Liturgia Diária
13 – SEXTA-FEIRA
5ª SEMANA DO TEMPO COMUM
(verde – ofício do dia)
“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Psalmus 94 (95), 6–7 — Vulgata Clementina
Venite, adoremus, et procidamus ante Deum;
ploremus coram Domino qui fecit nos:
quia ipse est Dominus Deus noster,
et nos populus pascuae eius, et oves manus eius.
Tradução
Vinde — não pelo movimento dos passos, mas pelo recolhimento do ser;
adoremos — não apenas com gestos, mas com a rendição do centro da alma;
prostremo-nos diante da Fonte que nos sustenta no agora eterno.Choremos de reverência ante Aquele que continuamente nos cria,
pois não fomos feitos apenas no princípio: somos feitos a cada instante no Seu olhar.Ele é o nosso Deus — Presença que não passa,
e nós somos o campo de Sua respiração,
ovelhas conduzidas pela Mão invisível que guia dentro do Tempo sem tempo.
Senhor, purifica nossos ouvidos para que discernam além das vozes enganosas, e desperta em nós a palavra justa, firme, luminosa, capaz de testemunhar contra tudo o que fere a dignidade da criatura e obscurece a morada que nos acolhe. Celebremos tua Presença, fonte perene que sustenta cada instante, reunindo o coração disperso na unidade do ser. Concede-nos retidão, coragem serena e atenção interior, para caminharmos contigo na claridade silenciosa, guardando a inteireza do humano e a harmonia do cosmos, como filhos que escutam e respondem ao chamado eterno, em paz ativa, contemplativa, perseverante, fecunda, simples, íntegra, constante, desperta, agradecida, vigilante.
Evangelium secundum Marcum VII, XXXI–XXXVII
XXXI
Et iterum exiens de finibus Tyri venit per Sidonem ad mare Galilaeae inter medios fines Decapoleos.
E outra vez, deixando as fronteiras de Tiro, atravessa os caminhos do silêncio interior e chega ao mar da amplidão, onde a alma reaprende a respirar na presença que tudo sustém.
XXXII
Et adducunt ei surdum et mutum et deprecabantur eum ut imponat illi manum.
Trouxeram-lhe um homem fechado aos sons e à palavra, imagem do coração que ainda não escuta o sentido do ser, suplicando o toque que restaura a inteireza.
XXXIII
Et apprehendens eum de turba seorsum misit digitos suos in auriculas eius et exspuens tetigit linguam eius.
Afastando-o do ruído da multidão, toca-lhe os ouvidos e a língua, ensinando que a cura nasce no recolhimento e no contato direto com a Fonte.
XXXIV
Et suspiciens in caelum ingemuit et ait illi Ephpheta quod est adaperire.
Erguendo o olhar ao alto, suspira e pronuncia a abertura do ser, e o íntimo se descerra como porta iluminada pelo sopro eterno.
XXXV
Et statim apertae sunt aures eius et solutum est vinculum linguae eius et loquebatur recte.
No mesmo instante os ouvidos se libertam do torpor e a língua encontra medida e verdade, e a palavra passa a fluir em retidão.
XXXVI
Et praecepit illis ne cui dicerent quanto autem eis praecipiebat tanto magis plus praedicabant.
Recomendou silêncio, pois o bem amadurece na discrição, mas o que é pleno transborda e testemunha por si mesmo.
XXXVII
Et eo amplius admirabantur dicentes Bene omnia fecit et surdos fecit audire et mutos loqui.
E cheios de assombro reconheciam que tudo fora ordenado com perfeição, pois onde havia fechamento surgiu escuta e onde havia mudez nasceu canto.
Verbum Domini
Reflexão:
No recolhimento do coração a escuta se purifica
A palavra nasce quando o interior se aquieta
O toque do Alto restitui a medida justa do agir
Nada falta àquele que permanece inteiro
A força verdadeira cresce no silêncio
O gesto simples harmoniza corpo e espírito
Caminhamos firmes sem dependência do ruído exterior
E cada instante se torna presença plena diante do Eterno
Versículo mais importante:
XXXIV
Et suspiciens in caelum ingemuit et ait illi Ephpheta quod est adaperire.
Erguendo o olhar para o alto, suspira do íntimo do ser e pronuncia a Palavra que abre, e nesse sopro o fechado se dissolve, os limites cedem, e a criatura desperta para a Presença que continuamente a sustenta, como se cada instante fosse criação primeira, e o interior se tornasse passagem viva para a luz que jamais cessa. (Mc 7,34)
HOMILIA
Abertura do ouvido interior e a restauração da palavra
Quando o interior se harmoniza, a pessoa recupera sua inteireza.
Irmãos e irmãs, o Evangelho nos conduz ao gesto silencioso do Senhor que toma o homem à parte, longe da multidão, e ali realiza a cura. Antes do milagre visível, há um movimento invisível. O afastamento do ruído. O recolhimento do coração. A verdade de Deus não se impõe no tumulto, mas germina no espaço secreto onde a alma pode escutar.
O homem surdo e mudo é imagem de toda criatura quando vive dispersa, presa às vozes exteriores e incapaz de perceber a origem do próprio ser. Ouve sons, mas não sentido. Fala palavras, mas não verdade. O toque do Cristo restaura a unidade perdida. Ele toca os ouvidos para que a escuta se torne profunda. Toca a língua para que a palavra volte a nascer justa.
O olhar erguido ao alto recorda que a existência não se sustenta por si mesma. Somos continuamente chamados à luz que nos cria agora. A vida não é apenas passado acumulado nem futuro esperado. É presença que nos atravessa, fonte viva que se oferece a cada respiração. Quando o coração reconhece isso, o interior se abre como porta antiga que reencontra sua chave.
Abrir-se é consentir em ser conduzido pela verdade do bem. É abandonar a rigidez do orgulho e aceitar a ordem mais alta que governa o cosmos. Nesse consentimento surge a força serena que não depende das circunstâncias. O espírito aprende a permanecer estável, íntegro, senhor de si, capaz de agir com retidão mesmo quando o mundo oscila.
A cura do ouvido ensina a escutar antes de reagir. A cura da língua ensina a falar apenas o que edifica. Assim se forma o caráter firme, onde pensamento, palavra e gesto caminham na mesma direção. Essa coerência é sinal de maturidade interior. Nada há de fragmentado. Tudo converge para a verdade.
Dessa harmonia nasce a dignidade da pessoa. Cada ser humano é templo onde o sopro divino ressoa. E no seio da família, primeira morada do cuidado e da transmissão da vida, essa dignidade se aprende e se protege. Ali o amor se torna escola de responsabilidade, paciência e fidelidade. Ali o coração é moldado para escutar e responder com bondade.
Quando Cristo diz abre-te, Ele fala também a nós. Abre-te ao real. Abre-te ao silêncio que sustenta todas as coisas. Abre-te à palavra justa. Então nossos ouvidos perceberão o sentido oculto do caminho e nossa boca proclamará gratidão. E, curados por dentro, caminharemos com passo firme, como filhos da luz, participando da obra sempre nova do Criador.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Ephpheta e a abertura do ser
Et suspiciens in caelum ingemuit et ait illi Ephpheta quod est adaperire
Erguendo o olhar para o alto, suspira do íntimo do ser e pronuncia a Palavra que abre, e nesse sopro o fechado se dissolve, os limites cedem, e a criatura desperta para a Presença que continuamente a sustenta, como se cada instante fosse criação primeira, e o interior se tornasse passagem viva para a luz que jamais cessa Mc 7,34
O olhar elevado
Erguer os olhos não é gesto do corpo apenas. É movimento da consciência que deixa o peso do imediato e recorda sua origem mais alta. Quando o olhar se eleva, a alma reconhece que não é fruto do acaso, mas chamada permanente do Alto. Nesse reconhecimento nasce reverência e ordem interior. Tudo encontra seu lugar. O coração aprende a permanecer diante do Mistério com atenção desperta.
O suspiro do íntimo
O suspiro do Senhor revela a compaixão que toca as raízes do ser humano. Não é ruído exterior, mas sopro que penetra onde nenhuma palavra alcança. Ali se curam as fraturas escondidas. Ali se desfazem os nós do medo e da dispersão. O espírito, antes fechado, começa a respirar amplidão.
A palavra que abre
A ordem pronunciada não força nem violenta. Ela chama. E ao chamar, restitui ao homem sua capacidade de escutar e responder. A abertura é consentimento ao bem, adesão livre ao que é verdadeiro. Os ouvidos se tornam atentos ao sentido eterno das coisas. A língua aprende a falar com medida, pureza e fidelidade. A vida deixa de ser eco do mundo e passa a ser resposta consciente ao Criador.
A dignidade restaurada
Quando o interior se harmoniza, a pessoa recupera sua inteireza. Torna-se capaz de reger a si mesma, de agir com retidão e de cultivar vínculos estáveis. No seio da família, primeira escola do amor e da responsabilidade, essa inteireza se manifesta como cuidado, respeito e perseverança. Cada gesto cotidiano torna-se expressão de uma ordem mais profunda.
A presença contínua
O instante não é vazio que passa. É visita constante da Fonte que sustenta tudo. Quem percebe isso vive com gratidão e firmeza. O coração já não se dispersa no excesso de vozes. Caminha em simplicidade, escuta com clareza, fala com verdade. Assim, a palavra do Senhor continua ressoando no íntimo de cada fiel, abrindo portas invisíveis e conduzindo à luz que nunca se apaga.
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