quinta-feira, 8 de outubro de 2026

LITURGIA DA PALAVRA - Liturgia Diária - Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 11,15-26 - 09.10.2026

Sexta-feira, 9 de Outubro de 2026
27ª Semana do Tempo Comum, Ano Par (II)


“Liturgia da Palavra com Evangelho do dia e reflexões espirituais para uso litúrgico, filosoficamente profundas, para fortalecer a fé e a vida diária, usando a Bíblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam.”


Aclamatió ad Evangelium Joannis XII, XXXIb-XXXII

31b-32. Nunc princeps huius mundi eicietur foras; et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad me ipsum.

Aclamação ao Evangelho João 12,31b-32

31b-32. Agora o príncipe deste mundo será lançado fora; e eu, quando for elevado da terra, atrairei para mim todas as coisas.


Quando o Eterno se faz presente na interioridade do ser, a verdade desperta e o Reino se manifesta como plenitude que cumpre a origem recebida.



Proclamatio Sancti Evangelii secundum Lucam XI, XV-XXVI

XV. Quidam autem ex eis dixerunt: In Beelzebub principe dæmoniorum ejicit dæmonia.

  1. Alguns deles, porém, diziam que Ele expulsa os demônios por Beelzebub, príncipe dos demônios.

XVI. Et alii tentantes, signum de cælo quærebant ab eo.

  1. Outros, para prová-lo, pediam-lhe um sinal do céu.

XVII. Ipse autem ut vidit cogitationes eorum, dixit eis: Omne regnum in seipsum divisum desolabitur, et domus supra domum cadet.

  1. Ele, porém, conhecendo os pensamentos deles, disse-lhes que todo reino dividido contra si mesmo será devastado, e uma casa cairá sobre outra.

XVIII. Si autem et Satanas in seipsum divisus est, quomodo stabit regnum ejus? quia dicitis in Beelzebub me ejicere dæmonia.

  1. Se também Satanás está dividido contra si mesmo, como permanecerá o seu reino? Pois dizeis que é por Beelzebub que expulso os demônios.

XIX. Si autem ego in Beelzebub ejicio dæmonia: filii vestri in quo ejiciunt? ideo ipsi judices vestri erunt.

  1. Se eu expulso os demônios por Beelzebub, por quem os expulsam os vossos filhos? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes.

XX. Porro si in digito Dei ejicio dæmonia: profecto pervenit in vos regnum Dei.

  1. Mas, se é pelo dedo de Deus que expulso os demônios, então o Reino de Deus chegou até vós.

XXI. Cum fortis armatus custodit atrium suum, in pace sunt ea quæ possidet.

  1. Quando um homem forte e armado guarda o seu pátio, permanecem em paz os bens que possui.

XXII. Si autem fortior eo superveniens vicerit eum, universa arma ejus auferet, in quibus confidebat, et spolia ejus distribuet.

  1. Mas, quando alguém mais forte do que ele vem sobre ele e o vence, tira-lhe todas as armas nas quais confiava e distribui os seus despojos.

XXIII. Qui non est mecum, contra me est: et qui non colligit mecum, dispergit.

  1. Quem não está comigo está contra mim, e quem não recolhe comigo, dispersa.

XXIV. Cum immundus spiritus exierit de homine, ambulat per loca inaquosa, quærens requiem: et non inveniens dicit: Revertar in domum meam unde exivi.

  1. Quando o espírito impuro sai do homem, percorre lugares sem água, procurando repouso e, não o encontrando, diz que voltará para sua casa, de onde saiu.

XXV. Et cum venerit, invenit eam scopis mundatam, et ornatam.

  1. E, quando chega, encontra-a varrida e adornada.

XXVI. Tunc vadit, et assumit septem alios spiritus secum, nequiores se, et ingressi habitant ibi. Et fiunt novissima hominis illius pejora prioribus.

  1. Então vai e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele. Eles entram, habitam ali, e a condição final daquele homem torna-se pior do que a primeira.

Verbum Domini

Reflexão:

A verdade permanece inteira quando o interior do ser encontra sua unidade na presença que o sustenta.
A divisão dispersa aquilo que deveria permanecer reunido em sua origem.
O instante acolhido em profundidade revela uma presença que não depende da sucessão.
O que recebe a verdade precisa conservar interiormente aquilo que recebeu.
O coração não encontra plenitude apenas quando se esvazia, mas quando se ordena ao bem.
A vigilância preserva a interioridade contra tudo aquilo que novamente procura ocupá-la.
A presença do Eterno ilumina o instante e reúne o ser em sua unidade mais profunda.
Assim, a existência encontra sua realização quando permanece unida àquilo que lhe dá origem.


Versículo mais importante:

Proclamatio Sancti Evangelii secundum Lucam XI, XV-XXVI

XX. Porro si in digito Dei ejicio dæmonia, profecto pervenit in vos regnum Dei. (Lucas XI, XX)

  1. Mas, se é pelo dedo de Deus que expulso os demônios, então o Reino de Deus chegou até vós. (Lucas 11,20)


HOMILIA

Quando o Reino encontra morada no interior do ser

A presença de Cristo não apenas vence aquilo que divide o coração, mas reúne o ser em sua origem e o conduz à plenitude de sua realização.

  O Evangelho de Lucas nos coloca diante de uma realidade que ultrapassa a aparência dos acontecimentos. Jesus expulsa os demônios, e alguns, incapazes de reconhecer a origem daquilo que se manifesta diante deles, procuram atribuir sua ação a uma força contrária. A resposta de Cristo não se limita a desfazer uma acusação. Ele revela uma verdade mais profunda sobre o ser humano. Aquilo que permanece dividido em seu interior perde sua consistência, porque nenhuma existência encontra plenitude enquanto sua própria interioridade permanece dispersa.

  Quando Jesus afirma que, se expulsa os demônios pelo dedo de Deus, então o Reino de Deus chegou, Ele nos conduz para além daquilo que os sentidos conseguem perceber. O Reino não aparece somente como uma realidade futura. Ele se torna presente quando Deus alcança o interior do ser e nele estabelece uma ordem nova. O instante deixa de ser apenas passagem e torna-se lugar de encontro. A presença divina toca aquilo que somos e começa a reunir o que estava separado.

  Essa transformação não acontece pela simples aquisição de um conhecimento exterior. Podemos conhecer muitas coisas sobre Deus e, entretanto, permanecer distantes daquilo que Ele deseja realizar em nós. A Palavra de Cristo exige uma passagem mais profunda. Ela precisa alcançar a interioridade, onde cada pessoa se encontra diante da verdade sobre si mesma. É nesse espaço íntimo que o conhecimento pode tornar-se transformação, e a verdade recebida pode adquirir existência concreta.

  O Senhor também afirma que aquele que não está com Ele está contra Ele, e aquele que não recolhe com Ele dispersa. Essas palavras revelam que a existência não amadurece pela neutralidade interior. Cada pessoa se constrói a partir daquilo que acolhe, conserva e realiza. O ser humano participa de sua própria formação, porque aquilo que recebe interiormente pode ser integrado à sua vida ou deixado sem correspondência em seus atos.

  A autodeterminação interior nasce dessa responsabilidade diante da verdade. Não se trata de construir a própria existência a partir de uma vontade isolada, mas de permitir que a verdade recebida encontre correspondência no próprio ser. Deus não elimina a responsabilidade pessoal. Ao contrário, sua presença torna essa responsabilidade mais profunda, porque ilumina o interior e permite reconhecer aquilo que precisa ser ordenado, purificado e amadurecido.

  Por isso, a imagem da casa presente no Evangelho possui uma profundidade particular. O espírito impuro parte, e a casa permanece limpa e adornada, mas sua condição interior não foi verdadeiramente consolidada. O vazio, quando não é preenchido por uma presença que sustente o ser, pode tornar-se novamente lugar de desordem. A transformação exige mais do que retirar aquilo que faz mal. Exige uma interioridade capaz de acolher e conservar o bem.

  Também a família encontra aqui uma compreensão que ultrapassa sua dimensão exterior. Antes de ser apenas uma realidade de vínculos, ela é um espaço no qual o ser humano aprende a receber, permanecer, amadurecer e entregar-se. A família pode tornar-se lugar de formação da interioridade quando seus vínculos não se limitam à convivência, mas participam da construção profunda da pessoa. Aquilo que uma pessoa recebe em sua origem pode acompanhar sua existência e contribuir para sua maturação.

  Cada instante, então, pode ser compreendido como uma ocasião de realização daquilo que somos chamados a ser. A existência não amadurece apenas pelo acúmulo de acontecimentos, mas pela profundidade com que cada acontecimento é recebido e integrado. Há momentos que passam sem tocar o interior, enquanto outros permanecem porque alcançam uma dimensão mais profunda do ser. Neles, aquilo que somos encontra a possibilidade de tornar-se mais inteiro.

  Cristo não vem simplesmente acrescentar algo à existência humana. Sua presença alcança a própria raiz da pessoa. Ele revela uma origem que não depende apenas daquilo que recebemos do mundo e conduz a existência para uma plenitude que não pode ser produzida somente pelo esforço humano. Quando o ser se volta para essa origem, começa a compreender que sua realização não consiste em possuir mais, mas em tornar-se inteiro diante daquele de quem recebeu sua existência.

  O Reino de Deus chegou. Essa afirmação de Cristo permanece como uma palavra dirigida ao interior de cada pessoa. O Reino se manifesta quando a presença de Deus deixa de ser apenas uma verdade conhecida e passa a ordenar a própria existência. Então o instante recebe profundidade, a interioridade encontra direção e aquilo que estava disperso começa a reunir-se.

  A maturidade espiritual consiste, portanto, em permitir que a presença de Cristo permaneça no interior depois que o primeiro impacto da Palavra passou. Não basta ouvir. É necessário acolher, integrar e realizar. Não basta afastar aquilo que desfigura o ser. É necessário permitir que aquilo que procede de Deus encontre morada e produza uma transformação verdadeira.

  Assim, o Evangelho nos conduz ao centro da existência. O Reino não está distante daquele que acolhe sua presença. Ele começa a revelar-se quando o ser humano se reúne interiormente diante de Deus e reconhece sua origem, sua responsabilidade e seu destino de plenitude. Nesse encontro, o instante deixa de ser apenas passagem e torna-se presença vivida. E a vida, alcançada pela Palavra de Cristo, começa a realizar em profundidade aquilo para o qual foi chamada.


TEOLOGIA

Explicação Teológica

  O fundamento desta explicação encontra-se na palavra de Cristo em Lucas 11,20, quando Ele afirma que, se expulsa os demônios pelo dedo de Deus, então o Reino de Deus chegou. Essa afirmação revela que a ação de Deus não pertence apenas ao horizonte de uma realidade futura. Em Cristo, o Reino se torna presença efetiva e alcança a existência humana em sua profundidade.

O Reino de Deus presente em Cristo

  A expressão utilizada por Jesus possui grande densidade teológica. O Reino de Deus não é simplesmente um território, uma realidade exterior ou uma recompensa reservada para depois da vida presente. Ele designa o próprio exercício soberano de Deus sobre a criação e, de modo particular, sua ação salvadora no ser humano. Quando Cristo anuncia que o Reino chegou, Ele manifesta que a ação divina já está operando no interior da história.

  A presença do Reino encontra sua forma plena na pessoa de Jesus Cristo. Não se trata apenas de uma mensagem que Cristo transmite, mas da presença do próprio Filho que torna perceptível a ação do Pai. Suas obras manifestam aquilo que suas palavras anunciam. A expulsão dos demônios revela que o poder de Deus alcança aquilo que aprisiona, desordena e impede o ser humano de permanecer na verdade de sua origem.

O dedo de Deus e a ação divina

  A expressão dedo de Deus recorda a ação direta e poderosa do próprio Deus. Cristo não apresenta sua obra como resultado de uma capacidade meramente humana. Aquilo que acontece por meio dele manifesta a ação divina que conduz a criação à sua finalidade.

  Existe aqui uma verdade essencial sobre a graça. Deus não permanece distante da existência humana, observando-a de fora. Sua ação alcança o ser e o transforma desde dentro. A graça não destrói aquilo que a pessoa é. Ela restaura, ordena e conduz a natureza humana para sua realização em Deus.

  Por isso, a ação divina não deve ser compreendida apenas como uma intervenção sobre circunstâncias exteriores. O Reino alcança o centro da pessoa, onde se encontram sua consciência, sua vontade, sua inteligência e sua capacidade de acolher a verdade. A transformação cristã acontece quando a graça encontra uma interioridade capaz de recebê-la.

A unidade interior diante da verdade

  O contexto do Evangelho amplia essa compreensão. Jesus afirma que um reino dividido contra si mesmo não pode permanecer. A divisão interior não representa apenas uma dificuldade psicológica. Ela possui uma dimensão espiritual, porque a pessoa humana foi criada para a unidade de seu ser diante de Deus.

  A verdade recebida pela fé exige uma correspondência interior. Não basta reconhecer exteriormente aquilo que Cristo revela. A Palavra precisa alcançar a pessoa em sua totalidade, para que inteligência, vontade e existência caminhem em direção à mesma verdade.

  A fé cristã, portanto, não consiste somente em admitir determinadas verdades. Ela constitui uma relação viva com Cristo. Pela fé, a pessoa permite que a verdade revelada alcance sua interioridade e transforme progressivamente sua maneira de compreender a própria existência. A conversão torna-se, assim, uma reorientação profunda do ser para Deus.

A interioridade como morada

  A segunda parte da passagem, na qual Jesus fala da casa deixada limpa e adornada que volta a ser ocupada, apresenta uma dimensão decisiva da conversão. A transformação não consiste simplesmente em eliminar aquilo que é contrário a Deus. É necessário que a presença de Deus encontre morada.

  A casa representa, nesse sentido, a interioridade humana. Uma interioridade pode estar aparentemente ordenada e, entretanto, permanecer vazia de uma presença que lhe dê fundamento. A ausência do mal, por si mesma, não constitui a plenitude do bem. A existência precisa ser preenchida por aquilo que procede de Deus.

  Essa compreensão impede que a conversão seja reduzida a uma simples mudança de comportamento. O cristianismo não propõe apenas uma reorganização exterior da vida. Cristo chama a pessoa a uma transformação do próprio centro de sua existência, para que sua vida encontre unidade a partir da presença de Deus.

Cristo como princípio da unidade

  Quando Jesus afirma que aquele que não está com Ele está contra Ele e que aquele que não recolhe com Ele dispersa, manifesta a centralidade absoluta de sua pessoa. Cristo não aparece como um elemento entre muitos outros dentro da experiência religiosa. Ele é o centro a partir do qual a existência encontra sua verdadeira orientação.

  Estar com Cristo significa permitir que a própria existência seja reunida nele. Recolher com Cristo significa integrar a vida à verdade que Ele revela. A dispersão, ao contrário, acontece quando a pessoa recebe a verdade sem permitir que ela alcance a totalidade de seu ser.

  Essa unidade não elimina a singularidade da pessoa. Pelo contrário, é justamente na comunhão com Deus que a pessoa descobre mais profundamente quem é. Sua dignidade não nasce de sua autossuficiência, mas do fato de possuir uma origem em Deus e uma vocação à plenitude nele.

A graça e a responsabilidade da pessoa

  A presença da graça não elimina a responsabilidade humana. Deus age primeiro, sustenta e conduz, mas a pessoa é chamada a acolher essa ação. Existe uma resposta interior diante da verdade que foi recebida.

  A autodeterminação interior encontra aqui seu sentido cristão mais profundo. A pessoa não se realiza fechando-se em si mesma, mas assumindo conscientemente aquilo que reconhece como verdadeiro diante de Deus. Sua responsabilidade consiste em permitir que a verdade recebida alcance suas escolhas, seus afetos, sua consciência e sua maneira de viver.

  A conversão, portanto, possui uma dimensão progressiva. A graça inaugura uma transformação que precisa ser acolhida e aprofundada ao longo da existência. O amadurecimento espiritual acontece quando aquilo que foi recebido pela fé deixa de permanecer apenas como conhecimento e passa a constituir a própria vida.

A pessoa e a família

  A dimensão familiar também pode ser compreendida à luz dessa verdade. A família possui uma importância espiritual porque nela a pessoa aprende as primeiras formas de acolhimento, pertencimento, responsabilidade e entrega. Antes de qualquer formulação social, existe uma realidade profundamente humana e espiritual no vínculo pelo qual uma pessoa recebe a existência e aprende a reconhecê-la como dom.

  A família torna-se fecunda quando seus vínculos favorecem o amadurecimento da pessoa e sua abertura à verdade. Sua missão não consiste apenas em preservar uma convivência, mas em favorecer um espaço no qual cada pessoa possa crescer em sua dignidade, aprender a responsabilidade e reconhecer que sua existência possui uma origem que a transcende.

O instante e a plenitude

  A palavra de Cristo sobre a chegada do Reino também ilumina a relação entre o instante e a plenitude. O Reino já chegou, embora sua realização definitiva ainda não tenha alcançado sua consumação. Existe, portanto, na experiência cristã, uma presença real que já acontece e uma plenitude que ainda será manifestada em sua totalidade.

  O instante não precisa ser compreendido como simples passagem entre um antes e um depois. Quando alcançado pela presença de Deus, ele pode tornar-se lugar de realização daquilo que a graça está formando na pessoa. A eternidade toca a existência sem destruir sua condição temporal, e o ser humano pode experimentar, no interior de sua história, uma presença que ultrapassa a sucessão dos acontecimentos.

  É nesse sentido que a maturação espiritual possui profundidade. Deus não conduz a pessoa apenas de um momento para outro. Ele a conduz para uma realização mais plena de seu ser. Cada acolhimento da graça, cada resposta à verdade e cada retorno consciente à presença de Cristo participam dessa formação interior.

A plenitude como realização do ser

  A plenitude cristã não consiste na expansão indefinida das possibilidades humanas. Ela consiste na realização do ser segundo sua origem em Deus. A pessoa encontra sua verdade quando sua existência se torna capaz de acolher aquilo para o qual foi criada.

  Cristo é o princípio e o centro dessa realização. Nele, a pessoa não encontra apenas uma orientação moral, mas a revelação de sua própria vocação. O Filho conduz ao Pai, e a vida humana encontra sua finalidade na comunhão com aquele de quem procede.

  Assim, a afirmação de Jesus sobre a chegada do Reino possui uma dimensão profundamente ontológica e espiritual. Deus não está apenas oferecendo algo ao ser humano. Ele está realizando uma obra no próprio ser da pessoa, chamando-a da dispersão para a unidade, da desordem para a verdade e da incompletude para a plenitude.

  A Palavra de Cristo permanece, portanto, como presença que exige acolhimento. O Reino chegou, e sua chegada pede uma interioridade capaz de recebê-lo. Quando a pessoa permite que essa presença alcance sua profundidade, a verdade deixa de ser apenas conhecida e começa a tornar-se vida. Nesse encontro, a existência reencontra sua origem e caminha, sob a graça, para a plenitude para a qual foi criada.


FILOSOFIA

Quando a presença se torna manifestação

  A passagem de Lucas 11,15-26 coloca diante da contemplação uma afirmação decisiva de Cristo. Ao dizer que, se expulsa os demônios pelo dedo de Deus, então o Reino de Deus chegou, Jesus não está apenas descrevendo um acontecimento exterior. Ele revela uma realidade que já atua no interior da existência e cuja presença pode ser reconhecida na transformação daquilo que estava submetido à desordem.

A chegada que acontece no interior

  A palavra de Cristo possui uma profundidade que ultrapassa a sequência visível dos acontecimentos. O Reino chega, mas sua chegada não deve ser compreendida somente como deslocamento de algo que estava distante para algo que agora se encontra próximo. Há uma presença que se manifesta quando aquilo que permanece oculto começa a produzir uma transformação perceptível.

  O que aparece exteriormente possui uma origem que não coincide com sua aparição. Antes que a manifestação alcance sua forma visível, existe uma realidade interior que a sustenta. A passagem evangélica permite contemplar justamente essa relação entre aquilo que se manifesta e aquilo que, permanecendo mais profundo, torna possível a manifestação.

  Cristo revela que a ação de Deus não começa no momento em que o homem consegue percebê-la. O que se torna visível já participa de uma ação que o precede em sua manifestação. A presença divina não depende do reconhecimento humano para existir. Ela pode permanecer atuante enquanto ainda não foi compreendida, percebida ou nomeada.

A unidade que sustenta o ser

  Quando Jesus afirma que todo reino dividido contra si mesmo será devastado, sua palavra alcança uma dimensão que ultrapassa a simples organização exterior. A divisão revela uma ruptura na própria consistência daquele que deveria permanecer uno. Aquilo que não consegue reunir sua própria realidade perde a capacidade de sustentar aquilo que manifesta.

  O ser possui uma exigência de unidade. Sua existência não se realiza plenamente enquanto aquilo que o constitui permanece disperso. A interioridade é justamente a profundidade na qual os diversos movimentos da existência podem encontrar integração, permitindo que aquilo que está em formação adquira consistência sem perder sua origem.

  Por isso, a transformação anunciada por Cristo não pode ser reduzida à expulsão daquilo que desordena. A verdadeira transformação exige uma presença capaz de permanecer. Retirar o que impede a unidade é apenas o início. O ser precisa encontrar aquilo que o reúne e lhe permite amadurecer a partir de dentro.

O silêncio onde a presença amadurece

  A segunda parte da passagem aprofunda essa realidade ao apresentar a casa que foi limpa e adornada, mas permanece sem uma presença que a sustente. O vazio exteriormente ordenado não constitui ainda plenitude. Uma realidade pode parecer preparada e, entretanto, permanecer interiormente sem aquilo que lhe confere permanência.

  A casa torna-se, então, uma imagem da interioridade humana. Não se trata apenas de um espaço que precisa ser purificado, mas de uma profundidade que precisa acolher uma presença. O que foi retirado não basta para constituir aquilo que deve permanecer. A existência somente encontra sua verdadeira consistência quando aquilo que a habita corresponde à sua origem.

  Existe, portanto, uma diferença fundamental entre ausência e silêncio. A ausência pode ser apenas falta. O silêncio, porém, pode conter aquilo que ainda está amadurecendo. Nele, aquilo que não se manifesta exteriormente pode adquirir consistência sem deixar de permanecer oculto. O silêncio não é necessariamente vazio. Pode ser a profundidade na qual uma realidade encontra condições para tornar-se aquilo que é.

A presença que gera manifestação

  A palavra de Cristo revela que a ação divina possui uma relação profunda com a geração do ser. Deus não apenas intervém sobre uma realidade já constituída. Sua presença alcança aquilo que está em sua origem e conduz a existência para sua realização.

  Essa ação não precisa destruir a interioridade para produzir manifestação. Ao contrário, é justamente na interioridade que a presença encontra continuidade. Aquilo que recebe uma origem precisa de profundidade para tornar-se plenamente aquilo que é. A manifestação exterior não substitui esse processo. Ela é sua expressão.

  Assim, o que chega a aparecer não deve ser separado daquilo que permaneceu oculto durante sua formação. O visível conserva em si a marca de uma realidade anterior à própria manifestação. Cada presença verdadeira traz consigo uma profundidade que não pode ser reduzida ao instante de sua aparição.

A eternidade que alcança o instante

  O Evangelho permite compreender o instante de maneira mais profunda. O instante não é apenas uma fração passageira entre aquilo que já aconteceu e aquilo que ainda acontecerá. Quando uma presença originária se manifesta nele, sua profundidade ultrapassa sua duração mensurável.

  O Reino chega no instante anunciado por Cristo, mas aquilo que chega não se esgota no momento em que é percebido. O instante torna-se lugar de manifestação de uma realidade que não nasceu naquele momento. O que é eterno pode tocar a sucessão sem tornar-se sucessivo em sua origem.

  Essa relação transforma a compreensão da própria existência. A pessoa não é somente aquilo que aparece em determinado momento. Existe nela uma profundidade que conserva sua origem, recebe aquilo que a transforma e amadurece aquilo que ainda não alcançou sua expressão plena.

  A maturação, desse modo, não consiste simplesmente em acumular momentos. Ela acontece quando o ser se transforma na profundidade de sua própria interioridade. O tempo da manifestação não coincide necessariamente com o tempo da formação. Algo pode estar verdadeiramente acontecendo antes que sua forma exterior permita reconhecê-lo.

A origem e o destino da existência

  A passagem de Lucas conduz finalmente à relação entre origem e destino. Se o Reino de Deus chegou, então a existência humana não está entregue a uma sucessão sem direção. Existe uma origem que sustenta e uma plenitude para a qual a criatura é conduzida.

  Cristo manifesta essa unidade entre origem e realização. Sua presença não acrescenta simplesmente uma realidade exterior à vida humana. Ele revela o sentido para o qual o ser foi constituído. A criatura encontra sua verdade quando aquilo que recebe de sua origem começa a tornar-se plenamente presente em sua própria existência.

  Por isso, a palavra de Cristo exige mais do que reconhecimento intelectual. Ela pede acolhimento. Aquilo que é recebido precisa penetrar na interioridade, permanecer nela e transformar progressivamente sua forma de existir. A verdade não alcança sua finalidade apenas quando é conhecida, mas quando se torna presença que configura o ser.

A plenitude que se manifesta

  A passagem de Lucas 11,15-26 revela, portanto, uma realidade que se movimenta da origem à manifestação sem abandonar sua unidade. O que procede de Deus alcança o interior, amadurece em profundidade e encontra expressão quando chega o momento de sua manifestação.

  A plenitude não aparece como algo acrescentado ao ser desde fora. Ela se revela quando aquilo que foi recebido em sua origem alcança sua realização própria. O ser não se torna plenamente aquilo que é por acumular exterioridades, mas por permitir que sua verdade mais profunda encontre continuidade em sua existência.

  A palavra de Cristo sobre a chegada do Reino torna-se, assim, uma revelação sobre a própria estrutura da existência. Há uma presença que precede sua manifestação, uma interioridade que acolhe e amadurece, um silêncio que sustenta o que ainda não apareceu e um instante no qual aquilo que estava oculto pode tornar-se presença manifesta.

  Quando o ser permanece unido à sua origem, a manifestação deixa de ser ruptura e torna-se realização. O que estava interiormente presente encontra sua forma, o que estava em maturação alcança sua expressão e o instante revela uma profundidade que não termina nele. É nessa unidade entre origem, presença e manifestação que a existência encontra o caminho de sua plenitude.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

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Segunda Leitura

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