Liturgia Diária
20 – SEXTA-FEIRA
DEPOIS DAS CINZAS
(roxo – ofício do dia)
“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Apresento o versículo conforme a Biblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam, seguido de uma tradução metafísica orientada para uso litúrgico, com ênfase no Tempo Vertical — aquele que não corre, mas se aprofunda; não passa, mas eterniza o instante na Presença.
Biblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam
Psalmus 29, 11
Audi, Domine, et miserere mei; Domine, adiutor meus esto.
Tradução Liturgica
Escuta-me, Senhor —
não como quem ouve o som que passa,
mas como Aquele que recolhe o clamor na eternidade do Agora.
Tem piedade de mim —
não apenas como gesto temporal de misericórdia,
mas como infusão contínua de Tua Presença que sustenta o ser.
Sê Tu, Senhor, o meu Auxílio —
não apenas defesa contra o instante adverso,
mas fundamento invisível onde o tempo se curva
e a alma repousa na verticalidade do Eterno.
Pois no Tempo Vertical,
a súplica não é lançada ao futuro,
mas acolhida no centro eterno onde
Tu és —
e onde, em Ti, também somos. (Sl 29,11)
Celebrando o caminho de conversão, compreendemos que o jejum agradável a Deus não se reduz à abstinência exterior, mas se torna purificação do olhar e retidão do agir. Privar-se do supérfluo é abrir espaço interior para que o ser se alinhe ao Bem que sustenta todas as coisas. A verdadeira oferta é restaurar o equilíbrio onde a vida foi ferida, partilhar o pão como sinal de comunhão ontológica e reconhecer no outro a mesma centelha de origem. Assim, o instante presente torna-se encontro com o Eterno, e cada gesto justo participa da ordem invisível que governa e renova toda a criação.
Evangelium secundum Matthaeum IX, XIV–XV
XIV
Tunc accesserunt ad eum discipuli Ioannis, dicentes Quare nos et pharisaei ieiunamus frequenter, discipuli autem tui non ieiunant
Então aproximam-se os discípulos de João e perguntam por que praticam o jejum com constância, enquanto os teus não jejuam. No interior desta pergunta ecoa a busca por sentido, pois o coração humano deseja compreender o ritmo oculto da Presença que orienta cada ato.
XV
Et ait illis Iesus Numquid possunt filii sponsi lugere quandiu cum illis est sponsus Venient autem dies cum auferetur ab eis sponsus et tunc ieiunabunt
Jesus responde que não podem entristecer-se os filhos das núpcias enquanto o Esposo está com eles. Há um tempo de plenitude e um tempo de espera. Quando a Presença parece velar-se, nasce o jejum que purifica a alma e a reconduz ao centro onde o Eterno sustenta cada instante.
Verbum Domini
Reflexão
O coração aprende que a medida da vida não está na aparência do rito, mas na consonância interior com o Bem.
Quando a Presença é percebida, a alegria torna-se estado de firmeza silenciosa.
Quando ela parece distante, o recolhimento amadurece a consciência.
O verdadeiro jejum é ordenar os afetos segundo a razão iluminada.
Nada externo domina quem governa a si mesmo.
A ausência aparente educa o desejo e fortalece o espírito.
Assim a alma permanece estável tanto na abundância quanto na espera.
E cada instante acolhido com retidão participa da eternidade que o sustenta.
Versículo mais importante:
Evangelium secundum Matthaeum IX, XV
XV
Et ait illis Iesus Numquid possunt filii sponsi lugere quandiu cum illis est sponsus Venient autem dies cum auferetur ab eis sponsus et tunc ieiunabunt
E disse-lhes Jesus: Podem, acaso, os filhos das núpcias entristecer-se enquanto o Esposo está com eles? Virão, porém, dias em que o Esposo lhes será velado; e então jejuarão.
Enquanto a Presença se manifesta, o instante torna-se plenitude que participa do Eterno. Quando, contudo, ela parece retirar-se, o coração é chamado ao recolhimento, que atravessa o fluxo das horas e se ancora no Agora que não passa. O jejum transforma-se, assim, em vigília interior, na qual a alma aprende que a verdadeira comunhão não depende do tempo que transcorre, mas da permanência silenciosa no centro onde Deus é. (Mt 9,15)
HOMILIA
O Esposo e a Plenitude do Instante
O jejum autêntico é ordenação interior que purifica o desejo e reconduz o ser ao seu centro.
Amados, o Evangelho nos conduz ao mistério da Presença. Perguntam sobre o jejum, e o Senhor responde revelando algo mais profundo que uma prática exterior. Ele aponta para o coração do homem e para o centro invisível onde o sentido da vida se decide. Enquanto o Esposo está presente, há alegria que não depende das circunstâncias, pois nasce da comunhão com Aquele que sustenta todas as coisas.
O jejum, portanto, não é mera privação, mas pedagogia da alma. Ele ensina a ordenar os afetos, a purificar os desejos e a reconhecer que o verdadeiro alimento é a proximidade com o Bem supremo. Quando a Presença parece velar-se, não se trata de abandono, mas de convite ao amadurecimento interior. A ausência aparente desperta profundidade. O silêncio forma raízes. O recolhimento estrutura o ser.
Existe uma dimensão do viver que não se mede pelos relógios nem se consome na sucessão dos dias. Nela, cada instante pode tornar-se plenitude quando acolhido com consciência desperta. O coração que aprende a permanecer firme descobre que a alegria não é euforia passageira, mas estabilidade fundada no Eterno. E o jejum, nesse horizonte, converte-se em vigilância luminosa, preparando o interior para reconhecer novamente o Esposo que nunca deixa de sustentar.
A dignidade da pessoa revela-se nesse chamado ao governo de si. Não somos conduzidos apenas por impulsos, mas dotados de razão capaz de discernir e vontade capaz de orientar o próprio caminho. A maturidade espiritual manifesta-se quando a alma escolhe o bem por convicção interior, não por imposição externa. Assim cresce o homem, assim se eleva o espírito.
Também a família, célula mater da vida humana, participa desse mistério. Quando nela há presença autêntica, partilha de sentido e busca do alto, o lar torna-se espaço de formação do caráter e de cultivo da interioridade. Ali se aprende que amar é permanecer, que esperar é confiar, que renunciar é preparar um bem maior. A casa torna-se sinal discreto da comunhão entre o Esposo e aqueles que O acolhem.
O Evangelho nos convida a compreender que toda prática exterior deve brotar de um centro unificado. Quando o coração se dispersa, o jejum é vazio. Quando o coração se integra, até o silêncio fala. O verdadeiro crescimento consiste em harmonizar pensamento, vontade e ação sob a luz do Bem eterno.
Peçamos, portanto, a graça de reconhecer a Presença quando ela se manifesta e de perseverar quando ela parece oculta. Que nossa vida seja constante preparação para o encontro, e que cada instante, vivido com retidão e consciência, se torne espaço de comunhão com Aquele que é o fundamento invisível de toda alegria duradoura. Amém.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Enquanto a Presença se manifesta, o instante torna-se plenitude que participa do Eterno. Quando, contudo, ela parece retirar-se, o coração é chamado ao recolhimento, que atravessa o fluxo das horas e se ancora no Agora que não passa. O jejum transforma-se, assim, em vigília interior, na qual a alma aprende que a verdadeira comunhão não depende do tempo que transcorre, mas da permanência silenciosa no centro onde Deus é. Mt 9,15
A Revelação da Presença e o Mistério do Instante
O ensinamento do Senhor acerca do Esposo revela uma dimensão da realidade que ultrapassa a sucessão cronológica. Quando Ele afirma que os filhos das núpcias não podem entristecer-se enquanto o Esposo está presente, indica que a comunhão com Deus não é mera experiência psicológica, mas participação real na Vida que não se dissolve. O instante, tocado por essa Presença, deixa de ser fragmento efêmero e torna-se espaço de plenitude.
A alegria, portanto, não provém de circunstâncias favoráveis, mas do contato com Aquele que é fundamento do ser. Onde Deus se faz reconhecido, o coração experimenta unidade, e essa unidade integra pensamento, afeto e vontade numa harmonia que reflete a ordem eterna.
A Aparente Ausência e o Caminho do Recolhimento
Quando o Evangelho anuncia que virão dias em que o Esposo será velado, não descreve abandono, mas pedagogia divina. A experiência da ocultação desperta a interioridade e purifica a fé. A alma, privada de consolação sensível, aprende a buscar não os dons, mas o Doador.
Esse recolhimento conduz a um centro mais profundo do que as emoções passageiras. Ao atravessar o fluxo das horas, o coração descobre um ponto de estabilidade onde o ser encontra sustentação. Ali, a fidelidade não depende de sentimentos variáveis, mas de adesão consciente ao Bem supremo.
O Jejum como Vigília Interior
O jejum, nesse horizonte, adquire sentido contemplativo. Ele não é simples renúncia exterior, mas exercício de ordenação interior. Ao limitar o que é acessório, a alma amplia o espaço para o essencial. Trata-se de disciplina que educa o desejo e fortalece a vontade, tornando o homem mais senhor de si e mais atento à voz divina.
Essa vigília interior gera maturidade espiritual. A comunhão verdadeira não está condicionada à percepção constante de consolo, mas à permanência silenciosa naquele núcleo onde Deus habita. Aí se encontra a dignidade mais alta da pessoa, chamada a participar conscientemente da Vida eterna já no interior do tempo.
Assim, o ensinamento de Mt 9,15 convida cada fiel a reconhecer que a alegria e o jejum são momentos de um mesmo caminho. Ambos orientam a alma para o encontro com Aquele que é sempre presente, mesmo quando parece oculto, e que sustenta cada instante com a luz de Sua eternidade.
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