quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Evangelho: Mateus 5,20-26 - 27.02.2026

 Liturgia Diária


27 – SEXTA-FEIRA 

1ª SEMANA DA QUARESMA


(roxo – ofício do dia)


“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Biblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam

Psalmus XXIV (XXV), XVII–XVIII

Tribulationes cordis mei multiplicatae sunt;
de necessitatibus meis erue me.

Vide humilitatem meam, et laborem meum;
et dimitte universa delicta mea.

Tradução para uso litúrgico

As tribulações do meu coração se multiplicaram;
das minhas necessidades mais íntimas, Senhor, retira-me.

Vê minha pequenez diante da Tua Infinita Grandeza,
vê o cansaço da minha alma peregrina no tempo,
e, na luz do Teu eterno Agora,
perdoa todos os meus pecados. (24 (25), 17–18)

Elevação Contemplativa

Neste salmo, a súplica não é apenas cronológica —
ela é ontológica.

As “tribulações” não são somente circunstâncias externas;
são as tensões da alma quando se percebe separada da Fonte.
O coração multiplicado em aflições é o coração disperso no tempo horizontal.

Mas, ao dizer erue me — “retira-me” —
a alma pede algo mais profundo que alívio:
pede elevação.

No Tempo Vertical, o clamor não aguarda futuro.
Ele acontece diante do Eterno Presente.

A expressão Vide humilitatem meam
não é mero reconhecimento de fragilidade psicológica,
mas consciência metafísica da criatura diante do Ser Absoluto.

E quando se suplica: dimitte universa delicta mea,
o perdão não é apenas absolvição jurídica;
é reintegração no eixo eterno do Amor.

Assim, este versículo torna-se oração de ascensão:

Senhor,
retira-me da dispersão,
recolhe meu coração multiplicado,
faz-me habitar o Teu Agora,
onde a fadiga se dissolve
e o pecado perde sua sombra
na luz do Teu Ser.

Amém.


Em nossa peregrinação interior, somos chamados à reconciliação constante, pois toda ruptura dispersa a unidade do ser e obscurece o bem que deseja manifestar-se. A desarmonia fragmenta a consciência e enfraquece a presença do espírito no agir cotidiano. Reconciliar-se é restaurar a ordem invisível que sustenta a comunhão entre as almas, permitindo que o coração reencontre seu eixo essencial. Na celebração sagrada, aprendemos a recolher pensamentos, purificar intenções e reencontrar o centro onde o amor principia. Assim, a ação nasce da integridade interior, e o bem floresce como expressão natural do ser alinhado à Verdade eterna.



Evangelium secundum Matthaeum V, XX-XXVI

XX
Nisi abundaverit justitia vestra plus quam scribarum et pharisaeorum, non intrabitis in regnum caelorum.

Se a vossa justiça não transbordar para além da mera exterioridade e das aparências, não ingressareis no Reino que se revela no íntimo do ser, onde a verdadeira retidão se manifesta como estado permanente da alma diante do Eterno.

XXI
Audistis quia dictum est antiquis Non occides qui autem occiderit reus erit judicio.

Ouvistes o que foi dito aos antigos: não matarás; mas aquele que fere a vida torna-se réu diante do próprio juízo interior, que jamais se cala e continuamente interpela a consciência.

XXII
Ego autem dico vobis quia omnis qui irascitur fratri suo reus erit judicio qui autem dixerit fratri suo Racha reus erit concilio qui autem dixerit Fatue reus erit gehennae ignis.

Eu, porém, vos digo que toda ira desordenada rompe a harmonia interior e submete a consciência a um fogo que consome, por dentro, aquilo que deveria resplandecer como luz.

XXIII
Si ergo offers munus tuum ad altare et ibi recordatus fueris quia frater tuus habet aliquid adversum te.

Se, ao apresentares a tua oferta, te recordares de que há alguma ruptura entre ti e teu irmão, percebe que o verdadeiro altar é o coração reconciliado, pois é nele que a oferta se torna autêntica e agradável.

XXIV
Relinque ibi munus tuum ante altare et vade prius reconciliari fratri tuo et tunc veniens offeres munus tuum.

Deixa a tua oferta diante do altar; vai, primeiro, restaurar a unidade que foi ferida e, somente então, retorna, pois o dom autêntico só pode nascer de um espírito verdadeiramente pacificado e interiormente reconciliado.

XXV
Esto consentiens adversario tuo cito dum es in via cum eo ne forte tradat te adversarius judici et judex tradat te ministro et in carcerem mittaris.

Concilia-te enquanto ainda caminhas, pois o percurso é ocasião propícia para o ajuste interior, antes que o juízo se consolide na própria rigidez da alma e se transforme em prisão da consciência.

XXVI
Amen dico tibi non exies inde donec reddas novissimum quadrantem.

Em verdade, não sairás desse estado enquanto não restituíres até o último resquício de desordem que ainda pesa sobre a consciência e obscurece a paz interior.

Verbum Domini

Reflexão

A justiça que excede a aparência nasce do governo interior.
A ira revela desordem que precisa ser transfigurada em lucidez.
O verdadeiro altar é a consciência purificada de toda fragmentação.
Reconciliar-se é restaurar a unidade do ser consigo e com o outro.
Cada instante oferece ocasião de retificar a intenção.
O juízo começa no íntimo e ali também encontra superação.
A firmeza serena supera o impulso e reconduz ao equilíbrio.
Assim a alma se eleva e permanece íntegra diante do Absoluto.


Versículo mais importante:

Evangelium secundum Matthaeum V, XXIV

XXIV
Relinque ibi munus tuum ante altare et vade prius reconciliari fratri tuo et tunc veniens offeres munus tuum.

Deixa tua oferta diante do altar exterior e retorna ao santuário do coração; restaura primeiro a unidade rompida, para que, reconciliado no íntimo, possas oferecer-te inteiro no Agora eterno onde toda ação encontra sua verdade. (Mt 5,24)


HOMILIA

A Justiça que Nasce do Interior

A verdadeira justiça nasce no interior, quando a consciência se harmoniza com o Bem que a transcende e a sustenta.

Amados irmãos e irmãs, o Senhor nos chama a uma justiça que ultrapassa a aparência e penetra o centro do ser. Não se trata de um cumprimento exterior de normas, mas de uma transformação silenciosa que ocorre no santuário da consciência. A verdadeira retidão não se mede pelo olhar humano, mas pela consonância da alma com o Bem eterno, que sustenta todas as coisas.

Quando o Evangelho nos adverte acerca da ira, revela que o mal começa antes do gesto e antes da palavra. Ele germina na desordem interior que rompe a harmonia do espírito. Quem permite que a cólera governe o íntimo já experimenta, dentro de si, um juízo que o afasta da própria inteireza. Por isso, a vigilância do coração é caminho de elevação e maturidade espiritual.

A reconciliação, ensinada pelo Senhor, manifesta que o culto agradável a Deus nasce de um coração unificado. De nada vale apresentar dons no altar se o interior permanece fragmentado. O altar mais profundo é a própria consciência purificada, onde cada intenção é examinada à luz da Verdade. Restaurar a comunhão com o irmão é restaurar a ordem no próprio ser.

Enquanto caminhamos, somos convidados a ajustar nossos passos. Cada instante contém a possibilidade de retificar rumos e reordenar afetos. O juízo não é apenas realidade futura, mas experiência que se inicia na intimidade da alma, quando ela se confronta com a verdade de seus atos. Há, porém, sempre a possibilidade de retorno, pois o chamado divino permanece vivo no mais profundo do espírito.

A dignidade da pessoa humana se manifesta nessa capacidade de elevar-se acima dos impulsos e escolher o bem que edifica. Na família, célula mater onde a vida é acolhida e formada, aprendemos a paciência, o perdão e a firmeza serena. Ali se exercita a responsabilidade que sustenta toda convivência e fortalece o caráter.

A justiça que excede a dos escribas e fariseus é, portanto, uma justiça interiorizada, que nasce da coerência entre pensamento, palavra e ação. Ela conduz à integridade do ser e à paz que não depende das circunstâncias externas. Quando o coração se alinha ao Bem supremo, cada gesto cotidiano torna-se oferta viva, e a existência inteira se converte em louvor silencioso diante do Eterno.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

A Unidade Interior como Verdade do Culto

Deixa tua oferta diante do altar exterior e retorna ao santuário do coração. Restaura primeiro a unidade rompida para que, reconciliado no íntimo, possas oferecer-te por inteiro naquele eterno presente onde toda ação encontra sua verdade. Mt 5,24

A palavra do Senhor revela que o culto autêntico não começa no gesto visível, mas na disposição invisível da alma. O altar exterior possui sentido quando corresponde ao altar interior, onde a consciência se apresenta sem máscaras diante de Deus. A ruptura com o irmão manifesta uma fratura mais profunda, que atinge o próprio centro do ser. Por isso, a reconciliação não é apenas exigência moral, mas caminho de reintegração ontológica.

O Santuário do Coração

Retornar ao coração significa recolher-se ao núcleo espiritual onde a pessoa se encontra face a face com o Absoluto. Ali não prevalecem justificativas nem aparências, mas a verdade que ilumina e purifica. Quando a unidade interior é restaurada, a pessoa readquire sua inteireza e reencontra a ordem que a orienta para o Bem. Nesse recolhimento, o tempo deixa de ser mera sucessão e torna-se plenitude vivida na presença divina.

A Oferta de Si Mesmo

Oferecer-se por inteiro é mais do que apresentar dons materiais ou palavras solenes. É consentir que a própria existência seja moldada pela Verdade eterna. A ação, então, deixa de ser fragmentada e passa a expressar coerência entre intenção e gesto. O sacrifício agradável a Deus é a alma reconciliada que, integrada e pacificada, se torna dom vivo. Assim, cada instante se converte em espaço de comunhão, e a vida inteira se eleva como liturgia silenciosa diante do Senhor.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

Leia também:

Primeira Leitura

Segunda Leitura

Salmo

Evangelho

Santo do dia

Oração Diária

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