Liturgia Diária
4 – SEXTA-FEIRA
4ª SEMANA DA QUARESMA
(roxo – ofício do dia)
Por vosso nome, salvai-me, Senhor; e dai-me a vossa justiça! Ó meu Deus, atendei a minha prece e escutai as palavras que eu digo! (Sl 53,3s)
Diante das forças que tentam silenciar a Verdade, Jesus não se submete. Ele permanece firme na expressão da vontade do Pai, revelando a liberdade interior que transcende as ameaças externas. Sua confiança no desígnio divino nos convida a cultivar uma fé que não depende de imposições, mas brota da essência do ser. Ao buscar consolo no Pai, encontramos a força para resistir às adversidades e manter nossa integridade espiritual. Ele nos chama a viver segundo a liberdade da verdade, que não se curva às pressões, mas eleva o espírito que busca a autenticidade e a paz interior.
Lectio Sancti Evangelii secundum Ioannem 7,1-2.10.25-30
7,1 Post hæc autem ambulabat Jesus in Galilæam: non enim volebat in Judæam ambulare, quia quærebant eum Judæi interficere.
Depois disso, Jesus andava pela Galileia, pois não queria andar na Judeia, porque os judeus procuravam matá-lo.
7,2 Erat autem in proximo dies festus Judæorum, Scenopegia.
Estava próxima a festa dos judeus, a dos Tabernáculos.
7,10 Ut autem ascenderunt fratres ejus, tunc et ipse ascendit ad diem festum, non manifeste, sed quasi in occulto.
Mas, depois que seus irmãos subiram para a festa, ele também subiu, não publicamente, mas como em segredo.
7,25 Dicebant ergo quidam ex Jerosolymis: Nonne hic est, quem quærunt interficere?
Diziam então alguns de Jerusalém: Não é este aquele que procuram matar?
7,26 Et ecce palam loquitur, et nihil ei dicunt. Numquid vere cognoverunt principes quia hic est Christus?
E eis que fala abertamente, e nada lhe dizem. Será que, de fato, os chefes reconheceram que este é o Cristo?
7,27 Sed hunc scimus unde sit: Christus autem cum venerit, nemo scit unde sit.
Mas este nós sabemos de onde é; já o Cristo, quando vier, ninguém saberá de onde ele é.
7,28 Clamabat ergo Jesus in templo docens, et dicens: Et me scitis, et unde sim scitis: et a meipso non veni, sed est verus qui misit me, quem vos nescitis.
Então Jesus clamava no templo, ensinando e dizendo: Vós me conheceis e sabeis de onde sou; mas não vim de mim mesmo; aquele que me enviou é verdadeiro, e vós não o conheceis.
7,29 Ego scio eum, quia ab ipso sum, et ipse me misit.
Eu o conheço, porque venho dele, e ele me enviou.
7,30 Quærebant ergo eum apprehendere: et nemo misit in illum manus, quia nondum venerat hora ejus.
Então procuravam prendê-lo, mas ninguém lhe pôs as mãos, porque ainda não tinha chegado a sua hora.
Reflexão:
Clamabat ergo Jesus in templo docens, et dicens: Et me scitis, et unde sim scitis: et a meipso non veni, sed est verus qui misit me, quem vos nescitis.
"Então Jesus clamava no templo, ensinando e dizendo: Vós me conheceis e sabeis de onde sou; mas não vim de mim mesmo; aquele que me enviou é verdadeiro, e vós não o conheceis." (Jo 7:28)
Essa frase é central porque revela a origem transcendente de Jesus e a ignorância dos homens sobre Deus, destacando a missão divina que não se prende às aparências terrenas.
Aquele que fala a verdade não se submete ao medo, pois sabe que sua existência não se reduz às circunstâncias. Jesus caminha entre os que desejam silenciá-lo, mas seu olhar transcende os limites impostos pelos homens. A origem do ser não se define pelo que é visível, mas pelo que participa da essência que o sustenta. O tempo não aprisiona quem compreende que sua jornada é mais do que um destino imposto. A liberdade não é concessão de poderes terrenos, mas expressão de um chamado superior. Quem reconhece sua fonte não teme, mas avança, porque sabe que é enviado.
HOMILIA
O Chamado à Verdade que Liberta
Amados, ao meditarmos sobre as palavras do Evangelho segundo João (7,1-2.10.25-30), somos conduzidos a uma realidade que ultrapassa o tempo e as circunstâncias. Jesus, mesmo diante da hostilidade, não se oculta na sombra do temor. Ele avança, consciente de que sua existência não é mero acidente, mas um desdobramento de uma vontade superior. Seu caminhar não obedece às imposições dos homens, mas à verdade que o sustenta.
“Vós me conheceis e sabeis de onde sou; mas não vim de mim mesmo; aquele que me enviou é verdadeiro, e vós não o conheceis.” (Jo 7,28). Essas palavras ressoam como um convite à busca autêntica do que é verdadeiro. Há aqueles que julgam conhecer Cristo por sua aparência, por suas palavras ou por suas ações, mas desconhecem sua essência. Assim também acontece com a verdade: muitos pensam tê-la apreendido, mas ainda não penetraram em sua profundidade.
A jornada de Jesus nos revela que a verdade não se impõe pela força, nem se curva às expectativas alheias. Ela simplesmente é. O tempo e as circunstâncias não a limitam, pois sua raiz não está no transitório, mas no eterno. Quem a reconhece não se prende ao medo, não negocia sua liberdade interior, mas avança com os olhos voltados para aquilo que transcende.
Cristo nos ensina que aquele que é enviado deve caminhar sem hesitação, pois sua existência tem um propósito que não pode ser detido pelas ameaças do mundo. A verdadeira liberdade não é ausência de desafios, mas a consciência de que nenhum obstáculo pode alterar o que foi inscrito no âmago do ser.
Diante dessas palavras, somos chamados a uma escolha: permanecer na superficialidade das aparências ou lançar-nos à profundidade daquele que nos envia. Quem busca a verdade não recua, pois sabe que ela não depende do reconhecimento humano, mas da fidelidade ao que é. Sejamos, portanto, aqueles que não apenas conhecem Cristo de nome, mas que o reconhecem na essência, trilhando o caminho da liberdade que somente a verdade pode conceder.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
A Origem de Cristo e o Véu da Verdade
A frase de Jesus em João 7,28 encerra uma profundidade teológica que nos conduz ao mistério de sua origem e missão. Ele se encontra no templo, o espaço sagrado onde a revelação divina deveria ser reconhecida, e, no entanto, seus ouvintes permanecem na cegueira espiritual.
1. "Vós me conheceis e sabeis de onde sou" – O Conhecimento Aparente
Aqui, Cristo reconhece que os judeus o conhecem em sua manifestação humana. Ele é identificado como Jesus de Nazaré, filho de Maria, criado na Galileia. Seu nome e sua origem terrena são reconhecidos, mas esse conhecimento é apenas superficial. É o conhecimento segundo a carne (cf. 2Cor 5,16), que não penetra a verdade mais profunda de sua identidade.
Essa limitação no entendimento reflete uma realidade espiritual mais ampla: há um conhecimento que se apoia no que os sentidos percebem, mas a verdade última não pode ser captada apenas por essa via. É um lembrete de que a razão sozinha, sem a abertura para o transcendente, não é suficiente para compreender a plenitude do ser de Cristo.
2. "Mas não vim de mim mesmo" – A Origem no Pai
Jesus rejeita a ideia de uma existência autônoma. Sua vinda ao mundo não foi uma decisão isolada, nem fruto de uma necessidade histórica, mas um ato de envio. Ele não é apenas um profeta ou um mestre que decidiu proclamar uma nova doutrina; ele é o Enviado, aquele que procede do Pai, em perfeita comunhão com Ele (cf. Jo 8,42).
Aqui, há uma negação radical de qualquer interpretação que veja Cristo apenas como um sábio ou um reformador. Ele não vem de si mesmo porque não é um ser isolado no cosmos; sua identidade só pode ser compreendida a partir do Pai que o envia. Esse envio não é apenas um ato externo, mas expressa a própria relação eterna entre o Filho e o Pai.
3. "Aquele que me enviou é verdadeiro, e vós não o conheceis" – A Verdade Oculta
A revelação de Jesus é, ao mesmo tempo, uma denúncia: aqueles que se consideram os conhecedores da Lei e da tradição não conhecem verdadeiramente o Pai. O conhecimento de Deus não é um dado garantido pela herança cultural ou pelo domínio intelectual da Escritura. Ele exige uma abertura do espírito, um reconhecimento que vai além do visível e do racional.
Jesus revela que há um véu sobre os olhos daqueles que o escutam. Deus, que deveria ser conhecido, permanece desconhecido para os que confiam apenas em sua própria compreensão. Isso ecoa a afirmação de João no prólogo de seu Evangelho: "A Deus ninguém jamais viu; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou" (Jo 1,18).
Conclusão: O Chamado à Verdadeira Compreensão
Essa passagem nos leva a refletir sobre a distinção entre o conhecimento exterior e a experiência profunda da verdade. Saber sobre Cristo não é o mesmo que conhecê-lo. Jesus desafia seus ouvintes – e a nós – a não ficarmos presos às aparências ou às interpretações limitadas, mas a buscar a verdade última, que não pode ser encontrada sem que o véu seja removido.
A questão que permanece é: conhecemos realmente aquele que enviou Jesus? Pois quem não conhece o Pai, ainda que pense saber de onde Jesus veio, permanece na escuridão.
Leia também: LITURGIA DA PALAVRA
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