sexta-feira, 11 de setembro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Liturgia Diária - Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 18,21-35 - 13.09.2026

Domingo, 13 de Setembro de 2026
24º Domingo do Tempo Comum, Ano A
Hoje, omite-se a Memória de São João Crisóstomo, bispo e doutor da Igreja


“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Acclamatio ad Evangelium cf. Io XIII, 34

R. Alleluia, alleluia, alleluia.
V. Mandatum novum do vobis,
  novum ordinem, nunc, do vobis;
  ut et vos diligatis invicem
  sicut dilexi vos, dicit Dominus.

Aclamação ao Evangelho cf. Jo 13,34

R. Aleluia, Aleluia, Aleluia.
V. Eu vos dou este novo Mandamento,
  nova ordem, agora, vos dou;
  que, também, vos ameis uns aos outros
  como eu vos amei, diz o Senhor.


Senhor, fazei do nosso coração morada da vossa presença, para que, em cada instante, o amor recebido de Vós encontre em nós sua plena realização.



Evangelium secundum Matthaeum XVIII,
XXI-XXXV

XXI. Tunc accedens Petrus ad eum, dixit: Domine, quoties peccabit in me frater meus, et dimittam ei? usque septies?

  1. Então, Pedro aproximou-se dele e disse. Senhor, quantas vezes meu irmão pecará contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete vezes?

XXII. Dicit illi Jesus: Non dico tibi usque septies: sed usque septuagies septies.

  1. Jesus lhe disse. Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.

XXIII. Ideo assimilatum est regnum cælorum homini regi, qui voluit rationem ponere cum servis suis.

  1. Por isso, o Reino dos Céus é semelhante a um rei que quis ajustar contas com seus servos.

XXIV. Et cum cœpisset rationem ponere, oblatus est ei unus, qui debebat ei decem millia talenta.

  1. Quando começou a ajustar as contas, foi-lhe apresentado um homem que lhe devia dez mil talentos.

XXV. Cum autem non haberet unde redderet, jussit eum dominus ejus venundari, et uxorem ejus, et filios, et omnia quæ habebat, et reddi.

  1. Como ele não tinha com que pagar, seu senhor ordenou que fosse vendido, juntamente com sua mulher, seus filhos e tudo o que possuía, para que a dívida fosse paga.

XXVI. Procidens autem servus ille, orabat eum, dicens: Patientiam habe in me, et omnia reddam tibi.

  1. Então, o servo, prostrando-se diante dele, suplicava, dizendo. Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo.

XXVII. Misertus autem dominus servi illius, dimisit eum, et debitum dimisit ei.

  1. Movido de compaixão, o senhor daquele servo deixou-o partir e perdoou-lhe a dívida.

XXVIII. Egressus autem servus ille invenit unum de conservis suis, qui debebat ei centum denarios: et tenens suffocavit eum, dicens: Redde quod debes.

  1. Ao sair, aquele servo encontrou um de seus companheiros que lhe devia cem denários. Então, agarrando-o, sufocava-o, dizendo. Paga o que me deves.

XXIX. Et procidens conservus ejus, rogabat eum, dicens: Patientiam habe in me, et omnia reddam tibi.

  1. Seu companheiro, prostrando-se, suplicava, dizendo. Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo.

XXX. Ille autem noluit: sed abiit, et misit eum in carcerem donec redderet debitum.

  1. Mas ele não quis. Foi embora e mandou prendê-lo até que pagasse a dívida.

XXXI. Videntes autem conservi ejus quæ fiebant, contristati sunt valde: et venerunt, et narraverunt domino suo omnia quæ facta fuerant.

  1. Vendo o que acontecia, seus companheiros ficaram profundamente entristecidos e foram contar ao seu senhor tudo o que havia acontecido.

XXXII. Tunc vocavit illum dominus suus: et ait illi: Serve nequam, omne debitum dimisi tibi quoniam rogasti me:

  1. Então, o seu senhor mandou chamá-lo e lhe disse. Servo mau, eu te perdoei toda aquela dívida porque me suplicaste.

XXXIII. nonne ergo oportuit et te misereri conservi tui, sicut et ego tui misertus sum?

  1. Não devias também tu ter compaixão do teu companheiro, assim como eu tive compaixão de ti?

XXXIV. Et iratus dominus ejus tradidit eum tortoribus, quoadusque redderet universum debitum.

  1. E, indignado, o seu senhor entregou-o aos que o fariam sofrer, até que pagasse toda a dívida.

XXXV. Sic et Pater meus cælestis faciet vobis, si non remiseritis unusquisque fratri suo de cordibus vestris.

  1. Assim também fará convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar de coração ao seu irmão.

Verbum Domini


Versículo mais importante:

XXXIII. nonne ergo oportuit et te misereri conservi tui, sicut et ego tui misertus sum?

  1. Não devias também tu ter compaixão do teu companheiro, assim como eu tive compaixão de ti? (Mateus 18,33) 


HOMILIA

O perdão que transforma o ser

O coração amadurece quando reconhece que a compaixão recebida não termina em si mesma, mas encontra sua plenitude quando se torna presença no modo de existir.

  O Evangelho segundo Mateus nos conduz ao interior de uma verdade que não se limita à medida do perdão, mas alcança a própria compreensão que o ser humano possui de si diante de Deus. Pedro pergunta quantas vezes deverá perdoar, como se fosse possível determinar uma medida suficiente para uma realidade que, em sua origem, não nasce da contagem, mas da transformação interior. A resposta de Cristo desloca a pergunta. O centro já não está em saber até onde deve ir o perdão, mas em compreender que aquele que recebeu misericórdia é chamado a deixar que essa misericórdia transforme sua própria maneira de existir.

  A parábola torna visível essa verdade por meio de um homem cuja dívida ultrapassa qualquer possibilidade de reparação. Diante dele encontra-se uma dívida que não pode ser simplesmente equilibrada por seus próprios recursos. Quando o senhor perdoa, não está apenas retirando uma obrigação. Está devolvendo ao servo a possibilidade de permanecer diante da própria existência sem ser definido por aquilo que devia. O perdão recebido toca, portanto, uma dimensão mais profunda do ser. Ele restitui interiormente aquilo que havia sido obscurecido pela dívida.

  O drama começa quando aquele que recebeu tamanha misericórdia encontra seu companheiro e passa a agir como se nada tivesse recebido. A contradição não está apenas no gesto exterior. Ela revela uma ruptura interior entre aquilo que foi acolhido e aquilo que passou a orientar a existência. O homem recebeu uma medida que não poderia produzir por si mesmo, mas não permitiu que essa medida penetrasse em seu interior. Sua existência permaneceu fechada àquilo que havia recebido.

  A Palavra de Cristo revela, assim, que o verdadeiro conhecimento não se completa quando compreendemos alguma coisa exteriormente. Uma verdade recebida precisa alcançar o centro da pessoa para tornar-se princípio de sua existência. O Evangelho não pretende apenas informar que devemos perdoar. Ele nos conduz a perceber que a misericórdia recebida de Deus exige uma transformação na maneira como permanecemos diante do outro, diante de nós mesmos e diante da própria vida.

  O instante em que recebemos o perdão possui uma profundidade que ultrapassa sua aparência imediata. Nele, aquilo que fomos e aquilo que podemos nos tornar encontram-se diante de Deus. O presente deixa de ser apenas uma passagem entre momentos e torna-se interiormente fecundo, porque nele a pessoa pode acolher uma verdade capaz de reordenar sua existência. A presença de Deus não elimina a história. Ela penetra a história e lhe confere uma profundidade nova.

  Por isso, o amadurecimento espiritual não consiste simplesmente em acumular conhecimentos sobre Deus. Consiste em permitir que aquilo que se conhece de Deus alcance progressivamente o modo de ser. A pessoa amadurece quando aquilo que reconhece como verdadeiro começa a orientar suas decisões, seus afetos, suas palavras e suas relações. A verdade deixa então de permanecer diante dela como algo contemplado exteriormente e passa a constituir sua interioridade.

  Essa transformação envolve responsabilidade pessoal. Ninguém pode receber a verdade em lugar de outro, nem permitir que outro realize em seu interior aquilo que lhe cabe acolher. Existe, no centro da pessoa, uma resposta que somente ela pode oferecer. A graça recebida não suprime essa responsabilidade. Ao contrário, desperta-a. Quanto maior a consciência do dom recebido, mais profunda se torna a exigência de corresponder a ele com a própria existência.

  Também a família pode ser compreendida à luz dessa realidade interior. Ela não é somente uma estrutura de vínculos, mas um espaço humano no qual cada pessoa aprende, de maneira concreta, que sua existência não se sustenta isoladamente. O perdão, a paciência e a compaixão podem transformar o modo como cada membro permanece diante dos demais. Quando a interioridade amadurece, a presença do outro deixa de ser percebida apenas segundo aquilo que exige e passa a ser acolhida segundo a dignidade que possui.

  A dignidade humana encontra aqui uma profundidade que não depende da perfeição alcançada. A pessoa permanece chamada à plenitude justamente porque ainda está em processo de transformação. Deus não contempla apenas aquilo que o ser humano já realizou. Sua presença alcança também aquilo que pode nascer no interior da pessoa quando ela acolhe verdadeiramente o dom recebido.

  O perdão cristão não significa negar a gravidade daquilo que aconteceu. Significa não permitir que o acontecimento passado determine sozinho o horizonte interior da existência. Quando o coração perdoa, ele não declara que o mal foi bem. Ele reconhece que nenhuma ferida possui autoridade absoluta sobre aquilo que a pessoa pode tornar-se diante de Deus. O passado permanece verdadeiro, mas deixa de possuir a última palavra.

  A pergunta de Pedro encontra então sua resposta mais profunda. Não se trata de alcançar uma quantidade suficientemente grande de atos de perdão. Trata-se de entrar numa disposição interior na qual a misericórdia recebida passa a orientar a própria existência. Setenta vezes sete não constitui simplesmente uma multiplicação. É a ruptura da lógica da contagem quando a pessoa compreende que aquilo que recebeu de Deus não pode ser reduzido a uma medida.

  Cristo conduz o ser humano para além da aparência imediata das coisas. Ele mostra que cada instante pode tornar-se ocasião de uma decisão interior na qual a pessoa reencontra sua origem e reorienta seu caminho. A existência amadurece quando o coração deixa de viver apenas segundo aquilo que aconteceu e começa a responder àquilo que recebeu como verdade.

  No fundo da parábola permanece uma revelação sobre a própria relação entre Deus e o ser humano. A misericórdia recebida não é um acontecimento isolado que termina no momento em que a dívida é perdoada. Ela inaugura uma nova maneira de permanecer no ser. O dom recebido pede uma resposta que não nasce do medo, mas do reconhecimento. E esse reconhecimento alcança sua plenitude quando a pessoa permite que a compaixão recebida se torne parte de sua própria presença.

  Assim, o Evangelho nos conduz ao interior do instante para mostrar que a transformação não pertence somente ao futuro. Ela pode começar agora, no centro silencioso da pessoa, quando a verdade recebida deixa de ser apenas conhecida e passa a ser vivida. Cada momento pode acolher essa passagem. Cada decisão pode aprofundar aquilo que somos. Cada gesto de perdão pode revelar que a existência humana encontra sua plenitude quando permanece aberta àquele de quem recebeu sua origem e para quem continuamente se orienta.

  Que a Palavra de Cristo permaneça em nós não apenas como ensinamento compreendido, mas como verdade que transforma o ser. Que a misericórdia recebida encontre em nosso interior uma resposta verdadeira. E que, diante de Deus, cada instante de nossa existência se torne lugar de amadurecimento, reconciliação e plenitude.


TEOLOGIA

A misericórdia recebida e a transformação da pessoa

  A passagem de Mateus 18,21-35 encontra seu centro teológico na pergunta de Pedro sobre a medida do perdão e na resposta de Cristo que ultrapassa qualquer cálculo. O ensinamento alcança sua expressão mais profunda na palavra dirigida ao servo que havia recebido misericórdia e, depois, recusara-se a concedê-la ao seu companheiro. Jesus pergunta se ele não deveria ter tido compaixão do outro assim como seu senhor tivera compaixão dele. A questão não diz respeito apenas a uma obrigação moral. Ela revela a relação entre a graça recebida e a transformação da pessoa diante de Deus.

  O versículo que concentra essa revelação afirma que a misericórdia recebida possui uma consequência interior inevitável. Aquele que foi alcançado pela compaixão divina é chamado a tornar-se participante dela em sua própria existência. A graça não permanece exterior à pessoa. Quando verdadeiramente acolhida, ela transforma a compreensão que o ser humano possui de sua própria condição e modifica sua maneira de permanecer diante de Deus e dos outros.

A graça como iniciativa de Deus

  Na parábola, o primeiro movimento pertence ao senhor. O servo encontra-se diante de uma dívida que não consegue quitar, e sua situação somente se transforma porque recebe uma misericórdia que não poderia produzir por seus próprios meios. Essa estrutura é essencial para a compreensão cristã da graça. A salvação não nasce da capacidade humana de alcançar Deus por si mesma. Ela procede da iniciativa divina que antecede a resposta da pessoa.

  A misericórdia manifesta, portanto, algo sobre o próprio Deus. Deus não é apresentado apenas como aquele que estabelece uma medida para julgar o ser humano, mas como aquele que pode ultrapassar a medida da dívida e restaurar a pessoa em sua relação com Ele. A compaixão divina não significa indiferença diante da verdade. O pecado continua sendo reconhecido como realidade que rompe a ordem do bem. Contudo, a última palavra de Deus sobre a pessoa não é determinada pela sua dívida, mas pela possibilidade de sua restauração.

  A graça alcança a pessoa em sua verdade e, precisamente por isso, pode transformá-la. Ela não exige que o ser humano se apresente diante de Deus como alguém que já alcançou a plenitude. A graça encontra a pessoa em sua condição concreta e abre diante dela um caminho de conversão. O dom recebido torna-se princípio de uma existência renovada.

Cristo e a revelação da misericórdia

  A resposta de Cristo a Pedro não pode ser compreendida separadamente da própria missão de Jesus. Ele não apenas ensina a misericórdia. Sua presença manifesta a misericórdia de Deus e conduz o ser humano ao seu fundamento. Quando Cristo ordena que o perdão ultrapasse toda contagem, Ele revela que a relação com Deus não pode ser reduzida a uma contabilidade de méritos, faltas e compensações.

  A expressão setenta vezes sete possui justamente essa força. Jesus retira o perdão do domínio da aritmética e o reconduz à transformação do coração. O discípulo não é chamado a calcular quantas vezes deve perdoar, como se houvesse um limite depois do qual a misericórdia deixasse de ser necessária. Ele é conduzido a uma disposição interior fundada na própria misericórdia que recebeu.

  Cristo revela, desse modo, que a verdadeira conversão acontece quando a pessoa passa da consciência exterior de uma verdade para sua assimilação interior. Conhecer que Deus perdoa não é o mesmo que permitir que o perdão de Deus transforme a própria existência. A fé alcança sua maturidade quando aquilo que é recebido como verdade começa a configurar interiormente a pessoa.

A pessoa diante de Deus

  A parábola possui também uma profunda dimensão antropológica. O ser humano não é compreendido apenas por aquilo que fez, nem pode ser reduzido à soma de suas dívidas, erros ou limitações. Diante de Deus, a pessoa permanece aberta à transformação. Sua história é verdadeira, mas não encerra toda a possibilidade de seu ser.

  Essa compreensão fundamenta uma dignidade que não depende da perfeição alcançada. A pessoa possui valor diante de Deus porque é chamada a uma relação com Ele e a uma plenitude que ultrapassa aquilo que consegue realizar em determinado momento. A conversão não destrói a pessoa que existia antes. Ela permite que aquilo que estava desordenado seja progressivamente reintegrado na verdade de sua origem.

  A responsabilidade pessoal permanece inseparável dessa dignidade. O servo da parábola recebeu uma graça real, mas sua resposta tornou-se objeto de julgamento porque ele não permitiu que aquilo que recebera transformasse sua relação com o outro. A graça não elimina a responsabilidade. Ela a torna mais profunda, porque aquele que recebeu um dom passa a responder diante de Deus pelo modo como esse dom é acolhido e realizado em sua existência.

A interioridade como lugar da conversão

  A palavra de Cristo alcança o centro da pessoa. O perdão cristão não se reduz a uma fórmula pronunciada exteriormente nem a uma aparência de reconciliação. O Evangelho fala de perdoar de coração porque a conversão precisa alcançar a interioridade. É nela que a pessoa acolhe a verdade, reconhece a graça e decide conformar sua existência àquilo que recebeu.

  A interioridade não significa fechamento em si mesmo. Ela é a profundidade na qual a pessoa se torna capaz de reconhecer sua origem, discernir a verdade e responder diante de Deus. Quando essa dimensão se abre à graça, o instante presente deixa de ser apenas uma passagem e torna-se ocasião de transformação. A pessoa pode receber no presente aquilo que Deus oferece e, a partir dessa presença, orientar novamente sua existência.

  A conversão possui, portanto, uma dimensão temporal profunda. O passado não é apagado, mas pode ser assumido sob uma nova luz. O presente torna-se o momento da resposta. O futuro permanece aberto à plenitude que Deus conduz a existir. A graça reúne essas dimensões sem confundi-las e permite que a pessoa caminhe na unidade de uma existência reconciliada.

A verdade que se torna existência

  O ensinamento de Cristo não pretende somente transmitir uma norma sobre o comportamento. Ele revela uma verdade sobre o ser humano e sua relação com Deus. Quem recebeu misericórdia é chamado a tornar-se capaz de misericórdia porque a graça recebida deseja alcançar toda a existência.

  Essa passagem da verdade conhecida para a verdade vivida é essencial à vida cristã. A Palavra não encontra sua finalidade apenas quando é compreendida intelectualmente. Ela alcança sua fecundidade quando penetra a pessoa e passa a orientar sua maneira de pensar, discernir, escolher e permanecer diante das circunstâncias.

  A fé, nesse sentido, não consiste apenas em afirmar verdades sobre Deus. Ela é acolhimento da verdade divina que transforma progressivamente aquele que crê. A pessoa não permanece diante de Cristo como simples observadora de um ensinamento. Ela é chamada a deixar que a presença de Cristo alcance sua interioridade e conduza sua existência à maturidade.

A família e a comunhão da vida

  A dimensão familiar também pode ser contemplada à luz dessa verdade. A família possui uma importância espiritual porque nela a pessoa experimenta de maneira particularmente profunda a realidade da pertença, da responsabilidade, da paciência e do perdão. Seus vínculos revelam que a existência humana não se realiza na pura autossuficiência, mas na capacidade de acolher e responder à presença do outro.

  O perdão dentro da família possui, por isso, uma dimensão que ultrapassa a resolução imediata de conflitos. Ele pode restaurar a possibilidade de uma relação permanecer aberta à verdade e ao bem. Quando a misericórdia é acolhida interiormente, o vínculo deixa de ser sustentado apenas pela reação às circunstâncias e passa a ser iluminado por uma compreensão mais profunda da pessoa.

  Essa realidade não diminui a responsabilidade diante do mal nem exige a negação da verdade. A misericórdia cristã não chama o ser humano a considerar indiferente aquilo que fere a dignidade. Ela chama a pessoa a não permitir que a desordem recebida determine definitivamente sua própria interioridade. O perdão permanece unido à verdade e encontra nela sua direção.

A presença que conduz à plenitude

  O centro último da passagem está na presença de Deus que alcança a pessoa no interior de sua história. A misericórdia não pertence apenas a um acontecimento passado. Ela permanece como realidade que pode ser acolhida no presente e incorporada à existência. Cada instante diante de Deus pode tornar-se ocasião de uma resposta mais verdadeira.

  A plenitude cristã não consiste em uma realização produzida exclusivamente pelo esforço humano. Ela é dom e cumprimento. A pessoa amadurece ao acolher a graça, responder à verdade e permitir que sua existência seja progressivamente conformada ao bem que recebeu. A transformação interior torna-se, assim, participação na obra de Deus.

  O perdão ocupa um lugar decisivo nesse caminho porque rompe a permanência interior naquilo que já passou e permite que a pessoa se abra novamente àquilo que pode ser realizado. Não se trata de negar a história, mas de permitir que a história seja atravessada pela graça. O instante presente torna-se então o ponto no qual a pessoa pode acolher novamente sua origem e orientar-se para sua plenitude.

  A parábola termina lembrando que a misericórdia recebida exige uma resposta. O Deus que perdoa não deseja apenas retirar uma dívida. Ele deseja restaurar a pessoa em sua verdade e conduzi-la à maturidade do amor. Por isso, o perdão oferecido ao outro não constitui uma realidade separada da graça recebida. Ele manifesta que a graça começou realmente a transformar aquele que a acolheu.

  Em Cristo, a misericórdia deixa de ser apenas uma ideia contemplada e torna-se uma forma de existência. A pessoa que recebe a graça é chamada a permitir que ela alcance seu interior, ordene novamente seu ser e se manifeste em sua maneira de permanecer diante de Deus e dos outros. Assim, a Palavra recebida no instante pode tornar-se vida, e a vida, transformada pela graça, pode avançar continuamente em direção à plenitude para a qual foi criada.


FILOSOFIA

A profundidade da misericórdia

[Mateus 18,21-35]

A origem que sustenta o ser

  A passagem de Mateus 18,21-35 começa com uma pergunta aparentemente simples. Pedro deseja saber quantas vezes deverá perdoar seu irmão. A pergunta procura uma medida, um limite, uma determinação exterior para uma realidade que Cristo conduzirá imediatamente para uma profundidade muito maior. A resposta de Jesus não estabelece uma quantidade suficiente de atos, mas desloca o olhar para a própria fonte da qual o perdão deve nascer. O problema não está simplesmente em quantificar o perdão, mas em compreender de onde procede a capacidade de perdoar.

  A parábola do servo que recebe o cancelamento de uma dívida incomensurável revela uma ordem mais profunda da existência. Antes de qualquer resposta humana, existe um dom que a precede. Antes de qualquer movimento do servo, há uma ação do senhor. A existência não começa em si mesma. Ela recebe aquilo que não poderia produzir por sua própria força e, somente depois de acolher esse dom, pode responder a ele.

  Essa estrutura possui importância decisiva. O ser humano não é apresentado como origem absoluta de si mesmo. Sua existência é recebida, sustentada e continuamente aberta a uma realização que ultrapassa aquilo que já se tornou. A graça aparece, assim, não como um acréscimo exterior à existência, mas como aquilo que permite ao ser reencontrar a direção de sua própria origem.

O instante que contém uma profundidade

  Quando o senhor perdoa a dívida, algo acontece no interior da história daquele homem que não pode ser medido pela duração cronológica do acontecimento. O gesto ocorre em um instante, mas sua significação ultrapassa o instante. Aquilo que acontece naquele momento modifica a relação do servo com sua própria existência. Ele já não se encontra diante de sua dívida como antes. Uma realidade nova foi introduzida em seu caminho.

  Aqui se manifesta uma característica profunda do tempo. Nem tudo aquilo que possui maior duração possui maior profundidade. Um único instante pode conter uma transformação que se prolonga muito além de sua ocorrência exterior. O acontecimento temporal recebe uma dimensão mais profunda quando nele se manifesta uma realidade que não se esgota no próprio momento.

  O perdão recebido pelo servo possui precisamente essa característica. Ele acontece no tempo, mas sua origem não está limitada à sucessão dos acontecimentos. A misericórdia recebida introduz no instante uma possibilidade nova de existência. O presente torna-se fecundo porque nele algo que o ultrapassa pode ser acolhido e realizado.

O silêncio onde a transformação começa

  A parábola também permite perceber que a verdadeira transformação não começa necessariamente na manifestação exterior. Antes que uma nova maneira de agir apareça, precisa existir uma transformação no interior daquele que recebeu o dom. A existência humana possui uma profundidade silenciosa na qual aquilo que foi recebido pode ser assimilado, compreendido e integrado.

  O servo, contudo, não deixa que a misericórdia recebida alcance essa profundidade. Seu exterior foi alterado pelo perdão, mas seu interior permaneceu submetido à antiga medida. Ele recebeu uma realidade nova sem permitir que essa realidade gerasse nele uma nova forma de ser.

  A contradição da parábola está exatamente aí. A manifestação exterior não corresponde à realidade que havia sido recebida. O homem saiu do encontro com a misericórdia, mas não permitiu que a misericórdia se tornasse princípio de sua própria existência. O acontecimento aconteceu nele, mas não amadureceu nele.

  Existe, portanto, uma diferença entre receber algo e deixar que aquilo recebido se torne parte do ser. A primeira realidade pode acontecer imediatamente. A segunda exige interioridade. Exige maturação. Exige que o ser acolha aquilo que o alcançou até que sua presença se manifeste naturalmente em uma nova maneira de existir.

A geração interior da resposta

  A resposta humana à graça não é uma repetição exterior do dom recebido. Ela é uma geração interior. A misericórdia recebida precisa encontrar no ser uma profundidade capaz de acolhê-la, conservá-la e fazê-la amadurecer até que produza uma manifestação correspondente.

  Por isso, Jesus não responde a Pedro simplesmente com uma nova regra quantitativa. Ele revela uma nova origem para o ato de perdoar. O perdão oferecido ao outro deve nascer da consciência de uma misericórdia que primeiro alcançou a própria pessoa. O movimento exterior possui sua verdade quando procede de uma transformação interior.

  O número elevado apresentado por Cristo rompe a tentativa de estabelecer fronteiras para o perdão. Não se trata de uma matemática ampliada, mas da passagem da medida para a fonte. Enquanto a pessoa procura saber quanto deve oferecer, permanece centrada na própria medida. Quando reconhece aquilo que recebeu, começa a agir a partir de uma realidade mais profunda do que sua própria contabilidade.

  O sentido do ensinamento está, portanto, na transformação da origem da ação. O perdão deixa de nascer daquilo que o outro fez e passa a nascer daquilo que a própria pessoa recebeu de Deus. A circunstância permanece real, a ferida não é negada, a verdade não desaparece. O que muda é o princípio interior a partir do qual a pessoa responde.

A presença que sustenta a maturação

  A misericórdia divina não é apenas um acontecimento concluído. Ela permanece presente como princípio capaz de gerar uma transformação contínua. A graça recebida contém uma fecundidade que não se esgota no momento em que é concedida. Ela pede acolhimento, assimilação e correspondência.

  Essa maturação ocorre na interioridade. O ser humano precisa permitir que aquilo que recebeu desça da compreensão para a própria estrutura de sua existência. A verdade deixa de ser somente conhecida e começa a formar aquele que a acolhe. O dom deixa de ser apenas algo recebido e passa a constituir uma nova maneira de permanecer diante do mundo, de si mesmo e de Deus.

  A presença divina torna possível essa transformação porque Deus não está diante da pessoa apenas como uma realidade distante que determina seu destino. Sua presença alcança o próprio interior da existência. É nessa proximidade que a pessoa pode reconhecer sua origem, receber novamente seu sentido e amadurecer em direção àquilo que está chamada a ser.

  O instante torna-se então mais profundo do que sua aparência cronológica. Ele pode acolher uma presença que não se reduz à duração do momento. Pode tornar-se o ponto de encontro entre aquilo que a pessoa recebeu e aquilo que está sendo gerado em seu interior. O presente não é vazio quando contém uma realidade capaz de transformar o ser.

A verdade recebida e a manifestação

  O fracasso do primeiro servo não consiste simplesmente em ter cometido uma falta contra outro homem. Sua verdadeira ruptura está na ausência de correspondência entre o que recebeu e aquilo que manifestou. Ele foi alcançado por uma misericórdia imensa, mas sua existência exterior não revelou a profundidade desse encontro.

  A parábola mostra, assim, que toda manifestação possui uma origem interior. Aquilo que aparece na ação revela, de algum modo, aquilo que foi acolhido ou recusado na profundidade do ser. O gesto exterior não é uma realidade isolada. Ele nasce de uma interioridade que amadureceu em determinada direção.

  Quando a verdade recebida alcança sua maturidade, ela começa a manifestar-se sem permanecer apenas como conceito. A misericórdia torna-se capacidade de misericórdia. O perdão recebido torna-se disposição para perdoar. A presença reconhecida torna-se uma maneira de permanecer presente. O que foi acolhido na interioridade encontra sua realização na existência.

  Essa passagem é fundamental para compreender a vida espiritual. Deus não comunica sua graça para que o ser humano permaneça apenas diante dela como espectador. A graça deseja gerar uma transformação. O que vem da origem divina busca uma manifestação correspondente na criatura.

A criatura diante de sua origem

  A parábola revela uma verdade fundamental sobre a criatura. Ela não encontra sua plenitude quando se fecha sobre aquilo que possui ou sobre aquilo que consegue produzir. Sua realização acontece quando permanece relacionada à origem de onde recebeu o ser e ao dom que continuamente sustenta sua existência.

  O servo esquece sua própria condição porque, depois de receber a misericórdia, passa a agir como se fosse autossuficiente em relação àquilo que recebeu. O esquecimento da origem produz uma deformação na manifestação. Ele recebeu uma medida que não produziu, mas comportou-se como se a medida de sua relação com o outro dependesse exclusivamente de sua própria exigência.

  Cristo reconduz o ser humano à memória da origem. A pergunta do senhor ao servo possui uma força que ultrapassa a circunstância particular da parábola. Aquele que recebeu misericórdia precisa reconhecer que sua própria existência foi alcançada por um dom que o precede. A consciência dessa origem transforma a maneira de permanecer diante dos demais.

  A plenitude não consiste, portanto, em acumular aquilo que foi recebido. Consiste em permitir que o recebido encontre sua realização. O dom alcança sua finalidade quando se torna fecundo no interior daquele que o acolhe. A existência torna-se plenamente aquilo que pode ser quando aquilo que recebeu em sua origem encontra uma resposta correspondente.

A eternidade acolhida no instante

  A passagem de Mateus pode ser contemplada, assim, como uma revelação sobre a profundidade do presente. O perdão recebido pelo servo acontece em determinado momento, mas aquilo que esse perdão contém não se limita à duração do momento. A misericórdia introduz no tempo uma realidade cuja origem ultrapassa o próprio tempo.

  Cada instante pode possuir essa profundidade. Não porque o instante deixe de pertencer à sucessão temporal, mas porque nele pode manifestar-se uma presença que não se esgota nessa sucessão. O eterno não precisa abandonar o tempo para alcançá-lo. Pode fazer-se presente no interior da existência temporal e gerar nela uma transformação.

  A vida espiritual acontece justamente nessa passagem entre presença e manifestação. Deus se dá, a pessoa acolhe, aquilo que foi acolhido amadurece e, no momento próprio, manifesta-se em sua maneira de existir. A transformação não é produzida artificialmente. Ela nasce daquilo que foi verdadeiramente recebido e interiormente assimilado.

  O perdão torna-se então uma das manifestações mais profundas dessa realidade. Quando alguém perdoa a partir da misericórdia recebida, sua ação revela uma origem que ultrapassa a própria ação. O gesto temporal torna-se manifestação de uma realidade que o precede e o sustenta.

A plenitude como realização do ser

  A palavra de Cristo conduz finalmente a uma compreensão mais profunda da plenitude. O ser humano não encontra sua realização simplesmente quando alcança exteriormente determinada condição. Sua plenitude está relacionada à correspondência entre sua origem, sua interioridade e sua manifestação.

  O servo da parábola havia recebido aquilo que poderia transformar completamente sua existência, mas não permitiu que o dom alcançasse sua forma plena nele. A misericórdia foi recebida, mas não foi gerada novamente em sua interioridade. O acontecimento permaneceu exterior à transformação que deveria produzir.

  Cristo chama a pessoa para uma unidade mais profunda. Aquilo que Deus oferece deve encontrar no interior humano uma acolhida verdadeira. Aquilo que é acolhido deve amadurecer. Aquilo que amadurece deve manifestar-se. E aquilo que se manifesta pode conduzir novamente a existência para sua origem, não como retorno ao que já passou, mas como realização daquilo que desde a origem estava destinado a tornar-se.

  Nesse movimento, o instante adquire uma densidade que a simples sucessão não consegue explicar. O presente torna-se fecundo porque nele a criatura pode responder à presença de Deus. A existência temporal torna-se lugar de manifestação de uma realidade que a ultrapassa. O ser amadurece no interior do tempo sem estar encerrado naquilo que o tempo pode medir.

  Mateus 18,21-35 revela, desse modo, muito mais do que uma exigência de perdoar repetidamente. A parábola mostra que a existência humana encontra seu sentido quando aquilo que recebe em sua origem consegue atravessar sua interioridade e alcançar sua manifestação. A misericórdia recebida é chamada a tornar-se misericórdia vivida. O dom precisa tornar-se fecundo. A presença precisa encontrar forma. E o instante pode tornar-se o ponto em que aquilo que é eterno começa a revelar sua plenitude no interior do ser.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

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Segunda Leitura

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