iusiurandum et propter simul recumbentes noluit eam tristare.
O rei entristeceu-se, mas, por causa do juramento e dos convidados, não quis desagradar a jovem. -
Sed misso spiculatore, praecepit afferri caput eius in disco; et decollavit eum in carcere.
Enviando o carrasco, ordenou que trouxessem a cabeça de João num prato, e ele o decapitou na prisão. -
Et attulit caput eius in disco et dedit illud puellae, et puella dedit matri suae.
Trouxe então a cabeça num prato e a entregou à jovem, que a deu à sua mãe. -
Quo audito, discipuli eius venerunt et tulerunt corpus eius et posuerunt illud in monumento.
Quando souberam disso, os discípulos vieram, levaram o corpo e o colocaram num sepulcro.
Reflexão:
A narrativa revela o choque entre o poder que aprisiona e a consciência que liberta. João, mesmo encarcerado, é maior que o rei que o condena, pois sua voz não se reduz ao silêncio. O que se perde no corpo permanece como força viva no espírito humano que busca a verdade. A liberdade não se mede pela ausência de correntes, mas pela integridade da consciência diante da injustiça. Assim, o sacrifício do Precursor não foi fim, mas semente. Sua vida mostra que toda existência encontra sentido quando se orienta para além do medo, em fidelidade ao eterno.
Versículo mais importante:
Entre os versículos de Evangelium secundum Marcum 6,17-29, um dos mais centrais e significativos é o versículo 20, pois nele se revela o reconhecimento de Herodes sobre a santidade de João Batista, estabelecendo o contraste entre a verdade que ilumina e o poder que teme a verdade.
Marcos 6,20 – Vulgata
20. Herodes enim metuebat Ioannem, sciens eum virum justum et sanctum: et custodiebat eum, et audito eo multa faciebat, et libenter eum audiebat.
Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo; protegia-o e, ouvindo-o, ficava muitas vezes perplexo, mas gostava de escutá-lo.(Mc 6:20)
Neste versículo, percebe-se o paradoxo do poder humano: Herodes reconhece a santidade e a justiça de João, mas permanece prisioneiro de seus próprios medos e desejos. A voz da verdade ressoa em sua consciência, mas ele não a acolhe plenamente. João, mesmo encarcerado, é livre, pois sua vida está enraizada no eterno. Herodes, sentado no trono, é escravo de suas fraquezas. Assim, revela-se que a verdadeira grandeza não nasce da força exterior, mas da fidelidade interior ao que transcende o tempo.
HOMILIA
A Voz que Nenhum Poder Silencia
O Evangelho nos conduz à fortaleza de Maqueronte, onde João Batista, profeta da verdade, encontra sua plenitude no martírio. Não é apenas uma narrativa de injustiça humana, mas a revelação de uma lei maior: a liberdade do espírito jamais pode ser aprisionada. Herodes, embora cercado de glória exterior, tremia diante da presença de um homem que não possuía espada nem reino, mas cuja força residia na transparência do ser.
A vida de João é testemunho de que a evolução interior não se mede pelo tempo, mas pela intensidade da fidelidade à verdade que arde no coração. Ele ousou dizer ao poder o que é justo, mesmo sabendo que sua palavra o conduziria ao cárcere. Contudo, não foi a prisão que o encerrou, mas o medo que aprisionou Herodes, revelando que a maior escravidão é a da consciência que recusa a luz.
No banquete do rei, danças e promessas ocultam o vazio de uma existência que tenta se afirmar pela aparência. Já no silêncio do cárcere, João resplandece em dignidade, porque sua vida é sustentada por um sentido que ultrapassa a morte. Assim, o contraste é absoluto: o rei que parece livre é cativo, e o prisioneiro que deveria estar vencido é verdadeiramente livre.
A degolação do profeta não silencia sua voz, mas a projeta no eterno. Sua morte é a semente que revela que a dignidade humana não depende de circunstâncias externas, mas da adesão a uma verdade maior que atravessa todas as eras. A vida não se cumpre na conservação do corpo, mas na fidelidade a uma luz que nos chama para além do efêmero.
Que o sangue do Precursor nos recorde: a liberdade é dom interior, a dignidade é inviolável, e a verdade é chama que nenhum poder pode extinguir. João nos ensina que cada ser humano é chamado a transcender seus medos, a elevar-se pela fidelidade ao sentido que o sustenta, e a reconhecer que a verdadeira grandeza se cumpre quando o espírito permanece fiel àquilo que não morre.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
O Encontro Entre o Poder e a Verdade
O versículo revela a tensão entre a fragilidade do poder terreno e a força indestrutível da verdade. Herodes, revestido de autoridade exterior, percebe em João uma presença que o ultrapassa. O governador, símbolo do domínio humano e da vontade condicionada por paixões, se curva, ainda que inconscientemente, diante da grandeza espiritual de um homem que nada possuía além de sua fidelidade a Deus.
O Justo e o Santo Como Reflexo do Infinito
A Escritura o define como “justo e santo”. A justiça, aqui, não é apenas cumprimento de leis, mas adesão à ordem divina que sustenta o cosmos. A santidade é a transparência dessa ordem no ser humano, que se torna espelho do eterno. João é íntegro, alinhado ao eixo invisível que une o finito ao Infinito. É essa integridade que desperta respeito até no coração corrompido de Herodes.
A Perplexidade da Consciência Diante da Luz
Herodes “ficava muitas vezes perplexo” ao ouvir João. Esta perplexidade é sinal do choque entre a consciência adormecida e a verdade que a desperta. O espírito humano, mesmo obscurecido por paixões, reconhece quando a verdade fala. Tal desconforto é o prelúdio da transformação: a luz provoca abalo, porque penetra onde as sombras tentam se manter intactas.
O Mistério do Ouvir
O texto diz que Herodes “gostava de escutá-lo”. Há aqui um mistério: a palavra da verdade exerce atração mesmo sobre aqueles que não estão dispostos a segui-la. A escuta revela que o ser humano, em sua essência, foi criado para a verdade. Ainda que não a abrace plenamente, o coração experimenta fascínio diante dela, porque intui no fundo que sua plenitude só se realiza quando se rende ao eterno.
O Chamado à Liberdade Interior
Este versículo nos convida a contemplar a diferença entre duas formas de poder: o poder externo, baseado na força e na imposição, e o poder interior, que nasce da coerência com a verdade. João, encarcerado, é livre. Herodes, no trono, é escravo de seus medos e desejos. Aqui se revela a dignidade da pessoa: não há grilhões que possam aprisionar aquele que se alinha à fonte do Ser.
Síntese
A cena mostra que a verdadeira grandeza não está na posição que se ocupa, mas na adesão ao eixo invisível da justiça e da santidade. A perplexidade de Herodes é o reflexo do choque entre o transitório e o eterno, entre a vaidade do poder e a força da consciência iluminada. Este versículo proclama que a liberdade e a dignidade se realizam plenamente apenas na fidelidade ao Absoluto, e que todo coração humano, mesmo dividido, reconhece a voz da verdade quando ela se manifesta.
Leia também:
#evangelho #homilia #reflexão #católico #evangélico #espírita #cristão
#jesus #cristo #liturgia #liturgiadapalavra #liturgia #salmo #oração
#primeiraleitura #segundaleitura #santododia #vulgata
Nenhum comentário:
Postar um comentário