Domingo, 1 de Março de 2026
2º Domingo da Quaresma, Ano A
“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Aclamação ao Evangelho
cf. Lc 9,35
Texto na Biblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam
Et facta est vox de nube, dicens:
Hic est Filius meus electus; ipsum audite.
(Lucae 9,35)
E fez-se ouvir uma voz da nuvem, que dizia:
Este é o meu Filho eleito; escutai-o.
Tradução para uso litúrgico
R. Louvor a vós, ó Cristo, Rei da Glória que não passa,
Luz que atravessa os séculos e habita o eterno Presente.
V. No seio da Nuvem resplandecente — símbolo do Mistério que vela e revela —
irrompe a Voz do Pai, não apenas como som no tempo,
mas como Verbo que rasga o instante e o abre ao Infinito:
Este é o meu Filho, o Eleito desde antes das eras;
escutai-O no silêncio do coração,Enfoque no Tempo Vertical
Nesta proclamação, não se trata apenas de um evento passado no monte da Transfiguração.
A Voz que emerge da Nuvem não pertence à cronologia, mas ao Tempo Vertical — aquele eixo invisível em que o Eterno penetra o instante e o instante se eleva ao Eterno.
A Nuvem simboliza o limiar entre o visível e o Invisível.
A Voz não ecoa apenas no ar; ela desce ao centro da consciência.
O “escutai-O” não é ordem circunstancial, mas convocação permanente:
ouvir o Filho é alinhar-se ao ritmo eterno que sustenta todas as coisas.
Assim, a aclamação torna-se mais que rito;
torna-se passagem interior.
No Tempo Vertical, cada celebração não recorda apenas —
atualiza.
E a Voz ainda diz, no eterno Presente:
Escutai-O —
porque n’Ele o tempo encontra seu sentido
e o coração humano reencontra sua origem.
Proclamatio sancti Evangelii secundum Matthaeum 17, 1-9
I
Et post dies sex assumit Iesus Petrum, et Iacobum, et Ioannem fratrem eius, et ducit illos in montem excelsum seorsum.
Seis dias atravessam o tempo comum, e o Senhor conduz os discípulos ao alto, onde o instante começa a abrir-se para o eterno e o coração é elevado acima da dispersão.
II
Et transfiguratus est ante eos. Et resplenduit facies eius sicut sol, vestimenta autem eius facta sunt alba sicut nix.
Diante deles, a forma visível deixa transparecer a Luz que sempre foi. O rosto brilha como o sol interior que jamais se apaga, e as vestes tornam-se brancura que anuncia o Agora eterno.
III
Et ecce apparuerunt illis Moyses et Elias cum eo loquentes.
Na altura do monte, a Lei e os Profetas convergem no mesmo Presente. O passado não se perde, mas encontra cumprimento na plenitude do Filho.
IV
Respondens autem Petrus dixit ad Iesum Domine bonum est nos hic esse si vis faciam hic tria tabernacula tibi unum et Moysi unum et Eliae unum.
O coração deseja fixar a visão e permanecer na claridade. Contudo, o eterno não se aprisiona em tendas feitas por mãos humanas, pois a verdadeira morada é o interior vigilante.
V
Adhuc eo loquente ecce nubes lucida obumbravit eos et ecce vox de nube dicens Hic est Filius meus dilectus in quo mihi bene complacui ipsum audite.
Enquanto a palavra humana ainda ecoa, a Nuvem luminosa envolve tudo. A Voz do Pai irrompe no centro do ser e proclama o Filho amado, convocando cada consciência a escutá-Lo no silêncio que transcende as horas.
VI
Et audientes discipuli ceciderunt in faciem suam et timuerunt valde.
Ao perceberem a proximidade do Mistério, prostram-se. O temor que os envolve não é fuga, mas reverência diante da grandeza que ultrapassa todo cálculo humano.
VII
Et accessit Iesus et tetigit eos dixitque eis Surgite et nolite timere.
O toque do Cristo restitui o equilíbrio interior. Levantar-se torna-se gesto de confiança, pois o Eterno aproxima-se sem destruir, antes sustenta e fortalece.
VIII
Levantibus autem oculis suis neminem viderunt nisi solum Iesum.
Quando os olhos se erguem, tudo converge para Ele. A multiplicidade recolhe-se na Unidade que permanece além das mudanças.
IX
Et descendentibus illis de monte praecepit eis Iesus dicens Nemini dixeritis visionem donec Filius hominis a mortuis resurgat.
Ao descerem do monte, recebem o mandato do silêncio até que a Ressurreição revele plenamente o sentido da visão. O Tempo Vertical aguarda sua manifestação na vitória sobre a morte.
Verbum Domini
Reflexão
No alto do monte, o instante revela sua profundidade invisível.
A luz contemplada não pertence apenas ao céu distante, mas ao centro desperto da alma.
O ser humano amadurece quando aprende a acolher o que o excede sem tentar possuí-lo.
A verdadeira grandeza manifesta-se na serenidade diante do mistério.
O coração firme não se deixa dominar pelo temor, pois reconhece uma ordem superior que sustenta todas as coisas.
Erguer-se após a visão é aceitar o caminho ordinário iluminado pelo extraordinário.
Cada dia pode tornar-se monte sagrado quando o interior permanece atento.
Assim, o tempo deixa de ser mera sucessão e transforma-se em presença que conduz ao Alto.
Vrsículo mais importante:
Proclamatio sancti Evangelii secundum Matthaeum 17, 1-9
V
Hic est Filius meus dilectus, in quo mihi bene complacui; ipsum audite.
Este é o meu Filho amado, em quem repousa plenamente a minha complacência; escutai-O. (Mt 17,5)
Na Voz que irrompe da Nuvem luminosa, o Eterno penetra o instante e consagra o Agora como lugar de revelação. O Pai não apenas apresenta o Filho à história, mas abre no coração humano um eixo vertical, onde o tempo é atravessado pela eternidade. Escutá-Lo não é gesto passageiro, mas atitude contínua da alma que se eleva acima da dispersão. No silêncio atento, a consciência encontra direção, e o presente torna-se morada da Luz que não declina.
HOMILIA
A Luz que Transfigura o Interior
Quando o Cristo toca a consciência prostrada, o temor cede lugar a uma firmeza luminosa que nasce do contato direto com a Fonte que sustenta todos os instantes.
No alto do monte, o Senhor conduz alguns discípulos para além da rotina comum. A subida não é apenas geográfica, mas espiritual. Cada passo simboliza o esforço silencioso da alma que deseja elevar-se acima da dispersão e reencontrar seu centro. Não se trata de fugir do mundo, mas de contemplá-lo a partir de uma altura onde tudo ganha sentido.
Quando o Cristo se transfigura, sua face resplandece como o sol. A luz que irradia não nasce do exterior, mas revela o que sempre esteve presente em sua identidade divina. Essa claridade manifesta a verdade profunda do ser humano chamado a participar dessa mesma luminosidade. A existência não é destinada à opacidade, mas à transparência diante do Eterno.
A presença de Moisés e Elias indica que a história inteira converge para essa plenitude. Lei e Profecia encontram harmonia no Filho. O passado não é negado, mas elevado. Assim também a vida pessoal é conduzida a uma maturidade em que experiências, lutas e aprendizados são integrados numa unidade superior.
Pedro deseja fixar o instante glorioso. Contudo, o Mistério não pode ser aprisionado em estruturas provisórias. A alma aprende que a verdadeira morada do divino é o interior purificado, onde a escuta atenta substitui a pressa e a ansiedade. A Voz que brota da Nuvem proclama o Filho amado e convida à escuta obediente. Nesse chamado, o coração descobre sua direção e sua firmeza.
O temor que toma os discípulos revela a grandeza do encontro. Diante do Absoluto, toda superficialidade se desfaz. Porém o toque do Cristo os levanta. Ele não esmaga, mas restaura. Ele não humilha, mas confirma a dignidade que procede da origem divina. Cada pessoa é chamada a erguer-se com coragem serena, sustentada por uma confiança que nasce do alto.
Ao descer do monte, permanece a ordem do silêncio. Nem toda experiência deve ser imediatamente exposta. Há vivências que amadurecem no recolhimento e se tornam fecundas no tempo oportuno. A transformação autêntica manifesta-se mais por atitudes do que por palavras.
A família, primeira comunidade de amor e formação, participa desse caminho de elevação. Nela aprendem-se a escuta, a responsabilidade e o respeito mútuo. Quando o lar se torna espaço de oração e fidelidade, reflete a harmonia contemplada no monte. Ali a pessoa cresce em consciência e caráter, fortalecendo-se para enfrentar as exigências da vida com equilíbrio e retidão.
A Transfiguração recorda que a meta do ser humano não é permanecer na sombra, mas caminhar rumo à claridade. A subida exige esforço interior, disciplina e constância. Contudo, aquele que persevera descobre que a luz já o aguardava. No encontro com o Filho amado, o tempo deixa de ser simples sucessão e torna-se ocasião de comunhão com o Eterno. Assim, a vida inteira é chamada a tornar-se monte sagrado onde a presença divina resplandece e orienta cada decisão.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Este é o meu Filho amado, em quem repousa plenamente a minha complacência; escutai-O. Mt 17,5
A Revelação do Filho como Centro da História
A proclamação que brota da Nuvem luminosa manifesta o ponto culminante da revelação. O Pai apresenta o Filho não apenas como mestre entre outros, mas como Aquele em quem repousa a plenitude do seu beneplácito. Toda a história sagrada converge para esta afirmação. Lei e Profetas encontram sua unidade na pessoa do Verbo encarnado. A identidade do Filho não se define por aclamações humanas, mas pela Palavra eterna que O confirma e O envia.
A Nuvem como Sinal do Mistério Divino
A Nuvem, recorrente nas manifestações divinas, expressa ao mesmo tempo ocultamento e proximidade. Deus não se impõe à percepção sensível de modo absoluto, mas envolve a criatura num véu luminoso que purifica o olhar interior. Nesse ambiente sagrado, o instante deixa de ser mera sequência de acontecimentos e torna-se espaço consagrado de revelação. A presença divina não anula o tempo, mas o eleva à sua finalidade mais alta.
A Escuta como Caminho de Elevação Interior
Escutai-O não é simples recomendação moral, mas convocação ontológica. Escutar o Filho significa orientar toda a existência segundo a Palavra que procede do Pai. Tal escuta requer recolhimento, disciplina do pensamento e abertura confiante. Quando a alma aprende a silenciar as vozes dispersivas, descobre que a Palavra eterna continua a ressoar no íntimo, iluminando decisões e fortalecendo a vontade para o bem.
O Agora Iluminado pela Eternidade
Na experiência da Transfiguração, o presente é atravessado por uma luz que não pertence ao fluxo comum das horas. O evento revela que cada momento pode tornar-se lugar de comunhão com o Eterno. A existência humana adquire densidade quando reconhece essa dimensão profunda. O tempo não é apenas transição, mas possibilidade de encontro. Assim, a vida cotidiana, quando vivida em fidelidade à Palavra do Filho amado, transforma-se em participação consciente na luz que não declina.
Leia também:
#LiturgiaDaPalavra
#EvangelhoDoDia
#ReflexãoDoEvangelho
#IgrejaCatólica
#Homilia
#Orações
#Santo do dia

Nenhum comentário:
Postar um comentário