quinta-feira, 24 de setembro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Liturgia Diária - Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 9,46-50 - 28.09.2026

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2026
26ª Semana do Tempo Comum, Ano Par (II)


“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Acclamatio ad Evangelium

Mc X, XLV

R. Alleluia, alleluia, alleluia.
V. Nam et Filius hominis non venit ut ministraretur ei, sed ut ministraret, et daret animam suam redemptionem pro multis.

Aclamação ao Evangelho
Mc 10,45

R. Aleluia, aleluia, aleluia.
V. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos.


Na presença do Eterno, o ser reconhece que a verdadeira grandeza nasce da humildade, onde o instante acolhe sua origem e encontra plenitude em Deus.



Proclamatio sancti Evangelii secundum Lucam, IX, XLVI-L

XLVI Intravit autem cogitatio in eos quis eorum major esset.
46 Surgiu entre eles o pensamento sobre qual deles seria o maior.

XLVII At Jesus videns cogitationes cordis illorum, apprehendit puerum, et statuit illum secus se,
47 Jesus, porém, conhecendo os pensamentos de seus corações, tomou uma criança e a colocou junto de si.

XLVIII et ait illis: Quicumque susceperit puerum istum in nomine meo, me recipit: et quicumque me receperit, recipit eum qui me misit. Nam qui minor est inter vos omnes, hic major est.
48 E disse-lhes que quem receber esta criança em seu nome recebe a ele, e quem o recebe acolhe aquele que o enviou. Pois aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior.

XLIX Respondens autem Joannes dixit: Præceptor, vidimus quemdam in nomine tuo ejicientem dæmonia, et prohibuimus eum: quia non sequitur nobiscum.
49 João, porém, respondeu e disse que viu alguém expulsando demônios em nome de Jesus e o proibiu, porque não caminhava com eles.

L Et ait ad illum Jesus: Nolite prohibere: qui enim non est adversum vos, pro vobis est.
50 Jesus lhe disse que não o proibisse, pois quem não é contra vós está a vosso favor.

Reflexão:

O instante revela o ser quando a grandeza exterior deixa de ocupar o centro da consciência.
Na presença do Eterno, a alma encontra sua verdade sem precisar elevar-se acima de ninguém.
A criança colocada junto de Jesus manifesta a simplicidade na qual a presença pode ser acolhida.
O menor torna-se maior quando permanece unido àquilo que nele não depende de aparência ou domínio.
Cada instante contém uma profundidade que somente a atenção serena consegue reconhecer.
A existência encontra sua ordem quando o ser habita plenamente o momento que lhe foi concedido.
A presença divina não passa com o instante, mas nele se revela como origem e plenitude.
Assim, acolher, servir e permanecer tornam-se modos de viver na eternidade que toca o presente.

Verbum Domini


Versículo mais importante:

Proclamatio Sancti Evangelii secundum Lucam, IX, XLVI-L

XLVIII Nam qui minor est inter vos omnes, hic major est. (Lucam, IX, XLVIII)

48 Pois aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior. (Lucas, 9,48)


HOMILIA

A grandeza que nasce da presença

Quando o ser deixa de buscar sua medida no exterior, começa a reconhecer, diante de Deus, a verdade que já o chama à plenitude.

  O Evangelho segundo Lucas apresenta uma transformação silenciosa na compreensão da grandeza. Os discípulos perguntam quem entre eles seria o maior, e Jesus não responde estabelecendo uma hierarquia entre pessoas. Ele coloca uma criança junto de si e revela que a verdadeira grandeza não nasce da posição ocupada, mas da capacidade de receber, acolher e permanecer diante da presença divina com um coração despojado.

  A criança colocada junto de Jesus não aparece apenas como uma figura de simplicidade. Ela manifesta uma condição interior na qual o ser não precisa afirmar diante dos outros aquilo que é. Sua presença não depende de reconhecimento exterior. Diante de Cristo, a existência pode retornar à sua origem e reencontrar aquilo que nela é mais verdadeiro. O ser amadurece quando já não precisa construir sua importância sobre aquilo que pode ser visto, comparado ou reconhecido.

  A pergunta dos discípulos revela uma inquietação que pode surgir no interior humano quando a própria existência é compreendida a partir de medidas exteriores. Entretanto, Cristo desloca o olhar. Ele não conduz o discípulo para uma comparação mais elevada, mas para uma transformação do próprio modo de existir. A questão deixa de ser quem ocupa o primeiro lugar e passa a ser quem está disposto a receber a presença que lhe é oferecida.

  Receber uma criança em nome de Cristo é receber o próprio Cristo, e receber Cristo é acolher aquele que o enviou. Há nessa sequência uma profundidade que alcança o centro da existência. O instante vivido deixa de ser percebido como algo isolado e passa a revelar uma presença que o transcende. Aquilo que acontece no momento pode tornar-se lugar de encontro com a origem, quando o ser está verdadeiramente presente ao que lhe foi confiado.

  A maturação espiritual acontece justamente nessa passagem do exterior para o interior. Não significa afastar-se da realidade, mas habitá-la de modo mais inteiro. Cada instante pode revelar uma verdade que exige acolhimento, discernimento e resposta. A pessoa não se realiza simplesmente acumulando conhecimento sobre aquilo que é verdadeiro. A verdade recebida precisa alcançar a existência, ordenar o querer e transformar progressivamente a maneira de estar diante de Deus.

  É nesse ponto que a responsabilidade pessoal adquire sua profundidade. Ninguém pode realizar por outro aquilo que cada pessoa precisa acolher em si mesma. A presença de Cristo não elimina a responsabilidade do ser, mas a ilumina. Diante da verdade recebida, cada um é chamado a responder com a própria vida. O amadurecimento não consiste apenas em saber mais, mas em tornar-se aquilo que a verdade reconhecida pede que se seja.

  A grandeza anunciada por Jesus possui, portanto, uma natureza diferente daquela que o mundo costuma atribuir ao maior. O maior é aquele que se torna capaz de acolher sem transformar o acolhimento em posse, de servir sem fazer do serviço uma afirmação de si, de permanecer diante de Deus sem precisar ocupar o centro. Essa grandeza não diminui a pessoa. Ao contrário, conduz o ser à sua verdadeira dignidade, porque o liberta da necessidade de buscar fora aquilo que somente uma existência reconciliada com sua origem pode receber.

  A família também pode ser contemplada sob essa luz. Antes de ser compreendida por suas funções exteriores, ela pode ser reconhecida como espaço de presença, acolhimento, formação e amadurecimento. É no encontro cotidiano que a pessoa aprende a receber e a oferecer, a reconhecer o valor do outro e a responder pelo modo como sua presença participa da vida daqueles que lhe foram confiados. A dignidade de cada pessoa permanece anterior a qualquer função que exerça, porque sua origem está naquele que a chama à existência.

  O Evangelho também apresenta João dizendo que encontraram alguém expulsando demônios em nome de Jesus e tentaram impedi-lo porque não caminhava com eles. Cristo novamente desloca o olhar. A verdade não pode ser reduzida aos limites da própria percepção. Quem não está contra eles está a favor deles. A resposta de Jesus conduz o discípulo para além da necessidade de controlar aquilo que não lhe pertence. Existe uma maturidade que reconhece o bem sem precisar apropriá-lo.

  Essa maturidade exige interioridade. O ser precisa aprender a distinguir aquilo que verdadeiramente procede de sua origem daquilo que nasce apenas da inquietação momentânea. O instante, quando vivido com atenção, torna-se mais profundo do que sua duração aparente. Nele existe uma possibilidade de encontro, uma ocasião de transformação, uma abertura pela qual a presença divina pode alcançar aquilo que ainda precisa ser amadurecido.

  Assim, a Palavra de Cristo não nos conduz simplesmente a uma nova compreensão sobre a grandeza. Ela transforma o lugar a partir do qual compreendemos nossa própria existência. O ser já não precisa perguntar quanto vale diante dos outros. Precisa reconhecer diante de Deus aquilo que recebeu, aquilo que deve cultivar e aquilo que é chamado a realizar.

  A verdadeira maturação acontece quando a pessoa começa a habitar o instante com maior inteireza, permitindo que a presença de Deus alcance sua origem, seu querer e sua forma de existir. O presente deixa então de ser apenas passagem e se revela como momento de realização. Nele, a eternidade toca a existência sem deixar de ser eternidade, e a existência encontra sua plenitude sem deixar de ser humana.

  Jesus coloca a criança junto de si e, nesse gesto, mostra uma verdade que permanece. A grandeza não está acima do ser, mas nasce quando o ser retorna à sua verdade diante de Deus. Quem acolhe essa verdade começa a amadurecer por dentro. E quanto mais profundamente a pessoa permanece nessa presença, mais sua existência se torna simples, íntegra e capaz de receber a plenitude para a qual foi criada.


TEOLOGIA

Explicação Teológica

  O fundamento evangélico

  No centro da passagem encontra-se a palavra de Jesus sobre a verdadeira grandeza. Os discípulos discutiam entre si qual deles seria o maior, e Cristo responde colocando uma criança junto de si. A resposta não constitui apenas uma correção de comportamento, mas uma revelação sobre a própria condição humana diante de Deus. O Evangelho desloca a compreensão da grandeza exterior para a realidade interior da pessoa, mostrando que a proximidade com Deus não se estabelece pela posição ocupada, mas pela capacidade de acolher aquilo que procede dele.

  “Nam qui minor est inter vos omnes, hic major est.” (Lucas 9,48)

  A afirmação de Cristo alcança seu sentido pleno quando considerada juntamente com o gesto que a precede. Jesus não apresenta uma teoria sobre a humildade. Ele manifesta uma realidade através de sua própria ação. A criança é colocada junto dele, e nessa proximidade torna-se sinal de uma existência que pode ser recebida sem exigir reconhecimento. O pequeno não precisa ocupar o centro para possuir dignidade. Sua dignidade antecede qualquer posição, qualquer realização e qualquer consideração exterior.

  Cristo e a verdadeira grandeza

  A grandeza anunciada por Jesus nasce de uma transformação da relação da pessoa consigo mesma e com Deus. O discípulo deixa de procurar sua confirmação na comparação e começa a reconhecer que sua existência possui origem em uma realidade que a precede. A pessoa não recebe seu valor porque consegue tornar-se maior diante dos outros. Ela recebe sua dignidade daquele que a chama à existência e a sustenta em seu ser.

  Quando Cristo afirma que quem recebe uma criança em seu nome recebe a ele, e quem recebe a ele recebe aquele que o enviou, estabelece uma profunda continuidade entre acolhimento humano e comunhão com Deus. Cristo não aparece separado daquele que o enviou. Nele, a presença do Pai alcança a existência humana. Receber Cristo significa abrir-se à presença daquele que é a origem e o fundamento de toda realização verdadeira.

  Essa verdade impede que a vida espiritual seja reduzida a um aperfeiçoamento produzido somente pelo esforço humano. A transformação cristã nasce do encontro entre a pessoa e a graça. Deus se aproxima, chama, sustenta e conduz, mas a pessoa é verdadeiramente envolvida nesse movimento. A graça não anula a resposta humana. Ela torna possível uma resposta mais profunda, na qual o ser inteiro começa a corresponder à verdade recebida.

  A Palavra como presença

  A Palavra de Cristo não é apenas uma informação transmitida ao discípulo. Ela possui força de convocação. Quando recebida na interioridade, começa a iluminar aquilo que precisa ser transformado. O Evangelho não permanece exterior àquele que o escuta. Ele penetra a compreensão, alcança o querer e orienta progressivamente a existência para sua origem.

  É nesse sentido que a fé possui uma dimensão profundamente pessoal. Crer não consiste somente em reconhecer determinadas verdades, mas em permitir que a verdade de Cristo alcance o próprio ser. A fé torna-se fecunda quando aquilo que é ouvido passa a configurar a existência. O conhecimento exterior encontra sua plenitude quando se transforma em adesão interior àquele que fala.

  O instante possui aqui uma importância espiritual particular. Deus não encontra a pessoa apenas em uma dimensão distante da existência. Sua presença alcança o momento concreto em que a Palavra é recebida. O presente torna-se ocasião de encontro porque nele a pessoa pode acolher, responder e permitir que a graça produza seus frutos.

  A dignidade da pessoa diante de Deus

  A criança colocada junto de Jesus revela também algo essencial sobre a pessoa humana. Antes de qualquer função, capacidade ou realização, existe uma pessoa chamada à existência por Deus. Sua dignidade não nasce daquilo que consegue produzir. Ela está vinculada à origem de seu ser e à relação fundamental com aquele que lhe dá existência.

  Essa compreensão alcança também a realidade familiar. A família pode ser contemplada como uma comunhão na qual a pessoa aprende a receber a existência, acolher o outro e amadurecer na responsabilidade. Sua importância não depende apenas de sua estrutura exterior, mas da capacidade de preservar a dignidade de cada pessoa e de favorecer uma formação na qual o ser possa reconhecer sua origem, sua responsabilidade e seu destino diante de Deus.

  A presença de Cristo ilumina essa realidade porque mostra que ninguém deve ser reduzido àquilo que representa ou realiza. Cada pessoa permanece maior do que qualquer função que desempenhe. O Evangelho conduz, assim, a uma compreensão da existência na qual o valor do ser precede suas realizações e permanece ligado àquele de quem recebeu sua origem.

  Conversão e amadurecimento do ser

  A conversão cristã não consiste apenas em abandonar determinados comportamentos. Ela alcança a orientação fundamental da pessoa. Os discípulos precisavam converter não somente suas ações, mas a maneira como compreendiam a grandeza. A presença de Cristo lhes oferecia uma nova medida para interpretar a própria existência.

  Amadurecer diante de Deus significa permitir que a verdade recebida ordene progressivamente o interior. A pessoa começa a reconhecer aquilo que procede de sua vocação mais profunda e aquilo que nasce de uma compreensão incompleta de si mesma. Esse discernimento não ocorre de uma única vez. A existência vai sendo integrada à medida que a verdade se torna presença vivida.

  A responsabilidade pessoal encontra aqui seu fundamento. A graça não transforma a pessoa em espectadora de sua própria existência. Deus chama, mas a pessoa responde. Deus oferece sua presença, mas a pessoa precisa acolhê-la. Deus comunica sua verdade, mas o ser humano é chamado a permitir que essa verdade alcance sua maneira concreta de existir.

  A presença que conduz à plenitude

  A segunda parte da passagem, quando João relata que alguém expulsava demônios em nome de Jesus e fora impedido por não pertencer ao grupo dos discípulos, amplia a mesma revelação. Cristo ensina que a obra de Deus não deve ser medida simplesmente pelos limites da percepção humana. A resposta de Jesus conduz o discípulo para uma compreensão mais ampla da ação divina.

  A maturidade espiritual exige, portanto, que o ser não transforme sua própria percepção em medida absoluta da realidade. Existe uma humildade intelectual e espiritual diante da ação de Deus. Reconhecer isso não significa abandonar o discernimento, mas permitir que o discernimento seja purificado pela verdade de Cristo.

  A existência encontra sua plenitude quando permanece aberta à presença que a origina e a sustenta. O instante vivido torna-se, então, mais do que uma passagem entre acontecimentos. Nele, a pessoa pode receber a graça, reconhecer a verdade e responder ao chamado de Deus. A eternidade não é apresentada como fuga da existência, mas como realidade divina que alcança o presente e lhe confere profundidade.

  A realização da presença de Cristo

  O ensinamento de Jesus conduz finalmente a uma compreensão mais profunda da realização humana. O ser não encontra sua plenitude quando se coloca acima dos outros, mas quando permanece unido àquele que é sua origem. A grandeza cristã nasce dessa comunhão. Quanto mais a pessoa se aproxima de Cristo, mais sua existência pode abandonar aquilo que é superficial e tornar-se coerente com a verdade recebida.

  A criança junto de Jesus permanece como imagem de uma existência acolhida na presença. Ela recorda que a pessoa não precisa criar por si mesma o fundamento de seu valor. Existe uma origem que a precede, uma presença que a sustenta e uma plenitude para a qual é conduzida.

  Assim, Lucas 9,46-50 apresenta uma visão profundamente cristológica da maturação humana. Cristo não apenas ensina qual deve ser a atitude do discípulo. Ele revela, por sua presença, onde a existência encontra sua verdadeira medida. A pessoa amadurece quando permite que a Palavra recebida alcance sua interioridade, transforme sua compreensão de si mesma e ordene sua resposta diante de Deus.

  A verdadeira grandeza torna-se, desse modo, comunhão com Cristo. O ser encontra sua origem, permanece na presença e caminha para a plenitude. Cada instante pode tornar-se lugar de acolhimento da graça, e cada resposta sincera pode participar da realização daquela verdade que, em Cristo, chama a pessoa a ser plenamente aquilo para o qual foi criada.


FILOSOFIA

A profundidade escondida no instante

Lucas 9,46-50

  A passagem começa com uma inquietação que parece simples, mas alcança uma questão fundamental do ser. Os discípulos discutem entre si quem seria o maior. Jesus, porém, não responde estabelecendo uma ordem exterior entre eles. Toma uma criança, coloca-a junto de si e revela que a verdadeira grandeza pertence àquele que se encontra no último lugar. A resposta desloca a questão da posição para a origem, da aparência para a realidade interior, daquilo que se mostra para aquilo que está sendo formado no silêncio.

  O gesto de Cristo possui uma profundidade que ultrapassa a simples recomendação de humildade. A criança é colocada junto dele antes que qualquer palavra explique seu significado. Primeiro aparece a presença, depois vem a compreensão. Há nisso uma estrutura própria da existência. Aquilo que realmente transforma não começa necessariamente pela formulação de um conceito, mas pela proximidade com uma presença capaz de reorganizar o ser desde sua raiz.

  A origem que sustenta o ser

  O ser humano tende a procurar sua grandeza naquilo que já alcançou forma. Cristo conduz o olhar para uma realidade anterior à manifestação exterior. A criança junto dele representa uma existência cuja dignidade não depende daquilo que já realizou. Ela simplesmente está presente. Sua realidade não precisa ser demonstrada para possuir valor.

  Esse aspecto permite compreender a origem de modo mais profundo. Aquilo que existe não encontra em si mesmo a razão última de sua existência. Há uma origem que o precede, sustenta sua permanência e acompanha seu desenvolvimento. Na perspectiva cristã, essa origem não é uma força impessoal nem uma necessidade abstrata. É Deus, aquele de quem toda criatura recebe o ser e diante de quem toda existência encontra sua verdade.

  A criatura, portanto, não é compreendida apenas pelo que manifesta exteriormente. Existe nela uma profundidade na qual sua relação com a origem permanece atuante. A existência visível é expressão de uma realidade mais profunda, e o amadurecimento acontece quando aquilo que está na origem começa a encontrar correspondência na forma concreta de viver.

  O silêncio onde o ser amadurece

  A passagem de Lucas também permite contemplar o silêncio como dimensão própria da geração interior. Antes de aparecer uma transformação visível, algo precisa acontecer na profundidade do ser. A Palavra é recebida, permanece, atravessa a interioridade e começa a ordenar aquilo que ainda não alcançou sua forma plena.

  O silêncio, nesse sentido, não é ausência. Ele é fecundidade não manifestada. É a profundidade na qual uma realidade pode receber consistência antes de aparecer exteriormente. O que ainda não se mostra não está necessariamente vazio. Pode estar sendo reunido, integrado e amadurecido em uma dimensão que os sentidos não alcançam imediatamente.

  Essa compreensão ilumina a resposta de Jesus aos discípulos. A grandeza que ele anuncia não aparece primeiro como uma posição exterior. Ela nasce de uma transformação que precisa alcançar o interior. O menor não se torna maior porque muda simplesmente de lugar, mas porque sua relação com a origem começa a determinar sua maneira de existir.

  O instante e aquilo que o transcende

  O instante possui, então, uma profundidade que não pode ser reduzida à sua duração cronológica. Um momento pode ser breve e, contudo, conter uma decisão que reorganiza uma existência inteira. Pode receber uma Palavra que permanece além dele. Pode tornar-se o ponto no qual aquilo que pertence à eternidade começa a adquirir forma dentro da sucessão da vida.

  Quando Cristo coloca a criança junto de si, aquele gesto acontece em um instante determinado. Contudo, seu significado ultrapassa o momento em que foi realizado. O instante torna-se portador de uma realidade que não se esgota nele. A presença de Cristo confere profundidade ao momento porque nele se encontra aquele que não está submetido à sucessão da mesma maneira que a criatura.

  A eternidade, portanto, não precisa ser imaginada como uma realidade distante da existência temporal. Em Cristo, ela pode tocar o instante e transformar sua direção. O eterno não se reduz ao temporal, mas pode manifestar-se dentro dele sem perder sua transcendência. É nessa relação que o momento vivido adquire uma densidade que não pode ser medida apenas pela passagem dos minutos.

  A geração invisível da plenitude

  Toda manifestação verdadeira possui uma interioridade anterior à sua forma plenamente reconhecida. O ser humano amadurece antes que sua maturação possa ser percebida. Uma compreensão nasce antes de tornar-se palavra. Uma decisão se forma antes de aparecer como ação. Uma transformação pode estar acontecendo quando exteriormente quase nada parece ter mudado.

  Essa dimensão invisível é essencial para compreender a Palavra de Cristo. A grandeza anunciada não é produzida instantaneamente por uma alteração exterior. Ela é gerada no interior pela presença recebida. A pessoa começa a tornar-se aquilo que reconheceu quando permite que a verdade alcance regiões mais profundas de sua existência.

  O processo não destrói aquilo que a pessoa é. Ao contrário, conduz o ser para uma realização mais plena de sua origem. A maturação autêntica não consiste em abandonar a própria realidade, mas em permitir que aquilo que foi recebido como possibilidade encontre integração, unidade e expressão. O que estava disperso começa a reunir-se em torno de um centro mais profundo.

  A presença que transforma

  Cristo permanece no centro de todo esse movimento. Não é apenas aquele que oferece um ensinamento sobre a grandeza. Ele é a presença diante da qual a existência pode reencontrar sua ordem. Receber uma criança em seu nome é recebê-lo. Recebê-lo é acolher aquele que o enviou. Existe, portanto, uma continuidade entre acolhimento, presença e origem.

  A Palavra cristã não conduz simplesmente a uma ideia sobre Deus. Ela conduz à relação com Deus através de Cristo. Por isso, a transformação interior não pode ser compreendida apenas como aperfeiçoamento humano. A criatura amadurece porque é alcançada pela graça e responde a essa presença. Há uma ação divina que precede e sustenta a resposta humana, sem eliminar sua responsabilidade.

  A presença recebida torna-se princípio de transformação. Aquilo que era apenas escutado começa a penetrar o ser. Aquilo que era compreendido exteriormente começa a tornar-se realidade interior. E aquilo que amadurece interiormente começa, no momento adequado, a manifestar-se na existência.

  O ser diante de sua própria origem

  A segunda parte da passagem, quando João fala daquele que agia em nome de Jesus sem pertencer ao grupo dos discípulos, aprofunda ainda mais essa realidade. Cristo impede que a percepção limitada dos discípulos seja transformada em medida absoluta da ação divina. O mistério da presença não se deixa encerrar completamente dentro dos limites daquilo que o ser consegue reconhecer.

  Essa palavra também possui uma dimensão interior. O ser precisa aprender a não confundir sua percepção imediata com a totalidade da realidade. Existe uma profundidade que ultrapassa aquilo que ele consegue apreender em determinado instante. A maturação exige receptividade diante de uma verdade maior do que a própria compreensão.

  A pessoa encontra sua verdadeira grandeza quando deixa de fazer de si mesma a origem de sua medida. Retorna, então, àquilo que a precede. Reconhece que recebeu o ser antes de poder compreendê-lo, que recebeu a existência antes de poder determiná-la e que sua realização consiste em corresponder cada vez mais profundamente à origem de onde procede.

  Da presença à plenitude

  A passagem de Lucas revela, desse modo, uma dinâmica profunda da existência. A origem sustenta o ser, a presença o alcança, o silêncio acolhe aquilo que precisa amadurecer, o instante recebe essa transformação e a manifestação exterior revela progressivamente aquilo que foi gerado na interioridade.

  Nada disso acontece fora da presença de Deus. O desenvolvimento humano encontra sua direção quando a existência permanece relacionada àquele de quem recebeu o ser. A plenitude não consiste simplesmente em chegar a uma forma final, como se o ser pudesse completar-se independentemente de sua origem. Ela consiste em tornar-se cada vez mais transparente àquilo que recebeu como princípio de existência e vocação.

  Cristo, ao colocar a criança junto de si, mostra que a grandeza começa onde a existência aceita receber. Aquele que recebe não permanece passivo. O acolhimento verdadeiro gera transformação, e a transformação alcança gradualmente a manifestação. Assim, o que parecia pequeno pode conter uma profundidade que ultrapassa sua aparência, porque sua verdade não está determinada somente pelo que já se vê.

  O instante torna-se, então, uma dimensão privilegiada da realização. Nele, a criatura permanece temporal, mas pode acolher aquilo que transcende o tempo. Nele, o que é eterno pode tocar a sucessão sem tornar-se sucessão. Nele, a presença de Cristo pode alcançar a interioridade e iniciar ou aprofundar uma geração que talvez ainda não seja visível.

  A palavra de Jesus permanece como chamado a retornar à origem e permitir que dela proceda a verdadeira grandeza. O ser não encontra sua plenitude quando se coloca acima, mas quando se deixa formar pela presença daquele que o sustenta. Nesse acolhimento, o instante deixa de ser apenas passagem e torna-se profundidade vivida. E aquilo que amadurece no silêncio pode, finalmente, manifestar na existência a verdade que desde sua origem já o orientava.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

Leia também:

Primeira Leitura

Segunda Leitura

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