Liturgia Diária
22 – DOMINGO
1º DOMINGO DA QUARESMA
(roxo, creio, prefácio próprio – 1ª semana do saltério)
“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Biblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam
Psalmus 90 (91), 15–16
Clamabit ad me, et ego exaudiam eum;
cum ipso sum in tribulatione;
eripiam eum, et glorificabo eum.
Longitudine dierum replebo eum,
et ostendam illi salutare meum.
Tradução liturgica
Ele Me invocará — não apenas no fluxo dos dias,
mas no ponto secreto onde o tempo toca a eternidade —
e Eu o ouvirei no silêncio onde o Ser é inteiro.
Estarei com ele na tribulação,
não como presença que atravessa horas,
mas como Fundamento que sustenta o instante.
Eu o arrancarei das camadas do medo
e o elevarei à dignidade da Minha própria Luz;
glorificá-lo-ei, fazendo-o participar
da claridade que não declina.
Com plenitude de dias o saciarei —
não dias contados pelo sol,
mas extensão interior onde cada agora
se abre como eternidade.
E lhe mostrarei a Minha salvação:
não apenas livramento histórico,
mas revelação do Tempo Vertical,
onde o homem, invocando,
é acolhido no Eterno que responde.
Pelo Verbo encarnado somos tornados justos e introduzidos na esfera invisível da graça, onde o ser é restaurado em sua origem. Nele, a existência deixa de gravitar apenas no sucessivo e é elevada ao instante pleno que toca o eterno. O Pão da Palavra e o Mistério Eucarístico alimentam o núcleo interior, fortalecendo a vontade para escolher o bem e perseverar na verdade. Conduzidos pelo Espírito, participamos da vitória sobre as tentações, não como memória distante, mas como realidade atuante. Assim, a alma é configurada à Vida que não passa e à glória que permanece.
Evangelium secundum Matthaeum IV I XI
I
Tunc Iesus ductus est in desertum a Spiritu, ut tentaretur a diabolo.
Então Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para que a provação revelasse a firmeza do seu ser no lugar onde o instante toca o eterno.
II
Et cum ieiunasset quadraginta diebus et quadraginta noctibus, postea esuriit.
Após jejuar quarenta dias e quarenta noites, experimentou a fome, mostrando que até a carência pode tornar-se espaço de elevação interior.
III
Et accedens tentator dixit ei Si Filius Dei es, dic ut lapides isti panes fiant.
O tentador aproxima-se e sugere que transforme pedras em pão, convidando-o a reduzir o sentido da existência ao imediato.
IV
Qui respondens dixit Scriptum est Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo quod procedit de ore Dei.
Ele responde que a vida não se sustenta apenas do visível, mas da Palavra que sustenta o ser em profundidade.
V
Tunc assumit eum diabolus in sanctam civitatem, et statuit eum supra pinnaculum templi,
Então é colocado no ponto mais alto do templo, imagem da exaltação que testa a intenção do coração.
VI
et dicit ei Si Filius Dei es, mitte te deorsum Scriptum est enim Quia angelis suis mandavit de te, et in manibus tollent te ne forte offendas ad lapidem pedem tuum.
É desafiado a provar-se por meio do espetáculo, como se a confiança dependesse de sinais exteriores.
VII
Ait illi Iesus Rursum scriptum est Non tentabis Dominum Deum tuum.
Ele afirma que não se força o Mistério, pois a confiança autêntica repousa no silêncio interior.
VIII
Iterum assumit eum diabolus in montem excelsum valde, et ostendit ei omnia regna mundi et gloriam eorum,
Mais uma vez lhe são mostrados poder e esplendor, como se o domínio exterior pudesse preencher o vazio do coração.
IX
et dixit ei Haec tibi omnia dabo si cadens adoraveris me.
É oferecida a posse total em troca da inclinação do espírito, convite à inversão da ordem do ser.
X
Tunc dicit ei Iesus Vade Satanas Scriptum est enim Dominum Deum tuum adorabis et illi soli servies.
Ele ordena que o adversário se afaste e reafirma que somente o Absoluto merece adesão inteira.
XI
Tunc reliquit eum diabolus et ecce angeli accesserunt et ministrabant ei.
Após a fidelidade provada, a harmonia é restaurada e o auxílio celeste manifesta a paz conquistada.
Verbum Domini
Reflexão:
No deserto revela-se a estrutura invisível da decisão humana.
A provação não diminui o ser, antes o purifica.
A fome ensina que nem tudo o que sustenta é visível.
A altura do templo recorda que confiança não se confunde com exibição.
O esplendor dos reinos passa como sombra diante do que permanece.
A vontade reta orienta o coração para o que é superior.
Quem guarda o interior permanece íntegro diante das ofertas do mundo.
Assim a alma encontra firmeza e repousa na Fonte que não se altera.
Versículo mais importante:
Evangelium secundum Matthaeum IV, IV
IV
Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo quod procedit de ore Dei.
O homem não vive apenas do que sustenta o corpo no curso dos dias, mas de toda Palavra que procede do Eterno e irrompe no instante, alimentando o ser na profundidade onde o agora se abre para o Infinito e a existência encontra seu verdadeiro princípio. (Mt 4,4)
HOMILIA
Deserto e Altura na Formação do Ser
Quando o ser humano governa a si mesmo diante das ofertas do poder, recupera sua estatura interior.
Amados irmãos e irmãs
O Espírito conduz o Filho ao deserto. Não é o acaso que o leva, mas um desígnio que revela que toda existência, para amadurecer, deve atravessar a aridez. O deserto é o espaço onde as vozes se calam e o coração é colocado diante de si mesmo. Ali se manifesta o que sustenta verdadeiramente o homem.
A primeira provação toca a necessidade. A fome expõe a fragilidade da carne, mas também revela que o ser humano não se esgota no que é material. Quando o Senhor responde que não só de pão vive o homem, Ele proclama que há um alimento invisível que sustenta a interioridade. A Palavra que procede do Alto não é som passageiro, mas presença que irrompe no instante e o dilata, fazendo cada momento participar da eternidade.
A segunda provação toca a confiança. Colocado no ponto mais alto do templo, o Cristo recusa transformar a fé em espetáculo. Não se negocia o Mistério, nem se força o Sagrado a servir à curiosidade humana. A verdadeira confiança amadurece no recolhimento e na retidão da intenção. O coração íntegro não exige provas teatrais, pois reconhece a Presença que sustenta silenciosamente todas as coisas.
A terceira provação toca o poder. Diante dos reinos e de sua glória, o Senhor reafirma a ordem do ser. Nada criado pode ocupar o lugar do Absoluto. Quando a alma se inclina ao que é transitório como se fosse supremo, perde sua estatura. Quando, porém, orienta-se ao que é eterno, reencontra sua dignidade e governa a si mesma antes de qualquer outra realidade.
Este caminho do Cristo é também o nosso. Cada pessoa é chamada a uma ascensão interior, na qual as escolhas moldam o caráter e consolidam a identidade. A decisão reta, renovada no silêncio do coração, torna o homem senhor de seus impulsos e participante consciente do bem. Não se trata de negar o mundo, mas de ordená-lo a partir de dentro.
A família, célula mater da convivência humana, é o primeiro deserto e o primeiro templo. Nela se aprende a disciplina do amor, a responsabilidade, o respeito pela dignidade do outro. É ali que a vontade é educada e que a criança descobre que sua vida possui valor inalienável. Quando o lar se torna espaço de escuta da Palavra e de fidelidade ao que é verdadeiro, toda a sociedade é fortalecida a partir de sua raiz mais profunda.
O deserto não é apenas lugar de prova, mas de revelação. Na aridez, o supérfluo cai e o essencial permanece. Quem atravessa a provação com o olhar fixo no Alto descobre que cada instante pode tornar-se ponto de encontro com o Eterno. Assim, o coração humano, purificado das ilusões, é restaurado em sua grandeza e aprende a viver não apenas na sucessão dos dias, mas na profundidade do sentido que não passa.
Que o Senhor nos conduza também ao nosso deserto interior, para que, fortalecidos pela Palavra e sustentados pela graça, sejamos firmes nas escolhas, íntegros nas relações e fiéis Àquele que é a Fonte de toda vida. Amém.
EXLICAÇÃO TEOLÓGICA
O homem não vive apenas do que sustenta o corpo no curso dos dias, mas de toda Palavra que procede do Eterno e irrompe no instante, alimentando o ser na profundidade onde o agora se abre para o Infinito e a existência encontra seu verdadeiro princípio Mt 4,4
A Palavra como princípio do ser
Quando o Senhor afirma que o homem vive de toda Palavra que procede de Deus, Ele revela a estrutura mais íntima da criatura humana. O ser humano não é apenas organismo inserido na sucessão dos dias, mas espírito capaz de acolher o que o ultrapassa. A Palavra divina não é mero som articulado, mas expressão do próprio Ser absoluto que comunica vida. Recebê-la é participar da fonte que sustenta tudo o que existe.
Essa afirmação funda uma antropologia elevada. O homem é criado para escutar. Sua dignidade não repousa apenas na capacidade de produzir ou consumir, mas na abertura interior que o torna capaz de acolher o Eterno. A existência humana encontra estabilidade quando se enraíza nessa escuta obediente e consciente.
O instante habitado pelo Eterno
A vida cotidiana transcorre no ritmo das horas, mas a Palavra irrompe no centro do instante e o transfigura. Cada momento pode tornar-se lugar de encontro real com Deus. Não se trata de fuga do mundo, mas de aprofundamento do sentido. O agora deixa de ser apenas passagem e torna-se participação.
Essa compreensão ilumina a experiência espiritual. A oração, a escuta das Escrituras e a celebração eucarística não são ritos isolados do tempo comum. São eventos nos quais o Eterno toca o presente e o preenche com sua própria plenitude. Assim, o coração aprende a viver na presença contínua de Deus, mesmo no meio das tarefas ordinárias.
A nutrição invisível da alma
O pão sustenta o corpo e é dom necessário. Contudo, há uma fome mais radical que nenhum alimento material pode satisfazer. A Palavra divina alimenta a inteligência com a verdade e fortalece a vontade para aderir ao bem. Ela orienta as escolhas e purifica os desejos, restituindo ao homem o governo de si.
Essa nutrição interior forma a pessoa em sua unidade. A razão é iluminada, a afetividade é ordenada e a ação torna-se coerente com o bem reconhecido. Assim se consolida a maturidade espiritual, que não depende das circunstâncias externas, mas da firme adesão ao que é verdadeiro.
Cristo como cumprimento da Palavra
No deserto, o Senhor não apenas cita a Escritura. Ele a encarna. Sua resposta ao tentador manifesta que a vida filial consiste em confiar totalmente no Pai. Cristo vive da Palavra porque Ele mesmo é a Palavra eterna feita carne. Ao unir-se a Ele, o fiel participa dessa relação filial e aprende a viver da mesma fonte.
Na liturgia, essa união se torna concreta. A proclamação do Evangelho e o mistério do altar introduzem a comunidade na dinâmica da escuta e da comunhão. A Igreja não se sustenta por estratégias humanas, mas pela presença ativa daquele que fala e se oferece.
A existência enraizada no princípio eterno
Viver da Palavra significa permitir que o fundamento da própria existência seja Deus. Quando a criatura reconhece sua origem e seu fim no Criador, encontra unidade interior. As tentações perdem sua força quando o coração está firmado nesse princípio.
A afirmação de Mt 4,4 não é apenas resposta a uma provocação, mas revelação do destino humano. Somos chamados a uma vida que ultrapassa a mera sobrevivência. Alimentados pela Palavra, participamos já agora da realidade que não passa. Nesse enraizamento, o ser humano descobre sua verdadeira grandeza e caminha com firmeza rumo à plenitude prometida.
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