Liturgia Diária
28 – QUARTA-FEIRA
SANTO TOMÁS DE AQUINO
PRESBÍTERO E DOUTOR DA IGREJA
(branco, pref. dos doutores – ofício da memória)
“Liturgia da Palavra, Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Texto latino — Vulgata Clementina
In médio ecclésiæ aperuit os ejus,
et implevit eum Dominus
spiritu sapientiæ et intellectus,
stolam glóriæ índuit eum.(Ecclesiasticus 15,5)
Tradução litúrgica
No coração da Assembleia, o Senhor abriu-lhe a boca,
não para o discurso do tempo,
mas para a Palavra que desce do Alto.E o Eterno o plenificou com o Espírito
onde a Sabedoria não passa
e a Inteligência não se fragmenta.Revestiu-o, então, com o manto da Glória —
(Ecclesiasticus 15,5)
não como ornamento exterior,
mas como sinal visível
de uma consciência já habitada pelo Agora de Deus.
Tomás, nascido na terra italiana, atravessou o mundo sem se fixar nele. Formou-se junto a mestres luminosos, mas escolheu uma ordem onde o saber se curva ao silêncio. Seu sacerdócio não separou pensamento e oração: fez do estudo um ato de escuta e da ciência um caminho de purificação interior. Ensinou que a verdade não se impõe, antes se revela à inteligência que consente. Na Suma, o real é ordenado sem rigidez, aberto ao mistério que sustenta tudo. Por isso, permanece patrono daqueles que buscam conhecer sem aprisionar, pensar sem possuir, ensinar sem dominar.
Evangelium secundum Marcum 4 1–20
1 Et iterum coepit docere ad mare. Et congregata est ad eum turba multa, ita ut navim ascendens sederet in mari, et omnis turba circa mare super terram erat.
E o ensinamento nasce onde o movimento cessa, e a Palavra se eleva enquanto a escuta se dispõe.
2 Et docebat eos in parabolis multa, et dicebat illis in doctrina sua
O ensino não se entrega cru, mas velado, para que a compreensão amadureça no interior.
3 Audite. Ecce exiit seminans ad seminandum.
Escutar é abrir o ser ao gesto invisível daquele que confia o sentido ao tempo.
4 Et dum seminat, aliud cecidit secus viam, et venerunt volucres caeli et comederunt illud.
O que não encontra profundidade dissolve-se no ruído das superfícies.
5 Aliud vero cecidit super petrosa, ubi non habebat terram multam, et statim exortum est, quoniam non habebat altitudinem terrae.
O ímpeto sem raiz nasce rápido e se perde na mesma pressa.
6 Et cum exortus esset sol, aestuavit, et quia non habebat radicem, exaruit.
O ardor revela o que é sustentado e o que apenas aparenta ser.
7 Et aliud cecidit in spinas, et ascenderunt spinae et suffocaverunt illud, et fructum non dedit.
Quando o excesso ocupa o centro, o essencial deixa de respirar.
8 Et aliud cecidit in terram bonam, et dabat fructum ascendentem et crescentem, et afferebat unum triginta et unum sexaginta et unum centum.
Onde há acolhimento paciente, o sentido se multiplica além da medida.
9 Et dicebat Qui habet aures audiendi audiat.
Ouvir é consentir que o invisível organize o visível.
10 Et cum esset singularis, interrogaverunt eum hi qui cum eo erant, duodecim, parabolas.
A intimidade nasce quando a pergunta vence a distração.
11 Et dicebat eis Vobis datum est mysterium regni Dei, illis autem qui foris sunt, in parabolis omnia fiunt.
O mistério não exclui, apenas aguarda maturidade interior.
12 Ut videntes videant et non videant, et audientes audiant et non intellegant, ne quando convertantur et dimittantur eis peccata.
Sem disposição interior, o olhar permanece fragmentado.
13 Et ait illis Nescitis parabolam hanc, et quomodo omnes parabolas cognoscetis.
Quem não atravessa o símbolo permanece na superfície do real.
14 Qui seminat, verbum seminat.
A Palavra é lançada como possibilidade, não como imposição.
15 Hi autem sunt qui secus viam, ubi seminatur verbum, et cum audierint, statim venit Satanas et aufert verbum quod seminatum est in cordibus eorum.
O descuido interior abre passagem ao esquecimento.
16 Et similiter hi sunt qui super petrosa seminantur, qui cum audierint verbum, statim cum gaudio accipiunt illud.
A alegria sem enraizamento não sustenta a travessia.
17 Et non habent radicem in se, sed temporales sunt; deinde orta tribulatione et persecutione propter verbum, confestim scandalizantur.
A prova revela a solidez do que foi acolhido.
18 Et alii sunt qui in spinis seminantur, hi sunt qui verbum audiunt.
Escutam, mas não ordenam o interior.
19 Et sollicitudines saeculi et deceptio divitiarum et concupiscentiae circa reliqua introeuntes suffocant verbum, et sine fructu efficitur.
Quando o múltiplo governa, o uno se cala.
20 Et hi sunt qui super terram bonam seminantur, qui audiunt verbum et suscipiunt et fructificant triginta et sexaginta et centum.
A escuta fiel transforma o instante em permanência.
Verbum Domini
Reflexão:
A semente não escolhe o solo.
Ela confia no ritmo do real.
O fruto nasce da constância silenciosa,
não do impulso imediato.
Ordenar o interior é vencer a dispersão.
Aceitar o limite fortalece a permanência.
O que amadurece sustenta o peso do tempo,
e o ser encontra repouso na fidelidade ao sentido.
Versículo mais importante:
Et hi sunt qui super terram bonam seminantur, qui audiunt verbum et suscipiunt et fructificant triginta et sexaginta et centum.
E estes são os que foram semeados na terra boa,
aqueles que escutam a Palavra e a acolhem,
permitindo que o instante seja atravessado pelo eterno,
e que o sentido amadureça sem pressa,
produzindo fruto que não pertence ao relógio,
mas ao agora pleno, onde o invisível se faz presente,
multiplicando o ser para além da medida,
no centro silencioso onde Deus acontece. (Mc 4,20)
HOMILIA
A Escuta que Faz Germinar o Ser
A casa interior ordenada gera vínculos estáveis e fecundos.
O Senhor fala como quem semeia no invisível, confiando que o coração humano saiba tornar-se morada antes de tornar-se voz. Cada palavra lançada não busca rapidez nem aplauso, mas profundidade, pois somente o que desce às raízes atravessa o instante e permanece. O ensinamento revela que o crescimento verdadeiro não nasce do acúmulo, mas da ordem interior que permite ao ser sustentar o peso do sentido. Quando a pessoa se harmoniza por dentro, sua casa torna-se firme, e o vínculo que a une aos seus se organiza como espaço de transmissão e cuidado. Assim, o fruto não é conquista exterior, mas maturação silenciosa de uma escuta fiel.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Apresentação do versículo
E estes são os que foram semeados na terra boa, aqueles que escutam a Palavra e a acolhem, permitindo que o instante seja atravessado pelo eterno, e que o sentido amadureça sem pressa, produzindo fruto que não pertence ao relógio, mas ao agora pleno, onde o invisível se faz presente, multiplicando o ser para além da medida, no centro silencioso onde Deus acontece. (Mc 4,20)
A escuta como morada
O versículo revela que escutar não é um ato passageiro, mas a constituição de uma morada interior. A Palavra encontra espaço quando o coração se dispõe a receber sem resistência e sem pressa. Nesse acolhimento, o instante comum é elevado e ganha densidade, pois o ouvido do ser se abre ao que permanece.
O amadurecimento do sentido
O crescimento descrito não obedece à urgência humana. Ele se realiza pela constância que permite ao sentido ganhar forma ao longo do tempo vivido. O fruto nasce quando a interioridade aceita ser trabalhada e ordenada, reconhecendo que a verdade se oferece por desvelamento e não por imposição.
O agora pleno
O fruto mencionado não pertence à contagem das horas. Ele emerge quando o presente se torna pleno, unificado, reconciliado. Nesse estado, o invisível não se opõe ao visível, mas o sustenta, revelando uma presença que atravessa a experiência e a orienta.
A fecundidade do ser
Multiplicar-se além da medida não indica excesso exterior, mas plenitude interior. O ser que amadurece torna-se capaz de gerar vínculos estáveis, de sustentar a casa e de transmitir sentido. No silêncio profundo, Deus acontece como fundamento, não como ruído, e a vida encontra sua forma mais verdadeira.
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