+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São
Mateus 12,14-21
Naquele tempo:
14Os fariseus saíram e fizeram um plano para matar Jesus.
15Ao saber disso, Jesus retirou-se dali.
Grandes multidões o seguiram, e ele curou a todos.
16E ordenou-lhes que não dissessem quem ele era,
17para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías:
18'Eis o meu servo, que escolhi;
o meu amado, no qual coloco a minha afeição;
porei sobre ele o meu Espírito,
e ele anunciará às nações o direito.
19Ele não discutirá, nem gritará,
e ninguém ouvirá a sua voz nas praças.
20Não quebrará o caniço rachado,
nem apagará o pavio que ainda fumega,
até que faça triunfar o direito.
21Em seu nome as nações depositarão a sua esperança.'
Palavra da Salvação.
Reflexão - Mt 12,
14-21
Jesus não veio à terra para buscar a sua glória ou a sua
promoção pessoal. Ele veio como o servo de Deus para garantir, por uma vida de
serviço e, principalmente, pela sua paixão e morte de cruz, a salvação para
todas as pessoas. Com isso, Jesus é aquele que cumpre todas as promessas feitas
por Deus durante todo o antigo Testamento. Ele vai, não pela glória, pela
arrogância e pelo poder, mas pelo amor, pela misericórdia e pelo serviço,
realizar o projeto de Deus e nos mostrar novos valores que devem nortear as
nossas vidas, tornando-se ao mesmo tempo modelo para todas as pessoas e a
esperança de todas as nações.
HOMILIA
JESUS, SERVO
ESCOLHIDO DE DEUS Mt 12,14-21
O Verbo de Deus, Aquele que existe desde toda a eternidade,
Aquele que é invisível, incompreensível, incorpóreo, o Princípio que procede do
Princípio, a Luz que nasce da Luz, a fonte da vida e da imortalidade, Aquele
que é a expressão fiel do arquétipo divino, o selo que não se apaga, a perfeita
imagem, a palavra e o pensamento do Pai (Heb 1, 3), é o mesmo que vem em ajuda
da criatura feita à sua imagem (Gn 1, 27), e por amor do homem Se faz homem.
Assume um corpo para salvar o corpo e une-se a uma alma racional por amor da
minha alma. Para purificar aqueles a quem Se tornou semelhante, fez-Se homem em
tudo exceto no pecado. Aquele que enriquece os outros faz-Se pobre. Aceita a
pobreza da minha condição humana para que eu possa receber as riquezas da sua
divindade (2 Co 8, 9). Aquele que possui tudo em plenitude, aniquila-Se a Si
mesmo, priva-Se por algum tempo da sua glória para que eu possa participar da
sua plenitude.
Porquê tantas riquezas de bondade? Que significa para nós
este mistério? Eu recebi a imagem divina, mas não soube conservá-la; agora Ele
assume a minha condição humana, para restaurar a perfeição daquela imagem e dar
imortalidade a esta minha condição mortal. Deste modo, estabelece conosco uma
segunda aliança, mais admirável que a primeira. Convinha que o homem fosse
santificado mediante a natureza assumida por Deus. Convinha que Ele triunfasse
deste modo sobre o nosso tirano, que nos subjugava para nos restituir a
liberdade e reconduzir-nos a Si pela mediação de seu Filho. E Cristo realizou,
de fato, esta obra redentora para glória de seu Pai, que era o objetivo de
todas as suas ações.
Quero abrir a boca, irmãos, para vos falar do altíssimo
assunto da humildade. E estou cheio de temor, como quem sabe que deve falar de
Deus com a língua dos seus próprios pensamentos.
Porque a humildade é a roupagem da Divindade. Fazendo-se
homem, o Verbo revestiu-se de humildade. Através dela, viveu conosco dentro de
um corpo. E todo o que vive na humildade torna-se verdadeiramente semelhante
Àquele que desceu das alturas e cobriu a sua grandeza e a sua glória com as
vestes da humildade, para que, ao vê-lo, a criação não fosse consumida.
Porque a criação não teria podido contemplá-lo se Ele não
tivesse tomado sobre si a humildade e não tivesse, assim, vivido com ela. Não
teria havido face a face com Ele. A criação não teria ouvido as palavras da sua
boca.
Por isso, quando a criação vê um homem revestido da
semelhança do seu Mestre, ela o venera e honra, tal como o fez ao Mestre, que
viu viver revestido de humildade. Com efeito, que criatura não se deixa
enternecer diante do humilde? Contudo, enquanto a glória da humildade não se
tinha revelado a todos em Cristo, desdenhava-se desta visão tão cheia de
santidade.
Mas agora a sua grandeza elevou-se aos olhos do mundo. Foi
concedido à criação receber, na mediação do homem humilde, a visão do seu
Criador. Por isso, o humilde não é desprezado por ninguém, nem sequer pelos
inimigos da verdade. Aquele que aprendeu a humildade é venerado por causa dela,
como se tivesse sobre si uma coroa e vestes de púrpura.
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São
Mateus 12,1-8
1Naquele tempo, Jesus passou no meio de uma plantação
num dia de sábado.
Seus discípulos tinham fome
e começaram a apanhar espigas para comer.
2Vendo isso, os fariseus disseram-lhe:
'Olha, os teus discípulos estão fazendo,
o que não é permitido fazer em dia de sábado!'
3Jesus respondeu-lhes:
'Nunca lestes o que fez Davi,
quando ele e seus companheiros sentiram fome?
4Como entrou na casa de Deus e todos comeram os pães da
oferenda
que nem a ele nem aos seus companheiros era permitido comer,
mas unicamente aos sacerdotes?
5Ou nunca lestes na Lei, que em dia de sábado, no Templo,
os sacerdotes violam o sábado sem contrair culpa alguma?
6Ora, eu vos digo: aqui está quem é maior do que o Templo.
7Se tivésseis compreendido o que significa:
'Quero a misericórdia e não o sacrifício',
não teríeis condenado os inocentes.
8De fato, o Filho do Homem é senhor do sábado.'
Palavra da Salvação.
Reflexão - Mt 12, 1-8
Existem pessoas que acham que é difícil seguir Jesus por
causa da radicalidade das exigências evangélicas, no entanto, essas mesmas
pessoas ficam criando uma série de dificuldades a partir de um legalismo
ritual, moral e religioso que acabam por fazer do seguimento de Jesus uma causa
de sofrimento e de dor e não uma causa de alegria e felicidade de quem descobre
os valores que o conduz para a vida eterna. Muitos cristãos vivem colocando
proibições e ficam contentes quando podem falar "não" a alguém. De
fato, essas pessoas não entenderam o Evangelho de hoje, muito menos o amor que
Deus tem para com seus filhos e filhas.
HOMILIA
O FILHO DO HOMEM É
SENHOR DO SÁBADO Mt 12,1-8
Na Lei dada por Moisés, que não era mais que uma sombra,
Deus ordenou a todos que repousassem e não fizessem nenhum trabalho no dia de
sábado que para nós Cristão é Domingo, DIA DO SENHOR, por causa do Ressurreição
de Jesus, nossa Páscoa no primeiro dia da semana.
Mas isso não era senão uma imagem e uma sombra do verdadeiro
sábado, o qual é concedido à alma pelo Senhor. Com efeito, a alma que foi
julgada digna do verdadeiro sábado cessa de se abandonar às suas preocupações
vergonhosas e humilhantes e repousa; celebra o verdadeiro sábado e goza do
verdadeiro repouso, estando liberta de todas as obras das trevas... Ela prova o
repouso eterno e a alegria do Senhor.
Dantes, estava prescrito que mesmo os animais desprovidos de
razão deviam repousar no dia de sábado: o boi não devia ser submetido à canga,
nem o burro carregar o fardo, porque os próprios animais repousavam dos
trabalhos penosos. Ao vir para o meio de nós, o Senhor trouxe o repouso à alma
que estava carregada e oprimida pelo fardo do pecado, e que morria sob o
constrangimento das obras de injustiça, subjugada como estava por mestres
cruéis. Ele aliviou-a do peso intolerável das idéias vãs e ignóbeis, libertou-a
do jugo doloroso das obras de injustiça, deu-lhe o repouso.
Senhor Deus, Tu que nos cumulaste de tudo, dá-nos a paz, a
paz do repouso, a paz do sábado, do sábado que não tem ocaso. Porque esta tão
bela ordem das coisas que criaste, e que são “muito boas” (Gn 1, 31), passará
quando tiver chegado ao termo do seu destino. Sim, elas tiveram a sua manhã e
terão a sua tarde. Mas o sétimo dia não tem tarde, não tem ocaso, porque Tu o
santificaste a fim de que ele dure para sempre. No termo das Tuas obras “muito
boas”, que, contudo fizeste em repouso, Tu repousaste ao sétimo dia, a fim de
nos fazeres compreender que, no termo das nossas obras, que são muito boas
porque foste Tu que no-las deste, também nós repousaremos em Ti, no sábado da
vida eterna. Então repousarás em nós como agora ages em nós; assim, o repouso
que experimentaremos será o Teu, tal como as obras que fazemos são as Tuas.
Tu, Senhor, trabalhas constantemente e estás constantemente
em repouso. Quanto a nós, chega um momento em que somos levados a fazer o bem,
depois de o nosso coração o ter concebido pelo Teu Espírito, enquanto
anteriormente éramos levados a fazer o mal, quando Te abandonávamos. Tu, único
Deus bom, nunca deixaste de fazer o bem. Algumas das nossas obras são boas –
pela Tua graça, é certo –, mas não são eternas; depois de as fazermos,
esperamos repousar na Tua inefável santificação. Mas Tu, Bem que não precisa de
nenhum outro bem, Tu estás constantemente em repouso, porque Tu próprio és o
Teu repouso.
Quem, de entre os homens, poderá dar a conhecer tudo isto ao
homem? Que anjo o dará a conhecer aos anjos? Que anjo ao homem? É a Ti que
devemos pedir esse conhecimento, em Ti que devemos procurá-lo, à Tua porta que
devemos bater. E dessa maneira sim, dessa maneira te receberemos dessa maneira
te encontraremos e dessa maneira se abrirá a Tua porta para nós. Porque Tu é o
SENHOR do SÁBADO!
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São
Mateus 11,28-30
Naquele tempo, tomou Jesus a palavra e disse:
28Vinde a mim todos vós que estais cansados
e fatigados sob o peso dos vossos fardos,
e eu vos darei descanso.
29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim,
porque sou manso e humilde de coração,
e vós encontrareis descanso.
30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
Palavra da Salvação.
Reflexão - Mt 11,
28-30
Existem pessoas que acreditam que a verdade da religião
encontra-se num rigorismo muito grande, principalmente no que diz respeito às
exigências morais e rituais. Com isso, a religião acaba por ser um instrumento
de opressão. Jesus nos mostra que não deve ser assim. Ele veio ao mundo para
trazer a libertação do jugo do pecado e da morte e que a verdadeira religião é
aquela que liberta as pessoas de todos os pesos que as oprimem na sua
existência. O verdadeiro cristianismo é aquele que não está fundamentado na
autoridade e na rigidez, mas na humildade e mansidão de coração, por que o seu
fundador, Jesus Cristo, manso e humilde de coração, é o Mestre de todo o nosso
agir.
UM CONVITE DE JESUS
Mt 11,28-30
HOMILIA
Hoje o Senhor claramente nos convida a irmos a Ele: Vinde a
mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso de vossos fardos... E
eu pergunto quantos de nós temos nos cansado durante o nosso dia a dia, pelas
circunstâncias, seja uma insatisfação pessoal no trabalho, sejam as coisas que
acontecem que não saem da forma como desejamos, ou seja, até mesmo o jeito como
nós tratamos a quem amamos que por muitas vezes nem é o modo como queremos
tratar, mas pela falta de paciência, pelo cansaço físico, mental ou espiritual
nos deixamos levar pelas nossas fraquezas e não fazemos o bem que desejamos.
Hoje Jesus nos convida porque conhece o nosso coração e sabe
que só n’Ele teremos descanso, pois Ele mesmo justifica isso quando diz Tomai
sobre vós o meu jugo e aprendeis de mim, porque sou manso e humilde de coração.
Pois o meu jugo é suave e meu fardo é leve.
Jesus não nos convida até Ele para nos condenar, mas nos
convida para tirar de nós tudo que não nos faz bem, inclusive nosso sentimento
de culpa em relação aos nossos pecados e fraquezas. Ele anseia e deseja muito
que O busquemos para nos dar o descanso necessário para uma boa caminhada.
Não importa se estás passando por esta crise, pensando que
ninguém se importa, que ninguém se preocupa, o que eu quero dizer-te são
Palavras do Mestre: Vinde a mim, todos vós que estais cansados de carregar as
vossas pesadas cargas, e eu vos darei descanso. Neste texto Jesus demonstra o
seu amor para contigo. Ele se importa contigo e por isso de chama. Faz-te um
convite. E este é para os que têm problemas, para os cansados e os oprimidos;
os que estão com cargas tão pesadas e tão grandes que não dão conta de carregar
sozinhos; os que perderam a esperança até mesmo para esperar; os que estão
feridos e com traumas profundos; os que não têm mais caminho, para caminhar; os
que perderam o rumo da vida, para os que perderam a direção.
O convite é para ti que estás com o coração quebrado,
arrebentado, porque há reabilitação, há cura; é para ti que desperdiçaste a tua
vida no mal, pois ainda há possibilidade para fazer o bem; para ti que já não
tens mais perspectiva na vida, expectativa de um novo começo; para ti que te
sentes desesperado, desprezado; para ti que te sentes doente, perdido na vida;
para ti que estás longe, e morto em delitos e pecados.
Talvez tu dias: Minha vida não tem jeito, porque o pau que
nasce torto, cresce torto e morre torto”, Mas te digo, Tem sim! Porque o pau
que nasce torto, só é torto antes de chegar nas mãos do carpinteiro de Nazaré.
Depois de passar pelas Suas mãos saí um móvel precioso raríssimo de encontrar!
Ele te ofereçe uma nova oportunidade. Jesus é o Deus do impossível, é o Deus
capaz de fazer: do vilão, um herói; do bandido, um santo; do perseguidor, um
defensor do evangelho.
Com as palavras vinde a Mim, Jesus nos chama a confiar
n’Ele, a crer. Porque ninguém pode ir, e seguir, sem crer, sem confiar nele.
Ele te chama para que tu tomes sobre ti o jugo d’Ele: tomai
sobre vós o meu jugo. Jesus não te engana. Ele não prometeu só mar de rosa,
porque aqui o jugo quer dizer que tudo aquilo que Jesus passou tu terás de
passar. Assim como Ele foi perseguido, sofreu, maltratado e até pela tua
própria família, caluniado, zombado, odiado, abandonado entre ladrões e morto
na Cruz mas que três dias depois ressuscitou assim também tu terás de passar
pela mesma situação. Alías ao discípulo basta ser igual ao mestre. Se a Mim
trataram assim, a vós também. Mas não tenhais medo. Eu venci o mundo!
Precisamos aprender d’Ele: e aprendei de mim que sou manso e
humilde de coração. Chama-nos ao discipulado d’ele, sermos seus alunos. Ele
quer que eu e tu sejamos seu imitador. Ele passará a ser o teu modelo. Tu
precisarás conhecer mais e mais o teu Senhor, as coisas d’Ele, até chegar ao
pleno conhecimento. Mas isso só será possível se estiveres perto d’Ele. É por
isso que também nos chama para estar perto dEle, junto dEle, para ter comunhão,
e intimidade com Ele. É urgente que tu contes tudo para Deus. Ele te dá este
privilégio de abrir o peito, a alma, e o coração. E então: achareis descanso
para as vossas almas.
Hoje Jesus quero Te louvar pelo meu trabalho, que tem me
tirado muito dos nossos momentos de intimidade. Isso, na verdade, tem me feito
valorizar cada minutinho que posso beber da graça que é ter tua presença. Dá-me
a graça de, durante todo o meu dia, conseguir parar, para escutar e discernir a
Tua vontade para as minhas atitudes do meu dia. Da-me a graça de ser manso e
humilde assim como Tu és, Senhor.
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São
Mateus 11,25-27
25Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer:
'Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos
e as revelaste aos pequeninos.
26Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.
27Tudo me foi entregue por meu Pai,
e ninguém conhece o Filho, senão o Pai,
e ninguém conhece o Pai, senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Palavra da Salvação.
Vermelho. 4ª-feira da 15ª Semana Tempo Comum
Bv. Inácio de Azevedo Presb. e Comps.
Reflexão - Mt 11,
25-27
O conhecimento de Deus é diferente de todas as outras formas
de conhecimento das quais o ser humano é capaz. De fato, temos diversas formas
de conhecimento, como o racional, o científico, o vulgar e o mitológico, entre
outros, que encontram a sua origem na nossa relação com as coisas e as pessoas
que conhecemos e que se tornam de alguma forma objeto do nosso conhecimento.
Com Deus, a coisa é diferente. A mente humana é incapaz de, por si só, chegar
até o conhecimento de Deus. Só conhecemos a Deus porque, no seu infinito amor,
ele revelou-se a todos nós. É o amor de Deus que, sabendo que somos incapazes
de chegar até ele, vem até nós.
DEUS SE REVELA AOS
SIMPLES Mt 11,25-27
HOMILIA
Nos versículos anteriores ao texto que nos é hoje proposto,
Jesus havia dirigido uma veemente crítica aos habitantes de algumas cidades
situadas à volta do lago de Tiberíades, porque foram testemunhas da sua
proposta de salvação e mantiveram-se indiferentes. Estavam demasiado cheios de
si próprios, instalados nas suas certezas, calcificados nos seus preconceitos e
não aceitavam questionar-se, a fim de abrir o coração à novidade de Deus.
Agora, Jesus manifesta-se convicto de que essa proposta
rejeitada pelos habitantes das cidades do lago, encontrará acolhimento entre os
pobres e marginalizados, desiludidos com a religião “oficial” e que anseiam
pela libertação que Deus tem para lhes oferecer.
Hoje estamos diante de duas “sentenças” que, provavelmente,
foram pronunciados em ambientes diversos deste que Mateus nos apresenta.
A primeira sentença é uma oração de louvor que Jesus dirige
ao Pai, porque Ele escondeu estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelou
aos pequeninos. Os “sábios e inteligentes” são certamente esses “fariseus” e
“doutores da Lei”, que absolutizavam a Lei, que se consideravam justos e dignos
de salvação porque cumpriam escrupulosamente a Lei, que não estavam dispostos a
deixar pôr em causa esse sistema religioso em que se tinham instalado e que –
na sua perspectiva – lhes garantia automaticamente a salvação. Os “pequeninos”
são os discípulos, os primeiros a responder positivamente à oferta do “Reino”;
e são também esses pobres e marginalizados, ou seja, os doentes, os publicanos,
as mulheres de má vida, o “povo da terra” que Jesus encontrava todos os dias
pelos caminhos da Galiléia, considerados malditos pela Lei, mas que acolhiam,
com alegria e entusiasmo, a proposta libertadora de Jesus.
A segunda sentença relaciona-se com a anterior e explica o
que é que foi escondido aos “sábios e inteligentes” e revelado aos
“pequeninos”. Trata-se, duma “experiência profunda e íntima” de Deus. Os
“sábios e inteligentes” estavam convencidos de que o conhecimento da Lei lhes
dava o conhecimento de Deus. A Lei era uma espécie de “linha direta” para Deus,
através da qual eles ficavam a conhecer Deus, a sua vontade, os seus projetos
para o mundo a para os homens; por isso, apresentavam-se como detentores da
verdade, representantes legítimos de Deus, capazes de interpretar a vontade e
os planos divinos.
Jesus deixa claro que quem quiser fazer uma experiência
profunda e íntima de Deus tem de aceitar Jesus e segui-lO. Ele é “o Filho” e só
Ele tem uma experiência profunda de intimidade e de comunhão com o Pai. Quem
rejeitar Jesus não poderá “conhecer” Deus: quando muito, encontrará imagens
distorcidas de Deus e aplica-las-á depois para julgar o mundo e os homens. Mas
quem aceitar Jesus e O seguir, aprenderá a viver em comunhão com Deus, na
obediência total aos seus projetos e na aceitação incondicional dos seus
planos.
Na verdade, os critérios de Deus são bem estranhos, vistos
de cá de baixo, com as lentes do mundo. Nós, homens, admiramos e incensamos os
sábios, os inteligentes, os intelectuais, os ricos, os poderosos, os bonitos e
queremos que sejam eles a dirigir o mundo, a fazer as leis que nos governam, a
ditar a moda ou as idéias, a definir o que é correto ou não é correto. Mas Deus
diz que as coisas essenciais são muito mais depressa percebidas pelos
“pequeninos”: são eles que estão sempre disponíveis para acolher Deus e os seus
valores e para arriscar nos desafios do “Reino”. Quantas vezes os pobres, os
pequenos, os humildes são ridicularizados, tratados como incapazes, pelos
nossos “iluminados” fazedores de opinião, que tudo sabem e que procuram impor
ao mundo e aos outros as suas visões pessoais e os seus pseudo-valores. A
Palavra de Deus ensina: a sabedoria e a inteligência não garantem a posse da
verdade; o que garante a posse da verdade é ter um coração aberto a Deus e às
suas propostas.
Como é que chegamos a Deus? Como percebemos o seu “rosto”?
Como fazemos uma experiência íntima e profunda de Deus? É através da Filosofia?
É através de um discurso racional coerente? É passando todo o tempo disponível
na igreja a mudar as toalhas dos altares? O Evangelho responde: “conhecemos”
Deus através de Jesus. Jesus é “o Filho” que “conhece” o Pai; só quem segue
Jesus e procura viver como Ele pode chegar à comunhão com o Pai. Há católicos
que, por serem Padres como eu, por terem feito catequese, por irem à missa ao
domingo e por fazerem parte do conselho pastoral da paróquia, acham que
conhecem Deus. Atenção: só “conhece” Deus quem é simples e humilde e está
disposto a seguir Jesus no caminho da entrega a Deus e da doação da vida aos
homens. É no seguimento de Jesus – e só aí – que nos tornamos “filhos” de Deus.
E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse:
'Eis minha mãe e meus irmãos.
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus
12,46-50
Naquele tempo:
46Enquanto Jesus estava falando às multidões,
sua mãe e seus irmãos ficaram do lado de fora,
procurando falar com ele.
47Alguém disse a Jesus:
'Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora,
e querem falar contigo.'
48Jesus perguntou àquele que tinha falado:
'Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?'
49E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse:
'Eis minha mãe e meus irmãos.
50Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai,
que está nos céus,
esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.'
Palavra da Salvação.
Reflexão - Mt 12,
46-50
Jesus não quer que nós sejamos seus servos, pois o amor que
ele tem por nós não permite isso. O apóstolo São João nos diz no seu Evangelho
que Jesus não chama os seus seguidores de servos, mas de amigos, porque lhes
revelou tudo o que o Pai lhe deu a conhecer. Mas no Evangelho de hoje, Jesus
vai mais além, ele nos mostra que quer que todos os que ele ama e o amam sejam
membros da sua família, participem da sua vida divina. Para demonstrar o amor
que temos por Jesus, não basta apenas afirmar o amor que se sente por ele, é
preciso ir além, é preciso conhecer e realizar a vontade do Pai. Somente quem
faz a vontade do Pai ama verdadeiramente a Jesus, torna-se membro da sua
família e participa da sua vida.
O PRÉ-REQUISITO PARA
SER IRMÃO DE JESUS Mt 12,46-50
HOMILIA
De acordo com a Bíblia, Jesus teve quatro irmãos (Tiago,
José, Simão e Judas) e também algumas irmãs (Mateus 12,46-50; 13,55-56; João
2,12; 7,3-10; Atos 1,14; 1 Coríntios 9,5; Gálatas 1,19). Por causa do mito de
que Maria foi uma virgem perpétua, foi inventada a teoria que estes
"irmãos" de Jesus são, de fato, apenas primos. Esta explicação é
conveniente, mas contrária à evidência. Esta palavra "irmão" é usada
346 vezes no Novo Testamento e nunca significa "primo". Havia uma
palavra para primo, usada em Colossenses 4,10, mas não é a que foi usada nos
textos acima.
É verdade que a palavra "irmão" é usada para a
irmandade espiritual, mas todas as vezes que "irmão" é usada no Novo
Testamento para uma relação de família física, ela simplesmente significa
irmão. Se irmão significasse primo, em Lucas 8,19-21, Jesus estaria dizendo que
sua mãe e seus "primos" eram aqueles que ouvem a palavra e a cumprem.
Portanto, fazer a vontade de Deus é o prérequisito que Jesus
nos apresenta para também sermos considerados seus irmãos e irmãs. Portanto,
membros da Sua família. Por isso, podemos dizer que fomos também escolhidos por
Jesus Cristo para participar da Sua família, quando nós fazemos a vontade do
Pai que está no céu.
O exemplo de Maria foi dado por Jesus às multidões naquele
tempo, e hoje é dado para nós, com a finalidade de nos clarear a mente e o
coração para que percebamos que todos nós somos chamados a fazer parte da
família de Jesus. Portanto, não é difícil para nós imaginarmo-nos membros da
linhagem de Jesus.
Somos participantes da graça de filhos, de irmãos e irmãs,
se, como a Mãe de Jesus, estivermos abertos a fazer tudo conforme Deus nos
manda realizar. Assim como estendeu a mão para os Seus discípulos e os considerou
na mesma qualidade de mãe e de irmãos seus, Jesus nos aponta a Sua mão e nos
acolhe como membros da sua família, se, estivermos dispostos (as) a fazer a
vontade de Deus a qual se expressa na Sua Palavra.
E a vontade do Pai é que todos nós, pela Fé em Jesus Cristo,
alcancemos a salvação e a vida eterna sem fim. Não devemos nos admirar da
expressão que Jesus usou quando se referiu à Sua Mãe e aos Seus irmãos: “Quem é
minha mãe e quem são meus irmãos?”
Ele aproveitou a oportunidade para também nos enquadrar como
pessoas especiais, discípulos e discípulas dignos de ser chamados filhos de
Deus Pai, tendo Maria como Mãe, irmãos de Jesus Cristo e motivados pelo poder
do Espírito Santo, a fazer a vontade de Deus.
Você também se considera da família de Jesus Cristo? O que
você entende por fazer a vontade de Deus? Você é discípulo de Jesus? O que
falta para que você faça a vontade do Pai aqui na terra do jeito que ela
acontece no céu?
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São
Mateus 10,34-11,1
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
34Não penseis que vim trazer paz à terra;
não vim trazer a paz, mas sim a espada.
35De fato, vim separar o filho de seu pai,
a filha de sua mãe, a nora de sua sogra.
36E os inimigos do homem
serão os seus próprios familiares.
37Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim,
não é digno de mim.
Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim,
não é digno de mim.
38Quem não toma a sua cruz e não me segue,
não é digno de mim.
39Quem procura conservar a sua vida vai perdê-la.
E quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.
40Quem vos recebe, a mim recebe;
e quem me recebe, recebe aquele que me enviou.
41Quem recebe um profeta, por ser profeta,
receberá a recompensa de profeta.
E quem recebe um justo, por ser justo,
receberá a recompensa de justo.
42Quem der, ainda que seja apenas um copo de água fresca,
a um desses pequeninos, por ser meu discípulo,
em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa.'
11,1Quando Jesus acabou de dar essas instruções
aos doze discípulos,
partiu daí, a fim de ensinar e pregar nas cidades deles.
Palavra da Salvação.
Reflexão - Mt 10, 34
- 11,1
O seguimento de Jesus tem uma série de implicações e não
permite meio termo, pois exige radicalidade. Ou seguimos Jesus ou não seguimos,
não existe seguimento até certo ponto ou de acordo com as minhas condições, o
seguimento é incondicional. Para que isso seja possível, Jesus deve ser o valor
absoluto de nossas vidas, devemos ser seduzidos por ele de modo que tudo
façamos para estar com ele e realizar a sua vontade, a fim de que tenhamos
coragem de, com ele, assumir a nossa cruz do dia a dia e segui-lo até onde for
necessário. Somente quem tem um verdadeiro amor por Jesus e pelo Reino de Deus
é capaz de viver de tal maneira.
QUEM VOS RECEBE A MIM
RECEBE Mt 10,34-11,1
HOMILIA
Jesus veio arrancar das nossas mãos a paz da acomodação e
nos entregar a espada do Espírito Santo para que nós possamos lutar contra toda
heresia e contra testemunho. Ele é bem claro e explícito quando afirma que não
é digno dele todo aquele que ama seu pai e sua mãe mais do que a Ele. Amar aqui
significa ouvir, seguir, dar atenção, privilegiar, em fim, ter mais
consideração e obedecer. Jesus não veio nos separar fisicamente uns dos outros,
mas sim, das ações, da mentalidade e das práticas dos que são do mundo. Por
isso, Neste Evangelho Jesus nos dá um veredicto: Ele em primeiro lugar! Em
primeiro lugar o Evangelho e os Seus ensinamentos. Nós não podemos seguir o
ensinamento daqueles que contradizem a Palavra de Deus mesmo que estas sejam
pessoas muito queridas para nós, como nosso pai ou nossa mãe. O seguimento a
Cristo nos condiciona a tê-Lo em primeiro lugar na nossa vida! Antes de tudo
nós precisamos viver o Evangelho e os ensinamentos de Deus. Portanto, quem
seguir a Jesus não ficará sem recompensa. Quem acolher aquele que vem em Seu
Nome será acolhido também pelo Pai. Jesus veio trazer a paz que é gerada na
justiça e justa é a vontade de Deus. Portanto, a vontade de Deus é soberana e
não a vontade dos homens. Tomar a cruz é assumir a vida dentro dos conceitos
evangélicos imitando a Jesus que morreu na Cruz para nos salvar. Assumimos a cruz
quando nos apossamos da salvação de Jesus e não queremos promover a nossa
própria salvação.
Nunca nos esqueçamos que a ação missionária exige do
apóstolo muita coragem e perseverança. As dificuldades e perseguições surgirão
a partir de seus próprios familiares. Esses serão os primeiros a rejeitá-lo.
Entretanto, o anúncio do Reino não pode ficar à mercê do humor desses
familiares. A fidelidade ao Reino, em algumas circunstâncias, exigirá rupturas.
Quem preferir não desagradar seu pai ou sua mãe, recusando-se de proclamar as
exigências do Reino sem omitir nada, torna-se indigno do ministério recebido. O
Reino deve nortear também as relações familiares.
O apóstolo ama o Reino com um amor maior. Por amor, torna-se
capaz de assumir sua missão até as últimas conseqüências, até mesmo a morte.
Ele tem consciência de que aí se joga sua salvação e sua condenação. A busca
medrosa de querer proteger-se e poupar-se, poderá levá-lo à condenação, pois,
para isso, terá que abrir mão da causa de Jesus. A predisposição de perder a
vida, por causa do Reino, gera salvação. O testemunho dado a favor de Jesus e
de seu Reino, diante das pessoas, terá como contrapartida o testemunho que ele
dará em favor do apóstolo diante do Pai. O amor ao Reino, portanto, só é
verdadeiro quando se torna absoluto no coração do discípulo de Cristo.
A quem você costuma seguir: ao que Deus lhe recomenda ou o
que os seus queridos lhe sugerem? Você seria capaz de fazer uma opção radical
por Deus, mesmo que fique contra toda a sua família? Você já tentou atrair a
sua família para Deus, da mesma forma que as outras pessoas tentam atraí-la
para o mundo?
Pai, robustece minha adesão a teu Reino, levando-me a pautar
por ele todo meu agir e a atrair para ti quem optou pelo caminho da maldade e
do egoísmo.
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas
10,25-37
Naquele tempo:
25Um mestre da Lei se levantou
e, querendo pôr Jesus em dificuldade, perguntou:
'Mestre, que devo fazer
para receber em herança a vida eterna?'
26Jesus lhe disse: 'O que está escrito na Lei?
Como lês?'
27Ele então respondeu:
'Amarás o Senhor, teu Deus,
de todo o teu coração e com toda a tua alma,
com toda a tua força e com toda a tua inteligência;
e ao teu próximo como a ti mesmo!'
28Jesus lhe disse: 'Tu respondeste corretamente.
Faze isso e viverás.'
29Ele, porém, querendo justificar-se,
disse a Jesus: 'E quem é o meu próximo?'
30Jesus respondeu:
'Certo homem descia de Jerusalém para Jericó
e caiu nas mãos de assaltantes.
Estes arrancaram-lhe tudo, espancaram-no,
e foram-se embora deixando-o quase morto.
31Por acaso, um sacerdote
estava descendo por aquele caminho.
Quando viu o homem, seguiu adiante, pelo outro lado.
32O mesmo aconteceu com um levita:
chegou ao lugar, viu o homem
e seguiu adiante, pelo outro lado.
33Mas um samaritano que estava viajando,
chegou perto dele, viu e sentiu compaixão.
34Aproximou-se dele e fez curativos,
derramando óleo e vinho nas feridas.
Depois colocou o homem em seu próprio animal
e levou-o a uma pensão, onde cuidou dele.
35No dia seguinte, pegou duas moedas de prata
e entregou-as ao dono da pensão, recomendando:
'Toma conta dele!
Quando eu voltar,
vou pagar o que tiveres gasto a mais.'
E Jesus perguntou:
36'Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem
que caiu nas mãos dos assaltantes?'
37Ele respondeu:
'Aquele que usou de misericórdia para com ele.'
Então Jesus lhe disse: 'Vai e faze a mesma coisa.'
Palavra da Salvação.
REFLEXÃO
“E quem é o meu
próximo”
O texto do evangelho deste domingo é próprio a Lucas e pode
ser dividido em dois episódios: a) questão sobre a vida eterna (vv. 25-28); b)
questão sobre o próximo e como proceder em caso de conflito entre dois
mandamentos da Lei (vv. 29-37).
Os dois estão estreitamente relacionados pela observação do
narrador: “… e, querendo experimentar Jesus…” e a pergunta do legista: “E quem
é o meu próximo” (v. 29). A perícope tem um tom de controvérsia: “Um doutor da
Lei se levantou e, querendo experimentar Jesus, perguntou...” (v. 25).
A resposta de Jesus com uma pergunta faz com que o doutor da
Lei responda citando os mandamentos fundamentais da Lei mosaica (cf. Dt 6,4-9;
Lv 19,18). A apresentação unitária destes mandamentos é uma leitura da Lei:
“Que está escrito na Lei? Como lês (= interpreta)?” (v. 26). Segundo Lucas,
Jesus encontra nas próprias palavras da Escritura o conselho, o mandamento fundamental
para a vida do cristão: “Faze isso e viverás” (v. 28), isto é, ajudando dessa
maneira poderás herdar a vida eterna. O amor é o caminho para herdar a vida
eterna.
Motivado pela pergunta do legista, Jesus conta a parábola do
“bom samaritano” (vv. 30-37). Tal parábola é uma discussão haláquica (precisa e
legal) acerca do conflito entre a Lei da pureza (Lv 21,1-3; 22,3-7) e o amor ao
próximo (Lv 19,18). Numa situação como a que a parábola nos apresenta, qual dos
dois mandamentos tem precedência sobre o outro? Se a resposta, hoje, é evidente
para nós cristãos, não o era, certamente, para os contemporâneos de Jesus.
Sem podermos nos delongar, estudando cada um dos personagens
da parábola, passemos à resposta: se o ouvinte e/ou leitor julga que o sacerdote,
mesmo obrigado pela Lei da pureza, deveria ter ajudado o moribundo, pois neste
caso o mandamento do amor ao próximo tem precedência sobre a Lei de pureza, a
consequência não é que as leis de pureza são inválidas ou podem ser ignoradas,
mas que a Lei do amor ao próximo é o mandamento-chave que precisa ser escolhido
entre qualquer outro mandamento, em caso de conflito. O amor ao próximo é uma
exigência primordial da Torá. A presença do samaritano na parábola confirma que
a questão é a da correta obediência à Lei de Moisés. O samaritano, não aceito
pelos judeus, conhece a mesma Torá que o judeu, e está obrigado a obedecer
todos os mandamentos. Ajudando o homem quase morto, ele está obedecendo ao
mandamento. Sua compaixão não é uma alternativa ao legalismo; ela é o que o
mandamento do amor ao próximo exige dele.
Ele ilustra o que significa obedecer a este mandamento,
nesta situação concreta. Quem cumpre o mandamento do amor cumpre a Lei
plenamente.
Carlos Alberto Contieri, sj
O AMOR QUE RESGATA Lc
10,25-37
HOMILIA
Esta é uma das parábolas que mais me deixa incomodado.
Porque não há como escapar da prática do bem. “Falar é fácil, fazer é que são
elas,” diz o ditado brasileiro. No início deste mesmo capítulo de Lucas 10
Jesus havia mandado 70 discípulos adiante d’Ele para pregarem e curarem em vários
vilarejos por onde Ele passaria a seguir. Quando voltaram estavam muito
animados com os resultados, especialmente com o fato de que até os demônios
lhes obedeciam. Mas Jesus lhes diz o seguinte: “não vos alegreis porque se vos
submetem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos
nos céus.” E então orou, cheio do júbilo do Espírito Santo: “Graças te dou, ó
Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e
entendidos, e as revelaste aos pequeninos; sim, ó Pai, porque assim foi do teu
agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece quem
é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho
o quiser revelar” (10,20-22).
Na história a seguir, vemos uma pessoa que deveria ser um
especialista na lei de Moisés perguntar a Jesus como ser salvo, apesar de
aparentemente fazer esta pergunta apenas para testar o conhecimento de Jesus.
Veja o paralelo: Jesus diz aos Seus discípulos que eles estão salvos – que seus
nomes estão escritos no céu. E deixa claro que o como ser salvo foi ocultado
dos “entendidos” mas revelado aos “pequeninos.” E ainda, que a única maneira de
conhecer o Pai é através do Filho. Pouco depois de dizer isto aparece o tal
“especialista” e exemplifica o que Jesus tinha acabado de dizer. De acordo com
a pergunta do especialista da lei, um escriba, vemos que ele supõe que a vida
eterna é adquerida através de algo que temos que realizar de nossa parte. Jesus
devolve a pergunta e encoraja a reflexão.
Para melhor entender a parábola, é importante entender que a
estrada ondulante que descia de Jerusalém, que ficava no alto, até Jericó, que
ficava na planície do rio Jordão, tinha fama de ser muito perigosa, porque
verdadeiras “gangues” de ladrões se escondiam atrás das rochas e montes através
do percurso. E é essencial recordar que os judeus não gostavam dos samaritanos,
chegando a considerá-los seus inimigos. E como inimigos, os escribas e fariseus
achavam que eles – assim como pecadores e gentios em geral – não eram
considerados seus “próximos,” a quem deviam fazer o bem. Os sacerdotes eram
descendentes de Aarão, que era descendente de Levi. Eles ofereciam os
sacrificios, acendiam os candelabros, trocavam os pães e queimavam o incenso no
templo em Jerusalém. Os levitas eram descendentes de Levi mas não de Aarão, por
isso não podiam ser sacerdotes.
Um certo especialista da lei se levantou e decidiu testar
Jesus. Ele disse: “Professor, o que tenho que fazer para herdar a vida eterna?”
Jesus lhe devolveu a pergunta: “o que está escrito na lei? Como você entende o
que lê na lei?” – O especialista na lei respondeu: “ame ao Senhor seu Deus de
todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu
entendimento – e ao seu próximo como a si mesmo.” Jesus disse: “boa resposta;
faça isso e você viverá.” Mas o especialista queria se justificar e então
perguntou a Jesus: “E quem é o meu próximo?” Jesus continuou: “Um judeu ia
descendo de Jerusalém a Jericó quando foi atacado por ladrões que roubaram suas
roupas e posses, o espancaram e fugiram, deixando-o por morto. Um sacerdote
desceu pelo mesmo caminho, o viu e passou longe – do outro lado da estrada.
Da mesma forma passou um levita, o viu e também passou
longe. Mas um samaritano que estava viajando chegou perto do homem e vendo-o
ficou profundamente tocado. Aproximou-se dele e passou azeite e vinho e fez um
curativo sobre suas feridas. Daí o colocou sobre seu jumento e foi caminhando
ao lado dele até chegarem numa hospedaria, onde cuidou dele durante a noite. No
dia seguinte deixou uma quantia no valor de dois dias de trabalho com o dono da
hospedaria e disse: ‘cuide dele e se acabar gastando mais do que isso eu te
pagarei quando voltar.’” – “Agora, qual destes três você acha que foi o próximo
do homem que caiu na mão dos ladrões?” O especialista da lei respondeu: “aquele
que teve misericórdia do homem. Jesus lhe disse: “vai e aja da mesma forma.”
Que técnica Jesus usa na parábola para confrontar o preconceito e mostrar até
onde deve ir o nosso amor pelo nosso “próximo” ou “semelhante”? Jesus disse:
“Foi-vos dito: ‘Ama os teus amigos. Despreza os teus inimigos.’ Eu, porém,
digo: Amem os vossos inimigos. Bendigam os que vos maldizem. Façam o bem aos
que vos odeiam. Orem por quem vos persegue! Assim procederão como verdadeiros
filhos do vosso Pai que está no céu. Porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre
os maus como sobre os bons, e manda a chuva cair tanto sobre justos como
injustos” (Mateus 5:43-45).
Em que direção estava indo o sacerdote? Por que isso é
significativo? O que a boa ação, o resgate, do samaritano exigiu dele? O que ou
quanto lhe custou socorrer o necessitado? Qual foi a atitude demonstrada por
cada personagem na parábola? O especialista na lei perguntou “quem é o meu
próximo?” Mas Jesus perguntou para ele, depois de ter contado a parábola: “Qual
destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu na mão dos ladrões?”
Qual a diferença entre uma pergunta e outra?
Pai, dá-me um coração cheio de misericórdia, como o de teu
Filho Jesus, pois só assim terei certeza de estar em comunhão contigo, a
caminho da vida eterna.