“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”
Acclamatio ante Evangelium
R. Alleluia, alleluia, alleluia.
V. Beata Virgo Maria, quae, sine morte, martyrii palmam sub Cruce Domini meruit.
Aclamação ao Evangelho
R. Aleluia, Aleluia, Aleluia.
V. Feliz a Virgem Maria, que, sem passar pela morte, do martírio ganha a palma ao pé da cruz do Senhor!
Bendita Mãe, junto ao Filho amado, permanece diante da cruz, acolhendo em seu íntimo a dor que revela, no instante, a plenitude do amor divino.
Evangelium secundum Ioannem XIX, XXV-XXVII
XXV. Stabant autem juxta crucem Jesu mater ejus, et soror matris ejus, Maria Cleophæ, et Maria Magdalene.
Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena.
XXVI. Cum vidisset ergo Jesus matrem, et discipulum stantem, quem diligebat, dicit matri suæ: Mulier, ecce filius tuus.
Tendo Jesus visto sua Mãe e, junto dela, o discípulo que amava, disse à sua Mãe: Mulher, eis o teu filho.
XXVII. Deinde dicit discipulo: Ecce mater tua. Et ex illa hora accepit eam discipulus in sua.
Depois disse ao discípulo: Eis a tua Mãe. E, desde aquela hora, o discípulo a acolheu em sua intimidade.
Reflexão:
Diante da cruz, o instante revela uma presença que permanece inteira quando tudo parece chegar ao limite.
Maria permanece junto ao Filho, e sua presença se torna acolhimento silencioso daquilo que se cumpre.
Jesus, no centro da dor, pronuncia palavras que estabelecem uma nova proximidade entre a Mãe e o discípulo.
Nada se dispersa naquele momento, pois cada realidade recebe seu lugar no interior de uma ordem mais profunda.
O discípulo acolhe Maria, e aquilo que lhe é confiado passa a integrar sua própria existência.
A dor não interrompe o sentido, mas o revela com maior profundidade diante daquele que permanece atento.
Na presença do Filho, o coração aprende a permanecer inteiro, recebendo cada instante sem fugir de sua verdade.
Assim, junto à cruz, o instante se abre à plenitude daquele amor que permanece quando tudo se entrega.
Verbum Domini.
Versículo mais importante:
Proclamatio Sancti Evangelii secundum Ioannem XIX, XXV-XXVII
XXVI. Cum vidisset ergo Jesus matrem, et discipulum stantem, quem diligebat, dicit matri suae: Mulier, ecce filius tuus. (Ioannes 19,26)
Tendo Jesus visto sua Mãe e, junto dela, o discípulo que amava, disse à sua Mãe: Mulher, eis o teu filho. (João 19,26)
A presença de Cristo transforma o instante vivido em profundidade interior, onde a pessoa recebe de Deus a verdade de sua origem e aprende a realizá-la plenamente.
O Evangelho nos conduz ao momento em que Jesus, suspenso na cruz, contempla sua Mãe e o discípulo que amava. Nada naquela cena parece exteriormente favorável. A dor alcançou sua máxima intensidade, e, contudo, é justamente nesse instante que uma palavra de Cristo estabelece uma realidade nova. O Filho vê a Mãe, vê o discípulo e, no interior daquele momento decisivo, pronuncia uma palavra que reorganiza a existência daqueles que estão diante dele.
A força dessa passagem não está apenas naquilo que Jesus diz, mas na profundidade do olhar que antecede sua palavra. Ele vê. Sua palavra nasce de uma presença que reconhece o ser em sua verdade. Maria não é simplesmente aquela que permanece junto à cruz, nem o discípulo é somente aquele que acompanha o Mestre. Cada um é chamado a receber uma nova compreensão de si mesmo a partir da palavra que procede de Cristo.
Quando Jesus diz à sua Mãe que aquele discípulo é seu filho, e ao discípulo que aquela mulher é sua Mãe, algo ultrapassa a simples designação de uma relação. A palavra recebida transforma interiormente aqueles que a escutam. O vínculo que se estabelece não depende apenas de uma condição exterior, mas de uma realidade que passa a existir no interior da pessoa. O discípulo acolhe aquilo que lhe foi confiado e, ao acolhê-lo, sua própria existência adquire uma nova forma.
A Palavra de Cristo possui essa profundidade. Ela não vem simplesmente acrescentar uma informação ao conhecimento que já possuímos. Quando verdadeiramente recebida, alcança a interioridade e modifica a maneira pela qual o ser compreende sua própria origem, sua responsabilidade e seu destino. Conhecer a Palavra é apenas o início. Permitir que ela alcance o centro da existência é entrar em um processo de amadurecimento no qual a verdade recebida vai se tornando forma de vida.
O Evangelho revela, assim, que a maturidade espiritual não consiste apenas em compreender mais, mas em tornar-se aquilo que a verdade recebida exige. Existe uma responsabilidade diante daquilo que Deus revela. Cada pessoa é chamada a responder interiormente ao que reconhece como verdadeiro, não por imposição exterior, mas pela própria necessidade de coerência entre aquilo que contempla e aquilo que se torna.
O discípulo recebe uma palavra e, a partir dela, acolhe uma realidade. Seu ser não permanece indiferente ao que ouviu. Acolher significa permitir que aquilo que vem de Cristo encontre interioridade suficiente para transformar a existência. A pessoa amadurece quando deixa de permanecer apenas diante da verdade e começa a deixar que a verdade habite nela, ordenando suas escolhas, purificando suas intenções e aprofundando sua compreensão de si mesma.
Também a família aparece nessa passagem em uma profundidade que ultrapassa qualquer definição meramente exterior. O vínculo familiar alcança aqui uma dimensão espiritual porque nasce de uma palavra recebida e de uma presença acolhida. A família pode tornar-se espaço de amadurecimento do ser quando cada pessoa reconhece no outro não um objeto de posse, mas uma realidade confiada ao seu cuidado e recebida como dom.
Maria permanece junto à cruz. O discípulo permanece junto dela. Cristo permanece no centro daquele instante. A cena inteira revela uma verdade silenciosa sobre a existência humana. Há momentos em que aquilo que somos é colocado diante de uma palavra que nos chama a uma profundidade maior. Nesses momentos, não basta passar pelo instante. É preciso habitá-lo interiormente, discernir o que ele revela e permitir que sua verdade produza transformação.
O instante, quando vivido diante de Deus, não é fechado em si mesmo. Ele pode tornar-se profundidade. Aquilo que acontece nele pode alcançar regiões do ser que ultrapassam sua aparência imediata. O presente recebe então uma densidade que não provém de sua duração exterior, mas da presença que o atravessa e da verdade que nele se oferece.
É nessa profundidade que a existência encontra seu verdadeiro amadurecimento. O ser não se realiza pela simples passagem dos acontecimentos, mas pela maneira como recebe aquilo que cada momento lhe revela. A vida interior se forma quando a pessoa aprende a permanecer diante da verdade sem fugir dela, a acolher sua responsabilidade e a permitir que aquilo que recebeu de Deus alcance progressivamente sua forma mais plena.
Na cruz, Cristo não oferece apenas uma palavra para aquele momento. Sua palavra revela uma ordem mais profunda do ser. Maria recebe o discípulo. O discípulo recebe Maria. E ambos permanecem unidos diante daquele que entrega sua existência por amor. A palavra pronunciada naquele instante ultrapassa o próprio instante porque alcança a interioridade daqueles que a recebem e transforma o modo como passam a existir.
Também nós somos alcançados pela Palavra quando deixamos que ela ultrapasse o conhecimento exterior e entre na profundidade de nosso ser. Ali começa uma transformação que não depende do ruído das circunstâncias, mas da fidelidade interior à verdade recebida. O amadurecimento espiritual consiste precisamente nesse movimento pelo qual a pessoa se torna cada vez mais capaz de reconhecer sua origem, assumir sua responsabilidade e realizar em sua existência aquilo que recebeu como verdade.
A presença de Cristo permanece como centro dessa transformação. Diante dele, o instante deixa de ser apenas passagem e se torna ocasião de plenitude. O que recebemos pode tornar-se aquilo que somos, e aquilo que somos pode revelar, com maior inteireza, a verdade de nossa origem.
Assim, junto à cruz, aprendemos que a existência encontra seu sentido mais profundo quando permanece aberta à Palavra que a chama a tornar-se inteira. Cristo contempla, pronuncia e confia. O ser humano recebe, acolhe e amadurece. E, nesse encontro entre a presença divina e a interioridade humana, cada instante pode tornar-se lugar de realização, até que a vida alcance a plenitude para a qual foi chamada.
TEOLOGIA
Explicação Teológica
A Palavra de Cristo e a nova relação entre as pessoas
O fundamento desta passagem encontra-se na palavra de Jesus dirigida à sua Mãe e ao discípulo amado. «Mulier, ecce filius tuus» e, em seguida, «Ecce mater tua» constituem palavras que não devem ser compreendidas apenas como uma disposição prática diante da morte iminente de Jesus. Elas revelam uma ação de Cristo que alcança profundamente a existência daqueles que estão diante da cruz. [João 19,25-27]
O Evangelho apresenta Cristo como aquele que, mesmo no extremo de sua entrega, permanece plenamente presente àqueles que lhe foram confiados. Sua atenção não se fecha sobre a própria dor. O Filho permanece voltado para o outro e, mediante sua palavra, estabelece uma relação que passa a integrar a existência de Maria e do discípulo. A palavra de Cristo não descreve simplesmente uma realidade já existente. Ela constitui uma realidade nova no interior daqueles que a recebem.
Cristo como centro da revelação
A centralidade de Cristo é essencial para compreender o significado teológico dessa cena. Não é a iniciativa humana que produz a nova relação entre Maria e o discípulo. É Cristo quem pronuncia a palavra e entrega um ao outro. A origem da relação encontra-se, portanto, na ação daquele que está no centro do acontecimento pascal.
A Palavra de Cristo possui eficácia porque procede daquele que é o Filho e realiza, na própria entrega, a obra recebida do Pai. Sua palavra não é exterior à sua existência. Aquilo que ele pronuncia está unido àquilo que ele é e àquilo que realiza. Na cruz, palavra e entrega convergem. O Filho revela o amor divino não apenas pelo que ensina, mas pela própria forma de sua presença.
Por isso, a palavra dirigida a Maria e ao discípulo possui uma profundidade que ultrapassa o instante histórico em que foi pronunciada. O acontecimento permanece aberto porque a ação de Cristo não se encerra na superfície do momento. Sua palavra alcança a interioridade e revela que a existência humana pode receber de Deus uma forma nova de relação, de pertencimento e de responsabilidade.
A dignidade da pessoa diante de Deus
A passagem também ilumina a compreensão cristã da pessoa. Maria e o discípulo não aparecem como elementos anônimos dentro de uma multidão. Cristo os vê pessoalmente, dirige-se a cada um e estabelece entre eles uma relação concreta. O olhar de Cristo confirma que cada pessoa possui uma dignidade que procede de sua relação com Deus e encontra nele sua origem mais profunda.
A pessoa não encontra sua plenitude isolando-se em si mesma. Sua existência alcança maior inteireza quando recebe aquilo que Deus lhe confia e responde interiormente à verdade recebida. O discípulo não recebe apenas uma incumbência. Ele recebe uma realidade que passa a fazer parte de sua própria existência. Acolher Maria significa permitir que a palavra de Cristo transforme a própria maneira de existir.
Essa acolhida manifesta uma verdade essencial da vida cristã. A graça não elimina a responsabilidade humana, mas a desperta. Deus toma a iniciativa, Cristo pronuncia sua palavra e o ser humano é chamado a recebê-la de modo consciente e íntegro. A resposta pessoal à graça torna-se, assim, parte do próprio amadurecimento espiritual.
A família como realidade recebida
A presença de Maria e do discípulo junto à cruz permite contemplar também a família em sua dimensão mais profunda. O vínculo familiar não se reduz à sua dimensão biológica, afetiva ou social. Na perspectiva do Evangelho, ele pode tornar-se realidade espiritual quando é acolhido dentro da vontade de Deus.
Jesus entrega Maria ao discípulo e o discípulo a Maria. Essa entrega manifesta que uma relação pode ser recebida como vocação e cuidado. A pessoa não é chamada simplesmente a possuir vínculos, mas a reconhecer a responsabilidade que nasce deles. O outro se torna alguém confiado à própria existência por uma palavra que vem de Cristo.
Desse modo, a família pode ser compreendida como espaço no qual o ser humano aprende a acolher, permanecer, cuidar e amadurecer. Sua profundidade não está apenas na proximidade exterior, mas na capacidade de receber o outro como realidade que possui dignidade diante de Deus. A relação torna-se, então, ocasião de crescimento interior e de realização daquilo que foi confiado.
O instante iluminado pela presença
A cena acontece em um momento determinado da história, mas sua densidade ultrapassa aquilo que pode ser medido exteriormente. A cruz constitui um instante decisivo porque nele a entrega de Cristo alcança sua expressão extrema. O que acontece naquele momento possui uma profundidade que não depende de sua duração.
A presença de Cristo confere ao instante uma densidade espiritual singular. O momento não é vazio nem isolado. Ele está penetrado pela ação de Deus e orientado para uma plenitude que transcende a aparência imediata. O acontecimento histórico torna-se, assim, lugar de revelação.
A teologia cristã reconhece aqui uma característica fundamental da ação divina. Deus não está distante da história humana. Sua presença alcança o tempo e nele realiza sua obra. O eterno não permanece separado do instante. Em Cristo, a presença divina entra na história e torna-se perceptível na existência concreta do Filho que se entrega.
A transformação interior pela Palavra
A palavra «Ecce» repetida por Jesus possui uma força contemplativa particular. «Eis» não significa apenas indicar alguma coisa que está diante dos olhos. No contexto da passagem, esse chamado à atenção conduz Maria e o discípulo a reconhecerem uma realidade que lhes é confiada. Cristo os conduz a uma nova compreensão de sua relação.
A Palavra de Deus possui essa capacidade de deslocar o olhar humano da aparência para a verdade mais profunda. A pessoa pode conhecer exteriormente uma realidade e, contudo, permanecer interiormente distante dela. A fé começa a amadurecer quando aquilo que foi ouvido deixa de ser apenas conhecimento e passa a configurar a própria existência.
A conversão, nesse sentido, não é somente mudança de comportamento. É uma transformação do centro a partir do qual a pessoa compreende a si mesma, os outros e sua relação com Deus. A Palavra recebida penetra a interioridade e ordena progressivamente aquilo que estava disperso. O ser começa a adquirir maior unidade quando sua existência passa a corresponder à verdade que recebeu.
A graça e o amadurecimento do ser
O discípulo amado representa aquele que recebe uma palavra de Cristo e responde acolhendo aquilo que lhe foi confiado. O Evangelho afirma que, desde aquela hora, ele a tomou consigo. Essa expressão indica uma resposta concreta à palavra recebida. O discípulo não permanece apenas diante da revelação. Ele permite que ela entre em sua existência.
Esse movimento revela a dinâmica da graça. A iniciativa pertence a Deus, mas a graça recebida solicita uma resposta. O amadurecimento espiritual acontece quando a pessoa deixa que aquilo que recebeu de Deus se torne progressivamente forma de sua própria existência. A verdade não permanece exterior ao ser. Ela passa a formar o ser por dentro.
A plenitude cristã consiste nessa progressiva conformação da existência à verdade de Deus. Quanto mais a pessoa acolhe a presença divina, mais sua interioridade se torna capaz de reconhecer sua origem e orientar sua vida segundo aquilo que recebeu. O amadurecimento não significa simplesmente acumular experiências espirituais, mas permitir que a graça alcance cada vez mais profundamente aquilo que a pessoa é.
A plenitude revelada na cruz
A cruz manifesta que a plenitude de Cristo não depende da ausência de sofrimento, mas da perfeita unidade entre sua entrega, sua obediência e seu amor. No momento em que tudo parece chegar ao limite, Jesus continua sendo plenamente aquele que é. Sua presença permanece inteira e sua palavra continua fecunda.
Maria permanece. O discípulo permanece. Cristo permanece na entrega. Essa permanência revela uma dimensão essencial da existência cristã. O ser amadurece quando aprende a permanecer diante da verdade recebida e permite que essa verdade atravesse a própria existência até alcançar sua realização.
O Evangelho, portanto, não apresenta somente uma cena de despedida. Ele revela uma ação de Cristo que transforma relações, interioridades e destinos. A palavra pronunciada junto à cruz nasce do centro da entrega do Filho e alcança aqueles que a recebem. A presença de Cristo confere ao instante uma profundidade que ultrapassa o instante e abre a existência humana para uma plenitude que tem sua origem em Deus.
Diante dessa Palavra, a pessoa é chamada a reconhecer que sua existência não encontra seu sentido último em si mesma. Ela recebe de Deus sua origem, sua verdade e sua possibilidade de realização. Quando acolhe aquilo que Cristo lhe confia, sua interioridade começa a tornar-se mais una, sua responsabilidade adquire maior profundidade e sua vida passa a manifestar, de modo progressivo, a verdade para a qual foi criada.
FILOSOFIA
A presença que reúne o instante
[João 19,25-27]
A passagem de João 19,25-27 nos coloca diante de um instante no qual a realidade parece alcançar seu limite exterior. Cristo está na cruz, Maria permanece junto dele e o discípulo amado está presente. Entretanto, aquilo que acontece naquele momento não se esgota naquilo que os olhos podem perceber. A cena possui uma profundidade que somente se manifesta quando se contempla a relação entre presença, origem e realização.
O instante, considerado apenas segundo sua duração, parece breve. Mas a realidade que nele se manifesta possui uma densidade que não pode ser medida pela sucessão dos acontecimentos. Cristo contempla sua Mãe e o discípulo, pronuncia sua palavra e, por meio dela, estabelece uma relação nova. Algo começa a existir na interioridade daqueles que recebem essa palavra. O acontecimento exterior é breve, mas sua fecundidade ultrapassa a duração que o contém.
A origem que sustenta o que se manifesta
Toda realidade que chega à manifestação traz consigo uma profundidade anterior ao momento em que pode ser percebida. Aquilo que aparece não contém em sua aparência toda a verdade de sua origem. Existe uma interioridade na qual a realidade recebe forma, reúne-se e amadurece antes de alcançar sua expressão manifesta.
A palavra de Cristo junto à cruz permite contemplar esse princípio de maneira singular. Maria não recebe simplesmente uma informação, nem o discípulo recebe apenas uma tarefa. Ambos são introduzidos em uma relação que procede da palavra de Cristo. A origem dessa nova realidade não está neles. Ela procede daquele que, presente no centro do acontecimento, dá forma ao que passa a existir entre eles.
A origem não é simplesmente aquilo que ficou para trás. Uma origem verdadeira permanece presente naquilo que dela procede. O que nasce de uma origem conserva, em sua própria constituição, uma relação com aquilo que lhe deu existência. Por isso, compreender o ser exige ultrapassar sua aparência imediata e voltar-se para aquilo que o sustenta interiormente.
Na passagem do Evangelho, a palavra de Cristo manifesta precisamente essa relação entre origem e existência. A nova realidade entre Maria e o discípulo não surge de uma construção exterior. Ela recebe seu princípio de uma palavra que procede de Cristo. O que se manifesta naquele instante possui uma causa que o transcende e, ao mesmo tempo, se torna presente nele.
O silêncio que prepara a manifestação
Antes que uma realidade apareça exteriormente, existe uma profundidade na qual ela se prepara. O silêncio, nesse sentido, não significa ausência. Ele indica uma interioridade na qual aquilo que está destinado a manifestar-se permanece reunido antes de adquirir sua forma visível.
O Evangelho de João apresenta uma cena marcada por esse silêncio. Poucas palavras são pronunciadas, mas sua fecundidade é imensa. A palavra de Cristo não precisa de extensão para possuir profundidade. Ela alcança o interior porque procede de uma presença que não se dispersa na sucessão dos acontecimentos.
A palavra torna manifesto aquilo que já possuía sua origem na própria presença de Cristo. O silêncio que envolve a cena não é vazio entre duas manifestações. Ele é a profundidade na qual a realidade pode ser recebida antes de se tornar plenamente visível. Assim, o silêncio não se opõe à palavra. Ele prepara sua fecundidade.
Existe, portanto, uma dimensão invisível da existência que não pode ser reduzida àquilo que já apareceu. O ser amadurece interiormente antes que sua maturação possa ser reconhecida exteriormente. O que se manifesta é o resultado de uma profundidade que permaneceu reunida enquanto a forma ainda não havia alcançado sua expressão plena.
O instante que contém mais do que sua duração
Na cruz, essa relação entre profundidade e instante torna-se particularmente evidente. O acontecimento pertence à sucessão histórica, mas aquilo que nele se realiza ultrapassa a sucessão. A palavra de Cristo é pronunciada em um momento determinado, porém sua realidade não permanece confinada àquele momento.
O instante pode receber uma densidade que não procede de sua extensão cronológica. Um único momento pode conter uma realização cuja origem é mais profunda do que a duração que a manifesta. O tempo exterior registra a passagem, enquanto a interioridade acolhe aquilo que permanece.
É por isso que a cena do Calvário não deve ser contemplada apenas como um acontecimento situado no passado. Nela, uma realidade eterna alcança a existência temporal sem deixar de ser aquilo que é. A presença divina não precisa abandonar sua plenitude para entrar no instante. Ao contrário, é justamente sua plenitude que confere ao instante uma profundidade que a simples sucessão não poderia produzir.
O eterno, quando se manifesta, não se torna menos eterno por entrar na história. A manifestação acontece dentro do tempo, mas sua origem não se reduz ao tempo. O instante torna-se, assim, uma abertura para aquilo que o ultrapassa, porque nele pode tornar-se presente uma realidade cuja fonte não está limitada pela sucessão.
A geração interior do ser
Essa relação entre origem e manifestação permite compreender também o amadurecimento do ser. Nenhuma realização profunda acontece apenas na superfície. Antes de tornar-se visível, aquilo que se realiza precisa ser integrado interiormente. A existência amadurece quando aquilo que recebe encontra dentro de si a capacidade de acolhê-lo, reuni-lo e transformá-lo em forma própria de ser.
O discípulo amado representa, na passagem, aquele que recebe uma palavra e permite que ela determine sua existência. Jesus não apenas fala. Ele entrega uma realidade. E o discípulo não apenas escuta. Ele acolhe. Entre a palavra recebida e sua realização existe uma interioridade na qual a relação se estabelece e passa a constituir o próprio ser daquele que a recebe.
Esse movimento revela que receber é mais profundo do que ouvir. O ouvido pode receber uma palavra sem que o ser seja transformado por ela. A verdadeira acolhida acontece quando aquilo que vem de fora alcança o interior e encontra ali uma disposição capaz de integrá-lo. A partir desse encontro, o que foi recebido deixa de ser apenas algo conhecido e começa a participar da constituição daquele que o acolheu.
A maturação é justamente esse processo silencioso pelo qual uma realidade recebida se torna progressivamente própria sem perder sua origem. O ser não se realiza afastando-se de sua fonte, mas tornando-se capaz de manifestar aquilo que recebeu dela em uma forma cada vez mais plena.
A presença que reúne
Na cruz, Cristo reúne Maria e o discípulo por meio de sua palavra. Essa reunião não é simplesmente proximidade exterior. Ela possui uma unidade interior que nasce de uma origem comum. Ambos são colocados diante de uma realidade que não produziram por si mesmos, mas que recebem daquele que lhes fala.
A presença verdadeira possui essa capacidade de reunir. Ela não apenas ocupa um momento. Ela confere unidade àquilo que, sem ela, poderia permanecer disperso. Quando uma realidade originária permanece presente, aquilo que dela procede pode conservar sua unidade através da transformação e da manifestação.
A presença de Cristo junto à cruz manifesta precisamente essa força de unidade. Sua palavra atravessa o instante e estabelece uma relação que permanece. O que é pronunciado naquele momento não desaparece com o momento. A palavra permanece porque sua origem permanece, e aquilo que dela nasce pode continuar a amadurecer na interioridade de quem a recebeu.
A existência humana encontra aqui uma de suas dimensões mais profundas. Não somos plenamente compreendidos apenas por aquilo que aparece em determinado momento. Há em cada ser uma relação com sua origem, uma profundidade na qual aquilo que somos recebe consistência e uma possibilidade de realização que ultrapassa a aparência presente.
A realização que nasce da origem
A passagem de João conduz, finalmente, da origem à plenitude. Cristo não apenas estabelece uma relação entre Maria e o discípulo. Sua palavra faz com que uma realidade seja recebida, acolhida e realizada. A plenitude não aparece como algo acrescentado posteriormente ao ser. Ela encontra-se como possibilidade na própria origem e alcança sua manifestação por meio de um processo interior de acolhimento e maturação.
Aquilo que é originário permanece fecundo porque continua sustentando aquilo que dele procede. A origem não perde sua fecundidade quando algo se manifesta. Ao contrário, sua presença torna possível que a realidade manifestada alcance novas formas de realização sem romper sua unidade fundamental.
O instante da cruz revela, desse modo, uma estrutura profunda da existência. O que é eterno pode entrar na sucessão sem tornar-se prisioneiro dela. O que procede da origem pode manifestar-se sem deixar de estar unido à sua fonte. O que é recebido pode amadurecer na interioridade antes de alcançar sua expressão plena.
A Palavra de Cristo permanece no centro de todo esse movimento. Ela procede da origem, alcança o instante, penetra a interioridade e produz uma realidade que se manifesta na existência. Por isso, a cena junto à cruz não é apenas um momento de despedida. É uma revelação da maneira pela qual uma presença originária pode transformar o instante em profundidade e conduzir aquilo que recebe sua forma à plenitude.
Maria permanece diante do Filho. O discípulo permanece diante de Maria. Cristo permanece no centro. E, nessa permanência, o instante revela aquilo que sua duração não poderia explicar. A realidade mais profunda não é aquela que simplesmente passa diante de nós, mas aquela que, recebida em sua origem, amadurece silenciosamente até tornar-se presença plena na existência.
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