Liturgia Diária
5 – SÁBADO
4ª SEMANA DA QUARESMA
(roxo – ofício do dia)
Ondas da morte me envolveram totalmente, e as torrentes da maldade me aterraram; ao Senhor eu invoquei na minha angústia e de seu templo ele escutou a minha voz (Sl 17,5ss).
A Verdade, manifesta em Cristo, dissolve os ídolos do poder que se impõem sobre os homens. Sua luz transcende hierarquias artificiais e revela a dignidade inalienável do ser. Na comunhão do Verbo, não há espaço para privilégios sustentados pela imposição, mas sim para a expansão da liberdade espiritual. O coração desperto à essência do Logos se entrega à harmonia da Vontade Suprema, onde a missão não é submissão a estruturas transitórias, mas realização plena do chamado interior. Abramos nossa consciência ao fluxo divino, renunciando às amarras do egoísmo e assumindo, com inteireza, a responsabilidade de nossa própria existência.
Lectio Sancti Evangelii secundum Ioannem (Jo 7,40-53)
40. Ex illa ergo turba, cum audissent hos sermones eius, dicebant: Hic est vere propheta.
40. Então, alguns da multidão, ouvindo essas palavras, diziam: Este é realmente o profeta.
41. Alii dicebant: Hic est Christus. Quidam autem dicebant: Numquid a Galilæa venit Christus?
41. Outros diziam: Este é o Cristo. Mas alguns perguntavam: Porventura o Cristo vem da Galileia?
42. Nonne Scriptura dicit: Quia ex semine David et Bethleem castello, ubi erat David, venit Christus?
42. A Escritura não diz que o Cristo vem da descendência de Davi e da aldeia de Belém, onde Davi estava?
43. Dissensio itaque facta est in turba propter eum.
43. Assim, houve uma divisão entre a multidão por causa dele.
44. Quidam autem ex ipsis volebant apprehendere eum: sed nemo misit super eum manus.
44. Alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém pôs as mãos nele.
45. Venerunt ergo ministri ad pontifices et pharisæos. Et dixerunt eis illi: Quare non adduxistis eum?
45. Então, os guardas voltaram aos sumos sacerdotes e fariseus, e estes lhes perguntaram: Por que não o trouxestes?
46. Responderunt ministri: Numquam sic locutus est homo, sicut hic homo loquitur.
46. Os guardas responderam: Nunca um homem falou como este homem.
47. Responderunt ergo eis pharisæi: Numquid et vos seducti estis?
47. Então, os fariseus lhes disseram: Será que também fostes enganados?
48. Numquid ex principibus aliquis credidit in eum, aut ex pharisæis?
48. Por acaso, algum dos chefes ou dos fariseus acreditou nele?
49. Sed turba hæc, quæ non novit legem, maledicti sunt.
49. Mas esta multidão, que não conhece a Lei, é maldita.
50. Dixit Nicodemus ad eos, ille qui venit ad eum nocte, qui unus erat ex ipsis:
50. Nicodemos, um deles, que antes fora ter com Jesus, disse-lhes:
51. Numquid lex nostra judicat hominem, nisi prius audierit ab ipso, et cognoverit quid faciat?
51. A nossa Lei julga alguém sem antes ouvi-lo e saber o que ele faz?
52. Responderunt et dixerunt ei: Numquid et tu Galilæus es? Scrutare Scripturas, et vide quia a Galilæa propheta non surgit.
52. Responderam-lhe: És tu também galileu? Examina as Escrituras e verás que da Galileia não surge profeta.
53. Et reversi sunt unusquisque in domum suam.
53. E cada um voltou para sua casa.
Reflexão:
"Responderunt ministri: Numquam sic locutus est homo, sicut hic homo loquitur."
"Os guardas responderam: Nunca um homem falou como este homem." (Jo 7:46)
Essa declaração revela o impacto singular da mensagem de Cristo, que transcende qualquer discurso humano. Mesmo aqueles enviados para prendê-lo reconhecem a autoridade única de suas palavras, que não derivam do poder terreno, mas de uma verdade superior que liberta e ilumina.
Os homens dividem-se diante da Verdade, pois a liberdade do espírito desafia os limites das convenções. O Cristo não se submete à autoridade imposta, mas fala com soberania própria, despertando consciências. Sua palavra não necessita de respaldo institucional, pois ecoa a força do que é autêntico. Quem deseja aprisionar a verdade age com medo da luz que dissolve privilégios. Mas aquele que a acolhe compreende que não se trata de poder temporal, e sim da realização plena do ser. A pergunta essencial não é de onde Ele vem, mas se estamos prontos para segui-Lo na plenitude do caminho.
HOMILIA
A Voz que Desperta o Ser
O Verbo se manifesta, e os homens se dividem. Uns reconhecem sua presença luminosa e dizem: “Este é o Profeta.” Outros afirmam: “Este é o Cristo.” Mas há aqueles que, presos às estruturas do pensamento herdado, questionam: “Pode o Cristo vir da Galileia?” Assim, em torno da Verdade, levanta-se o véu da inquietação, pois seu resplendor exige de cada consciência uma escolha.
A Palavra que emana do Cristo não busca alianças com poderes passageiros, nem se curva às interpretações que reduzem o mistério ao controle humano. Sua voz ecoa na profundidade do ser e faz estremecer aqueles que se apegam às certezas rígidas. Pois aquele que fala com autoridade não necessita de títulos concedidos pelos homens, nem de validação por parte dos que julgam possuir o conhecimento definitivo. Ele próprio é a fonte, e sua mensagem ressoa em quem tem ouvidos para ouvir.
Os guardas enviados para prendê-lo, ao ouvirem sua voz, não podem executar a ordem recebida. Reconhecem, ainda que sem compreender plenamente, que jamais ouviram alguém falar assim. Algo neles desperta, e um vislumbre da liberdade perdida reluz na escuridão do dever imposto. Eles retornam sem Jesus, mas não voltam os mesmos, pois sua consciência tocou a margem do infinito.
Os fariseus, fiéis à sua estrutura de poder, não toleram esse despertar. Perguntam: “Também fostes enganados?” Como pode a autoridade ser desafiada? Como pode a multidão reconhecer algo que seus líderes não avalizaram? Mas Nicodemos, que em silêncio já buscava a verdade, interpela-os: “Pode a Lei condenar alguém sem antes ouvi-lo?” A resposta que recebe não é argumento, mas desprezo, pois aquele que questiona as certezas estabelecidas torna-se ameaça.
Diante de Cristo, a grande divisão se revela: há os que procuram compreender, há os que escutam e se transformam, e há os que rejeitam porque temem perder aquilo que lhes confere poder. Mas a Verdade não pode ser contida. Ela não se encerra nas tradições, nos dogmas inflexíveis ou nas regras estabelecidas por conveniência. Ela habita na liberdade da alma que ousa buscá-la e encontra nela a plenitude do ser.
Hoje, como então, muitos retornam para suas casas sem dar passos rumo à luz. Mas aqueles que ouvem e permitem que a voz do Verbo os atravesse, esses jamais serão os mesmos. Pois a Verdade, uma vez tocada, jamais pode ser esquecida.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
A Palavra que Transcende o Humano
A resposta dos guardas—“Nunca um homem falou como este homem” (Jo 7,46)—não é uma mera constatação de admiração, mas a confissão de um mistério que ultrapassa a ordem natural. Diante da autoridade de Cristo, aqueles que foram enviados para prendê-lo encontram-se, paradoxalmente, cativos da verdade que dele emana. Essa afirmação involuntária revela que a palavra de Jesus não pode ser equiparada à de nenhum outro homem, pois sua origem não é terrena, mas divina.
A Palavra que não se Submete às Estruturas do Mundo
Os fariseus esperavam que os guardas trouxessem Jesus preso, como se a verdade pudesse ser contida pela força. No entanto, algo os impediu. O que ouviram não era um discurso persuasivo no sentido humano, mas uma voz que falava diretamente à essência do ser. Jesus não argumenta como os rabinos de sua época, nem como os filósofos. Sua palavra não se apoia em lógicas convencionais ou em autoridades externas; ao contrário, ela possui a força intrínseca de quem é a própria Verdade.
O Evangelho de João já antecipava esse mistério: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Cristo não apenas ensina a verdade; Ele é a Verdade. Sua fala não é um instrumento para algo maior, mas a manifestação direta da realidade última. É por isso que suas palavras não apenas informam, mas transformam.
O Impacto do Logos Encarnado
Os guardas, mesmo sem compreender plenamente o que estavam ouvindo, experimentam algo inédito: uma autoridade que não vem do reconhecimento humano, mas da substância da própria Palavra. Esse fenômeno confirma as palavras de Jesus: “As palavras que vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras” (Jo 14,10).
O impacto desse encontro ecoa em toda a tradição cristã. Diferente de qualquer outro mestre, Jesus não fala a partir de conceitos aprendidos, mas a partir de sua própria identidade divina. Ele não aponta para uma verdade exterior a si mesmo, mas revela em sua pessoa a plenitude do que é eterno. Por isso, quem ouve sua voz com o coração aberto não pode permanecer o mesmo.
Conclusão: A Verdade que Liberta e Confronta
A frase dos guardas é uma das mais poderosas confissões involuntárias da divindade de Cristo. Eles foram enviados para subjugá-lo, mas foram eles que se tornaram dominados pela Verdade que dele emanava. Isso demonstra que a autoridade de Jesus não se impõe por meio da força ou da coerção, mas pela própria luz que carrega.
Diante dessa Palavra, a humanidade é sempre confrontada com uma escolha: resistir à verdade por medo do que ela exige ou abrir-se à sua força transformadora. A história dos guardas nos recorda que aqueles que verdadeiramente escutam a voz do Verbo Encarnado jamais podem permanecer os mesmos.
Leia também: LITURGIA DA PALAVRA
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