quarta-feira, 2 de setembro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Lirturgia Diária - Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 5,33-39 - 04.09.2026

Sexta-feira, 4 de Setembro de 2026
22ª Semana do Tempo Comum, Ano Par (II)


“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a
Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”

Acclamatio ad Evangelium Ioannis VIII, XII

R. Alleluia, alleluia, alleluia.
V. Ego sum lux mundi;
qui sequitur me,
non ambulat in tenebris,
sed habebit lumen vitae.

Aclamação ao Evangelho Jo 8,12

R. Aleluia, aleluia, aleluia.
V. Eu sou a luz do mundo;
quem me segue não caminha nas trevas,
mas terá em si a luz da vida.


Quando a Presença for recolhida aos olhos do mundo, o coração descobrirá que a plenitude permanece viva no mais profundo silêncio, onde o Eterno habita.



Evangelium secundum Lucam V, XXXIII-XXXIX

XXXIII. At illi dixerunt ad eum: Quare discipuli Joannis jejunant frequenter, et obsecrationes faciunt, similiter et pharisaeorum: tui autem edunt et bibunt?

  1. Então lhe disseram: Por que os discípulos de João jejuam frequentemente e fazem orações, como também os discípulos dos fariseus, enquanto os teus comem e bebem?

XXXIV. Quibus ipse ait: Numquid potestis filios sponsi, dum cum illis est sponsus, facere jejunare?

  1. E ele lhes respondeu: Podeis acaso fazer jejuar os filhos do esposo enquanto o esposo está com eles?

XXXV. Venient autem dies, cum ablatus fuerit ab illis sponsus: tunc jejunabunt in illis diebus.

  1. Virão, porém, dias em que o esposo lhes será tirado. Então, naqueles dias, jejuarão.

XXXVI. Dicebat autem et similitudinem ad illos: Quia nemo commissuram a novo vestimento immittit in vestimentum vetus: alioquin et novum rumpit, et veteri non convenit commissura a novo.

  1. E lhes dizia também uma parábola: Ninguém coloca um remendo de veste nova em veste velha, pois, de outro modo, rasga a veste nova, e o remendo novo não se ajusta à veste antiga.

XXXVII. Et nemo mittit vinum novum in utres veteres: alioquin rumpet vinum novum utres, et ipsum effundetur, et utres peribunt.

  1. E ninguém coloca vinho novo em odres velhos, pois o vinho novo romperá os odres, derramar-se-á, e os odres se perderão.

XXXVIII. Sed vinum novum in utres novos mittendum est, et utraque conservantur.

  1. Mas o vinho novo deve ser colocado em odres novos, e assim ambos serão conservados.

XXXIX. Et nemo bibens vetus, statim vult novum: dicit enim: Vetus melius est.

  1. E ninguém que bebeu o vinho antigo deseja imediatamente o novo, pois diz que o antigo é melhor.

Reflexão:

O instante se abre quando o coração deixa de prender-se ao que já foi e acolhe aquilo que nele começa a nascer.
A presença não pertence ao passado nem ao futuro, mas ao ponto interior onde o ser se reúne em sua origem.
O novo não destrói o que possui verdade, mas pede uma interioridade capaz de recebê-lo sem resistência.
Aquilo que permanece preso às formas antigas não reconhece a plenitude quando ela se manifesta diante de si.
O tempo profundo não se mede pela sucessão dos momentos, mas pela intensidade com que o ser habita cada instante.
Quando o coração se recolhe ao essencial, a espera deixa de ser vazio e torna-se silêncio fecundo.
Então o instante revela sua profundidade e o ser encontra, no próprio interior, uma ordem que não passa.
Ali, onde o presente é acolhido inteiramente, a vida se torna receptiva à plenitude que silenciosamente a transforma.

Verbum Domini.

Versículo mais importante:

XXXV. Venient autem dies, cum ablatus fuerit ab illis sponsus: tunc jejunabunt in illis diebus. (Lucas V, 35)

  1. Virão, porém, dias em que o esposo lhes será tirado. Então, naqueles dias, jejuarão. (Lucas 5,35)

HOMILIA

Quando o novo encontra morada no ser

A presença de Cristo não acrescenta apenas algo à existência, mas desperta no interior da pessoa uma forma nova de ser, capaz de acolher a plenitude que nasce da verdade.

O Evangelho segundo Lucas nos coloca diante de uma transformação que não acontece primeiramente nas formas exteriores da vida, mas no interior daquele que escuta. Os discípulos de João e os fariseus perguntam sobre o jejum, porque reconhecem uma prática religiosa e procuram compreender por que os discípulos de Jesus não seguem a mesma medida. Cristo, porém, conduz a pergunta para uma profundidade maior. Ele não responde apenas sobre uma prática. Ele revela que a chegada de sua presença inaugura uma realidade que exige do ser humano uma nova disposição interior.

O esposo está presente, e sua presença modifica o sentido daquele instante. O tempo deixa de ser apenas sucessão. O instante torna-se lugar de encontro. Aquilo que acontece no interior da pessoa já não pode ser compreendido somente pelo que veio antes, porque uma realidade nova se fez presente. O ser humano é alcançado por algo que não nasce de sua própria iniciativa e, ao mesmo tempo, exige dele uma resposta interior.

Cristo apresenta então a imagem do vinho novo e dos odres novos. O vinho novo não pode ser recebido por uma estrutura incapaz de acolhê-lo. Existe uma correspondência profunda entre aquilo que é recebido e a disposição daquele que recebe. A novidade da Palavra pede uma interioridade amadurecida. Não basta conhecer o ensinamento. É necessário tornar-se capaz de recebê-lo em profundidade, permitindo que a verdade recebida alcance a própria existência.

Esse movimento revela uma lei espiritual do amadurecimento. A pessoa não se transforma apenas porque ouviu uma verdade, mas quando essa verdade penetra sua interioridade e começa a ordenar seu modo de existir. O conhecimento exterior pode informar a inteligência, mas somente a verdade acolhida no íntimo pode conduzir o ser à sua realização. A Palavra de Cristo não deseja permanecer diante de nós como algo que observamos. Ela procura alcançar o centro de nossa existência.

Por isso, a maturação espiritual exige responsabilidade. Cada pessoa responde interiormente ao que recebeu. Ninguém pode realizar por outro aquilo que somente o próprio ser pode acolher. A ação de Deus permanece primeira, mas sua presença solicita uma correspondência humana. O coração precisa tornar-se atento, a inteligência precisa abrir-se à verdade e a vontade precisa ordenar-se ao bem que reconheceu. Assim, a transformação deixa de ser uma ideia e começa a tornar-se realidade vivida.

Essa responsabilidade possui também uma dimensão profundamente humana. A pessoa não é uma realidade isolada de sua origem. Sua existência recebe sentido a partir de uma fonte que a precede e encontra plenitude quando retorna conscientemente à verdade de seu próprio ser. Também a família encontra aqui uma profundidade espiritual. Antes de ser uma realidade exterior, ela é espaço de formação interior, onde pessoas aprendem a receber, transmitir, cuidar e amadurecer umas diante das outras.

A presença de Cristo introduz nessa realidade uma profundidade ainda maior. Ele não apenas ensina aquilo que devemos fazer. Sua presença revela aquilo que somos chamados a nos tornar. Diante dele, a existência começa a ser compreendida a partir de sua origem e orientada para sua plenitude. O instante vivido recebe uma profundidade que não se encerra nele mesmo, porque nele pode acontecer uma transformação que alcança toda a existência.

O vinho novo permanece novo porque a vida que o recebe também se renova. O que Cristo oferece não é simplesmente uma novidade exterior, mas uma vida que exige um coração capaz de acolher sua realidade. O novo odre representa a interioridade que amadurece, não pela rejeição do que possui valor, mas pela capacidade de receber uma verdade mais profunda e deixar que ela reorganize o ser.

Existe, portanto, um momento em que a pessoa percebe que não basta permanecer diante da verdade. É necessário deixar-se formar por ela. O encontro com Cristo torna-se então um acontecimento interior, no qual aquilo que se conhecia exteriormente começa a adquirir existência dentro de nós. A Palavra passa da escuta para a consciência, da consciência para a decisão e da decisão para a própria maneira de existir.

O Evangelho nos conduz assim para o lugar mais profundo do presente. Cristo está diante do ser humano e sua presença pede uma resposta que somente pode acontecer no interior. Ali, o instante deixa de ser apenas passagem e torna-se acolhimento. A existência reencontra sua origem, reconhece seu sentido e começa a caminhar para sua plenitude.

Quando o coração se torna capaz de receber aquilo que Deus oferece, o novo já não aparece como ameaça, mas como realização. E então compreendemos que a verdadeira maturidade espiritual não consiste apenas em conservar aquilo que recebemos, mas em permitir que a presença de Cristo nos conduza à forma plena de nosso ser.


TEOLOGIA

Explicação Teológica

O esposo presente

«Venient autem dies, cum ablatus fuerit ab illis sponsus, tunc jejunabunt in illis diebus.» (Lucas 5,35)

«Virão, porém, dias em que o esposo lhes será tirado. Então, naqueles dias, jejuarão.» (Lucas 5,35)

A presença de Cristo como centro da existência

A imagem do esposo ocupa o centro da resposta de Jesus. Ele não apresenta sua presença como um elemento secundário dentro da experiência religiosa, mas como aquilo que determina o próprio sentido do momento vivido. Enquanto o esposo está presente, os filhos do esposo participam de uma realidade marcada pela comunhão. A proximidade de Cristo transforma o significado do instante porque, nele, Deus não é apenas objeto de conhecimento, mas presença que se comunica e chama a pessoa à comunhão.

A linguagem nupcial possui profunda densidade teológica. O esposo é aquele cuja presença reúne, sustenta e conduz à plenitude. Em Cristo, essa imagem alcança sua realização porque nele a iniciativa divina se aproxima da humanidade de maneira pessoal. O encontro com Cristo não permanece exterior à pessoa. A presença daquele que vem de Deus alcança o interior humano e inaugura uma relação na qual a fé deixa de ser somente conhecimento sobre Deus e se torna acolhimento de Deus.

A novidade da graça

Quando Jesus fala do vinho novo e dos odres novos, revela que a graça não pode ser reduzida a uma simples adição à existência anterior. A graça é participação na vida que Deus comunica. Ela transforma o interior daquele que a recebe e pede uma disposição correspondente. O coração humano precisa tornar-se capaz de acolher aquilo que Deus realiza.

O odre novo representa, nesse sentido, a interioridade renovada pela ação divina. Não se trata de uma renovação produzida apenas pelo esforço humano. A iniciativa pertence à graça. Entretanto, a graça não elimina a resposta da pessoa. Deus chama, ilumina e sustenta, enquanto o ser humano acolhe, consente e permite que aquilo que recebeu alcance sua maneira concreta de existir.

A conversão cristã possui justamente essa profundidade. Ela não consiste apenas em modificar determinadas práticas, mas em permitir que Cristo alcance a raiz da pessoa. A verdade recebida exteriormente precisa tornar-se verdade interiormente acolhida. A fé amadurece quando aquilo que foi escutado começa a formar a consciência, orientar as escolhas e ordenar a existência segundo Deus.

O jejum e a ausência do esposo

O jejum anunciado por Cristo possui também um sentido espiritual mais profundo. Ele nasce da ausência do esposo e, por isso, não é apresentado como finalidade em si mesmo. O jejum manifesta a condição daquele que reconhece que sua plenitude não está em si próprio e permanece orientado para aquele que é seu verdadeiro bem.

Quando o esposo é retirado, surge uma experiência de interioridade. A ausência exterior pode revelar uma presença mais profunda, percebida pela fé. O coração aprende então a não confundir aquilo que vê com aquilo que é verdadeiro. A comunhão com Cristo ultrapassa a percepção imediata e alcança uma dimensão interior na qual a pessoa permanece voltada para Deus.

Assim, o jejum cristão não é simples privação. É uma disposição do ser que reconhece sua origem e sua necessidade de Deus. O desejo é purificado para que aquilo que é passageiro não ocupe o lugar daquele que permanece. O coração aprende a distinguir entre aquilo que satisfaz momentaneamente e aquilo que conduz à plenitude.

A pessoa diante da verdade

A passagem também revela uma verdade essencial sobre a pessoa humana. O ser humano não recebe a Palavra de maneira neutra. Aquilo que Deus comunica solicita uma transformação interior. A verdade recebida coloca a pessoa diante de uma decisão que ninguém pode realizar em seu lugar.

Essa dimensão não diminui a ação da graça. Ao contrário, manifesta sua profundidade. Deus não trata a pessoa como realidade passiva, mas chama sua inteligência, sua vontade e sua interioridade a uma resposta. A dignidade humana aparece justamente nessa capacidade de acolher a ação divina e corresponder a ela.

A fé, portanto, não é mera adesão intelectual. Ela envolve o ser inteiro. Crer significa permitir que a verdade de Cristo alcance a existência, penetrando progressivamente aquilo que a pessoa pensa, deseja e realiza. Quanto mais profundamente a verdade é acolhida, mais a existência encontra unidade.

A família como espaço de comunhão

A imagem do esposo possui ainda uma ressonância particularmente significativa para a compreensão cristã da família. A união matrimonial não é apresentada simplesmente como organização exterior da convivência humana. Ela possui uma dimensão de comunhão, entrega e formação recíproca, na qual cada pessoa é chamada a reconhecer no outro uma realidade que não deve ser reduzida aos próprios interesses.

A família torna-se, assim, um espaço privilegiado de amadurecimento da pessoa. Nela, a existência aprende a receber e a oferecer, a permanecer fiel, a cuidar e a reconhecer que a vida encontra sua plenitude quando ultrapassa o fechamento em si mesma. Essa dimensão somente alcança sua profundidade plena quando permanece aberta à origem divina da própria dignidade humana.

Cristo, ao revelar a presença do esposo, ilumina também o sentido da comunhão. O amor humano encontra sua verdade mais profunda quando participa de uma ordem que o transcende. A família não é a origem absoluta de si mesma. Ela recebe sua dignidade de uma realidade anterior e superior, e encontra sua plenitude quando permanece orientada para Deus.

O instante acolhido pela eternidade

A passagem de Lucas conduz finalmente a uma compreensão profunda do instante. O momento presente não possui seu sentido apenas naquilo que imediatamente acontece nele. Quando Cristo se faz presente, o instante humano é alcançado por uma realidade que o transcende. O presente torna-se lugar de encontro entre aquilo que passa e aquilo que permanece.

A presença de Cristo introduz na existência uma profundidade que não pode ser medida pela sucessão exterior dos acontecimentos. O ser humano pode viver muitos momentos sem verdadeiramente habitar nenhum deles. Entretanto, quando a presença divina é acolhida interiormente, o instante adquire densidade. Nele, a pessoa pode reencontrar sua origem, reconhecer a verdade de seu ser e orientar-se para sua plenitude.

É nesse ponto que a Palavra deixa de ser apenas algo escutado e torna-se acontecimento interior. Cristo não permanece somente diante da pessoa. Ele alcança o centro de sua existência e a chama a uma transformação que se realiza progressivamente. A graça recebida no presente possui uma profundidade que ultrapassa o próprio momento, porque conduz o ser para aquilo que ele é chamado a tornar-se em Deus.

A plenitude da novidade

O ensinamento sobre o vinho novo e os odres novos revela, portanto, que a novidade trazida por Cristo não consiste simplesmente em uma mudança exterior de costumes. Trata-se da ação de Deus que renova a pessoa desde dentro e a conduz à maturidade de seu ser.

O novo não significa ruptura arbitrária com tudo aquilo que existia anteriormente. Significa que a presença de Cristo conduz a existência para uma compreensão mais profunda de sua origem e de sua finalidade. O que precisa ser renovado é a capacidade interior de receber a graça e permitir que ela produza seus frutos.

A vida cristã alcança sua maturidade quando a pessoa já não permanece somente diante da verdade, mas passa a viver a partir dela. Nesse movimento, a Palavra recebida transforma-se em vida, a fé transforma-se em comunhão e o instante transforma-se em lugar de encontro com Deus.

O Evangelho nos conduz, assim, ao mistério de uma presença que transforma sem violentar, chama sem substituir a resposta humana e conduz sem retirar da pessoa sua responsabilidade. Cristo permanece como o esposo cuja presença revela a origem e a plenitude da existência. Aquele que o acolhe interiormente começa a descobrir que a verdadeira novidade não está simplesmente diante de si, mas nasce no próprio ser quando a graça encontra uma interioridade preparada para recebê-la.


FILOSOFIA

A profundidade escondida na novidade

[Lucas 5,33-39]

O Evangelho de Lucas 5,33-39 apresenta uma realidade que ultrapassa a questão exterior do jejum. Quando Cristo fala do esposo, do vinho novo e dos odres novos, sua palavra toca a própria estrutura pela qual uma realidade nasce, amadurece e chega à manifestação. O que está em jogo não é somente uma mudança de comportamento, mas a passagem de uma forma de existência para outra, determinada por uma presença que transforma desde dentro.

A origem que permanece no que nasce

O vinho novo introduz uma imagem de geração. Antes de aparecer como realidade manifesta, existe uma potência que amadurece em silêncio. O novo não surge simplesmente porque substitui o antigo. Ele surge porque algo alcançou uma maturidade que já não pode permanecer contida na forma anterior.

Essa dinâmica revela uma relação profunda entre origem e manifestação. Aquilo que nasce não possui em si mesmo a razão completa de seu nascimento. Existe uma realidade anterior que o sustenta, uma fonte da qual recebe consistência e uma finalidade para a qual tende. O ser manifesta aquilo que, em sua profundidade, já estava sendo gerado.

O ensinamento de Cristo revela justamente essa passagem. O vinho novo é realidade que procede de uma origem e traz consigo uma exigência de acolhimento. Os odres novos representam a condição interior necessária para que aquilo que nasce possa conservar sua integridade. A manifestação exige uma receptividade correspondente àquilo que se manifesta.

O silêncio que amadurece

Existe uma dimensão da realidade que não aparece imediatamente. O que se manifesta exteriormente possui uma história interior que não pode ser vista enquanto acontece. A maturação antecede a manifestação, e essa anterioridade não significa simples distância temporal. Significa profundidade.

O silêncio participa desse processo porque nele aquilo que ainda não apareceu pode adquirir forma sem ser imediatamente exposto. O silêncio não é ausência de realidade. Ele é uma condição na qual a realidade pode amadurecer antes de alcançar sua expressão.

Essa dimensão aparece na passagem quando Cristo distingue entre o vinho novo e os recipientes antigos. A novidade possui uma força própria. Ela não pode ser simplesmente introduzida em uma estrutura que já não corresponde àquilo que está sendo gerado. Existe uma exigência ontológica de correspondência entre o conteúdo e a forma que o recebe.

O amadurecimento interior segue essa mesma ordem. Antes que uma transformação se torne visível, alguma coisa precisa acontecer no centro do ser. A exterioridade somente revela aquilo que alcançou uma determinada maturidade interior.

A presença que transforma o instante

Quando Cristo se apresenta como o esposo, o próprio significado do instante é transformado. Sua presença não ocupa apenas um momento dentro da sucessão dos acontecimentos. Ela introduz no presente uma realidade cuja origem não está limitada ao presente.

O instante, então, deixa de ser compreendido apenas como uma unidade cronológica. Ele pode tornar-se lugar de manifestação de algo que o ultrapassa. Aquilo que é eterno não precisa abandonar o tempo para tocar aquilo que existe no tempo. Pode alcançar o instante precisamente no interior daquilo que nele acontece.

Essa é uma das profundidades presentes na palavra de Cristo. Enquanto o esposo está presente, o sentido daquele momento é determinado pela presença. Quando o esposo é retirado, nasce outra condição, marcada pelo jejum e pela espera interior. Em ambas as situações, o instante permanece ligado a uma realidade que o transcende.

O tempo, desse modo, não é apenas sucessão. Ele também pode tornar-se profundidade. Há momentos cuja duração exterior é breve, mas cuja realidade interior permanece atuante muito além deles. O que confere densidade ao instante não é sua extensão cronológica, mas aquilo que nele se torna presente.

O ser que se torna receptivo

O ensinamento sobre os odres novos conduz ainda à interioridade. A realidade que chega necessita de uma condição capaz de recebê-la. O recipiente não produz o vinho, mas precisa estar preparado para conservá-lo.

Assim também acontece com o ser humano diante daquilo que o transcende. A origem não é produzida pela criatura. Ela é recebida. A presença não é fabricada pelo interior humano. Ela é acolhida. A maturação consiste, em grande parte, nessa transformação da capacidade de receber.

Por isso, a passagem não descreve apenas uma novidade exterior. Ela revela uma transformação da própria estrutura interior daquele que acolhe. O ser torna-se diferente porque passa a conter uma realidade que modifica sua relação consigo mesmo, com sua origem e com seu destino.

O novo recipiente não representa simplesmente uma forma diferente. Representa uma capacidade renovada de acolhimento. Aquilo que antes não podia ser recebido passa a encontrar espaço. O ser amadurece quando sua interioridade se torna suficientemente profunda para sustentar aquilo que lhe é comunicado.

Entre origem e manifestação

Existe uma continuidade silenciosa entre aquilo que uma realidade é em sua origem e aquilo que posteriormente manifesta. A manifestação não cria sua própria origem. Ela torna visível uma realidade que já possuía consistência antes de aparecer.

Essa relação permite compreender de maneira mais profunda o movimento apresentado por Cristo. O vinho novo não é definido somente por sua novidade exterior. Sua novidade provém de uma realidade que alcançou uma condição diferente. O odre também precisa participar dessa mudança, porque aquilo que chega exige uma forma capaz de recebê-lo.

A existência humana encontra aqui uma questão fundamental. O que aparece em nossa vida nem sempre revela imediatamente aquilo que está acontecendo em sua profundidade. Há processos interiores que antecedem toda manifestação. Há verdades que primeiro são acolhidas em silêncio antes de adquirirem forma na existência.

A maturação, portanto, não deve ser confundida com mera passagem do tempo. O tempo pode passar sem que algo amadureça. A maturação acontece quando uma realidade alcança maior integração com sua origem e se aproxima da forma plena para a qual tende.

A plenitude que se anuncia no presente

Na passagem de Lucas 5,33-39, Cristo revela que a novidade possui uma direção. O vinho novo não existe simplesmente para permanecer novo. Ele busca uma forma capaz de conservá-lo. Do mesmo modo, aquilo que é gerado tende à manifestação e aquilo que se manifesta tende à plenitude.

A plenitude não aparece apenas no fim de um processo. Ela pode estar presente como princípio orientador desde o início. Aquilo que ainda está amadurecendo pode já possuir em sua origem a direção de sua realização. O fim atua silenciosamente sobre o caminho, enquanto o ser ainda permanece em processo de formação.

Nesse sentido, o instante possui uma profundidade que não coincide com sua duração. Ele contém uma relação entre origem e realização. O presente pode carregar aquilo que veio antes e, ao mesmo tempo, abrir-se para aquilo que ainda não se manifestou plenamente.

Cristo aparece nesse movimento como aquele em quem a origem e a realização se encontram de modo singular. Sua presença não apenas informa o instante. Ela revela seu sentido mais profundo. O presente torna-se lugar de encontro com aquilo que sustenta o ser e o conduz à sua consumação.

A realidade que encontra sua forma

O vinho novo e os odres novos revelam uma ordem profunda da existência. Toda realidade que alcança determinada maturidade procura uma forma correspondente àquilo que se tornou. A forma antiga não é necessariamente falsa. Ela simplesmente pode não possuir mais a capacidade de acolher aquilo que agora se manifesta.

Essa distinção é importante. A novidade não significa rejeição indiscriminada do que veio antes. Significa reconhecer que a realidade pode alcançar uma profundidade que exige uma forma nova de expressão. A transformação verdadeira conserva a verdade enquanto ultrapassa aquilo que já não consegue contê-la.

Na vida espiritual, isso significa que a pessoa é chamada a uma renovação interior contínua. A verdade recebida não permanece imóvel. À medida que penetra o ser, modifica sua compreensão, sua percepção e sua maneira de existir. O que antes era apenas conhecimento pode tornar-se experiência interior. O que era exterior pode tornar-se princípio de vida.

Assim, a Palavra de Cristo não permanece na superfície da existência. Ela penetra a interioridade, alcança a origem e conduz o ser para sua realização. O instante torna-se lugar dessa passagem silenciosa, onde aquilo que foi recebido começa a gerar uma forma nova de existência.

O Evangelho revela, finalmente, que toda verdadeira novidade possui uma profundidade anterior à sua manifestação. O que nasce carrega uma origem, o que amadurece permanece ligado àquilo que o sustenta e o que se manifesta tende à plenitude. Na presença de Cristo, o instante recebe essa profundidade e torna-se lugar de uma geração interior que ultrapassa a simples sucessão dos momentos.

O vinho novo permanece como sinal de uma realidade que chega de sua origem e procura no ser humano uma forma capaz de acolhê-la. Quando essa interioridade se abre ao que lhe é comunicado, aquilo que parecia apenas um instante revela uma profundidade maior. A presença recebida começa então a transformar o ser desde dentro, conduzindo-o silenciosamente da origem à manifestação e da manifestação à plenitude.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

Leia também:

Primeira Leitura

Segunda Leitura

Salmo

Evangelho

Santo do dia

Oração Diária

Mensagens de Fé

#LiturgiaDaPalavra

#EvangelhoDoDia

#ReflexãoDoEvangelho

#IgrejaCatólica

#Homilia

#Orações

#Santo do dia

Nenhum comentário:

Postar um comentário