cf. Matthaeum XI, 25
R. Alleluia, alleluia, alleluia.
V. Confiteor tibi, Pater, Domine caeli et terrae, quia abscondisti haec a sapientibus et prudentibus, et revelasti ea parvulis.
Aclamação ao Evangelho
cf. Mt 11,25
R. Aleluia, Aleluia, Aleluia.
V. Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e aos prudentes e as revelaste aos pequeninos.
Alegrai-vos, pois vossos nomes estão inscritos no céu, onde cada ser encontra sua origem, sua verdade e sua plenitude na presença viva de Deus para sempre.
Lectio sancti Evangelii secundum Lucam X, XVII-XXIV
XVII. Reversi sunt autem septuaginta duo cum gaudio, dicentes: Domine, etiam dæmonia subjiciuntur nobis in nomine tuo.
Os setenta e dois voltaram cheios de alegria e disseram ao Senhor que até os demônios se submetiam a eles em seu nome.
XVIII. Et ait illis: Videbam Satanam sicut fulgor de cælo cadentem.
E Jesus lhes disse que contemplava Satanás cair do céu como um relâmpago.
XIX. Ecce dedi vobis potestatem calcandi supra serpentes, et scorpiones, et super omnem virtutem inimici: et nihil vobis nocebit.
Eis que vos dei poder para pisar serpentes e escorpiões e sobre toda força do inimigo, e nada vos causará dano.
XX. Verumtamen in hoc nolite gaudere quia spiritus vobis subjiciuntur: gaudete autem, quod nomina vestra scripta sunt in cælis.
Contudo, não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós, mas alegrai-vos porque vossos nomes estão escritos nos céus.
XXI. In ipsa hora exultavit Spiritu Sancto, et dixit: Confiteor tibi Pater, Domine cæli et terræ, quod abscondisti hæc a sapientibus, et prudentibus, et revelasti ea parvulis. Etiam Pater: quoniam sic placuit ante te.
Naquela mesma hora, Jesus exultou no Espírito Santo e disse que vos dava graças, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas aos sábios e prudentes e as revelastes aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do vosso agrado.
XXII. Omnia mihi tradita sunt a Patre meo. Et nemo scit quis sit Filius, nisi Pater: et quis sit Pater, nisi Filius, et cui voluerit Filius revelare.
Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo.
XXIII. Et conversus ad discipulos suos, dixit: Beati oculi qui vident quæ vos videtis.
E, voltando-se para os discípulos, disse-lhes que são bem-aventurados os olhos que contemplam aquilo que vedes.
XXIV. Dico enim vobis quod multi prophetæ et reges voluerunt videre quæ vos videtis, et non viderunt: et audire quæ auditis, et non audierunt.
Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram contemplar aquilo que vedes, mas não o contemplaram, e ouvir aquilo que ouvis, mas não o ouviram.
Verbum Domini
Reflexão:
A alegria verdadeira nasce quando o interior reconhece aquilo que permanece além daquilo que passa.
O ser encontra sua medida quando acolhe a presença que lhe dá origem e sentido.
O instante torna-se pleno quando é recebido sem dispersão, em atenção silenciosa ao que nele se revela.
Nada exterior pode substituir a profundidade de uma presença verdadeiramente acolhida.
Os olhos contemplam mais profundamente quando o coração permanece unido àquilo que vê.
A sabedoria se abre quando a interioridade abandona a agitação e permanece diante do essencial.
O que é eterno não se afasta do instante, mas nele se manifesta como presença e plenitude.
Assim, o ser encontra em Deus a realização de sua origem e a permanência de sua verdade.
Versículo mais importante:
Proclamatio Sancti Evangelii secundum Lucam X, XVII-XXIV
XX. Verumtamen in hoc nolite gaudere quia spiritus vobis subiciuntur, gaudete autem quod nomina vestra scripta sunt in caelis. (Lucam 10,20)
Contudo, não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós, mas alegrai-vos porque vossos nomes estão inscritos nos céus. (Lucas 10,20)
A verdadeira alegria nasce quando o ser reconhece que sua realização mais profunda não está naquilo que passa, mas na presença de Deus que o acolhe desde sua origem.
Os discípulos retornam alegres. Há neles a surpresa de quem experimentou algo que ultrapassou suas próprias forças. O nome de Jesus tornou-se eficaz em suas ações, e aquilo que parecia resistir à sua presença perdeu sua força. Eles voltam trazendo a experiência do que aconteceu por meio deles.
Jesus recebe essa alegria e a conduz para uma profundidade que os discípulos ainda não haviam alcançado. Ele não permite que permaneçam fixados naquilo que realizaram. A experiência exterior precisa encontrar sua verdade no interior. O acontecimento que os alegrou não constitui a razão última de sua alegria.
Por isso, Cristo lhes revela uma realidade mais profunda. Os nomes deles estão escritos nos céus. A alegria verdadeira não nasce primeiramente do que o ser consegue realizar, mas daquilo que ele é diante de Deus. Antes de qualquer obra, existe uma relação. Antes de qualquer resultado, existe uma pertença. Antes de qualquer manifestação exterior, existe uma origem que sustenta o ser.
Essa palavra modifica o modo de compreender a própria existência. A pessoa pode passar pela vida procurando confirmar seu valor naquilo que consegue fazer, alcançar ou transformar. Pode reunir realizações e, mesmo assim, permanecer interiormente distante de sua verdade. Cristo conduz o olhar para outro lugar. O essencial não está naquilo que se acrescenta ao ser, mas naquilo que nele permanece quando tudo o que é exterior deixa de sustentá-lo.
A maturação começa quando essa verdade deixa de ser apenas compreendida e passa a penetrar a interioridade. Então a pessoa já não recebe cada acontecimento como medida absoluta de si mesma. O que acontece possui importância, mas não determina inteiramente quem ela é. O instante passa a ser acolhido dentro de uma realidade mais profunda, na qual o ser pode reconhecer sua origem e ordenar sua vida a partir dela.
É também nesse amadurecimento que nasce a responsabilidade interior. Aquilo que foi recebido não pode permanecer exterior ao ser. A verdade exige acolhimento, discernimento e transformação. Cada pessoa precisa responder interiormente ao que reconhece, porque nenhuma verdade recebida se realiza plenamente enquanto não alcança o modo de viver.
A presença de Cristo não elimina essa responsabilidade. Ela a torna mais profunda. Quanto mais a pessoa percebe que sua existência possui uma origem em Deus, mais compreende que suas escolhas não são acontecimentos isolados. Cada decisão participa da formação do próprio ser. O interior vai adquirindo uma direção, e aquilo que antes estava disperso começa lentamente a reunir-se.
Essa transformação alcança também a família, porque a família é um dos primeiros lugares onde o ser aprende a receber, permanecer, responder e amadurecer. Sua dignidade não depende apenas dos vínculos exteriores, mas da profundidade com que cada pessoa é acolhida em sua realidade própria. Quando essa dimensão é compreendida, o cuidado deixa de ser apenas uma obrigação e torna-se expressão de uma verdade interior.
O ser amadurece quando deixa de viver somente a partir do que recebe do exterior e começa a responder desde aquilo que reconhece no mais profundo de si. Não se trata de isolamento, mas de unidade interior. A pessoa se torna responsável por aquilo que permite entrar em sua interioridade, por aquilo que conserva e por aquilo que transforma.
O Evangelho mostra então uma passagem silenciosa. Os discípulos começam celebrando aquilo que conseguiram realizar e terminam sendo conduzidos àquilo que são diante de Deus. A alegria exterior é acolhida, purificada e elevada. Cristo os faz perceber que existe uma realidade mais profunda do que o poder experimentado por suas mãos.
Também nós precisamos aprender essa passagem. Há momentos em que nossa atenção permanece presa ao que conseguimos realizar, ao que alcançamos ou ao que se manifesta diante de nossos olhos. Mas existe uma profundidade na qual essas coisas deixam de ocupar o centro. Ali, o ser encontra aquilo que não depende da mudança das circunstâncias.
O instante possui essa profundidade porque não precisa ser separado daquilo que permanece. Quando vivido diante de Deus, ele pode tornar-se interiormente fecundo. Nele, aquilo que somos recebe a possibilidade de amadurecer. O que estava apenas começando a ser compreendido pode tornar-se consciência. O que era apenas desejo pode adquirir forma. O que estava disperso pode encontrar unidade.
É nessa unidade que a pessoa começa a reconhecer sua origem. Não como algo distante, perdido em um passado que já não alcança o presente, mas como aquilo que sustenta o próprio ser em cada momento de sua realização. A origem permanece presente porque o ser continua recebendo dela aquilo que o constitui.
Por isso, a palavra de Cristo sobre os nomes escritos nos céus possui uma profundidade que ultrapassa a imagem de uma recompensa futura. Ela revela que a pessoa possui diante de Deus uma verdade que não depende daquilo que consegue demonstrar. Seu ser é conhecido em sua raiz. Sua existência é acolhida em sua origem. Sua realização não começa quando alcança algo exterior, mas quando permite que aquilo que recebeu de Deus se torne verdade em sua interioridade.
Os pequeninos, então, compreendem aquilo que os sábios e prudentes podem deixar escapar. Não porque lhes falte conhecimento, mas porque existe uma forma de conhecer que nasce da receptividade interior. Aquele que se dispõe a receber pode perceber aquilo que não se entrega ao excesso de domínio. A verdade torna-se presença quando encontra uma interioridade capaz de acolhê-la.
Cristo exulta no Espírito e volta o olhar para o Pai. Tudo converge para essa relação. O Filho conhece o Pai e revela o Pai àquele que recebe sua Palavra. A origem não permanece escondida como uma ideia distante. Ela se comunica como presença e alcança o interior daquele que se abre para recebê-la.
Assim, a alegria cristã não é simplesmente a alegria de ter conseguido alguma coisa. É a alegria de reconhecer que a própria existência possui uma origem, uma verdade e uma direção em Deus. Quando essa consciência amadurece, aquilo que acontece no instante já não é vivido como algo isolado. Cada momento pode participar da realização do ser.
O Evangelho nos conduz, portanto, daquilo que fazemos àquilo que somos, daquilo que vemos àquilo que sustenta nosso olhar, daquilo que passa àquilo que permanece. E, nesse movimento interior, a presença de Cristo reúne o ser em sua origem e o conduz silenciosamente à plenitude para a qual foi criado.
TEOLOGIA
Explicação Teológica
A alegria que encontra sua verdade em Deus
«Gaudete autem, quod nomina vestra scripta sunt in cælis» constitui o centro espiritual da resposta de Jesus aos discípulos. Eles retornam alegres porque experimentaram a eficácia de sua missão, mas Cristo os conduz para uma alegria que não depende daquilo que aconteceu por meio deles. A obra realizada é verdadeira, mas não constitui o fundamento último de sua identidade.
O Senhor não retira valor daquilo que os discípulos realizaram. Ele revela de onde procede seu verdadeiro significado. A missão somente pode ser compreendida porque existe uma relação anterior entre o discípulo, Cristo e o Pai. Antes de existir a obra, existe o chamado. Antes de existir o resultado, existe a graça. Antes de aquilo que o discípulo realiza tornar-se visível, existe uma realidade interior na qual sua existência já está diante de Deus.
O nome escrito nos céus
Na linguagem bíblica, o nome alcança a realidade da própria pessoa. Quando Jesus afirma que os nomes dos discípulos estão escritos nos céus, não está apenas prometendo uma recompensa futura. Ele revela que a pessoa possui diante de Deus uma identidade que não depende das circunstâncias mutáveis de sua existência.
O nome inscrito diante de Deus exprime uma relação de pertença. O ser humano não permanece diante do Criador como uma realidade anônima ou indiferente. Deus conhece a pessoa em sua singularidade. A existência humana possui uma referência que ultrapassa aquilo que ela consegue manifestar exteriormente.
Por isso, a palavra de Cristo desloca o centro da alegria. O discípulo pode realizar muitas coisas e, ainda assim, não compreender plenamente quem é. Pode experimentar a eficácia de sua ação e permanecer distante da profundidade de sua própria existência. Cristo conduz o olhar para aquilo que não nasce do desempenho, mas da relação com Deus.
A graça que torna possível a resposta
A missão dos setenta e dois manifesta a precedência da graça. Eles agem, mas não são a origem absoluta daquilo que acontece. Recebem uma autoridade e respondem a um envio. A ação humana encontra sua verdade quando permanece vinculada ao dom recebido.
Essa relação entre graça e resposta é essencial para a compreensão cristã da pessoa. A graça não transforma o ser humano em instrumento sem interioridade. Ao contrário, alcança sua interioridade e desperta nele uma resposta consciente. O dom recebido solicita amadurecimento. Aquilo que Deus concede precisa encontrar no ser humano uma acolhida capaz de transformar sua maneira de existir.
Assim, a responsabilidade pessoal não aparece como algo separado da ação divina. Quanto mais profundamente a pessoa reconhece o que recebeu, mais profundamente é chamada a responder. A graça não diminui a responsabilidade. Ela lhe dá fundamento.
Cristo revela o Pai
A passagem alcança seu centro mais profundo quando Jesus se volta ao Pai. «Confiteor tibi, Pater, Domine cæli et terræ» revela que toda a experiência dos discípulos deve ser compreendida a partir da relação entre o Filho e o Pai. O que eles viveram não pode ser separado daquele que os enviou.
Cristo não é simplesmente um mestre que transmite ensinamentos sobre Deus. Ele é o Filho que conhece o Pai e revela o Pai. Por isso, o conhecimento verdadeiro de Deus não nasce apenas de uma investigação humana. Ele é recebido na relação com Cristo.
Quando Jesus afirma que o Pai revelou essas coisas aos pequeninos, revela também uma disposição necessária para acolher a verdade. O pequenino não é aquele que carece de inteligência, mas aquele que não pretende reduzir a verdade àquilo que consegue dominar. Ele recebe. Permite que a Palavra o alcance. Reconhece que aquilo que é essencial não precisa ser produzido por ele para ser verdadeiro em sua vida.
A Palavra que alcança a interioridade
A revelação recebida não permanece exterior ao ser. A Palavra de Cristo alcança a interioridade e, quando acolhida, começa a ordenar aquilo que estava disperso. O conhecimento de Deus torna-se progressivamente uma transformação do próprio modo de existir.
É nesse ponto que a passagem ultrapassa uma compreensão puramente exterior da fé. Não basta saber o que Cristo disse. É necessário permitir que sua Palavra alcance aquilo que somos. A verdade recebida precisa tornar-se interiormente viva. Ela passa do entendimento para a existência, da escuta para a transformação, da percepção para a realização.
Esse processo possui uma maturação própria. O ser não se transforma plenamente por um único ato exterior. A graça recebida vai encontrando espaço na interioridade, e aquilo que foi acolhido começa a adquirir forma na maneira de pensar, escolher, permanecer e agir.
O instante diante da presença
A experiência dos discípulos acontece em um momento concreto de suas vidas. Eles retornam, falam com Jesus, escutam sua resposta e contemplam sua oração ao Pai. Entretanto, aquilo que acontece nesse instante possui uma profundidade que ultrapassa o próprio momento.
A presença de Cristo permite que o instante seja vivido em relação com aquilo que permanece. O momento não é fechado sobre si mesmo. Ele pode tornar-se lugar de encontro entre aquilo que a pessoa vive e aquilo que Deus realiza nela. Assim, a existência não precisa esperar uma realidade futura para encontrar sentido. O sentido pode começar a manifestar-se no próprio ato de acolher a presença divina.
Isso não significa confundir o instante humano com a eternidade divina. Deus permanece infinitamente acima da criatura. Mas sua presença pode alcançar o instante sem deixar de ser transcendente. É justamente essa presença que permite ao ser humano viver cada momento não como algo isolado, mas como parte de uma realização que possui sua origem em Deus.
A pessoa em processo de amadurecimento
A palavra de Cristo também ilumina a maturação da pessoa. O discípulo que retorna da missão não é exatamente o mesmo que partiu. Ele passou por uma experiência que ampliou sua compreensão, mas ainda precisa compreender o sentido mais profundo daquilo que viveu. A própria alegria precisa amadurecer.
Esse amadurecimento acontece quando a pessoa deixa de tomar aquilo que realiza como medida absoluta de seu ser. Ela começa a reconhecer que existe uma verdade mais profunda do que seus resultados. Aprende a receber a própria existência como dom e, ao mesmo tempo, assume a responsabilidade de conduzi-la.
A autodeterminação interior nasce dessa integração. A pessoa não é determinada simplesmente pelos acontecimentos que atravessa. Ela responde interiormente ao que recebe. Pode acolher, discernir, ordenar e transformar sua experiência. Seu ser amadurece quando suas escolhas começam a corresponder à verdade que reconheceu.
A dignidade da pessoa e da família
A afirmação de Cristo sobre os nomes escritos nos céus possui também uma consequência profunda para a compreensão da pessoa. Cada ser humano possui uma dignidade que não depende de sua utilidade, de seus resultados ou de sua posição. Sua existência está diante de Deus antes de qualquer realização exterior.
Essa verdade alcança a família de maneira particular. A família torna-se mais profundamente compreendida quando cada pessoa é reconhecida em sua dignidade própria. O outro não é apenas aquele que pertence ao mesmo vínculo, mas aquele cuja existência possui diante de Deus uma origem e um destino que não podem ser reduzidos às necessidades ou expectativas dos demais.
A família pode tornar-se, assim, espaço de amadurecimento da pessoa. Nela, o ser aprende a receber e a responder, a cuidar e a permanecer, a reconhecer no outro uma realidade que não lhe pertence, mas que lhe foi confiada no vínculo do amor.
A plenitude que Cristo revela
Os últimos versículos elevam ainda mais a passagem. Jesus declara felizes os olhos que contemplam aquilo que os discípulos contemplam. O que muitos profetas e reis desejaram ver agora está diante deles. A plenitude não aparece como uma ideia, mas como uma presença.
Cristo é aquele em quem o que estava aguardado se torna próximo. Por isso, a contemplação cristã não consiste em procurar uma realidade distante da existência. Consiste em reconhecer a presença daquele que revela o Pai e, nessa presença, permitir que a própria existência seja transformada.
A passagem inteira conduz a uma única profundidade. Os discípulos precisam passar da alegria pelo que realizaram à alegria pelo que são diante de Deus. Precisam passar da experiência exterior à compreensão interior. Precisam descobrir que a graça recebida não termina na ação realizada, mas conduz o ser à sua verdade.
É nessa verdade que a existência encontra sua origem e começa a caminhar para sua plenitude. O nome inscrito nos céus revela que a pessoa possui diante de Deus uma realidade que não desaparece quando cessam suas obras. E, quando essa realidade é acolhida no interior, cada instante pode tornar-se lugar de amadurecimento, presença e realização do ser em Cristo.
FILOSOFIA
A realidade que amadurece na presença
[Lucas 10,17-24]
A passagem de Lucas 10,17-24 começa com o retorno dos setenta e dois discípulos. Eles voltam alegres porque experimentaram, na ação, uma realidade que os ultrapassava. Aquilo que receberam tornou-se manifestação. A palavra anunciada produziu efeitos, a presença de Cristo tornou-se operante por meio deles e aquilo que permanecia invisível começou a adquirir expressão no mundo. Contudo, Jesus conduz essa experiência para uma profundidade maior. A manifestação exterior não constitui a origem última daquilo que aconteceu.
Quando o Senhor lhes diz para não fundamentarem sua alegria no poder que experimentaram, mas no fato de seus nomes estarem escritos nos céus, Ele desloca a compreensão da existência para uma realidade anterior à própria manifestação. O que aparece não é o princípio absoluto do ser. Há uma dimensão mais profunda na qual a pessoa já se encontra acolhida, conhecida e relacionada com Deus antes que suas obras possam revelar exteriormente aquilo que recebeu.
Aquilo que precede a manifestação
A palavra de Cristo permite contemplar a existência a partir de sua origem. O discípulo manifesta algo que não produziu por si mesmo. Sua ação possui uma causa anterior, uma fonte que a sustenta e uma presença que permanece operante antes que qualquer resultado possa ser percebido. A manifestação, portanto, não começa no instante em que se torna visível. Ela possui uma preparação silenciosa naquilo que a precede.
Esse princípio alcança a própria realidade do ser. Aquilo que chega à manifestação traz consigo uma história interior que não pode ser inteiramente percebida pela aparência exterior. Antes que uma forma se apresente, existe uma profundidade na qual sua possibilidade já está sendo acolhida e conduzida à realização. A existência manifesta-se quando aquilo que estava em processo de geração alcança uma forma capaz de aparecer.
O silêncio, nesse movimento, não significa ausência. Ele corresponde à dimensão na qual a realidade permanece reunida em sua origem enquanto adquire consistência. O que não se mostra não está necessariamente imóvel. Pode estar recebendo interiormente aquilo de que necessita para tornar-se plenamente aquilo que é chamado a ser.
O nome e a origem do ser
É nessa profundidade que ganha força a palavra de Jesus sobre os nomes escritos nos céus. O nome não designa apenas uma identificação. Ele exprime a singularidade de uma existência diante de Deus. O discípulo descobre que sua realidade mais profunda não depende daquilo que consegue produzir, porque sua existência possui uma referência que a precede e a sustenta.
O céu, nessa palavra de Cristo, não aparece apenas como uma realidade distante situada depois da vida presente. Ele manifesta a origem superior na qual o ser encontra sua verdade. O nome inscrito diante de Deus revela que a pessoa possui uma relação originária com aquele de quem recebe o próprio existir.
Assim, aquilo que acontece no instante da missão encontra sua raiz em uma realidade que não começou naquele momento. O discípulo age dentro de uma presença que já o envolvia. A ação torna visível algo cuja origem permanecia mais profunda do que a própria ação.
A presença que gera
Quando Jesus se volta ao Pai e proclama sua ação de graças, a passagem alcança o centro de sua profundidade. «Confiteor tibi, Pater, Domine caeli et terrae» revela que tudo aquilo que os discípulos experimentaram está inserido na relação entre o Filho e o Pai. A manifestação não pode ser compreendida isoladamente de sua fonte.
O Pai é apresentado por Cristo como aquele que revela. Há, portanto, uma precedência daquilo que é recebido sobre aquilo que pode ser conhecido por esforço próprio. A verdade não nasce da criatura como produção autônoma. Ela chega à criatura, é acolhida e, ao ser acolhida, começa a gerar nela uma compreensão nova da própria existência.
Essa geração acontece no interior. A verdade recebida não permanece simplesmente diante da pessoa como um objeto de conhecimento. Quando encontra acolhimento, começa a transformar aquele que a recebe. O que foi revelado passa a participar da formação interior do ser. A presença divina não apenas informa. Ela gera uma possibilidade nova de existência.
O instante e aquilo que permanece
Os discípulos estão diante de Jesus em um momento determinado. Há uma sequência de acontecimentos, uma missão que começou, uma experiência que terminou e um retorno que acontece. Tudo isso pertence à sucessão dos momentos. Entretanto, a palavra de Cristo abre dentro desse instante uma profundidade que não pode ser medida pela duração cronológica do acontecimento.
O instante torna-se profundo quando nele se encontra aquilo que permanece. A presença de Deus não precisa interromper a sucessão temporal para alcançar a criatura. Ela pode penetrar o momento e conferir-lhe uma dimensão que ultrapassa sua duração. O que é eterno não precisa deixar de ser eterno para tocar aquilo que passa.
É justamente nessa relação que a existência adquire outra profundidade. O momento vivido deixa de ser apenas uma passagem entre acontecimentos. Ele pode tornar-se lugar de realização de algo que possui uma origem mais profunda do que o próprio momento. O instante recebe sua densidade da presença que nele se manifesta.
A maturação invisível
A passagem também permite compreender que a realização exterior não coincide necessariamente com a maturação do ser. Os discípulos já haviam experimentado a força da missão, mas ainda precisavam compreender o significado mais profundo daquilo que viveram. A manifestação havia acontecido. A compreensão interior continuava em formação.
Existe, portanto, uma diferença entre aquilo que aparece e aquilo que amadurece. Uma realidade pode manifestar-se antes de ter alcançado toda a profundidade de sua compreensão. O acontecimento exterior pode ser imediato, enquanto sua assimilação interior exige uma formação silenciosa. O ser recebe primeiro aquilo que depois deverá integrar.
A maturação não acrescenta simplesmente algo exterior ao ser. Ela permite que aquilo que foi recebido encontre unidade interior e alcance sua forma própria. O que estava presente como possibilidade começa a tornar-se realidade assumida. A manifestação exterior encontra sua plenitude quando aquilo que aparece corresponde cada vez mais profundamente àquilo que foi gerado em sua origem.
O ser entre origem e plenitude
A existência humana encontra-se, assim, entre uma origem que a sustenta e uma plenitude para a qual se dirige. O ser não é apenas aquilo que já apareceu. Existe nele uma profundidade que continua aberta à realização. Sua origem não permanece atrás como algo encerrado. Ela permanece presente como princípio que sustenta seu movimento.
Essa relação modifica a compreensão da própria caminhada espiritual. O amadurecimento não consiste em afastar-se da origem para tornar-se outra coisa, mas em permitir que aquilo que foi recebido na origem alcance progressivamente sua manifestação mais verdadeira. A plenitude não rompe com o princípio. Ela o revela em sua realização.
Em Cristo, essa relação alcança sua expressão mais alta. Ele não apenas fala da origem e da plenitude. Ele revela o Pai e conduz a criatura à compreensão de sua própria existência diante daquele de quem procede. Por isso, a passagem não conduz simplesmente os discípulos a uma experiência religiosa mais intensa. Ela os conduz a uma compreensão mais profunda do ser.
O que o instante recebe
Quando Jesus declara felizes os olhos que veem aquilo que eles veem, revela que a presença pode conter em um único momento uma profundidade que atravessa toda a expectativa anterior. Reis e profetas desejaram contemplar aquilo que agora se encontra diante dos discípulos. O que foi aguardado durante a sucessão dos tempos manifesta-se no presente sem deixar de possuir uma profundidade que ultrapassa o próprio presente.
O instante, então, não é vazio entre um passado que terminou e um futuro que ainda não chegou. Ele pode acolher uma realidade cuja origem não está submetida à sucessão e cuja manifestação acontece dentro dela. O presente torna-se fecundo quando aquilo que é recebido nele começa a transformar interiormente o ser.
É nesse movimento que a existência encontra sua unidade mais profunda. A origem sustenta, a presença acolhe, o silêncio gera, a maturação prepara e a manifestação revela. Nada disso acontece como realidade isolada. Cada dimensão conduz à outra até que aquilo que foi recebido encontre sua forma e alcance sua plenitude.
Lucas 10,17-24 revela, portanto, muito mais do que a correção da alegria dos discípulos. A passagem mostra uma ordem profunda da existência. O que se manifesta possui uma origem. O que é recebido precisa ser acolhido. O que foi acolhido amadurece no interior. O que amadurece pode manifestar-se. E aquilo que se manifesta encontra sua verdade quando permanece unido à fonte de onde recebeu o ser.
A palavra de Cristo conduz o discípulo até esse fundamento. Sua alegria já não depende apenas daquilo que aconteceu por meio dele, porque ele começa a reconhecer aquilo que o precede e o sustenta. Seu nome está diante de Deus. Sua existência encontra-se acolhida em uma presença que não começa com sua ação nem termina com ela. E, nesse reconhecimento, o instante deixa de ser apenas passagem. Torna-se lugar de uma realização que, embora se manifeste no tempo, possui sua raiz naquilo que permanece.
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